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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1499
Acessos: 257   |  Postado em: 06/05/2026

Capitulo 17

 

Desta vez, foi Fernanda quem acordou primeiro. Demorou alguns segundos para entender onde estava, até olhar para o lado e ver Amanda que ainda dormia. O cabelo levemente bagunçado, o rosto relaxado — distante de qualquer tensão, qualquer responsabilidade. Fernanda ficou observando, bem mais tempo do que pretendia.

— Se continuar me olhando assim, eu vou começar a cobrar — murmurou Amanda, sem abrir os olhos.

Fernanda soltou uma risada baixa.

— Você já cobra caro demais.

Amanda abriu um olho, divertida.

— E você continua me pagando.

— Não tenho muita escolha, tenho?

— Tem sim.

— Ah, mas nem quero.

Elas trocam olhares que diziam muito mais do que palavras.

— Que horas são? — perguntou Amanda, quebrando o contato e se espreguiçando.

— Tarde demais pra quem disse que ia correr no condomínio.

Amanda virou o rosto, encarando-a.

— Eu disse isso?

— Disse.

— Eu estava emocionalmente instável.

Fernanda riu.

— Aham, sei!

Acabaram levantando sem pressa. Amanda serviu o café na varanda. Frutas frescas, pães ainda quentes, café forte… e a neblina fina da serra se dissipando devagar entre as araucárias, como se o próprio dia tivesse decidido começar mais devagar.

Mais tarde, pegaram o carro sem destino muito definido… até Amanda mudar a rota de última hora.

— Aonde exatamente estamos indo? — perguntou Fernanda, observando a estrada cercada de verde.

Amanda sorriu de canto, sem tirar os olhos da pista.

— Você disse que eu precisava aprender a relaxar.

— E?

— Estou seguindo ordens da investigadora.

Fernanda soltou uma risada baixa.

Minutos depois, chegaram ao Parque Amantikir. O frio da manhã ainda pairava no ar, leve e agradável. Os jardins pareciam saídos de outro país — caminhos de pedra, labirintos vivos, pinheiros altos e flores organizadas com uma precisão quase artística. O silêncio ali não era vazio… era confortável.

Caminharam lado a lado entre os jardins, sem pressa, como se o tempo tivesse desacelerado só para elas.

Amanda, vez ou outra, parava para observar alguma paisagem, mas Fernanda percebeu rápido que ela observava mais do que flores.

— Tá olhando muito pra mim… — comentou Fernanda, sem esconder o sorriso.

Amanda ergueu uma sobrancelha.

— E você está incomodada?

Fernanda se aproximou um pouco mais.

— Ainda não.

Amanda riu baixo.

Enquanto caminhavam entre os jardins, cercadas pelo perfume das hortênsias e pelo frio suave da serra, Amanda percebeu que Fernanda estava mais silenciosa do que de costume. Não parecia distante… apenas pensativa.

— Você está com aquela cara. — Amanda comentou, parando diante de um mirante.

Fernanda arqueou uma sobrancelha.

— Que cara?

— A de quem está resolvendo cinquenta problemas ao mesmo tempo… e fingindo que tá tudo sob controle.

Fernanda soltou uma risada baixa pelo nariz.

— Essa descrição ficou ofensivamente precisa.

Amanda se aproximou, ajeitando distraidamente a gola do casaco dela.

— Então… o que foi?

Fernanda ficou alguns segundos olhando a paisagem antes de responder.

— Recebi a confirmação hoje de manhã.

Amanda franziu levemente a testa.

— Confirmação de quê?

Fernanda finalmente olhou para ela.

— Do curso.

Pausa.

— Delegada.

Amanda piscou, absorvendo.

E então sorriu.

Um sorriso genuíno, orgulhoso.

— Fernanda…

Ela segurou o rosto dela entre as mãos.

— Isso é incrível.

Fernanda deu de ombros, tentando parecer casual, mas Amanda percebeu o brilho discreto nos olhos dela.

— Começa daqui um mês.

O sorriso de Amanda diminuiu só um pouco.

— E isso significa…?

Fernanda soltou o ar devagar.

— Significa rotina puxada. Menos tempo. Mais plantões. Mais estudo.

Pausa.

— Talvez eu fique mais ausente por um tempo.

Amanda sustentou o olhar dela por alguns segundos.

Depois se aproximou mais.

— Eu não gosto nem quando você demora pra responder uma mensagem…

Fernanda sorriu de canto.

— Eu sei.

— Então imagina ficar sem você direito.

Fernanda passou os dedos no rosto dela, com delicadeza.

— Não vai ficar sem mim.

Pausa.

— Mas eu preciso terminar esse caso antes.

O olhar dela endureceu por um instante.

— Antes que isso fique maior do que já está.

Amanda assentiu, entendendo.

Mas antes que pudesse responder, Fernanda inclinou-se e beijou sua testa.

— E porque eu quero começar essa fase… com você bem.

Amanda fechou os olhos por um segundo.

— Então termina esse caso logo…

Pausa.

— Porque eu pretendo continuar exigindo sua presença.

Fernanda riu.

— Você já faz isso muito bem. — Acabaram se beijando ali mesmo.

