• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Mundos invertidos
  • Capitulo 10

Info

Membros ativos: 9600
Membros inativos: 1621
Histórias: 1980
Capítulos: 21,038
Palavras: 53,303,267
Autores: 812
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: RIZE REZENDE

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026
  • 10 anos de Lettera
    Em 15/09/2025

Categorias

  • Romances (880)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Mundos invertidos
    Mundos invertidos
    Por Natalia S Silva
  • A volta do amor que nunca se foi
    A volta do amor que nunca se foi
    Por priskelly

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Ela Vale Milhões
    Ela Vale Milhões
    Por Bruna 27
  • A
    A Outra Metade do Amor
    Por Carol Rutz

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (880)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Mundos invertidos por Natalia S Silva

Ver comentários: 2

Ver lista de capítulos

Palavras: 7874
Acessos: 361   |  Postado em: 16/04/2026

Capitulo 10

Yelena 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de horas, talvez a noite inteira, talvez apenas um punhado de minutos que se esticaram como um vício, eu finalmente me rendi ao silêncio. O corpo dela estava entregue, pesado contra o meu, e mesmo assim eu podia sentir que a mente de Victoria não dormia. Ela respirava calma, sim, o peito subindo e descendo com a cadência certa, mas eu conhecia a diferença entre sono e vigília. Ela demorava a adormecer, como se o peso daquilo que tínhamos acabado de fazer esmagasse o ar dentro dela.

 

E eu entendia. Entendia melhor do que ela jamais saberia. Porque eu também já estive nesse lugar. O lugar em que se esquece de quem é, de quem deveria ser, e se entrega por instinto, por desejo, por fraqueza, ou por tudo isso junto.

 

Passei a mão devagar pelo braço dela, deitada de costas nos meus braços, e pensei que não havia vitória possível para ela. Não para Victoria. Não comigo. Porque, no fim dessa história, ela não sairia vencedora.

 

Hoje ela se entregou por ela, não pelo caso. Não pelo FBI. Não pelo teatro de infiltração que ela fingia sustentar.

Hoje, ela se entregou a mim.

E isso deixaria uma marca.

 

Quando eu fosse presa, ou morta, não importava em qual ordem, o que ela sentiria seria mais profundo do que vergonha. Ficaria uma cicatriz.

 

 

 

 

Acordei antes dela. O calor dela contra mim me arrastou de volta para a realidade, e o cheiro, a mistura de suor, de pele, de nós duas, me prendeu num transe rápido. Mas eu sabia que precisava me levantar. Se ficasse ali, por mais tentador que fosse, me tornaria refém da ilusão de que ela era minha.

 

Levantei devagar, deixando-a sozinha entre os lençóis. Caminhei até o banheiro. A pele ardia, e não era metáfora, havia marcas das unhas dela pelo meu corpo. Vermelhidão, arranhões, lembranças físicas do quanto ela tinha se perdido em mim. Cada uma delas queimava. Cada uma delas me excitava e me lembrava de que tudo era temporário.

 

Abri o chuveiro e deixei a água cair forte, quase dolorosa. O som abafava os pensamentos. Respirei fundo, fechei os olhos, e por um instante imaginei uma vida em que eu não precisasse esconder nada. Uma vida em que pudesse puxá-la pelo braço e dizer "você é minha" sem que isso fosse uma traição, uma armadilha, uma sentença. Mas a vida não era assim. Nunca foi. Nunca seria.

 

Saí do banho ainda molhada, enrolei a toalha no cabelo e vesti uma calça de moletom cinza e o primeiro sutiã preto que encontrei na gaveta. Não me importava em parecer desleixada, eu gostava de ver o desconforto dela quando me via desse jeito, exposta e natural ao mesmo tempo.

 

Na cozinha, preparei café. Forte, encorpado, do jeito que eu gostava. Pedi comida, porque eu sabia que ela precisaria. Sabia que ela acordaria com fome, mesmo que negasse, mesmo que tentasse manter a fachada de agente impecável. E eu gostava da ideia de ser a primeira a servi-la.

 

O pedido chegou rápido. Coloquei sobre a bancada: panquecas empilhadas com manteiga derretendo, ovos mexidos bem temperados, bacon crocante, algumas frutas frescas, morangos e uvas, e suco de laranja. Um café da manhã americano, desses que deixam qualquer um satisfeito. Coloquei tudo na bancada de mármore, organizei sem esforço, e servi minha própria dose de whisky. Aquele era meu ritual: café da manhã para os outros, whisky para mim.

 

Sentei-me no banco alto, a garrafa perto, e fiquei ali, esperando.

 

 

 

 

Ela apareceu minutos depois. O som da porta do banheiro, o arrastar dos pés. E então, lá estava: Victoria. Enrolada no meu robe preto, o tecido grande demais nela, caindo pelos ombros. O cabelo ainda úmido, pingando algumas gotas que escorriam pela clavícula. O rosto corado, não sei se pelo banho quente ou pelo que ainda ardia nela da noite passada.

