Capitulo 21
O corredor do setor executivo estava silencioso demais para uma segunda-feira. Não o silêncio comum de escritório.
Era outro tipo. Mais pesado. Mais atento. Marcelo caminhava devagar, ainda pensando em tudo o que ficou sabendo sobre a Operação Algoritmo. O celular vibrava no bolso desde cedo — notificações sobre a prisão de Jadir, especulações da imprensa, nomes circulando em fóruns políticos, assessores desaparecendo dos gabinetes.
E o nome de Eduardo… ainda aparecendo em tudo. Aquilo não era coincidência. Era reação em cadeia.
Quando parou diante da sala de Elias, respirou fundo uma única vez.
Duas batidas.
— Entre.
A voz veio calma demais. Marcelo abriu a porta.
Elias estava sozinho. Impecável como sempre. Gravata alinhada. Mangas ajustadas. Uma xícara de café intocada ao lado do notebook. Como se o mundo não estivesse ruindo. Como se prisões, mortes e investigações fossem só detalhes administrativos.
— Marcelo.
Um sorriso discreto.
— Não esperava sua visita.
Marcelo entrou e fechou a porta atrás de si.
— Imagino.
Elias apoiou-se na cadeira, estudando-o.
— Algum problema?
Marcelo sustentou o olhar.
— Jadir foi preso.
— Vi nos noticiários.
— Só isso?
Pela primeira vez, um pequeno silêncio surgiu.
Elias cruzou as mãos sobre a mesa.
— O que exatamente você espera que eu diga?
Marcelo aproximou-se.
— Que talvez esteja preocupado.
Pausa.
— Ou que tenha alguma ideia de quem pode ser o próximo.
O sorriso de Elias não desapareceu.
Mas os olhos… endureceram.
— Você está nervoso, Marcelo.
— E você não?
— Não quando não fiz nada que possa me preocupar.
Aquilo deveria ter tranquilizado, mas fez exatamente o contrário. Marcelo inclinou o corpo para frente.
Baixo.
Direto.
— Alguns nomes ligados ao partido ainda não apareceram.
Silêncio.
— Assessores. Coligados. Gente que movimentava dinheiro demais para não saber de nada.
Elias não respondeu de imediato.
Apenas girou lentamente a caneta entre os dedos.
— Política sempre encontra alguém para sacrificar.
Marcelo congelou por um segundo, aquela frase não era defesa e sim experiência.
— E Amanda?
A pergunta saiu antes que ele pensasse.
Dessa vez… Elias demorou um pouco mais. Muito pouco, ms Marcelo percebeu.
Elias recostou-se.
— Amanda está emocionalmente envolvida demais.
Pausa.
— E pessoas emocionalmente envolvidas costumam colaborar além do necessário.
Silêncio.
Um silêncio errado.
Marcelo não respondeu.
Mas naquele instante, algo dentro dele encaixou, aquilo não parecia preocupação institucional. Parecia… medo.
Elias inclinou levemente a cabeça.
— Alguma outra pergunta?
Marcelo deu um passo para trás.
— Por enquanto… não.
Quando saiu da sala, sentiu algo gelado descendo pela nuca, não era pela investigação e nem pela prisão de Jadir, mas pela sensação de que Elias não estava tentando se defender.
Estava tentando calcular… quem precisaria cair antes.
A imagem negativa de todo o escândalo ainda não havia se dissipado após uma semana da mídia sensacionalista inflando o terror entre os telespectadores. Os telões, as manchetes, em todo lugar o nome de Eduardo ecoando como um erro impossível de corrigir.
Dentro da sede do Grupo Bastos, o efeito não foi imediato, foi progressivo. Como pressão acumulando sob a superfície. Os corredores, antes organizados por rotina e previsibilidade, agora vibravam com um ruído constante — conversas interrompidas, olhares desviados, telas abertas rápido demais quando alguém passava. Nada era dito em voz alta.
Amanda atravessou aquele ambiente como quem caminha dentro de um espaço que já não reconhece totalmente.
A conversa do dia anterior com Fernanda ainda ecoava dentro dela.
— "Ele fazia parte." — Amanda quase podia ouvir a ironia seca de Fernanda dizendo para não confiar em ninguém.
