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Mundos invertidos por Natalia S Silva

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Palavras: 8880
Acessos: 295   |  Postado em: 10/05/2026

Capitulo 11

Victoria 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aquela foi a primeira vez que vi Yelena perder a postura. Sempre tão calma, tão contida, tão elegante até mesmo quando se sujava de sangue. A imagem dela, o cabelo preso sem um fio fora do lugar, os gestos calculados, a frieza impecável no olhar verde, era quase um monumento de disciplina. E, no entanto, ali estava ela, quebrada de um jeito que me deixou mais atônita do que qualquer soco que tivesse desferido dentro daquele armazém.

 

Eu mesma estava com o estômago revirado só de ouvir o pai e o irmão mais velho dela. O modo como cuspiram palavras como se fossem facas afiadas, a naturalidade com que tratavam pessoas como descartáveis. Eu os conhecia pouco, mas bastava um minuto para sentir a podridão impregnada na pele. Imaginar viver trinta e dois anos na companhia deles era quase insuportável.

 

E o que me corroía ainda mais era pensar que a única que parecia diferente, a única que podia ter sido respiro e esperança naquela família, havia sido morta. Morta para abrir espaço para aquela oportunista que agora usava a sombra de Elena como palco para se exibir. Uma farsa. Uma substituta.

 

Mas eu não estava ali para opinar. Eu não era parte daquela família nem daquela dor. Eu era apenas a agente com um ponto no ouvido e um arquivo de relatórios para preencher.

 

Ainda assim, entrei no carro. A porta fechou com um estalo que pareceu encerrar também a discussão. Yelena não me olhou, apenas engatou a marcha e seguiu, os olhos fixos na estrada como se cada quilômetro fosse uma forma de se afastar do próprio sangue.

 

Não falou nada. Nem uma vez.

 

A cidade começou a desaparecer pelos retrovisores. Primeiro Manhattan, depois Brooklyn, depois qualquer sinal de concreto ou buzinas. Ela guiava como quem conhecia cada curva, cada saída, sem consultar GPS, sem titubear. Só ia. Só se afastava.

 

O carro deixou para trás as avenidas movimentadas e mergulhou em estradas menores, ladeadas por árvores altas que iam se fechando sobre nós como braços. Reconheci o caminho quando a placa de entrada apareceu discreta à margem: Prospect Park. Não o coração iluminado e cheio de famílias aos domingos, mas a área mais isolada, onde as trilhas se perdiam e a escuridão das árvores fazia o tempo parecer suspenso.

 

Yelena estacionou em um recuo de terra batida, desligou o motor e, sem dizer palavra, saiu. Bateu a porta com força, mas não olhou para trás. Eu fiquei no carro, por alguns segundos, observando pelo retrovisor.

 

 

Ela acendeu um cigarro com mãos trêmulas e ver Yelena tremer era como ver mármore rachar. Andava em círculos, cada tragada rápida e profunda como se o fumo fosse a única coisa capaz de mantê-la em pé. O corpo inteiro vibrava com a raiva que ainda não encontrara lugar para se assentar.

 

Eu não conseguia entender por que tinha ficado tão nervosa com o que Dimitri dissera. Aquilo fora cruel, sem dúvida, mas ela já tinha me feito sair nua da cama na frente de Nikolai e Noah, como se minha vergonha não tivesse importância alguma. Como se meu corpo pudesse ser apenas uma arma a mais em seu arsenal de humilhações calculadas.

 

E, ainda assim, ali estava ela, transtornada com a ideia de que o irmão me tivesse olhado de um jeito errado.

 

No fundo, uma parte de mim, talvez a mais tola, se aquecia com a possibilidade de que fosse ciúmes. Um sentimento baixo, visceral, humano demais para alguém como Yelena. Ciúmes meus.

 

Mas do que adiantava? Isso só a levaria a perder o controle, a deixar rastros, a se tornar alvo. E, no fim, quem acabaria algemada seria ela, enquanto eu... eu seria obrigada a segurar as algemas.

 

Respirei fundo, apertando os dedos no banco de couro do carro. Não queria admitir para mim mesma que doía vê-la daquele jeito.

 

Do lado de fora, a fumaça dançava em torno dela como um manto esfumaçado. O salto da bota afundava na terra molhada, desenhando um círculo cada vez mais fundo ao redor de si mesma. A cada volta, mais raiva. A cada tragada, mais desespero.

 

Eu sabia que deveria desviar o olhar, que deveria me manter fria, profissional, distanciada. Mas meus olhos se recusavam a abandoná-la.

 

E, talvez pela primeira vez, eu não vi a mafiosa impecável que assustava meio mundo. Vi apenas uma mulher perdida, lutando contra uma família que a devorava desde o berço.

 

E contra mim mesma, talvez.

 

 

 

 

 

 

Eu estava ali, dentro do carro, observando Yelena caminhar em círculos como um animal enjaulado, tragando o cigarro com tanta força que parecia querer engolir o filtro junto. O facho alaranjado queimava no escuro do parque, iluminando a curva dura da boca dela cada vez que inspirava. Eu prendia a respiração, talvez porque era o único jeito de não me perder completamente naquela imagem: a mulher sempre impenetrável agora se desfazendo em raiva mal contida.

 

Foi então que o ponto estalou no meu ouvido. O chiado metálico me arrancou da hipnose.

 

 

(Rick) — Victoria, tudo bem por aí? — a voz de Rick, firme mas carregada de suspeita, soou como uma mão me puxando para fora da cena.

 

 

Antes que eu pudesse responder, outra voz entrou na linha. Ethan. Cético, impaciente, com aquele tom venenoso que ele parecia reservar apenas para situações que envolviam Yelena.

 

 

(Ethan) — Ela é ótima em fingir sentimentos, não é? Não caia nessa, Hartley. Acha mesmo que ela está quebrada? Ela já deve ter feito esse teatrinho mil vezes.

 

 

Meu estômago embrulhou.

 

Era engraçado como, até então, eu vinha me esforçando para manter distância, para não me envolver, para lembrar que ela não era nada além de uma peça perigosa em uma investigação. Mas ouvir Ethan dizer aquilo, reduzir Yelena a uma encenação barata, fez algo dentro de mim se revoltar.

 

Eu sabia que deveria concordar, seguir o protocolo, me manter profissional. Mas não consegui.

 

 

(Vick) — Está tudo bem. — respondi, a voz mais seca do que eu pretendia. — Eu volto logo.

 

 

Antes que qualquer um deles pudesse contestar, deslizei o dedo até o microfone preso sob o decote do vestido e o desliguei. O silêncio foi quase ensurdecedor, como se eu tivesse cortado não só a ligação, mas a linha tênue que ainda me mantinha presa à realidade.

 

Deixei escapar um suspiro. Então empurrei a porta do carro e desci.