 

Ela parou na entrada da cozinha. Os olhos correram pelo ambiente e se fixaram na bancada.

 

 

(Vick) — Você… — a voz dela falhou antes de se recompor. — Você fez café?

 

 

Sorri devagar, girando o copo de whisky na mão.

 

 

(Yelena) — Fiz pra você. — minha voz saiu tranquila, quase doce, mas carregada daquela ironia que eu nunca escondia.

 

 

Ela hesitou. Veio até a bancada como quem pisa em território inimigo. Sentou-se devagar, ajeitando o robe ao redor do corpo, como se o tecido fosse suficiente para apagar tudo o que tínhamos feito. Eu sabia que não era.

 

Ela olhou a comida. O cheiro a envolveu. E então, tímida, quase envergonhada, perguntou:

 

 

(Vick) — Posso comer?

 

 

(Yelena) — É pra você — repeti, inclinando o corpo para frente, apoiando o queixo na palma da mão enquanto a observava.

 

 

Ela pegou o garfo, cortou um pedaço da panqueca. Eu a vi morder, mastigar, engolir. E enquanto ela tentava fingir que tudo estava normal, eu a devorava com os olhos. A boca dela, ainda marcada pelos meus beijos. O pescoço, com manchas vermelhas que nem o robe escondia. O corpo inteiro, escondido, mas já meu.

 

Ela tentou disfarçar. Tentou se comportar como se fosse apenas um café da manhã. Mas eu sabia. Sabia que, por dentro, ela estava revivendo cada detalhe da noite anterior.

 

Eu não precisei dizer nada. Fiquei ali, bebendo meu whisky, estudando cada reação.

 

Quando ela terminou, limpou os lábios com o guardanapo e respirou fundo.

O FBI a puxava de volta. Eu vi no olhar dela.

 

 

(Vick) — Eu preciso… — a voz dela saiu baixa, mas firme. — Tenho que manter contato com a equipe.

 

 

(Yelena) — Eu também tenho que trabalhar. — retruquei, erguendo o copo vazio e o girando no ar.

 

 

(Vick) — Trabalhar? — ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

 

 

Sorri.

 

 

(Yelena) — É, detka. O mundo não para porque você passou a noite gritando meu nome.

 

 

O rubor tomou conta das bochechas dela, e eu adorei.

 

Ela foi para o quarto, pegou as roupas, vestiu-se com pressa, e ajustou o maldito ponto e o microfone no lugar. Eu observei cada movimento, cada tentativa dela de recompor a agente impecável. E admirei. Porque, mesmo tentando apagar, o corpo dela ainda falava por ela.

 

 

 

 

Quando saímos, fomos direto para o armazém. Minha família estava reunida lá. Homens, mulheres, todos da nossa linhagem, envolvidos até o pescoço.

 

Assim que entramos, Dimitri ergueu a voz:

 

 

(Dimitri) — O que ela está fazendo aqui? — o tom era cortante, acusador, como sempre.

 

 

Eu não hesitei.

 

 

(Yelena) — O mesmo que a piranha do nosso pai.

 

 

Meu pai virou o rosto para mim, ignorando a provocação. Ele não se abalava. Não comigo.

 

 

(Viktor) — Ela é de confiança? — perguntou, olhando para mim, mas de propósito na frente dela.

 

 

Eu não desviei os olhos. Olhei de volta, sem piscar.

 

 

(Yelena) — Ela sabe o que acontece com quem não é de confiança. — E então, firme, quase cruel — E ela é de confiança.

 

 

O silêncio caiu pesado no armazém. E, por um instante, Victoria não era agente, nem inimiga, nem nada além daquilo que eu declarei.

 

Minha mulher.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O resto da manhã seguiu como tinha que ser.

Fiz o que fazia de melhor: obedeci.

Não por devoção, não por crença, mas porque minha vida inteira tinha sido moldada assim, na estrutura rígida de uma família onde nada era maior do que a palavra do nosso pai.

 

Logo Nikolai chegou. Cumprimentou-nos de forma mecânica, fria, e entrou no seu papel perfeito. O filho exemplar. O herdeiro que qualquer um que visse de fora invejaria. Um fantasma de mim mesma, só que sem as tatuagens, sem a rebeldia aparente, sem o deboche que eu exibia. Perto de Victoria ele já havia mostrado outra face, a do homem debochado, ameaçador, cruel. Mas ali, diante de nosso pai, Nikolai não era nada disso. Era a sombra obediente que pairava sem ser notada, eficiente, discreta. Como se os dois homens fossem irmãos diferentes ocupando o mesmo corpo.

 

E eu sabia… sabia que Victoria estava prestando atenção. Seus olhos corriam, observando cada detalhe, cada gesto. Ela não confiava em nós, nem devia, mas naquele silêncio de Nikolai havia algo que a intrigava, que a confundia.

 

 

As reuniões aconteceram como sempre. A mesa tomada por homens que nunca tinham sido nada além de peões, soldados da engrenagem. Nosso pai, com sua postura ereta, como se fosse rei de algum império. E ao lado dele, a prostituta americana que se passava por esposa dedicada.

