Capitulo 18
— “Não pode deixar isso chegar na imprensa.”
— “A empresa já foi comprometida.”
— “Se precisar… corta o vínculo.”
A voz era inconfundível. Jadir Bonoro, mas agora… havia mais.
Três dias haviam se passado desde a volta da viagem. Fernanda estava sozinha em sua sala na delegacia, quando recebeu o pacote completo das últimas interceptações. Áudio limpo, sem cortes e o mais importante, sem margem para dúvida. Ela colocou os fones e ouviu.
Gravação 1
— “O Partido da Ordem Nacional não pode ser associado a isso.”
— “As pesquisas já foram ajustadas. A base está reagindo como esperado.”
— “Então mantém. Custe o que custar.”
— “E a imprensa?”
— “A imprensa a gente controla depois. Primeiro, garante o resultado.”
Silêncio.
Depois, a frase final:
— “Eu não cheguei até aqui pra perder agora.”
Fernanda pausou o áudio, aquilo… era grande e muito maior do que imaginavam.
Ela seguiu.
Gravação 2
A voz de Jadir novamente, mais baixa, porém direta.
— “Você exagerou.”
Do outro lado, um homem, calmo e controlado, parecia uma voz conhecida para ela.
— “Era necessário.”
Fernanda franziu a testa.
— “Eu não mandei matar ele.”
Silêncio curto.
— “Mas também não mandou impedir.”
Pausa.
— “Agora a gente resolve isso.”
Fernanda tirou os fones devagar, aquilo mudava tudo, Jadir estava envolvido em vários crimes, mas não era o mandante do assassinato.
— Então quem? — murmurou.
Amanda gostava da sensação das mãos no volante. Havia algo quase terapêutico em dirigir sozinha pelas ruas da cidade, observando a rotina acontecer ao redor enquanto, por alguns minutos, sua própria mente finalmente ficava em silêncio.
Fernanda odiaria aquilo.
Aliás, odiava.
Segurança era uma obsessão quando se tratava dela, e Amanda conhecia bem o sermão que ouviria se fosse descoberta, mas havia liberdades que ela ainda estava aprendendo a reivindicar e algumas delas tinham quatro rodas, um motor e nenhum motorista particular.
O trajeto até a empresa foi tranquilo. Quase leve, até entrar no elevador, caminhar pelo corredor e notar que sua secretária evitou olhá-la diretamente. Quando abriu a porta da própria sala, entendeu o motivo.
Marcelo já estava lá.
E, dessa vez, ele não parecia apenas tenso — parecia decidido.
— Preciso conversar com você. Eu fui mais a fundo. — disse, assim que ela entrou, fechou a porta e sentou em sua mesa.
Amanda cruzou os braços.
— E?
Marcelo colocou o pen drive sobre a mesa e dessa vez, não havia hesitação no gesto.
— Isso aqui não é só desvio de dinheiro — disse, direto.
Pausa curta.
— É um sistema inteiro montado para manipular resultados.
Amanda conectou o dispositivo ao computador, os arquivos se abriram em sua tela. Eram planilhas, relatórios e diversos contratos. Ela começou a navegar… e então percebeu que as movimentações possuíam um padrão.
— Esses números… — murmurou.
Marcelo assentiu.
— Foram moldados.
Silêncio.
— Contratos com empresas e até algumas instituições… sempre terminavam com o mesmo resultado.
— Favorável pra eles — completou Amanda.
— Sempre — confirmou ele.
Pausa.
— Indicadores ajustados. Métricas distorcidas. Dados “corrigidos” antes de chegar no cliente.
Amanda ergueu o olhar, mais séria.
— E você sabia disso tudo e nunca falou nada! — Não foi uma pergunta, falou Amanda de forma exasperada.
Marcelo não desviou.
— Sabia.
Silêncio.
— Desde quando?
— Tempo suficiente pra ter feito algo.
Pausa.
— E não fiz.
Amanda cruzou os braços.
— Por quê está me falando isso só agora?
Marcelo respirou fundo.
— Eduardo, nossa amizade e as ameaças que você vem sofrendo.
O nome ficou no ar.
— Ele não queria saber dos detalhes, a forma como era feito — continuou — ele queria resultado, crescimento e contratos fechados.
— E você entregava exatamente isso. — Diz Amanda em tom de indignação.
— Eu protegia o modelo.
Pausa.
— E fechava os olhos.
Amanda voltou a olhar para a tela.
— Isso aqui vai muito além de “fechar os olhos”.
Marcelo assentiu.
— Eu sei — falou baixando a cabeça.
Silêncio.
— Quando o Eduardo morreu… — continuou ele — eu achei estranho.
Amanda levantou o olhar novamente.
— Por quê?
— Porque ele sabia até onde podia ir e sabia que isso estava extrapolando.
Pausa.
— Quer dizer então que alguém passou desse limite?
Silêncio.
— Sim, e foi aí que eu comecei a mexer e investigar.
Marcelo abriu outro arquivo.
— A auditoria que você pediu…
Amanda estreitou os olhos.
