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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1832
Acessos: 197   |  Postado em: 08/05/2026

Capitulo 20

 

Em menos de oito horas, o caso já dominava todos os noticiários.

— “Operação Algoritmo revela esquema de manipulação eleitoral…”

— “Partido da Ordem Nacional e empresário do setor de tecnologia podem estar envolvidos…”

— “Influência direta sobre comportamento do eleitor…”

O nome de Eduardo Bastos voltou à tona, ele era mencionado em alguns documentos apreendidos pela polícia, desta forma ele não estava mais sendo considerado vítima e sim como peça-chave deste quebra-cabeça.

Telões acesos em aeroportos, salas de espera, escritórios envidraçados, nas Tvs de estabelecimentos comerciais e residenciais além dos dispositivos móveis, traziam rostos conhecidos do meio político. Âncoras de televisão com vozes firmes, gráficos do mercado financeiro subindo e despencando como ondas descontroladas. O nome aparecia em letras frias, repetido até perder o peso — e, ainda assim, se tornar impossível de ignorar:

Jadir Bonoro.

Operação Algoritmo.

Grupo Bastos.

E então…

Eduardo Bastos.

Como uma estrutura de vidro sendo atravessada por uma fissura invisível. Começou primeiro, com um trincar silencioso, depois, a propagação inevitável e, por fim o colapso que ninguém admite ter visto chegar. No meio político, o efeito foi imediato, hora era os aliados do partido negando envolvimento, outra a oposição explorando toda a história e principalmente um movimento coordenado de contenção.

— Isso não pode crescer mais — disse um comentarista na televisão. — Se outros nomes aparecerem, o impacto institucional pode ser devastador.

Para Amanda a emoção veio depois do impacto inicial, ela sentiu primeiro como um aperto contido, não pelo escândalo, mas pelo nome de Eduardo sendo repetido, dissecado e reduzido a manchetes. Ela se perguntava, como alguém poderia ter mudado tanto ao longo do tempo?

Já Fernanda sentiu como um alinhamento frio, como quando peças finalmente se encaixam…, mas revelam uma figura mais sombria do que o esperado, nada ali era surpresa completa para ela, mas sim uma escala de consequências e fatos que ainda estavam por ser descobertos com toda esta trama ainda maior.

A empresa do Grupo Bastos, agora não era apenas um legado, era evidência. O impacto das notícias foi brutal, as ações estavam em queda, muitos investidores pressionando e as reuniões eram constantes, mas Amanda não recuou, montou um Comitê de Gestão de Crise e Integridade Multidisciplinar. Convocou diversos setores da empresa para auxiliá-la na tomada de decisões. Setores jurídico, de compliance, financeiro, da tecnologia, comunicação e RH estavam operando em vigília direta para os próximos passos a serem dados.

— Transparência total — disse, firme, em uma coletiva. — Tudo será auditado e divulgado conforme a lei.

Perguntas vieram dos repórteres, muitas era agressivas e diretas.

— A senhora sabia do envolvimento do seu marido?

Amanda sustentou o olhar.

— Não.

— E como pode garantir isso?

— Porque, se soubesse, teria impedido.

Entre os funcionários o murmurinho era grande, os corredores eram locais de encontro para fofocas e teorias da conspiração sendo sussurradas. As paredes de vidro pareciam mais opacas, como se absorvessem o peso do que acontecia.

 Amanda caminhava entre corredores que antes os funcionários respeitavam sua presença e agora a observavam de canto de olho, não com julgamento, mas com expectativa. Marcelo a encontrou no meio do caminho.

— Isso vai bater forte — disse, direto.

Amanda assentiu.

— Já está batendo.

Pausa.

— A gente segura? — Marcelo hesitou pela primeira vez.

— Se a gente for transparente… talvez.

Amanda sustentou o olhar.

— Então a gente vai ser.

 

Na delegacia Fernanda observava as telas, notícia após notícia, reação após reação. Paulinho encostou ao lado.

— Você derrubou um pedaço grande.

Fernanda não sorriu.

— Não foi só eu.

— Mas você começou.

Silêncio.

— É, mas ainda não acabou — disse ela.