 

Chama-se Melissa. Melissa Hughes, que logo seria uma Volkov legítima. Americana até o último fio loiro que insistia em manter tingido num tom artificial de ouro barato. As unhas postiças vermelhas batiam contra o cristal da taça de vinho, e aquele som era irritante como um prego arranhando o vidro.

 

Melissa não fazia parte de nada. Era uma espectadora, mas gostava de fingir influência. Puxou assunto com Victoria como sempre fazia com qualquer uma das mulheres que surgiam perto de mim ou de Dimitri. Tentava descobrir se havia espaço para manipulação, se Victoria seria mais uma “caça-fortunas” atraída pelo poder e pelo dinheiro da família. Não percebia a diferença nos olhos dela. Não entendia que Victoria não olhava para os carros, para os anéis, para o ouro espalhado sobre a mesa. Ela olhava para nós. Para os movimentos. Para as lacunas de silêncio. Para o que não era dito.

 

Melissa tentou puxá-la para conversas triviais. Perguntou sobre roupas, sobre viagens, sobre dinheiro. Perguntou se ela já tinha pensado em abrir algum negócio, se interessava-se por “fazer parte”.

Victoria respondeu com a mesma habilidade com que atiraria em alguém: firme, objetiva, sem abrir espaço. Mas por dentro eu sabia que ela ardia. Eu sentia o calor da desconfiança dela desde que entramos naquele armazém.

 

No final de tudo, qual a noite já caia, veio o problema.

Sempre há um problema.

 

Um dos empregados de meu pai, um homem inútil que já passara da linha da confiança faz tempo, tinha cometido um erro imperdoável. Tinha tocado onde não devia. Pior: violentado uma das empregadas da casa.

 

Meu pai não perdoava esse tipo de coisa. Talvez a única virtude dele era essa.

Eu já sabia qual seria a sentença antes mesmo de ouvir a ordem.

 

Meu pai virou-se para mim, como fazia sempre que o sangue precisava ser derramado, e disse apenas:

 

 

(Viktor) — Yelena, resolva.

 

 

(Yelena) — Sim, pai.

 

 

E como se não bastasse, seus olhos verdes se moveram até Victoria.

 

 

(Viktor) — Leve-a com você. Já que fará parte da família…

 

 

Não havia espaço para recusa.

 

Ela veria.

Ela veria não apenas a mulher que a beijava, que a possuía na escuridão de um quarto; não apenas a filha rebelde tatuada. Ela veria quem eu realmente era. O que eu fazia. O peso que carregava por ter nascido Volkov.

 

O homem já estava amarrado e amordaçado nos fundos do armazém. Noah estava ao meu lado, firme como sempre, os olhos azuis frios como gelo. Zoja também. A família. O círculo que executava.

 

Victoria veio conosco. Não por escolha, mas porque o destino dela estava atado ao meu, ainda que de forma doentia.

 

Jogamos o estuprador no porta-malas de um dos carros. O silêncio entre nós era sufocante. O som metálico da tampa fechando pareceu um martelo selando sua sentença.

 

Seguimos pela cidade. O motor rugia, e por alguns minutos tudo parecia normal. Apenas mais um deslocamento noturno por Nova York. As luzes passavam rápidas pelas janelas. Victoria estava ao meu lado, imóvel, mas eu sentia a inquietação dela vibrando como eletricidade presa.

 

 

(Vick) — Você vai mesmo fazer isso? — a voz dela quebrou o silêncio como uma lâmina.

 

 

Virei o rosto devagar.

Olhei para ela como quem encara um animal selvagem prestes a fugir.

 

 

(Yelena) — Eu não “vou”, Victoria. Eu preciso.

 

 

Ela cerrou os lábios. Quis dizer algo, mas se calou.

O carro mergulhou em direção a Staten Island. À nossa frente, o vazio do Freshkills Park se aproximava. Um lugar que muitos fingiam não existir, que o Estado jurava ter “limpo”, transformado em parque. Mas eu sabia. Meu pai sabia. Todos nós sabíamos. Ainda havia cantos escuros o suficiente para esconder os pecados.

 

Chegamos.

O carro parou. O som do motor cessou, e o silêncio da noite tomou conta.

 

Zoja abriu o porta-malas. O homem lá dentro se contorceu, gem*ndo pela mordaça. O cheiro de medo era tão real quanto o suor escorrendo da testa dele.

 

Victoria deu um passo para trás. Eu percebi. Não pelo medo de mim. Mas pelo choque. Ela não era uma iniciante. Já tinha visto corpos, mortes, execuções. Mas não assim. Não desse lado. Não pelas minhas mãos. O ponto gritava no seu ouvido, mas ela sabia. Eu sabia. Precisava ser feito. Ou nunca colocariam algemas nos Volkov.

 

Puxamos o homem. Ele caiu de joelhos na terra úmida, as roupas sujas, os olhos arregalados.

 

Olhei para Victoria.