 

O ar frio da noite me envolveu de imediato, trazendo o cheiro úmido da terra misturado ao perfume acre da fumaça do cigarro. O som dos passos de Yelena esmagando folhas secas preenchia o espaço, compassado, irritado, quase militar.

 

Ela não notou minha presença de imediato. Estava com o olhar fixo em nada, perdida em pensamentos que eu não ousava adivinhar. Mas, quando percebeu meu movimento, o cigarro parou a meio caminho da boca.

 

 

(Yelena) — O que está fazendo fora do carro? — a voz dela saiu grave, como um arranhar de pedra.

 

 

Engoli a resposta fácil que me veio aos lábios. Dei mais dois passos, o suficiente para que a luz fraca do poste abandonado na entrada do parque nos colocasse sob o mesmo clarão.

 

 

(Vick) — Vendo você se destruir. — falei, sem conseguir evitar a sinceridade.

 

 

Ela soltou uma risada curta, sem humor, e virou o rosto para soltar a fumaça para longe de mim.

 

 

(Yelena) — Não me dê esse olhar, Hartley. Isso não tem nada a ver com você.

 

 

(Vick) — Não? — desafiei. — Então por que se abalou tanto com o que seu irmão disse? Você já me expôs de formas bem piores na frente dele.

 

 

Seus olhos verdes se estreitaram, cortantes como lâminas.

 

 

(Yelena) — Não seja tola. — respondeu, a voz controlada demais, como se a qualquer instante fosse se quebrar. — Isso não tem nada a ver com sentimentos.

 

 

Ela enfatizou a palavra como se fosse algo nojento de pronunciar.

 

 

(Yelena) — Eu apenas odeio meu irmão. E odeio meu pai.

 

 

O jeito como ela cuspiu “odeio” quase me convenceu. Mas não completamente.

 

Porque eu via. Eu estava ali, vendo as mãos dela tremerem, vendo como os lábios se fechavam com força excessiva para conter algo que não era só ódio.

 

Cruzei os braços, encostando-me ao carro.

 

 

(Vick) — Claro. — falei, num tom quase indiferente. — Então por que parece tão... pessoal?

 

 

Ela se aproximou um passo, como se quisesse me intimidar, mas a verdade é que sua sombra apenas me envolveu.

 

 

(Yelena) — Você não sabe do que está falando. — disse entre dentes. — Cresci ouvindo aqueles dois me dizerem o que eu deveria ser, como deveria respirar, quem deveria morrer. E agora tenho que vê-los insinuando coisas sobre você? Isso... isso é insuportável.

 

 

A última palavra escapou como um estilhaço, mais reveladora do que tudo o que ela vinha tentando esconder.

 

Olhei fundo nos olhos dela.

 

 

(Vick) — Então é sobre mim. — disse baixinho, quase como uma acusação.

 

 

Ela desviou o rosto de imediato, tragando com força o cigarro até o filtro. Depois o atirou no chão, esmagando-o com o salto do coturno.

 

Não respondeu.

 

O silêncio se prolongou entre nós, denso como a névoa que começava a se espalhar pelas árvores do parque. Eu podia ouvir meu próprio coração bater, rápido demais para uma agente treinada.

 

Por fim, ela soltou um suspiro pesado e se afastou. Subiu no capô do carro com a elegância quebrada de alguém cansada demais para se importar. Sentou-se, pernas cruzadas, e acendeu outro cigarro. O clarão inicial iluminou de novo seu rosto, revelando o cansaço nas linhas que ela sempre escondia tão bem.

 

 

(Yelena) — O microfone ainda está ligado? — perguntou, soprando a fumaça para o alto.

 

 

Demorei alguns segundos para responder. Havia algo na forma como ela perguntou, sem olhar para mim, que parecia um teste.

 

E, pela primeira vez naquela noite, decidi ser sincera.

 

 

(Vick) — Não. — respondi.

 

 

Ela voltou o rosto na minha direção, descrente.

Eu puxei o microfone preso sob o decote, junto com o ponto no ouvido, e os mostrei na palma da mão. Depois caminhei até o banco do passageiro, abri a porta e os deixei sobre o assento. Fechei a porta devagar, o clique ecoando no silêncio da noite como um pacto selado.

 

Quando voltei a encará-la, o olhar dela era diferente. Não havia cálculo, nem ironia, nem a frieza que ela usava como máscara.

 

Havia apenas surpresa.

 

Talvez até um resquício de confiança.

 

Eu sabia que era uma atitude tola. Estar ali, sem escuta, sem ninguém me ouvindo, apenas com o rastreador no carro dela como garantia. Eu sabia que estava entregando a ela uma vantagem perigosa.

 

Mas, pela primeira vez, Yelena parecia sincera.

 

E, contra todo o meu instinto, eu queria ouvir o que ela tinha a dizer.

 

 

 

 

 

 

 

O silêncio depois que tirei o ponto e o microfone era quase uma entidade. Pesado, denso, quase palpável. Só havia o som baixo das cigarras escondidas na vegetação e o estalar suave da brasa no cigarro que Yelena segurava entre os dedos. Ela continuava sentada no capô, as pernas cruzadas, o cabelo solto balançando levemente na brisa que atravessava aquele lugar afastado de tudo.

 

Era a primeira vez que eu me via sem qualquer elo direto com a equipe, sem o ouvido de Rick, sem a crítica seca de Ethan ou o controle cauteloso de Lena e Marcus. E, estranhamente, foi libertador. Ao mesmo tempo, assustador. Se Yelena decidisse que eu era um peso morto, eu estaria sozinha, sem como pedir socorro. A confiança que eu acabara de entregar a ela era uma aposta perigosa, e eu tinha plena consciência disso.

 

 

(Yelena) — Então… — ela começou, soprando a fumaça para cima e apertando os olhos contra o céu pálido. — Agora estamos só nós duas, hm? Finalmente sem plateia.

 

 

Eu não respondi de imediato. Permaneci parada ao lado do carro, observando-a com aquela calma ensaiada que eu usava para esconder qualquer vacilo. Só que ela me olhava de volta, e quando Yelena Volkov encarava alguém, não era para brincar.

 

 

(Vick) — Foi sua escolha — murmurei enfim, cruzando os braços. — Você perguntou se o microfone estava ligado. Eu decidi mostrar que não.

 

 

Ela riu baixo, um som grave e arrastado, que me percorreu como se tivesse garras.

 

 

(Yelena) — Tolice ou coragem? — perguntou, virando o rosto para mim. — Às vezes não há diferença.

 

 

(Vick) — Talvez eu não esteja com paciência para jogos — devolvi, sustentando o olhar. — Você queria sinceridade, então aqui está: desliguei porque, se for para ouvir você de verdade, eu não quero ruído na linha.

 

 

Por um instante, não houve nada além da chama tênue na ponta do cigarro. Ela me observava com uma seriedade que me desconcertava, como se estivesse calculando se eu merecia ou não uma migalha do que passava por dentro daquela carcaça de ferro que ela chamava de corpo.