— Jadir não operava sozinho — disse, revisando os áudios. Havia algo mais, algo que não encaixava. Veio como um sussurro no meio do ruído, era pequeno, quase imperceptível, um detalhe nas escutas revisadas, uma frase curta com um grau de importância que não havia sido levado em consideração na hora. Era uma frase curta.

— “Ele achava que controlava tudo.”

Fernanda parou. Voltou o áudio e ouviu de novo.

Aquilo não era sobre Jadir, era sobre Eduardo Bastos.

Naquele momento a compreensão veio como uma explosão dentro da cabeça de Fernanda, esta informação fazia com que mais peças do quebra cabeça sobre seu assassinato se encaixassem.

Eduardo não era apenas vítima. Ele estava dentro, talvez não no topo como imaginava e bem longe de ser inocente, mas o esquema era antigo e estava muito bem estruturado.

Fernanda respirou fundo.

— A gente não está lidando só com corrupção — disse, mais para si do que para os outros.

— Então com o quê? — perguntou Paulinho.

— Com um sistema… que já estava de pé antes de todo mundo achar que começou.

Jadir Bonoro entrou na sala de interrogatório como se ainda estivesse entrando em um gabinete.

Terno impecável. Postura ereta e com uma expressão controlada. Ao lado dele, o advogado organizava alguns documentos com a calma de quem já havia feito aquilo dezenas de vezes.

Fernanda já estava sentada.

Uma pasta fechada sobre a mesa, nenhum sorriso, nenhuma formalidade.

Jadir puxou a cadeira com tranquilidade e se sentou devagar.

— Achei que mandariam alguém da promotoria.

Fernanda não reagiu.

— Achou errado.

O advogado cruzou os braços.

— Meu cliente...

Fernanda o interrompeu sem tirar os olhos de Jadir.

— Ele ainda não falou nada. Então, por enquanto... deixa eu trabalhar.

O advogado fechou a boca, claramente incomodado. Fernanda abriu a pasta e espalhou sobre a mesa algumas fotos, extratos e transcrições.

— Empresas de fachada.

Pausa.

— Desvio de verba de campanha.

Mais uma folha.

— Compra de votos.

Outra.

— Transferências para contas vinculadas a terceiros.

Jadir olhava tudo com aparente tranquilidade, mas Fernanda percebeu o movimento quase imperceptível no maxilar.

Ela então apertou o notebook e o áudio começou.

A voz de Jadir ecoou pela sala.

"...a diferença entra por fora, como sempre."

Silêncio.

Pela primeira vez, ele piscou mais devagar. O advogado imediatamente se inclinou.

— Meu cliente não vai responder perguntas relacionadas a gravações cuja cadeia de custódia ainda—

— Muita calma meu senhor... pode se manter sentado. — disse Fernanda, seca.

O homem travou por um segundo.

Fernanda se inclinou levemente sobre a mesa.

— Porque se eu começar a listar tudo o que temos aqui... o senhor vai precisar de mais do que um habeas corpus para livrar ele.

O silêncio voltou.

Ela olhou diretamente para Jadir.

— Você adulterou dados de campanha?

Pausa.

Longa.

Jadir soltou um pequeno sorriso de canto.

— Ajustei números.

O advogado fechou os olhos por um segundo. Fernanda não perdeu a oportunidade.

— Então confirma fraude eleitoral.

Jadir deu de ombros.

— Eu confirmo que política não funciona com inocentes.

Fernanda anotou.

Sem emoção.

— E Eduardo Bastos?

Silêncio.

— O que tem ele exatamente?

— O assassinato.

O sorriso desapareceu.

— Não tenho nada a ver com isso.

Fernanda puxou outra foto. Dessa vez, de Eduardo. Depois Amanda.

Depois registros da tentativa de sequestro.

— Engraçado.

Pausa.

— Porque tudo começou a se mover depois que Eduardo morreu.

Jadir sustentou o olhar.

— Coincidências existem.

Fernanda se inclinou mais.

— Não nesse nível.

Silêncio.

Ela mudou a estratégia.

— Quem está com você dentro do Grupo Bastos?

Nada.

— Quem abriu acesso?

Nada.

— Quem entregou rotina, agenda, movimentações?

O advogado interveio.

— Meu cliente não vai—

— Cala a boca. — disse Fernanda, sem elevar o tom.