Olhei fundo, como se pudesse atravessar suas defesas.

 

 

(Yelena) — É isso, malishka. — sussurrei. — Quer saber quem eu sou? Quer saber quem está na sua cama? Então veja.

 

 

Victoria respirou fundo, os olhos dela brilhavam com algo entre ódio, dor e desejo.

Ela queria me parar. Mas também queria me entender.

 

Eu tirei a arma da cintura. O clique do metal ecoou como um trovão no silêncio.

O homem tentou se arrastar, implorando com o corpo. Noah segurou-o pelos cabelos, obrigando-o a erguer o rosto.

 

 

Victoria finalmente falou:

 

 

(Vick) — Você não precisa…

 

 

Virei para ela, e por um instante, a frieza que sempre usei para esconder minha humanidade se partiu.

 

 

(Yelena) — Eu preciso.

 

 

E puxei o gatilho.

 

O som ecoou pelo parque. Pássaros levantaram voo das árvores distantes. O corpo tombou, inerte, na terra escura.

 

Victoria fechou os olhos. Mas não fugiu. Não gritou.

Ela ficou.

 

Eu sabia que ela nunca mais me olharia da mesma forma.

 

E mesmo assim, por dentro, parte de mim queimava porque eu queria que ela olhasse.

Queria que ela visse o monstro inteiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Zoja e Noah cavavam como dois cães treinados, rápidos, com os músculos tensos, a pá afundando na terra úmida. O barulho metálico batendo contra pedras soltas preenchia o silêncio da noite, interrompido apenas pela respiração deles e pelo som seco do cigarro queimando entre os meus dedos. O gosto ácido da fumaça preenchia minha boca, o calor da ponta brilhando a cada tragada, e eu alternava a cinza em queda com o movimento meticuloso do buraco sendo aberto.

 

O corpo estava ali, a poucos metros de nós, estirado como uma coisa sem dono. Um fardo. Um erro. Um problema resolvido do único jeito que nossa família resolvia. O rosto dele ainda estava coberto pelo sangue seco da surra, a mordaça caída, a boca entreaberta. Agora era apenas carne prestes a se misturar com a terra.

 

Victoria falava baixo, mas eu a ouvia, não tanto pelas palavras, mas pelo ritmo. Um sussurro contido no microfone, um tom urgente e irritado, como se estivesse brigando com a própria consciência.

 

 

(Vick) — …vocês não entendem — ela dizia, andando de um lado para o outro, com os braços cruzados sobre o peito, a respiração curta. — Se acharem esse corpo, acabou. Não só a operação, não só a cobertura… acabou pra mim também.

 

 

O fone em sua orelha piscava levemente, um brilho azul discreto que denunciava a comunicação. Ela não se importava em expor aquilo na frente de Zoja e Noah. Eles sabiam. Nós todos sabíamos. O jogo estava aberto e, ainda assim, ela continuava jogando.

 

Traguei fundo, segurei o fumo nos pulmões até arder, e soltei devagar, vendo a fumaça subir em espirais preguiçosas no ar frio. O gosto me lembrava quem eu era: filha de Volkov. O sangue da família correndo em mim como veneno.

 

 

(Vick) — Não podem encontrar esse corpo — ela repetia, a voz mais firme. — Se encontrarem, eu também estou nele. Vocês vão ter que fechar os olhos, Rick. Até isso acabar e você sabe disso...

 

 

Sorri de canto, amarga. O jeito como ela defendia a própria vida e, por tabela, a minha, para a equipe dela… era contraditório. Aquela mulher que gritou meu nome na cama horas antes, que me arranhou até sangrar, agora gritava por outro motivo. Por sobrevivência. Por dever.

 

Eu observei em silêncio, sentada no capô do carro, os pés firmes na terra, as cinzas do cigarro caindo sobre meu joelho. O corpo foi arrastado até a cova por Zoja e Noah. O barulho do peso batendo contra a terra solta ecoou fundo. Jogaram-no de qualquer jeito, sem cerimônia, como se fosse lixo. Porque era isso: lixo humano.

 

Victoria desviou o olhar. Não queria ver, mas viu. Sempre via. Sempre registrava. A agente dentro dela nunca dormia.

 

 

(Zoja) — Rápido — disse Zoja, limpando o suor da testa e voltando a enterrar com força. A pá cortava a noite como um compasso de guerra.

 

 

Victoria parou, finalmente em silêncio. O microfone desligado. A fachada de controle começando a rachar. Ela me olhou. E naquele olhar havia tudo: repulsa, medo, raiva… e o eco do desejo da noite anterior.

 

Liguei para o meu pai com a calma de quem pede um táxi.

 

 

(Yelena) — Está feito — falei em russo, sem emoção.

 

 

Ele não respondeu nada além de um breve, “bom”. Mais um ponto para a obediência. Mais alguns anos para minha sentença futura. Mais um tijolo no muro que me separava de qualquer redenção.

