Finalmente, a casa começa a cair...
Capitulo 19
Na quinta-feira de manhã o nome da operação ainda não existia, mas ela já estava toda desenhada e possuindo múltiplos alvos. No final da tarde, quando tudo foi formalizado, ela passou a ter um nome: Operação Algoritmo.
— A gente entra em tudo ao mesmo tempo — disse Fernanda.
— Sem tempo de reação.
Paulinho concordou.
— Se um cai, todos caem.
— Exatamente. — Disse Marcos.
— Certo, eu vou repassar tudo com o meu contato na Federal, a ação é amanhã.
Fernanda fez uma pausa breve antes de continuar reorganizando mentalmente o cenário.
— A PF já subiu as autorizações. Interceptação ativa, quebra de sigilo consolidada e mandados vinculados por núcleo. A gente entra sincronizado com eles — ninguém executa fora do tempo.
Paulinho assentiu, mais atento.
— Se um alvo perceber antes…
— Ele derruba o resto — completou Fernanda — por isso ninguém antecipa movimento. Só age no meu comando.
Castro se inclinou levemente.
— E o núcleo político?
Fernanda manteve o olhar firme.
— Fica isolado até a confirmação de cadeia completa. A gente prende estrutura primeiro… depois cabeça.
Pausa.
— Ok, vai precisar de algo mais? — Pergunta Castro.
Fernanda respirou fundo.
— Foco. Amanhã não podemos errar, rapazes. Quero todos com muita atenção — não podemos perder ninguém… muito menos um dos nossos.
A tensão de Fernanda era palpável, ela não aguentava mais esperar para colocar as mãos em Jadir Bonoro.
Eles assentiram.
— Ok, vão descansar, amanhã o dia vai ser puxado — Disse o delegado.
Fernanda acordou no meio da noite de sexta-feira. O sono tinha evaporado. A cabeça não parava. Levantou e foi para a cozinha.
Ela tomava seu café e revisava o plano que seria colocado em prática logo mais. Checava lista de equipamentos, equipes, mapas, rotas. Cruzava mentalmente cada entrada, cada tempo de deslocamento, cada ponto cego possível.
Nada passava despercebido por ela. A ação tinha que ser perfeita. Tudo deveria estar alinhado.
Porque bastava um erro… e toda a estrutura poderia colapsar antes mesmo da execução.
Fernanda estava concentrada quando Amanda apareceu. Ela tinha sentido a falta dela na cama. Se encostou na porta e ficou observando, até quebrar o silêncio.
— Você vai entrar nisso de cabeça, né?
Fernanda levantou o olhar.
— Já entrei.
Amanda se aproximou.
— É perigoso?
Fernanda não mentiu.
— Sempre é.
Silêncio.
Amanda respirou fundo.
— Eu não preciso saber de tudo...
— E não pode — disse Fernanda, cortando-a, mas não de forma ríspida.
Amanda sustentou o olhar por um instante.
— Mas eu preciso saber se você volta.
Aquilo não era pergunta.
Era necessidade.
Fernanda se levantou e se aproximou dela, diminuindo completamente a distância.
— Eu volto.
Amanda não desviou.
— Promete?
Fernanda hesitou um segundo. Não por dúvida, mas pelo peso da palavra. Então segurou a mão dela com mais firmeza.
— Prometo que vou fazer de tudo pra voltar pra você.
O polegar dela deslizou levemente sobre a mão de Amanda, num gesto quase automático.
Mais calmo do que a situação permitia.
Mais íntimo do que o momento comportava.
Amanda assentiu com a cabeça.
Mas o medo já estava ali.
E Fernanda percebeu.
— Ei… — disse mais baixo, aproximando ainda mais — eu não entro nisso sozinha.
Pausa curta.
— Tem equipe, tem cobertura… e tem você me esperando.
Amanda soltou um pequeno ar.
— Isso não me deixa menos preocupada.
Fernanda deu um meio sorriso leve.
— Mas te dá um motivo pra eu voltar mais rápido.
Dessa vez… funcionou.
Ainda era madrugada quando as equipes se posicionaram. Carros descaracterizados. Comunicação silenciosa. Alvos definidos. A Operação Algoritmo já estava em andamento antes do primeiro comando.
Equipes da Polícia Federal assumiam pontos estratégicos — monitoramento externo, contenção de perímetro e suporte de inteligência em tempo real.
A equipe de Fernanda ficava responsável pelas entradas principais.
Integração total.
Sem margem para improviso.
Fernanda estava no comando.
— Equipes prontas?
— Prontas.
— No meu sinal.
Silêncio.
Respiração contida.
Um segundo a mais.
Dois.
— Agora.
Portas arrombadas.
Movimento sincronizado para não dar espaço para qualquer tipo de reação.
Na casa de Jadir, a entrada foi direta. Equipe de segurança neutralizada, corredores tomados. Mas nem tudo saiu exatamente como previsto.
Um dos agentes da retaguarda hesitou meio segundo na contenção lateral — o suficiente para uma movimentação interna fora do padrão.
— Movimento à direita! — veio no rádio.
Fernanda reagiu no mesmo instante.
— Contém! Ninguém sai!
A equipe ajustou rapidamente de forma precisa.
A falha não escalou, mas foi sentida e registrada.
— Polícia! Mãos onde eu possa ver!
Jadir apareceu no topo da escada.
Surpreso.
Mas tentando manter o controle.
— Isso é um absurdo — disse.
— Jadir Bonoro — interrompeu Fernanda — o senhor está preso por corrupção, associação criminosa, formação de quadrilha e interferência em processo eleitoral.
Silêncio.
Ele tentou sorrir.
— Você não faz ideia com quem está lidando.
Fernanda subiu os últimos degraus.
Parou à frente dele.
— Faço sim.
Pausa.
— E acabou.
Ela algemou suas mãos e o conduziu até a viatura.
Paulinho veio logo atrás, já informando:
— Conseguimos pegar dois celulares e um notebook. No escritório haviam alguns documentos e dentro do cofre, encontramos um revólver 38 carregado, em torno de R$ 100.000,00 em espécie e alguns documentos pessoais como o passaporte dele.
Fernanda assentiu, sem parar.
— Isola tudo. Isso pode fechar o resto do quebra-cabeça. Verifica se o revólver tem registro e encaminha os documentos, os celulares e o notebook para a delegacia — o pessoal da TI vai saber extrair o que for preciso desses aparelhos. Qualquer novidade, me avisa.
Paulinho assentiu e entrou para cumprir as orientações. Fernanda, por sua vez, decidiu seguir na viatura, escoltando Jadir até a delegacia.
Enquanto a porta se fechava atrás dele, ela respirou fundo pela primeira vez desde o início da operação.
Não era alívio completo, mas era controle retomado.
E, dessa vez… sem espaço para erro.
Fim do capítulo
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