Esta pequena frase não havia ido embora da sua mente, ela estava guardada em um lugar profundo e parece que nos momentos mais desafiadores ela voltava com força.
Por um segundo, sua mão hesitou na maçaneta, não por medo da reunião, mas porque, pela primeira vez, ela pisaria naquela sala sem a proteção da ignorância. A porta da sala de reuniões se abriu. A sala de vidro ficava no último andar do prédio e refletia tudo o que estava acontecendo, literalmente. O céu acinzentado. A cidade inquieta. E, dentro dela, rostos que carregavam mais do que funções. Carregavam decisões, omissões e consequências.
A mesa longa parecia ainda maior naquele dia, era como se exigisse distância ou como se impedisse proximidade. Ou talvez, como se obrigasse cada um ali a encarar o próprio reflexo.
Todos os membros da equipe do comitê de crises já estavam posicionados, entre eles Marcelo, que andava mais quieto e atento.
Quando Amanda entrou, não houve anúncio. Mas houve uma sutil mudança de comportamento, aos poucos ela estava conseguindo recuperar o respeito e admiração entre os funcionários.
Ela não hesitou, caminhou até a cabeceira, sentou. E, por um segundo não falou. Deixou o silêncio fazer o que precisava.
— Bom dia a todos. Vamos começar.
A voz saiu firme, mas agora, havia algo além do controle, havia… decisão.
Ela percorreu os rostos sem pressa, sem suavizar.
— Eu acredito que todos aqui já viram o que está acontecendo lá fora.
Ninguém respondeu.
— E acredito também… que muitos aqui já entenderam que isso não é mais uma crise de imagem.
Pausa.
— É uma crise de verdade.
O peso da palavra se instalou.
— O nome da empresa está sendo vinculado a manipulação. A interferência e a distorção de dados.
Cada frase conectava diretamente ao que todos tinham assistido nos noticiários. Ao que ainda ecoava na internet.
— E o nome do Eduardo… — ela parou por um segundo — deixou de ser apenas uma vítima.
Silêncio absoluto.
— Ele fazia parte disso e levou o nome do Grupo Bastos para a lama.
Um silêncio se instalou. Não coletivo… direcionado. Por um instante quase imperceptível, Elias não olhou para Amanda. Olhou para a mesa como se estivesse recalculando.
Marcelo fechou os olhos por um instante.
Elias tentou intervir.
— Amanda, esse tipo de conclusão exige cuidado. — disse Elias, com calma técnica — Estamos lidando com informações sensíveis. Interpretações precipitadas podem comprometer… muita coisa.
Ela levantou a mão, calma, mas inquestionável.
— Eu sei exatamente o que existe.
Pausa.
— E sei exatamente o que foi feito dentro dessa empresa.
Elias travou a mandíbula por um segundo, mas tentou se recuperar e manter a expressão neutra, mas não foi natural, foi controlada demais. Como alguém que precisava pensar antes de reagir… rápido demais para parecer espontâneo.
Agora, não havia mais espaço para negação confortável. Amanda se inclinou levemente para frente.
— Dados foram manipulados, contratos foram moldados para favorecer terceiros e o pior, decisões foram tomadas… conscientemente.
Ela não levantou a voz.
— E isso não é percepção. É fato.
Gomes, o responsável por Tecnologia desviou o olhar, o mesmo aconteceu com os demais representantes. O silêncio deixou de ser institucional e se tornou… pessoal.
Amanda recostou-se.
— Eu não convoquei esse comitê para proteger a empresa.
Ela solta um suspiro, e muda o tom da fala de forma mais incisiva.
— Eu convoquei para reconstruir.
— A partir de agora, esse comitê opera sob três pilares.
— Transparência total, auditoria irrestrita e colaboração integral com as autoridades.
Reações imediatas.
— Isso pode agravar a exposição — disse alguém.
Amanda respondeu sem hesitar:
— A exposição já aconteceu.
Pausa.
— Agora… a gente decide se vai continuar escondendo ou se vai sobreviver.
Marcelo falou então.
— E os envolvidos?
Amanda virou o olhar para ele.
— Serão identificados.
Pausa.
— E responsabilizados, independente de quem sejam.
O recado estava dado para todos, sem exceções. Então Amanda mudou o tom, tornando -o mais baixo e direto.
— Eu sei que muitos aqui sabiam.