 

Bloqueei a tela do telefone e o guardei no bolso da calça. Acendi outro cigarro antes que o anterior tivesse se apagado completamente. O gosto de nicotina e sangue sempre andaram juntos na minha boca.

 

Quando a terra cobriu o último pedaço do homem, Noah limpou as mãos na calça preta e cuspiu de lado. Zoja suspirou, exausta, mas sem remorso.

 

Eu fiquei ali, fumando, olhando Victoria.

 

Ela não disse nada. Não precisava. O silêncio dela gritava mais alto que qualquer acusação. Eu sabia o que passava pela cabeça dela: cada grito abafado do homem, cada tiro que o perfurou. Ela me via pelo que eu realmente era. Não a mulher que a pegou no colo e a fez perder os sentidos no quarto. Não a amante de madrugada. Mas a filha Volkov.

 

E, pela maneira como ela me encarava, com os olhos arregalados, a boca trêmula e os dedos apertando os braços como se tentasse se segurar em si mesma, eu sabia que aquilo ia assombrar o que tínhamos vivido.

 

Levantei do capô e caminhei até ela devagar, soltando a fumaça pelo nariz, cada passo mais pesado do que o anterior. Ela recuou um pouco, quase imperceptível, mas recuou. E eu sorri.

 

 

(Yelena) — É isso, detetive — falei baixo, me inclinando para perto dela, o cheiro de fumaça e pólvora colado na minha pele. — Essa sou eu.

 

 

Ela piscou, nervosa, como se tentasse esconder o tremor.

 

 

(Vick) — Eu já sabia — respondeu, a voz falhando, mas firme o bastante para soar como defesa. — Eu sempre soube.

 

 

Inclinei a cabeça, olhando-a como quem encara um espelho torto.

 

 

(Yelena) — Não, Victoria. Você só achava que sabia.

 

 

Soltei a cinza no chão, olhei para o monte de terra recém-fechado, e então voltei para ela.

 

O silêncio pesava tanto quanto a noite ao redor. Eu sabia, e ela também, que o que tivemos na noite passada não se repetiria tão cedo. Não depois de uma cova aberta diante dos olhos dela.

 

Ela não conseguia me olhar sem lembrar. Sem sentir. Sem pesar entre a mulher que a tocou e a assassina que enterrava corpos sem pestanejar.

 

E eu? Eu apenas traguei mais uma vez e deixei a fumaça escapar, sabendo que aquela distância, agora, não seria fácil de apagar.

 

 

 

 

O silêncio entre nós, dentro do Aston, era mais denso do que o cheiro de sangue que ainda parecia grudar na minha pele, mesmo depois de toda a lavagem, mesmo com o carro do meu pai já higienizado até os ossos. Victoria, ao meu lado, tinha os olhos fixos no vazio além do vidro. O que ela repensava ali, tão quieta, eu sabia. Não era só a operação, nem o papel dela como agente infiltrada. Era a própria vida. O que significava estar sentada ao lado de alguém como eu, depois de ter visto o que viu, depois de ter sentido na pele que, por trás da sedução, do jogo, havia algo que não tinha como apagar: eu era uma Volkov. E Volkovs obedeciam.

 

No apartamento, larguei as chaves sobre a bancada e fui direto para o banheiro. A água quente me queimava os ombros, escorrendo pesada sobre a pele. Cada gota parecia tentar arrancar de mim a cena de mais cedo, mas não adiantava. Execuções não somem. Elas ficam. E eu já estava coberta delas até o pescoço. Enquanto isso, eu ouvia a voz dela do lado de fora, baixa, contida, como se cada palavra que dizia pelo ponto fosse um pedido de socorro. Não para ela, Victoria nunca se salvaria sozinha. Mas para aqueles do outro lado, sua equipe, desesperada por provas, faminta por nomes, datas, locais. Dossiês. Era o que construíam com cada frase dela. Um quebra-cabeça que teria meu rosto estampado em todas as peças.

 

Eu saí do banho, enrolei a toalha no corpo e atravessei a sala. Victoria estava sentada no sofá, de pernas cruzadas, segurando uma xícara de café como se fosse a última coisa que a mantinha em pé. Os ainda soltos, os olhos fundos, a respiração irregular. Ela levantou o olhar quando me viu abrir a garrafa de vodka e encher outro copo até a borda.

 

 

(Vick) — Você vai morrer desse jeito — resmungou, sem levantar muito a voz, como se estivesse cansada demais até para discutir. — Precisa comer.

 

 

A frase foi simples, quase banal. Mas bateu em mim como um soco, daqueles que pegam de surpresa, entre as costelas. Eu engoli o primeiro gole, senti a queimação descendo pela garganta e respirei fundo. Se fosse outra pessoa, eu teria respondido com deboche, teria virado as costas e rido da audácia. Mas dela... dela eu só absorvi. Não deixei transparecer, claro. O coração endurecido não se quebra assim tão fácil. Mas mexeu comigo.

 

 

(Yelena) — Quer pedir comida? — perguntei, deixando o copo sobre a bancada.