 

 

(Yelena) — Você acredita mesmo nisso? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Acha que sou capaz de sinceridade?

 

 

(Vick) — Acredito que todo mundo é, em algum momento — respondi. — Só que nem sempre a gente tem a chance de ouvir.

 

 

O jeito que ela me olhou foi diferente, como se minha resposta tivesse tocado um nervo exposto. Lentamente, ela tragou fundo, deixou a fumaça escapar pelos lábios e balançou a cabeça.

 

 

(Yelena) — Você não tem ideia do que está falando.

 

 

(Vick) — Então me explica — rebati de imediato. — Você perdeu a cabeça lá dentro. Eu vi. E não me venha dizer que foi só raiva do seu irmão ou do seu pai. Você já me fez coisa pior na frente deles, já me expôs de maneiras que… — pausei, sentindo o calor subir no rosto só de lembrar — …de maneiras que ninguém com o mínimo de pudor faria. Então, por que agora? Por que com Dimitri foi diferente?

 

 

O maxilar dela enrijeceu. A mão que segurava o cigarro se fechou demais, a brasa se quebrou e caiu no chão. Ela jogou o resto fora e esfregou a mão contra o jeans escuro.

 

 

(Yelena) — Não tem nada a ver com você — rosnou, mas havia uma hesitação, quase imperceptível, em sua voz. — Não crie ilusões. Eu odeio Dimitri, odeio meu pai. Sempre odiei. E tudo o que eles tocam.

 

 

Eu ri de leve, amarga.

 

 

(Vick) — Claro. Só ódio. Só esse combustível negro que você repete para si mesma até acreditar. Mas sabe o que eu vi? — dei um passo à frente, aproximando-me do carro. — Vi você não suportando a ideia de alguém me insultar. Não porque sou uma "puta cara", como ele disse. Mas porque foi comigo.

 

 

Yelena se inclinou para trás, apoiando as mãos no metal do capô, e me encarou com uma calma falsa.

 

 

(Yelena) — Você se superestima, agente.

 

 

(Vick) — E você mente mal quando está nervosa. — Eu disse isso mais baixo, quase sussurrando, e vi a pupila dela contrair como se eu tivesse atingido algo que não deveria.

 

 

Ficamos em silêncio por alguns segundos longos demais. Então, sem aviso, Yelena bufou e deu uma risada incrédula.

 

 

(Yelena) — Está satisfeita? Quer acreditar que tem algum tipo de poder sobre mim? Vá em frente. Pode se sentir especial, Victoria. Não vai mudar nada. No fim, eu vou acabar presa, e vai ser você a colocar algemas em mim, e pronto. Acabou o encanto.

 

 

Eu respirei fundo, sem desgrudar os olhos dela.

 

 

(Vick) — Você fala como se eu não soubesse disso. Como se eu não pensasse nisso toda vez que olho para você.

 

 

Ela me encarou, surpresa. Eu mesma senti a coragem me arranhar por dentro, mas não recuei.

 

 

(Yelena) — Então por que ainda está aqui? — ela pressionou, a voz rouca. — Por que desligou os malditos microfones, se sabe que isso pode custar sua carreira? Sua vida?

 

 

Demorei para responder. A verdade era tão simples que doía.

 

 

(Vick) — Porque eu queria você. Sem ninguém mais atrapalhando.

 

 

O silêncio que veio depois foi um soco. O vento pareceu parar. Os olhos dela, aqueles olhos frios e calculistas, piscaram uma única vez, e eu vi, por um instante mínimo, a muralha dela rachar.

 

Ela desviou o rosto, tragou outro cigarro que já havia acendido sem que eu percebesse, e só depois respondeu:

 

 

(Yelena) — Você não faz ideia da burrada que acabou de cometer.

 

 

Me aproximei até ficar ao alcance dela.

 

 

(Vick) — E você? — perguntei, baixo. — O que vai fazer com isso agora?

 

 

Ela me olhou de volta, séria, e havia algo novo ali. Algo que não era só desprezo, nem ódio, nem sarcasmo. Algo que me fez esquecer quem ela era, quem eu era, e o que estava em jogo.

 

Por um momento, parecia que Yelena ia dizer algo importante, talvez a primeira verdade crua que ela me daria. Mas em vez disso, ela apenas jogou a cabeça para trás, soltou a fumaça no ar e murmurou:

 

 

(Yelena) — Nada. Absolutamente nada.

 

 

E mesmo assim, eu sabia. Aquele "nada" dela carregava um universo inteiro escondido.

 

Fiquei ao lado do carro, olhando para ela, até que o cigarro terminou. Então ela apagou a brasa no metal, me lançou um olhar atravessado e disse:

 

 

(Yelena) — Vamos. Temos muito a fazer.

 

 

Mas quando voltamos para dentro do carro, o silêncio não era mais o mesmo. Não era vazio, não era indiferente. Era cheio de tudo aquilo que nenhuma das duas tinha coragem de admitir em voz alta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O apartamento de Yelena não era novidade para mim, e, talvez justamente por isso, incomodava ainda mais. Não havia calor, não havia vida. Cada detalhe parecia escolhido para impressionar, para criar uma atmosfera de luxo e distância ao mesmo tempo. Mármore claro no chão polido, refletindo as luzes frias embutidas no teto. Cortinas longas de tecido pesado, que não serviam apenas para filtrar a luz da cidade, mas para moldar o ambiente à vontade dela.

 

As paredes não exibiam quadros pessoais nem fotografias; no lugar disso, obras caras de artistas contemporâneos, escolhidas mais pela assinatura do que por qualquer apego estético. A cozinha, aberta e minimalista, parecia ter saído de uma revista: eletrodomésticos de aço escovado, superfícies sem uma migalha fora do lugar. O tipo de espaço que dava a sensação de ser usado mais para encenação do que para preparo real de refeições.

 

Eu me lembrava da primeira vez que pisei ali, tinha me sentido uma intrusa em um palácio envidraçado. Agora, a sensação era ainda mais intensa, porque eu sabia mais sobre ela. Sabia do que Yelena era capaz. Sabia da distância entre quem ela mostrava ao mundo e o que escondia quando ninguém olhava.

 

Assim que entramos, ela seguiu direto para a sacada, como se fosse um animal acostumado a um mesmo ritual. Abriu a porta de vidro, acendeu um cigarro e se deixou engolir pela noite da cidade. Um copo de vodka apareceu na mão dela poucos minutos depois, preenchido até a metade.

 

Enquanto isso, eu fiquei na sala, parada no centro daquele cenário perfeito e desconfortável. O ponto chiou no meu ouvido, e Rick apareceu com sua insistência habitual.

 

 

(Rick) — Victoria, está tudo bem?

 

 

Fechei os olhos e respirei fundo antes de responder.

 

 

(Vick) — Sim.

 

 

(Rick) — Você tem certeza?