Os dois dias seguintes passaram rápidos demais. Durante o dia, Campos do Jordão parecia existir só para elas.

Passearam pela Vila Capivari, entraram em pequenas lojas de chocolates artesanais, dividiram cafés fortes em bistrôs aquecidos por lareiras antigas, caminharam pelas ruas arborizadas com o frio colorindo discretamente as bochechas de Amanda.

À noite…

A casa se tornava outra.

A luz baixa da lareira desenhava sombras quentes pelas paredes de madeira, enquanto o vinho perdia espaço para toques demorados, beijos roubados entre um sorriso e outro, roupas deixadas pelo caminho.

Às vezes se amavam no quarto, outras vezes no banheiro tomado pelo vapor da água quente. Às vezes apenas próximas demais… até que nenhuma das duas lembrava quem tinha começado.

Fazendo com que Fernanda quase conseguiu esquecer que estava em guerra com gente perigosa.

Quase.

No terceiro dia, no fim da tarde, decidiram descer até o centro para comprar algumas coisas no mercado antes de voltar.

Amanda empurrava o carrinho distraidamente enquanto Fernanda observava os corredores. Foi no reflexo de uma porta de vidro que ela viu. O mesmo homem. Boné escuro, casaco preto.

O mesmo que havia cruzado com elas duas ruas antes. Fernanda não mudou a expressão. Pegou uma garrafa de vinho da prateleira como se nada tivesse acontecido.

— Amanda.

— Hm?

— Continua andando. Não olha pra trás.

Amanda imediatamente ficou séria.

— Fernanda…

— Confia em mim.

Saíram do mercado normalmente. Sem correr. Sem demonstrar nada.

Já do lado de fora, Fernanda fingiu procurar algo no celular, enquanto observava os reflexos das vitrines.

O carro preto continuava ali. Distância segura. Motor ligado e ela entendeu, aquilo não era coincidência.

No lugar de seguir direto para a casa, Fernanda entrou em um estacionamento subterrâneo de um hotel boutique no centro.

Desligou o carro.

— O que estamos fazendo? — Amanda perguntou, em voz baixa.

Fernanda tirou o casaco.

— Despistando.

Ligou para Paulinho usando uma linha secundária. Poucas palavras. Objetivas. Quinze minutos depois, um carro idêntico ao delas saiu do hotel pela saída principal. O carro preto imediatamente seguiu atrás.

Amanda olhou para Fernanda.

— Você já tinha pensado nisso?

Fernanda deu partida, saindo pela saída de serviço do hotel, totalmente oposta.

— Eu pensei nisso no momento em que percebi que estavam nos observando.

Amanda a encarou em silêncio. Depois sorriu.

— Isso é absurdamente sexy.

Fernanda não conseguiu evitar o sorriso.

— Foca.

— Estou tentando, mas você não ajuda.

Devido àquela situação, decidiram voltar para a casa, pegar seus pertences e seguir rumo a São Paulo. Nenhuma das duas discutiu a decisão. Não porque não houvesse frustração… havia.

Campos do Jordão ainda tinha dias planejados, lugares para conhecer, noites prometidas e aquele raro sentimento de normalidade que, por alguns instantes, quase fez as duas acreditarem que podiam simplesmente existir sem o peso do mundo lá fora.

Mas Fernanda sabia reconhecer quando uma linha estava sendo cruzada.

E Amanda… já confiava nela o suficiente para não questionar.

O retorno para a casa no condomínio foi mais quieto. Enquanto Amanda organizava as malas, dobrando roupas com movimentos automáticos, Fernanda revisava mentalmente cada detalhe — o homem no mercado, o carro estacionado duas ruas abaixo, o tempo de reação, a distância, a escolha do ponto de observação.

Não parecia amador e isso era o que mais incomodava.

Quando Amanda terminou de fechar a mala, encontrou Fernanda parada diante da janela, observando a mata escurecendo do lado de fora.

— A gente precisava mesmo ir embora? — perguntou, mais baixo.

Fernanda demorou um segundo antes de responder.

— Se eu estiver certa… sim.

Amanda se aproximou pelas costas e segurou a mão dela.

— E se você estiver errada?

Fernanda virou parcialmente o rosto, encontrando o olhar dela.

— Então eu vou passar o resto da semana ouvindo você reclamar que interrompi nossa viagem.

Amanda sorriu de canto.

— Pode apostar nisso.

Pouco depois, deixaram a serra para trás. A estrada de volta foi feita em silêncio na maior parte do tempo.

Não um silêncio ruim. Um silêncio cheio.

O frio da serra foi ficando para trás enquanto as luzes da capital começavam a surgir no horizonte.

Em alguns momentos, Amanda apenas segurava a mão de Fernanda sobre a coxa dela.

Como se precisasse confirmar que ainda estavam ali.

Juntas.

E, embora nenhuma das duas dissesse em voz alta…

as duas sabiam que, daquela vez, não estavam apenas voltando para casa.

Estavam voltando para a guerra.

Quando finalmente os portões da Casa de Vidro se abriram, ambas entenderam.

A viagem tinha acabado.

Mas a paz…

provavelmente também.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Já diz o ditado:

Tudo o que é bom dura pouco.... voltando com investigação, tensão e problemas na empresa em 3, 2, 1....


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