 

 

Ela balançou a cabeça de imediato. — Não. Prefiro sair. Quero respirar... — Os olhos dela se desviaram dos meus, carregados de uma fadiga que ia além do físico. — Estou saturada.

 

 

Saturada. A palavra ficou ressoando na minha mente. Eu sabia exatamente do que ela estava saturada: da merd* que eu era obrigada a mostrar. Do peso da obediência, da sujeira que grudava em tudo que tocávamos. Mas, ainda assim, ela estava ali.

 

Assenti devagar. 

 

 

(Yelena) — Então vamos sair.

 

 

Ela parecia surpresa, talvez esperasse que eu recusasse, que eu a prendesse dentro daquele apartamento até que esquecesse o gosto do que viveu horas antes. Mas não. Eu sabia que precisava dar a ela um pouco de ar, ou quebraria antes da hora.

 

Troquei a toalha por uma calça de alfaiataria preta e uma camisa de seda, sem me preocupar em esconder as marcas vermelhas que as unhas dela tinham deixado na minha pele na noite anterior. Depois que ela tomou banho, peguei o casaco, as chaves, e, quando a vi surgir pronta para sair, com um vestido simples que achara no armário, um que não denunciava nem sua função de agente, nem a amante improvisada que fora comigo, eu respirei fundo.

 

 

(Yelena) — Vem. — Fiz um gesto com a cabeça, abrindo a porta.

 

 

No carro, a cidade de Nova York se abriu diante de nós como uma fera de concreto e luz. O trânsito, os letreiros, o som distante de sirenes que nunca cessavam. Mas eu sabia onde a levar. Não a nenhum dos lugares que minha família costumava frequentar. Não a restaurantes onde olhares se cruzavam e informações circulavam junto ao vinho. Levei-a a um bistrô discreto, em um quarteirão quase esquecido do Brooklyn, onde as luzes eram baixas, a música suave, e ninguém se importava com quem você era. Um lugar seguro, ao menos por algumas horas.

 

Quando entramos, o cheiro de pão fresco e especiarias nos envolveu. A recepcionista nos levou a uma mesa de canto, coberta por uma toalha branca simples. Victoria deslizou para a cadeira oposta à minha, ajeitou o vestido sobre as pernas, e eu pude ver em seus olhos um pequeno alívio, como se só o fato de não estar cercada pela minha família já fosse uma dádiva.

 

Pedi vinho para mim e água para ela. O cardápio era modesto, mas honesto: pratos italianos, massas feitas na hora, carne grelhada. Nada do luxo frio dos restaurantes da Quinta Avenida, onde tudo era pose. Aqui, havia vida.

 

 

(Yelena) — Escolhe o que quiser — disse a ela, entregando o menu.

 

 

Ela demorou, percorrendo as opções como quem precisava se distrair. No fim, pediu lasanha. Eu pedi bife bem passado.

 

Enquanto esperávamos, ficamos em silêncio. Não era um silêncio hostil, nem de tensão. Era um silêncio que vinha depois de algo grande, algo que não tinha como ser explicado em palavras. Eu apenas a observava. O jeito como ela tocava o guardanapo, como ajeitava os cabelos ainda um pouco úmidos atrás da orelha. Pequenos gestos que não combinavam com a imagem da agente fria que devia ser.

 

Quando a comida chegou, o vapor da lasanha subiu, cobrindo-a por um instante, e ela respirou fundo, como se aquele cheiro fosse um lembrete de normalidade. Pegou o garfo, cortou o primeiro pedaço e levou à boca com cuidado, quase reverente. Eu não tirei os olhos dela.

 

 

(Vick) — O que foi? — perguntou, desconfortável, depois de notar meu olhar fixo.

 

 

Dei um meio sorriso, bebendo um gole de vinho. 

 

 

(Yelena) — Nada. Só estou vendo se você vai sobreviver ao jantar.

 

 

Ela revirou os olhos, mas um canto de seus lábios se ergueu, ainda que de leve.

 

Aquela cena poderia enganar qualquer um. Duas mulheres jantando num bistrô. Uma noite normal em Nova York. Mas dentro de mim, eu sabia que nada era normal. E dentro dela também. Porque, no fundo, ambas estávamos cientes de que a paz ali era uma farsa temporária. A guerra esperava do lado de fora, e a cada garfada que ela dava, eu só pensava em quanto tempo ainda teríamos antes que tudo ruísse de vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fim do jantar foi estranho.

Victoria não estava confortável, eu podia ver isso nos olhos dela, naquela postura rígida, a mesma que usava quando queria me convencer de que nada lhe afetava. Passamos a maior parte da refeição em silêncio. Eu com o cigarro apagado entre os dedos, jogando cinzas imaginárias num cinzeiro inexistente; ela, tentando se convencer de que aquele restaurante afastado, escondido das sombras da minha família, não era apenas mais uma estratégia minha para fazê-la relaxar e abaixar a guarda.