— Foi sabotada, eu sei, descobri assim que coloquei os olhos nela.
— Foi — confirmou ele — mas não por mim.
Pausa.
— Eu comecei a manipular alguns pontos.
Amanda ficou imóvel.
— Manipular?
— Pra não alarmar quem estava por trás.
Silêncio.
— Se eu expusesse tudo de uma vez… eles sumiam.
— Então você fingiu que não estava vendo.
— Eu desacelerei o processo.
Pausa.
— Dei a impressão de desorganização enquanto coletava provas.
Marcelo assentiu.
— Enquanto encontrava o caminho completo.
Ele abriu o último documento contendo fluxos financeiros, empresas interligadas e nomes.
— Isso aqui — disse ele — conecta tudo.
Pausa.
— Do desvio… à lavagem de dinheiro.
Mais uma pausa.
— E chega até eles.
Amanda analisou em silêncio, demorando mais tempo desta vez e quando levantou o olhar… já não era só desconfiança era entendimento.
— Você sabia de tudo — disse, firme.
Marcelo não negou.
— Sabia.
— E só agora resolveu agir.
— Agora ficou impossível de ignorar.
Pausa.
— E porquê… você não ignorou, apesar de sofrer várias ameaças. — Diz Marcelo surpreendendo Amanda.
Silêncio.
— Você está comigo nisso? — perguntou Amanda.
Marcelo sustentou o olhar, sem fuga.
— Agora… estou.
Já era quarta-feira e, naquele ponto, Fernanda finalmente tinha o que precisava. Não era mais instinto. Nem coincidência. Era prova.
Áudios interceptados. Quebras de sigilo autorizadas. Relatórios bancários. Empresas de fachada. Laranjas. Policiais militares e civis citados em conversas cruzadas. Movimentações financeiras incompatíveis. Nomes que, isoladamente, poderiam ser ignorados, mas juntos formavam uma estrutura sólida demais para ser acidente.
Ela convocou uma reunião restrita na delegacia. Na sala estavam apenas ela, Paulinho e o Delegado.
Fernanda espalhou os documentos sobre a mesa com precisão quase cirúrgica. Pastas, fotografias, transcrições, mapas de conexão e prints de comunicações interceptadas.
O Delegado analisava em silêncio.
Paulinho cruzava os braços, acompanhando cada detalhe.
Foi o Delegado quem quebrou o silêncio primeiro.
— Isso não é mais só um caso local.
Fernanda sustentou o olhar.
— Nunca foi.
Ela puxou uma das transcrições para frente.
— E tem mais.
Pausa.
— O criminoso que prendemos morreu dentro da custódia antes de formalizar o depoimento.
Paulinho franziu a testa.
— Você acha que queimaram a ponta?
Fernanda negou lentamente.
— Não acho.
Pausa.
— Tenho certeza.
O silêncio na sala ficou mais pesado.
Fernanda apoiou as mãos na mesa.
— Alguém está vazando nossas movimentações.
— Dentro da polícia — completou o Delegado, em tom grave.
Fernanda assentiu.
— Toda vez que avançamos, alguém se antecipa. O suspeito morre. Documentos desaparecem. Testemunhas somem.
Paulinho soltou o ar devagar.
— Então a operação já pode estar comprometida.
— Pode. — respondeu Fernanda. — Por isso eu não compartilhei tudo com a equipe.
O Delegado recostou-se na cadeira, pensativo por alguns segundos.
— Federal?
Fernanda assentiu.
— Já fiz contato preliminar com a Polícia Federal. Eles vão entrar como apoio técnico e blindagem institucional.
Paulinho arqueou a sobrancelha.
— Como assim?
Fernanda apontou para os relatórios.
— Inteligência financeira, análise de movimentações externas, mandados interestaduais e isolamento de comunicações durante a operação.
Pausa.
— Se tiver gente nossa vendendo informação… a PF corta essa rota.
O Delegado assentiu lentamente.
— Faz sentido.
Ele olhou para Fernanda com firmeza.
— Mas a condução continua aqui.
Fernanda não hesitou.
— Como deve ser.
O Delegado abriu uma gaveta, retirou dois dossiês funcionais e colocou sobre a mesa.
— Então você não vai com qualquer um.
Empurrou os documentos para frente.
— Inspetor Valdir Castro e investigador Marcos Dantas.
Paulinho reconheceu os nomes na mesma hora.
— Eles?
O Delegado confirmou.
— Trabalharam comigo na corregedoria. Nunca tiveram conduta questionada.
Pausa.
— São os únicos, além de nós três, em quem eu confio para essa operação.
Fernanda pegou os arquivos, analisando rapidamente.
Castro: frio, técnico, especialista em entrada tática.
Marcos: inteligência operacional, vigilância e contrainteligência.
Exatamente o que ela precisava.
Ela fechou as pastas.
— Então agora começa de verdade.
E, ao sair da sala...
Fernanda tinha certeza de uma coisa:
Dessa vez, o inimigo não estava só do lado de fora.
Fim do capítulo
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