 

 

Antes que eu pudesse responder, a voz de Ethan entrou, carregada de desprezo:

 

 

(Ethan) — Não se engane. Ela está tentando manipular você… 

 

 

As palavras dele bateram fundo em mim, de um jeito que não deveria. Eu sabia que não podia dar importância. Mas doeu. Doeu porque, de alguma forma, eu queria acreditar que havia algo verdadeiro ali.

 

Meu tom saiu mais ríspido do que eu gostaria:

 

 

(Vick) — Está tudo bem. Mais tarde atualizo vocês.

 

 

Desativei o microfone. O clique seco foi libertador. Pela primeira vez naquela noite, o silêncio não era só dela, era meu também.

 

Peguei o celular e pedi comida. Eu precisava de algo sólido, real, para segurar o peso que se acumulava no meu estômago. Pedi por nós duas, ainda que tivesse quase certeza de que ela não tocaria em nada. Quando o pedido chegou, organizei tudo com calma, arrumando as tigelas e pães em pequenas travessas.

 

Levei uma bandeja até a sacada. Coloquei diante dela, sobre a mesinha baixa de vidro que sempre parecia intocada. O aroma da sopa quente se espalhou, mas Yelena nem olhou. Continuava apoiada na cadeira, cigarro entre os dedos, olhar perdido no horizonte de luzes e arranha-céus.

 

Eu não insisti. Apenas deixei a comida ali e recuei.

 

De volta à sala, depois do jantar, tomei banho e troquei de roupa. O pijama mesmo chique, parecia quase deslocado naquele ambiente de linhas duras e móveis caros, como se minha simplicidade fosse uma afronta à sofisticação calculada dela. Mas eu precisava daquilo, do conforto mínimo de um tecido macio contra a pele.

 

Deitei no sofá. O couro gelado contrastava com o calor do meu corpo, fazendo com que eu me encolhesse instintivamente debaixo do cobertor. Liguei o ponto de novo só para dizer, em voz baixa:

 

 

(Vick) — Vou dormir. Até amanhã.

 

 

Não esperei resposta. Tirei o ponto do ouvido e larguei sobre a mesa de centro, ao lado de uma escultura abstrata que parecia custar mais do que um carro.

 

Fiquei ali, imóvel, tentando encontrar descanso. Mas a mente não calava. Eu lembrava do rosto dela quando falou do pai e do irmão, da raiva quase infantil que mascarava outra coisa, algo mais profundo, mais difícil de admitir. Eu lembrava também de como ela me olhava, de como parecia me medir com os olhos, como se estivesse tentando decidir se eu era ameaça, distração ou outra coisa que ela ainda não tinha nomeado.

 

O tempo passou arrastado até que ouvi passos firmes ecoarem pelo chão de mármore. Abri os olhos e lá estava ela.

 

Yelena havia voltado da sacada. Sem o casaco, a camisa preta colava ao corpo de um jeito despretensioso, mas ainda assim magnético. O cabelo solto caía sobre os ombros, trazendo o cheiro de fumaça que parecia impregnar cada centímetro daquele apartamento.

 

Ela parou diante do sofá, e o silêncio se tornou mais denso. Eu me endireitei, tentando não demonstrar o quanto aquele olhar me atravessava.

 

 

(Yelena) — Vá para o quarto — ela disse, a voz baixa, quase uma ordem militar.

 

 

(Vick) — Estou bem aqui.

 

 

Foi tudo o que respondi. Simples. Firme.

 

Por um instante, pensei que ela fosse insistir, discutir, talvez até me arrastar. Mas não. Apenas me encarou, os olhos claros faiscando em algo que eu não conseguia decifrar. Então se virou e caminhou até o quarto. A porta se fechou atrás dela, e segundos depois ouvi a chave girando na fechadura.

 

Fiquei ali, sozinha, com o barulho abafado dela se movimentando lá dentro. O apartamento parecia ainda maior, ainda mais vazio.

 

Deitei de lado, abraçando o travesseiro. O sono veio lento, pesado, cheio de pensamentos embolados. Quando finalmente cedi, já era madrugada profunda.

 

A manhã não chegou de repente. Arrastou-se. A claridade cinzenta invadiu o apartamento pelas frestas das cortinas, transformando as linhas de mármore e vidro em algo quase fantasmagórico. Eu abri os olhos devagar, com a sensação de que a noite ainda não tinha acabado de verdade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Yelena surgiu pela sala como uma rajada de vento, não caminhava, corria, e cada passo dela fazia o piso engolir o som num estalo surdo. Seus olhos verdes ardiam de urgência, e não demorou nem um segundo para eu perceber o motivo.

 

 

(Yelena) — Meu pai está chegando. — As palavras saíram cortantes, rápidas demais, como se cuspidas.

 

 

Minha respiração parou no ato. O coração deu aquele salto dolorido dentro do peito, o tipo de impacto que arranca todo o ar dos pulmões. Não houve tempo para processar, apenas me ergui num pulo do sofá e segui o rastro dela, tentando recolher tudo o que estivesse à vista.

 

Meus pertences estavam espalhados: o blazer jogado sobre a poltrona, minha blusa sobre o braço do sofá, o ponto desligado na mesinha, e até o pequeno estojo com as ferramentas do equipamento que eu havia deixado aberto. Se Viktor entrasse e notasse qualquer irregularidade… seria o fim.

 

Yelena pegava tudo com precisão, sem esbarrar em nada, e eu a seguia, sentindo minhas mãos tremerem. Peguei o microfone e o ponto, joguei para dentro da maleta e fechei tão forte que temi quebrar. Yelena já recolhia dois copos com resquícios de whisky e o prato ainda com metade da comida fria que eu havia pedido na noite anterior. Atirei a bandeja na pia e enfiei no fundo os restos, sem me importar com o barulho metálico que ecoou.

 

 

(Yelena) — Anda, Victoria! — ela sibilou, já empurrando algumas das minhas coisas para dentro do quarto.

 

 

Corri até ela, levando a mochila e o estojo. No quarto, a cama arrumada da noite anterior eram um detalhe que nos condenaria. Não podíamos deixar sinais de que dormimos separadas. As cobertas estavam bagunçadas apenas de um lado, o dela. Yelena puxou com força o lençol, espalhando o amassado pelo colchão inteiro, depois atirou dois travesseiros de forma proposital no chão, simulando descuido.

 

 

(Yelena) — Vai pra cama. — A ordem dela me atingiu seca, sem espaço para discussão.

 

 

Meu estômago se revirou. Minhas mãos ainda tremiam quando puxei meu pijama pela gola e o arranquei depressa. O tecido escorregou até cair no chão, revelando apenas minha lingerie. Uma escolha automática: se Viktor entrasse e suspeitasse, ao menos faria sentido que eu estivesse ali, nua, vulnerável, como ela queria aparentar.

 

Entrei debaixo das cobertas sem pensar, puxando-as até o pescoço. Meu corpo fervia, mas não apenas pelo nervosismo. Estar naquele quarto, naquela cama, ao lado dela, era um incêndio dentro de mim que não se apagava nunca.