 

Do ponto, vez ou outra, alguém falava alguma coisa. Instruções, perguntas sobre localização, comentários abafados, todos tentando sondar se ela ainda estava em segurança. Eu ouvi a voz metálica escapando do minúsculo transmissor escondido no ponto dela, e o som me irritava mais do que deveria. Estava cansada de dividir cada segundo com aquela audiência invisível. A diferença era que Victoria não desligava; ela respondia, sempre serena, como se estivesse em plena reunião de terno no FBI. Mas eu via seus dedos apertando o guardanapo, o olhar perdido no copo de vinho que não terminava.

 

Eu me submeti ao silêncio. Não fazia perguntas, não tentava abrir caminho em sua fortaleza. Dirigi de volta com os olhos fixos no asfalto, o cigarro aceso entre os lábios, a fumaça preenchendo o carro como um manto pesado. Ela não reclamou do cheiro. Nem tossiu. Apenas permaneceu ali, de perfil, observando a estrada passar.

 

Quando chegamos ao meu apartamento, ela confirmou para a equipe que estava segura. A voz dela mudou no instante em que fechamos a porta atrás de nós: formal, quase fria, como se precisasse dar provas de que nada saíra do controle. Guardou o ponto, o microfone, toda a parafernália que a mantinha amarrada àquela gente. Por um segundo, desejei arrancar aquilo tudo dela e atirar pela janela. Queria Victoria inteira para mim, sem o FBI, sem a lei, sem a maldita sensação de que cada palavra minha poderia ser gravada.

 

Ela andou pelo apartamento sem olhar para mim, foi até o quarto. Abriu uma gaveta, mexeu nas roupas como se já fosse íntima do espaço, e escolheu um pijama. Não um qualquer: de seda marfim, delicado, com botões pequenos que refletiam a luz do abajur. Era elegante demais para alguém que pretendia dormir num sofá.

 

Voltou para a sala com aquele pano escorregadio no corpo, apanhou a Glock da bolsa, conferiu o pente com a naturalidade de quem respira, colocou a arma na cintura como a boa agente que era, e seca perguntou:

 

 

(Vick) — Quais cobertores e travesseiros eu posso usar?

 

 

Eu sabia. Claro que sabia. Ela ia dormir na sala. Me mordi por dentro, sem entender como a mesma mulher que na noite anterior se entregara inteira ao meu corpo agora se escondia atrás de protocolos.

 

 

(Yelena) — Você está falando sério? — perguntei, apoiada na bancada, já com um copo de vodka na mão.

 

 

(Vick) — Estou. — O tom não deixava espaço.

 

 

Insisti.

 

 

(Yelena) — O quarto é grande, a cama também. Não precisa se enfiar nesse sofá.

 

 

Ela balançou a cabeça, firme.

 

 

(Vick) — Prefiro.

 

 

Revirei os olhos, já sem paciência. Empurrei o copo sobre a bancada e fui até o quarto, apanhei um travesseiro e um cobertor qualquer. Victoria me acompanhou, me observando em silêncio, como se esperasse um ataque, uma explosão. Joguei as coisas sobre o sofá com força, irritada, e depois me sentei no mesmo cobertor, retirando os sapatos como se fosse minha cama.

 

 

(Yelena) — Pode ficar com o quarto, — resmunguei.

 

 

(Vick) — Não preciso. — A voz dela era baixa, mas firme.

 

 

(Yelena) — Victoria, pelo amor de Deus. — O cigarro tremia entre meus dedos. — Não é como se eu fosse te estrangular enquanto você dorme.

 

 

Ela arqueou uma sobrancelha.

 

 

(Vick) — Eu não disse isso.

 

 

(Yelena) — Mas é o que pensa. — Inclinei o corpo para frente, olhando-a diretamente. — Você sempre pensa.

 

 

Por dentro, algo latej*v*. Nunca me importei com o que pensavam de mim. Nunca. Mas vê-la reagindo daquele jeito, depois de tudo que fizemos, me irritava de um jeito que eu não sabia lidar. Ela tinha razão, eu sabia. Mas não me importava.

 

 

A noite foi péssima. O sofá era confortável, mas eu não dormi. Revirei de um lado para o outro, cada vez mais furiosa com o travesseiro, com o cobertor, comigo mesma. O cigarro queimava até o filtro, outro já acendia no lugar. A bebida ao meu lado, esquecida, porque nem o álcool me trazia paz.

 

Meu pensamento corria em círculos.

Zoja.

Noah.

Eles precisavam sair da cidade. Precisavam desaparecer antes que fosse tarde demais. Depois da execução, o FBI estaria no encalço deles, e eles não sabiam se esconder tão bem quanto eu. Noah… ele era mais do que parecia, e eu sabia o que significaria para meu irmão perder aquele rapaz. E Zoja? Ela era minha parceira de sangue, minha sombra. Eu devia a ela mais do que a própria vida. Se fosse para cair, que caísse eu, mas não eles.

 

Eu não sei como consegui manter os olhos fechados por duas horas. Quando a madrugada se despedaçou no azul frio da manhã, Victoria surgiu já arrumada. Roupas bem passadas, cabelo preso, maquiagem mínima, como se nada tivesse acontecido. Eu a observei em silêncio, fumando no mesmo canto do sofá.