O homem travou.

Fernanda voltou para Jadir.

— Você sabe.

Pausa.

— Secretária?

Nada.

— Financeiro?

Nada.

— Diretoria?

Nada.

Jadir ficou em silêncio por vários segundos.

E então...

Sorriu.

Como quem percebe que falou demais antes. Fechou-se completamente e Fernanda percebeu.

Merda.

Ela tinha segundos antes dele se blindar de vez.

Respirou fundo e tentou uma última cartada.

Pegou o celular.

Abriu uma foto dela com Amanda ao lado.

Jogou sobre a mesa.

— Eles vão atrás dela de novo.

Pausa.

— E, quando isso acontecer...

Ela sustentou o olhar.

— Eu vou garantir que cada pessoa envolvida apodreça numa cela.

Pela primeira vez...

Jadir perdeu o ritmo. Muito pouco, mas perdeu. Ele desviou os olhos por menos de um segundo, que foi o suficiente para Fernanda ver.

E então ele falou.

Baixo.

Controlado.

— Você está procurando no lugar errado, investigadora.

Silêncio absoluto.

— Eduardo caiu...

Pausa.

— Porque confiou demais em quem servia a mesa dele...

Mais uma pausa.

— ...e em quem assinava ao lado dele.

O advogado imediatamente bateu na mesa.

— Acabou.

Jadir recostou na cadeira.

O sorriso havia voltado.

— Boa sorte descobrindo qual dos dois vai trair primeiro.

Fernanda não respondeu.

Mas por dentro...

Tudo tinha acabado de mudar. Não foi uma confissão completa. Nem um nome. Nem uma prova definitiva, mas, para Fernanda... aquilo bastava.

Era a peça que faltava para validar tudo que seu instinto vinha apontando há dias: Eduardo não havia sido traído apenas por interesses externos ou por articulações políticas. Alguém de dentro abriu a porta. Funcionários da casa. Pessoas da empresa que ele confiava. Gente que convivia com a rotina de Eduardo, conhecia seus horários, seus hábitos... e, principalmente, sabia exatamente onde atacar sem levantar suspeitas e Amanda, em saber, estava no centro de tudo aquilo.

 

Mais tarde, já longe da delegacia, Fernanda permaneceu alguns segundos dentro do carro parada em frente à casa de vidro. O cansaço pesava, mas não tanto quanto a responsabilidade daquela informação.

Amanda merecia saber. Não por terceiros, nem por vazamentos e muito menos pela imprensa. Ela entrou e encontrou Amanda lendo algum e-mail no escritório.

— Oi... Que bom que você está bem. — falou Amanda levantando os olhos e vendo Fernanda ainda parada na porta.

— Aconteceu alguma coisa?

Fernanda fechou os olhos por um segundo antes de responder.

— Aconteceu.

Silêncio.

Amanda percebeu na mesma hora pelo tom de voz.

— Você conseguiu, não conseguiu?

— Consegui mais do que imaginava.

Pausa.

— E confirmamos exatamente aquilo que nós já suspeitávamos. Eduardo não foi traído só fora da empresa...

O silêncio do outro lado ficou pesado.

— Tem gente de dentro, Amanda. De dentro da empresa... e possivelmente da casa também.

Dessa vez, Amanda não respondeu de imediato. E, naquele silêncio... Fernanda entendeu.

No fundo...

Amanda já sabia. Ou, pelo menos, já temia.

— Ele sabia de tudo? — perguntou Amanda, sobre as alterações dos dados que Eduardo manipulava.

Fernanda não respondeu de imediato, mas também não mentiu.

— Ele fazia parte.

O silêncio que veio não foi de quebra, foi de entendimento doloroso.

Amanda desviou o olhar. Respirou.

— Então… todo este esquema, tudo isso — murmurou — não começou agora.

— Não.

Pausa.

— Mas vai terminar agora com as prisões.

Ela sabia que enfrentaria ainda mais momentos desafiadores, mas sob a superfície, ainda havia algo não resolvido. Porque se Eduardo não era apenas vítima… então alguém… o silenciou por um motivo maior.

E esse motivo, ainda não havia sido revelado.

 

Fim do capítulo


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