 

Yelena largou o celular na mesinha, após apagar rapidamente uma mensagem de Nikolai que não tive tempo de ler. Seu corpo também estava quase nu, apenas calcinha e sutiã, a pele clara refletindo a pouca luz do abajur ainda aceso. Apagou a tela do celular, desligou o abajur, e em seguida deslizou para a cama ao meu lado, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

 

Senti seu corpo se colar ao meu por trás, o braço dela me envolvendo com firmeza, o hálito quente próximo ao meu ouvido quando murmurou apenas:

 

 

(Yelena) — Relaxa.

 

 

Ela não fazia ideia do quanto era impossível relaxar naquela situação.

 

Meu coração parecia um cavalo em disparada, galopando descontrolado dentro do peito. A Glock dela estava escondida debaixo do travesseiro, e a minha também, fria, metálica, a centímetros da minha mão. Eu tentava não me mexer, mas a sensação da pele nua dela contra a minha incendiava todos os nervos do meu corpo. Era sufocante.

 

E então, o som que quebrou qualquer resquício de controle.

 

Clique.

 

A porta da frente. O trinco sendo girado.

 

Yelena moveu-se num reflexo. Em um segundo, seu corpo se afastou de mim e ela já estava com a pistola na mão, os olhos cravados na direção do corredor. Eu não conseguia respirar. Os passos ecoaram dentro do apartamento, fortes, determinados, preenchendo cada metro como um aviso de domínio.

 

E logo a figura dele surgiu. Viktor Volkov.

 

A imponência do homem tomava todo o espaço, mesmo acompanhado de Dimitri e do caçula, Nikolai. Sua expressão era fria, pétrea, e a presença dele tinha o mesmo efeito de uma sombra que engole a sala. Eu quase não conseguia mover os olhos, mas mesmo assim os desviei por um instante para Dimitri, que ostentava um sorriso de canto, como quem esperava esse momento.

 

Yelena ainda segurava a arma quando Viktor entrou no quarto. Num movimento controlado, mas não menos rápido, ela a deslizou de volta para debaixo do travesseiro, como se nada tivesse acontecido.

 

Ele não perdeu tempo.

 

 

(Viktor) — O que diabos você pensa que os negócios da família são, Yelena? — A voz dele era grave, ressoava como uma sentença. — Algum jogo em que pode decidir ficar na cama com… isso — ele apontou minimamente em minha direção, como se minha existência fosse apenas uma distração suja — em vez de cumprir sua parte?

 

 

Senti meu rosto arder. A vergonha me atingiu como uma bofetada.

 

Mas antes que eu pudesse sequer baixar o olhar, percebi o movimento de Yelena. Ela não piscou, não desviou, não recuou. A máscara dela estava de volta, impecável, fria. Mas eu sabia, eu sabia, que por trás daquela fachada havia fúria.

 

Minha respiração estava curta, meus dedos escondidos sob o cobertor roçavam a arma por reflexo. O quarto se encheu de um silêncio carregado, apenas os passos de Viktor avançando mais dois metros preencheram o ar. Dimitri permaneceu próximo à porta, observando, com aquele maldito brilho de triunfo.

 

Eu tremia por dentro, tentando controlar não só o medo de estar ali vulnerável, mas o desespero de saber que um único detalhe mal colocado poderia nos condenar.

 

E ainda assim, no meio desse caos, a única coisa que eu conseguia sentir era o corpo de Yelena, ainda quente contra o meu, impregnado na minha pele. A lembrança do toque dela me consumia, mesmo quando o perigo estava a um passo de distância.

 

 

Era impressionante como Yelena conseguia vestir a máscara da calma até mesmo no olho do furacão. Eu estava praticamente sem ar, com o coração socando meu peito em cada batida, escondida sob os lençóis ainda aquecidos do corpo dela, com a arma tateável debaixo do travesseiro e a lembrança recente de sua pele nua colada na minha ainda queimando na memória. Mas ela… ela simplesmente se ajeitou na cama como se a interrupção fosse um detalhe menor, como se não estivéssemos diante do patriarca Volkov em pessoa.

 

Com a postura relaxada, ela se apoiou contra a cabeceira, as pernas ainda esticadas sob o cobertor, o cabelo desgrenhado caindo de um jeito insolente sobre os ombros, o cigarro que ainda não tinha acendido equilibrado entre os dedos. Cruzou os braços e, olhando diretamente para o pai, soltou seca, o que soou mais como um tapa do que uma pergunta:

 

 

(Yelena) — O senhor nunca aprendeu a bater? — sua voz tinha aquele tom aveludado, preguiçoso, mas carregado de veneno. — E o que diabos Dimitri faz na minha casa?

 

 

Os olhos de Viktor se estreitaram. Vi o maxilar dele travar, a respiração se tornar pesada. Não era comum alguém falar assim com Viktor Volkov, o homem que tinha erguido um império inteiro no sangue e no medo. Era uma afronta. Mas Yelena não piscou, não desviou, não suavizou.

 

Olhei para Dimitri. Ele já estava vermelho, a respiração arfante, como um touro prestes a investir. O hematoma arroxeado na boca, resquício direto do soco que Yelena lhe dera no dia anterior, parecia gritar a humilhação que ele carregava. A cada segundo, eu esperava que ele explodisse.

 

E quase explodiu. Deu um passo à frente, a voz dele saindo em um rosnado, mas Viktor ergueu a mão, imperioso:

 

 

(Viktor) — Dimitri. — O tom era seco, gélido. — Controle-se.

 

 

Aquilo foi uma ordem, não um pedido. Vi o irmão mais velho recuar meio passo, mas a fúria continuava latejando no rosto dele, os punhos cerrados.

 

Foi então que Nikolai entrou no quarto. Diferente de Dimitri, ele não parecia inflamado. Ao contrário. A expressão era sóbria, quase tranquila, mas os olhos estavam atentos, vigilantes. Como se cada músculo dele estivesse pronto para reagir.

 

Sem dizer nada, ele se colocou ao lado da cama, um pouco à frente, numa posição que não deixava dúvida: se algo acontecesse, ele estava pronto para proteger Yelena.

 

O ar ali dentro era um campo de batalha invisível. Eu podia sentir o cheiro da tensão, o gosto metálico da adrenalina na boca.

 

Yelena respirou fundo e, sem pressa, cruzou as pernas debaixo do cobertor, inclinando a cabeça levemente.

 

 

(Yelena) — As coisas vão mudar — disse ela, firme. — Eu não vou mais ouvir os deboches de Dimitri calada. Não vou aceitar sequer que ele olhe na direção dela — e senti o impacto daquele pronome me atravessar como um raio. Ela estava falando de mim. O dedo de Yelena praticamente me expunha no meio daquela cena. — Muito menos que entre na minha casa sem ser convidado.