O ar dentro da sala mudou, muito mais tenso.
— E escolheram não ver.
— Eu não estou aqui para julgar o passado.
Pausa.
— Mas estou aqui para garantir que ele não se repita.
Ela se levantou devagar, mas com intenção.
— Esse comitê não é simbólico.
Olhou ao redor.
— É um ponto de ruptura e quem não estiver disposto a atravessar isso comigo… pode sair.
Ninguém se moveu. E, naquele instante, Amanda entendeu que o colapso e a reviravolta já tinham acontecido.
— Ótimo — disse, retomando. — Então vamos trabalhar.
Amanda saiu da reunião acreditando estar retomando o controle da empresa, porém o que ela ainda não sabia… era que alguém, dentro daquela empresa, já tinha começado a desmontá-lo.
A notícia da prisão de Jadir continuava dominando a internet quando Elias recebeu uma mensagem.
Ele leu uma vez, depois outra.
Não reagiu de imediato. O nome não estava completo, mas também não precisava estar.
Elias Vargas da Silva não era um homem que cometia erros. Porque, na construção que fazia de si mesmo, erro não era uma possibilidade — era uma falha dos outros. Ele operava em outra lógica, mais controlada, calculada e meticulosa. Desde cedo, aprendeu a moldar narrativas, não apenas no discurso jurídico, mas na vida. Pessoas, contratos, situações… tudo podia ser reorganizado até servir ao resultado que desejava, e ele desejava sempre o mesmo: vantagem.
Narcisista não no excesso evidente, mas na convicção silenciosa de superioridade. Elias não precisava ser o mais carismático da sala. Precisava ser o mais indispensável, o homem que sabia demais, que resolvia demais. O homem que… nunca era questionado até ser tarde demais. Ganancioso, mas não impulsivo, sua ambição era paciente. Ele arquitetava. Criava caminhos onde o dinheiro simplesmente fluía e quando isso acontecia, já não havia mais como rastrear sem desmontar todo o sistema. Metodista, cada movimento tinha intenção e cada silêncio, um cálculo. Elias não reagia ao caos, ele o antecipava ou pelo menos era no que acreditava. Se tinha uma coisa que ele não tolerava era a perda de controle sobre as situações e agora, ele estava perdendo.
A operação avançava. As escutas fechavam o cerco. As conexões começavam a se tornar visíveis demais.
E, pior…
Amanda não tinha recuado, pelo contrário, aquilo… não estava no cálculo inicial.
Ele não tentou negar os fatos, muito menos tentou negociar. Porque, para ele, admitir fragilidade era mais perigoso do que qualquer acusação.
Até então, Amanda era um fator administrável e agora… começava a sair do controle.
Tomou uma decisão, fria, lógica e profundamente distorcida.
— Organize tudo, já está na hora de agir — disse ao telefone, em tom baixo.
— Quero resolver esta semana.
Pausa.
— Antes que isso… cresça mais do que deveria.
Elias desligou o telefone.
Nem precisou chamar.
Três segundos depois, duas batidas suaves soaram na porta.
— Entre.
Carla entrou.
Perfume doce demais para aquele ambiente e com um sorriso ensaiado demais para parecer natural.
Ela fechou a porta com cuidado.
— Você me chamou?
Elias não respondeu de imediato.
Observou-a.
Calculando.
— Amanda convocou auditoria externa.
Carla sorriu de canto.
— Já imaginei que faria isso.
Elias inclinou a cabeça.
— E você me contou antes mesmo dela formalizar.
Os olhos de Carla brilharam.
Aproximou-se.
— Eu disse que podia ser útil.
Elias segurou delicadamente seu pulso. O coração dela disparou, mas o olhar dele…
Não carregava afeto, somente cálculo.
— Você é.
Carla quase sorriu.
Quase.
— O que eu faço agora?
Elias soltou seu pulso devagar.
— Continua perto dela.
Pausa.
— Quero agenda, ligações, reuniões… e qualquer contato com a polícia.
Carla assentiu.
Mas antes de sair, hesitou.
— E depois disso?
Silêncio.
Elias ergueu os olhos.
Frios.
Distantes.
— Depois… eu cuido de você.
Ela sorriu.
Sem perceber que aquilo… não era uma promessa.
Fim do capítulo
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