 

 

Dimitri bufou alto, a raiva transbordando. Mas Yelena não parou.

 

 

(Yelena) — Se ele é o herdeiro que o senhor tanto quer — sua voz foi subindo, incisiva — então que o coloque para fazer tudo sozinho. Eu não vou mais seguir ordens enquanto esse babaca continuar sussurrando no seu ouvido, espalhando discórdia como fez a vida inteira.

 

 

A cada palavra dela, Viktor parecia envelhecer e endurecer ao mesmo tempo. O rosto dele se fechava, a sombra de um pai desapontado misturada à de um chefe ultrajado.

 

 

(Viktor) — Yelena… — ele começou, numa advertência, mas ela ergueu a mão, cortando-o.

 

 

(Yelena) — Não. Escute. — Ela inclinou o corpo para a frente, os olhos faiscando como fogo verde. — Eu vou continuar aqui, vivendo como eu quiser. E se o senhor não gostar, paciência. Caso contrário, vou passar todos os dias na cama com ela.

 

 

Senti o meu corpo inteiro se contrair. A ousadia de Yelena era um tiro no peito do próprio pai, e ela me arrastava junto nessa exposição brutal. Meu rosto queimava, mas eu não ousei me mover.

 

Viktor respirou fundo, o olhar pesado se voltando para mim por um instante. Eu me senti como um inseto preso sob uma lente de aumento.

 

 

(Viktor) — As coisas não funcionam assim — disse ele, a voz grave, carregada de ameaça e convicção.

 

 

Yelena riu. Uma risada seca, cruel.

 

 

(Yelena) — Claro que não funcionam. Porque o senhor ainda deixa Dimitri envenenar tudo. — O olhar dela se cravou no irmão, como uma lâmina. — Ele já age como se fosse o chefe. Distribui ordens, espalha veneno, saboreia a discórdia. Mas sabe o que vai acontecer, pai? Um dia desses, o senhor vai aparecer morto, afogado na sua própria banheira, só para agilizar a sucessão. E quando isso acontecer, todos vão perceber que não existe liderança, só um marica que se acha homem.

 

 

As palavras caíram como socos no ar.

 

Dimitri explodiu:

 

 

(Dimitri) — Sua puta! — a voz dele era um trovão, o corpo avançando meio passo.

 

 

Mas Viktor rugiu, mais alto:

 

 

(Viktor) — Cala a boca! — o tom do patriarca cortou como uma lâmina.

 

 

O silêncio que se seguiu foi opressor. Dimitri ficou parado, trêmulo de raiva, a respiração acelerada, mas não ousou desobedecer.

 

Viktor voltou-se para ele com aquele olhar de aço que não admitia réplica:

 

 

(Viktor) — Vá para o carro. Agora.

 

 

Dimitri hesitou, os olhos cuspindo ódio em direção à irmã, mas obedeceu. Saiu bufando, batendo a porta com força atrás de si.

 

Eu finalmente soltei um pouco de ar, mas o clima continuava pesado.

 

Nikolai, como se um peso tivesse se dissipado, relaxou levemente. Encostou-se num móvel, cruzando os braços, e pela primeira vez vi uma sombra de sorriso no canto dos lábios dele, não de diversão, mas de quem aprova, em silêncio, a coragem da irmã.

 

Viktor, por outro lado, ainda permanecia no centro do quarto, imponente, a figura de um homem que carrega décadas de poder nos ombros.

 

 

(Viktor) — Você não entende, Yelena — disse ele, a voz agora mais baixa, mas igualmente cortante. — A família precisa de ordem. Precisa de unidade. Você me desafia como se fosse um jogo, mas isso não é um jogo.

 

 

Ela ergueu o queixo, implacável.

 

 

(Yelena) — Eu não sou um peão nesse tabuleiro. E não vou ser.

 

 

Os dois se encararam, pai e filha, como dois generais rivais, e eu tive a sensação de que estava testemunhando não apenas uma briga de família, mas o prenúncio de uma guerra.

 

Nikolai respirou fundo e quebrou o silêncio:

 

 

(Nikolai) — Pai. — A voz dele era calma, grave. — Talvez seja hora de escutar o que ela tem a dizer.

 

 

Viktor lançou um olhar para ele, mas Nikolai não recuou. E então, pela primeira vez, percebi que havia algo quebrando dentro daquela família, uma rachadura que nenhum poder poderia selar tão facilmente.

 

Eu permaneci imóvel, deitada sob os lençóis, os músculos rígidos, tentando não trair o turbilhão que me consumia por dentro. Era impossível ignorar a tensão sexual que ainda vibrava no meu corpo por estar tão próxima de Yelena, sentindo o calor dela ao meu lado. E, ao mesmo tempo, era aterrorizante ter Viktor Volkov a poucos passos, discutindo a sucessão de seu império criminoso, como se minha presença fosse apenas um detalhe inconveniente, ou talvez uma peça que poderia ser descartada a qualquer momento.

 

Mas Yelena, impassível, mantinha a pose. E naquele instante, mesmo sabendo de tudo o que ela era capaz, mesmo consciente do perigo que corria, eu não conseguia deixar de admirar a coragem feroz dela.

 

 

 

 

 

 

 

Ele ainda estava ali, Viktor, de pé, diante da cama, impondo a sua sombra sobre nós. Não havia nada de confortável na postura dele; era um homem que carregava o peso de todo o cômodo apenas por existir dentro dela.

 

Yelena não se moveu, embora eu tivesse a impressão de que seu corpo inteiro implorava por ar. Ela mantinha o queixo erguido, as mãos apoiadas discretamente sobre os lençóis, como se quisesse transmitir a ele a imagem de uma filha calma, intacta, que não se deixava quebrar mesmo depois do confronto com Dimitri.

 

Viktor demorou para falar. Seus olhos, os mesmos olhos claros que agora eu via refletidos nos de Yelena e de Nikolai, pairaram sobre ela como lâminas silenciosas. Eu não sabia se ele estava medindo forças ou apenas esperando que ela cedesse.

 

 

(Viktor) — Você é minha filha. — disse, enfim, com a voz grave, cortante. — E eu espero que aja como tal.

 

 

Yelena sustentou o olhar. Nenhum tremor na voz quando respondeu:

 

 

(Yelena) — Sempre agi, pai.

 

 

Aquela palavra, pai, carregava ferro e vidro quebrado ao mesmo tempo.

 

Ele não rebateu de imediato. Olhou para o chão, respirou fundo, e voltou a erguê-la em seu julgamento silencioso. Então, com uma calma que me soou quase cruel, completou:

 

 

(Viktor) — Tire o dia para pensar melhor, Yelena. Amanhã quero respostas mais claras.

 

 

Fez uma breve pausa, e o olhar dele desviou de Yelena para Nikolai, depois para mim. Eu me senti atravessada por aquela frieza absoluta.

 

 

(Viktor) — Com Dimitri... eu mesmo vou me resolver. — acrescentou, quase num murmúrio, como quem descarta um problema menor.

 

 

Era como se tivesse decretado uma sentença.

 

Yelena respirou fundo, os olhos faiscando, mas não contestou. Apenas baixou lentamente o olhar, como quem aceitava a ordem não por submissão, mas por estratégia.

 

Viktor então se virou. O som firme dos passos ecoou pelo assoalho impecável do apartamento, e cada um deles soava como uma corda apertando em torno do meu pescoço. A porta se fechou atrás dele com um estalo seco, e o silêncio caiu, pesado.

 

Foi nesse momento que percebi Nikolai. Ele permanecia encostado na moldura da porta, braços cruzados, expressão relaxada demais para a tensão que pairava ali. Quando os olhos dele encontraram os da irmã, um sorriso pequeno e enviesado se abriu em seus lábios. Em seguida, a piscadela rápida, cúmplice, irônica, como se dissesse sem palavras: você conseguiu mais uma vez.

 

Yelena sorriu. E manteve a postura até ele também sair.

 

E assim, de repente, o apartamento ficou vazio.

 

Vazio de presenças, mas ainda carregado da sombra deles.

 

Eu estava meia deitada ainda do meu lado da cama, ainda tensa, quando senti o movimento dela. Yelena escorregou devagar, o corpo se afundando novamente entre os lençóis. Virou-se de costas, os olhos presos ao teto alto e branco, e só então deixou escapar uma respiração longa, como quem finalmente podia soltar o fôlego contido.

 

Eu, sem perceber, relaxei também. O peito afundou, e percebi como estava rígida, como se tivesse travado até a respiração enquanto Viktor esteve ali. Agora, com o espaço devolvido a nós duas, a atmosfera parecia mudar de cor, menos aço, mais carne.

 

Fiquei em silêncio, observando. Ela parecia imóvel, mas havia algo de tremor na forma como os dedos dela batiam devagar contra o lençol, quase imperceptível.

 

E então, de repente, Yelena riu.

 

Foi um riso baixo, quase irônico, mas que trazia consigo um alívio tão humano que chegou a me desarmar. Virou o rosto para o lado, não diretamente para mim, mas perto o bastante para que eu visse o canto de seus lábios se erguer.

 

 

(Yelena) — Já pode respirar, agente. — murmurou, entre dentes.

 

 

Soltei um riso breve, mais por nervosismo do que por humor, e deixei meu corpo relaxar sobre o colchão, mantendo ainda alguma distância, mas perto o bastante para sentir o calor dela sob o mesmo lençol. Fiquei quieta. Minha mente girava entre a cena que acabara de presenciar e a vontade quase insuportável de deixar minha mão atravessar os centímetros de lençol que nos separavam até tocar sua pele. Era um desejo tão absurdo quanto perigoso, e mesmo assim latej*v* em mim como uma ferida aberta.

 

O silêncio foi se prolongando, espesso, cortado apenas pelo som distante da rua e pelo respirar lento de Yelena. E então, de repente, como se estivesse pensando em voz alta, ela falou:

 

 

(Yelena) — Posso te beijar?

 

 

Meu coração bateu tão forte que achei que ela ouviria. Virei o rosto devagar, encontrando os olhos verdes dela já fixos em mim. Não havia malícia naquele instante, não da forma habitual. Era uma pergunta crua, direta, desprotegida, e isso me deixou completamente sem chão.

 

A primeira reação foi o silêncio. Eu não sabia se deveria dizer sim, não, ou simplesmente fingir que não ouvira. Mas os olhos dela não me deixaram escapar; havia algo ali que pedia resposta.

 

 

(Vick) — Você... — comecei, e minha voz falhou. Engoli seco, recompondo o tom. — Você sabe o que está perguntando?

 

 

Ela arqueou uma sobrancelha, um gesto clássico de Yelena, mas não havia zombaria. Apenas paciência.

 

 

(Yelena) — Eu nunca pergunto duas vezes. — respondeu.

 

 

E foi nessa simplicidade que percebi: ela não estava blefando. Não era provocação, nem um jogo para me desestabilizar. Era desejo, cru, quase infantil em sua honestidade.

 

Senti o corpo inteiro formigar. As lembranças de todas as vezes que ela havia me encostado de forma “inocente”, ou das vezes que me fiz de indiferente enquanto ela deixava escapar olhares demorados, explodiram em mim como fogos de artifício.

 

 

(Vick) — Então... — respirei fundo, o coração descompassado. — Pode.

 

 

O sorriso que se abriu nos lábios dela não foi largo nem teatral; foi pequeno, contido, mas real. Yelena rolou devagar de lado, aproximando-se de mim como quem atravessa uma linha invisível. Seu rosto parou a poucos centímetros do meu, e senti o cheiro familiar do cigarro misturado ao perfume caro que parecia nunca abandoná-la.

 

Ela não me tomou de assalto, não me puxou com força como imaginei que faria. Apenas aproximou-se, lenta, estudando minhas reações, e quando seus lábios encostaram nos meus foi tão suave que quase não acreditei que fosse real.

 

O beijo começou como um sussurro, leve, cuidadoso, quase tímido. Mas a hesitação não durou. Bastou eu entreabrir os lábios, ceder àquele contato, para que a intensidade natural de Yelena surgisse. Sua mão deslizou até minha nuca, firme, puxando-me para mais perto, e o beijo ganhou força, como se fosse uma urgência há muito contida.

 

Meu corpo respondeu antes da minha razão. Afastei o lençol que nos separava e deslizei mais para junto dela, sentindo a pele quente contra a minha. Era como se todo o medo, toda a tensão e todo o ódio que eu deveria sentir simplesmente desabassem naquele instante, cedendo lugar a algo visceral, inevitável.

 

A língua dela buscou a minha com voracidade, e percebi que o autocontrole elegante e frio de Yelena não existia mais. Ela me beijava como quem precisava provar que estava viva, como quem precisava me devorar para se sustentar.

 

Por um instante, pensei em recuar. Em lembrar quem ela era, o que representava, o risco absurdo daquilo. Mas a verdade é que, naquele momento, eu não queria ser agente federal, não queria ser infiltrada, não queria ser nada além de uma mulher desejada.

 

E Yelena me desejava.

 

Quando nos separamos por um segundo, ambas ofegantes, ela encostou a testa na minha e deixou escapar um riso baixo.

 

 

(Yelena) — Achei que ia me dar um sermão. — sussurrou.

 

 

(Vick) — Ainda posso dar. — murmurei de volta, sem conseguir esconder o sorriso.

 

 

Ela não respondeu. Apenas me puxou outra vez, e o beijo voltou a crescer, dessa vez mais profundo, mais quente. Minha mão finalmente fez o que tanto evitara: deslizou pelo lençol até encontrar a pele nua da cintura dela. Era firme, suave e incrivelmente quente.

 

Senti o corpo dela estremecer sob meu toque, e isso me incendiou por dentro. Passei os dedos devagar, explorando, e ouvi um suspiro escapar de sua garganta.

 

 

(Yelena) — Cuidado, agente... — ela murmurou entre beijos, a voz rouca, carregada de desejo. — Você não sabe no que está se metendo.

 

 

Mas eu sabia. E naquele momento, pouco me importava.

 

O corpo dela sobre o meu era um peso delicioso, um fardo que eu não queria largar. Yelena me prendia contra o colchão como se tivesse decidido que eu era dela, e eu não encontrava forças para discordar. Ao contrário, cada músculo meu parecia ansiar por essa prisão, como se finalmente tivesse encontrado onde pertencer.

 

As mãos dela percorriam minha pele com uma precisão quase cruel. Não era carinho comum, era posse, era mapa, era fogo deixando rastros invisíveis que queimavam. Primeiro os dedos deslizaram da curva do meu ombro até a lateral da minha cintura, pressionando, apertando, como se quisessem marcar ali a forma da sua mão. O toque era forte, exigente, e arrancou de mim um suspiro pesado, um meio-gemido que eu nem percebi que escapava.

 

Quando suas unhas arranharam de leve a lateral da minha barriga, não consegui segurar um arquejo. Arqueei o corpo contra o dela, como se implorasse sem palavras por mais daquilo. O contraste era avassalador: a dor suave do arranhar contra o prazer latejante que corria em ondas dentro de mim. Cada arrepio parecia subir da pele até o coração, acelerando-o ainda mais.

 

Meus braços já estavam enroscados em seu pescoço, como correntes que não pretendiam soltá-la. Puxei seus cabelos escuros, longos, cheios de suor, apertando sem cuidado, querendo que ela sentisse a mesma urgência que me devorava. Ela soltou um riso abafado contra minha boca, como se se divertisse com meu desespero, e depois mordeu meu lábio inferior até quase doer. Eu gemi alto demais, e foi como se ela tivesse provado o som na língua, repetindo a mordida mais forte ainda.

 

Seus quadris pressionavam contra os meus, mas o que me deixava fora de mim era o joelho dela roçando justamente onde o calor em mim pulsava, implorando por atenção. Não havia ritmo no começo, apenas uma pressão constante, irritante e deliciosa, que me fazia contorcer contra ela. O atrito era cruel, e ao mesmo tempo era exatamente o que eu precisava. Eu ofegava, arfava, sem conseguir manter um padrão na respiração.

 

A cada vez que seu joelho subia mais, apertando, raspando contra aquele ponto sensível, eu sentia o corpo inteiro reagir. Era como eletricidade percorrendo minhas veias, como um trovão preso dentro do peito. Minhas mãos deslizavam pelas costas dela, encontrando cada tatuagem marcada em sua pele. As linhas em tinta eram como relevos quentes sob meus dedos, e eu seguia os desenhos cegamente, até apertar seus ombros com força.

 

 

(Vick) — Yelena… — saiu num sussurro rouco, mais um pedido do que um nome.

 

 

Ela mordeu minha garganta, bem na curva que sabia ser vulnerável, e eu estremeci inteira. As presas dela cravando ali foram cruéis, mas o prazer que veio logo depois foi avassalador. O contraste da dor e do calor me fez prender a respiração, e quando soltei, foi com um gemido mais alto do que eu pretendia.

 

Meu corpo se arqueava sozinho, como se buscasse ainda mais atrito. O joelho dela agora já se movia num ritmo mais definido, lento, provocativo, mas cada vez mais firme. Eu sentia cada investida como uma onda quebrando em mim, e sabia que não conseguiria segurar por muito tempo.

 

Minhas unhas se cravaram nos ombros dela, deixando marcas fundas, vermelhas, e ela não recuou. Ao contrário, pareceu se alimentar do meu descontrole. Sua boca desceu pela minha clavícula, ch*pando com força, sugando até que eu soubesse que aquilo ficaria marcado depois. Uma marca que diria, em silêncio, que eu era dela.

 

Minha respiração estava toda quebrada. Eu arfava como se o ar não fosse suficiente. E não era, não quando o calor se espalhava do meu ventre até os dedos dos pés, até o couro cabeludo. Eu já não era dona do meu corpo, era só um eco das reações que ela arrancava de mim.

 

E quando ela pressionou mais forte, quando mudou o ângulo do quadril e o joelho bateu exatamente onde eu precisava, eu perdi tudo. O mundo inteiro se reduziu ao choque da sua pele contra a minha, ao calor que crescia numa escalada sem volta.

 

Me agarrei ao pescoço dela, puxei seus cabelos com força, arrastei suas costas com minhas unhas e a beijei sem controle, sem fôlego. O beijo era um grito preso, um pedido desesperado. E foi assim, na mistura de gemidos e beijos, que o ápice me atingiu.

 

O corpo inteiro tremeu, arqueando contra o dela, e a explosão foi tão intensa que senti lágrimas quentes nos olhos. Um prazer brutal, avassalador, que me quebrou e me refez em questão de segundos. Eu gritei o nome dela entre dentes, abafado contra sua boca, enquanto cada músculo se contraía sem que eu pudesse controlar.

 

E Yelena, como se tivesse esperado por aquilo, segurou meu rosto entre as mãos, me obrigando a encará-la enquanto eu me desfazia inteira. Seus olhos verdes eram um abismo, um comando silencioso: olha pra mim enquanto se rende.

 

Eu me rendi.

 

Fiquei ali, ainda tremendo, meu corpo um campo em chamas, meu coração batendo rápido demais. Quando o choque começou a diminuir, percebi que ela sorria contra minha boca. Não um sorriso debochado, mas um sorriso de vitória, de satisfação.

 

Eu não sabia se ria ou chorava. Só conseguia me agarrar mais a ela, como se o mundo fosse desmoronar se eu soltasse.

 

E talvez tivesse sido exatamente isso que Yelena quis desde o começo.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 11 - Capitulo 11:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 13/05/2026

Eu tô apaixonada por essas duas....tudo contra e mesmo assim elas ali com entregas inteiras...

 

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/05/2026

Yelena é muito corajosa, enfrentou o pai a sangue frio. E Vick foi junto com ela. E depois da Adrenalina só beijos e amassos para acalmar a ansiedade de Yelena, pois a mulher fumou pra ver o caco. Fumo e uísque Não aguenta beber sem comer nada. Vick tem que fazer essa mulher se alimentar senão ela não vai aguentar o tranco.

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Eva Bahia
Eva Bahia

Em: 12/05/2026

Aeeee... Ela voltou..

Mulher, ti não pode demorar assim não! Nosso coração não aguenta de ansiedade e saudades dessa lindona da Yelena Que mulher viu!!

Ela tá num verdadeiro dilema. Coitada 

E Vitória tá perdidamente apaixonada pela russa.. elas são lindas!!

 

Parabéns Natália. Volte sempre!

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