 

Esperei que fosse ao banheiro. Quando voltou, pronta para o dia, fui eu para o quarto. O banho foi rápido, gelado, como um ritual de aço. Me vesti de preto da cabeça aos pés: calça justa, jaqueta de couro, botas. A carcaça de uma Volkov. Não era mulher, não era amante, não era nada além do que fui moldada para ser.

 

Não estava de bom humor. Acendi mais um cigarro antes mesmo de sair do quarto. Engoli uma dose de whisky em jejum, sentindo o fogo queimar por dentro. Victoria franziu a testa, mas não disse nada. Ela era crítica em silêncio, como sempre.

 

No caminho para o armazém, o carro era só ruído de motor e fumaça. Nenhuma de nós quis conversar. No meio da estrada, parei num café de esquina. Pequeno, anônimo. Pedi apenas um café preto, amargo, e o empurrei para o lado. Victoria pediu algo simples, ovos mexidos, torradas douradas, uma porção de panquecas que vieram cobertas com xarope de bordo. A comida fumegava, perfumando o ar, e eu senti o estômago reclamar. Mas não toquei em nada.

 

Ela comeu devagar, consciente demais da minha presença. Eu a observava, e ela fazia de conta que não notava. Uma vez ou outra, seus olhos me percorriam como uma acusação muda. Achava loucura me ver beber sem comer, eu sabia. Mas não disse nada. Nem precisava.

 

Eu, silenciosa.

Ela, silenciosa.

Dois mundos colidindo dentro de um carro a caminho do mesmo inferno.

 

Quando voltamos à estrada, acendi outro cigarro. Senti a fumaça cortar minha garganta como lâmina. Ao longe, as estruturas de ferro e concreto do armazém se erguiam contra o céu cinzento. O dia seria longo. Pesado. 

 

 

 

 

 

 

 

A manhã começou carregada.

O armazém cheirava a ferrugem, óleo queimado e poeira de cimento, um cheiro que grudava no pulmão como lembrança. A notícia que recebi logo cedo era clara: uma nova carga chegaria. Não drogas desta vez, mas armas. Viriam da Eslováquia, atravessando a Europa até desembarcar em Antuérpia, de onde seguiram em um navio de bandeira panamenha. O destino final era o porto de Baltimore, disfarçada entre maquinário agrícola, tratores e peças de colheitadeiras.

 

O contato confirmava que a descarga ocorreria discretamente à noite, e que dali os caminhões seguiriam para os galpões que controlávamos em Laredo. Era um movimento arriscado demais. Depois da última carga de cocaína ter sido interceptada pela polícia, meu pai não aceitava mais erros. Por isso ele queria que eu e Nikolai supervisionássemos cada etapa, como olhos e mãos diretas da família.

 

Dimitri, claro, não demorou a se intrometer.

Na mesa de reunião do armazém, com o sol da manhã entrando pelas janelas altas e iluminando as partículas de poeira suspensas no ar, ele se inclinou para frente, batendo os dedos nos papéis como se fosse dono da situação.

 

 

(Dimitri) — Eu deveria ir, — disse ele, em voz grave, um meio sorriso preso ao canto da boca. — É mais seguro. Todos confiam em mim.

 

 

Nikolai manteve-se em silêncio, os olhos claros fixos no mapa estendido diante dele. Como sempre, meu irmão era a sombra calculista, analisando sem pressa, esperando que os outros se revelassem.

 

Eu, de mau humor desde que acordei, resmunguei qualquer bobagem. Algo como “talvez você se sinta seguro demais porque é o cachorrinho de estimação do papai”. Ninguém riu, mas também ninguém me contestou. Era cedo demais para brigas abertas.

 

 

 

 

No almoço fomos todos para a casa do meu pai.

Victoria seguia comigo, como sombra e enfeite. Mas eu via nos olhos dela, aquele azul atento e controlado, que ela memorizava tudo. Cada detalhe da fachada da mansão, a forma como os portões se abriam, a disposição dos guardas no jardim, o número de câmeras. Vi como ela percorreu os corredores com o olhar, contando portas, registrando a presença dos empregados, os gestos ensaiados da governanta. Ela via mais do que deixava transparecer.

 

E, ainda assim, desempenhava com perfeição o papel que inventamos para ela: a namorada dedicada.

Sentava-se próxima de mim, tocava meu braço em momentos aleatórios, sorria de leve quando eu murmurava alguma piada seca. E mesmo eu, que sabia que era um jogo, sentia o toque dela latejando sobre a pele como se fosse real. Talvez fosse.

 

Mas o almoço foi insuportável.

Melissa estava ali. A intrusa.

Sentada exatamente no lugar que, meses atrás, era de minha mãe. Usando aquele sorriso falso, o tom imperativo de quem se achava dona da casa, dando ordens aos serviçais como se tivesse o direito. Cada vez que ela pedia algo, minha boca se enchia de um amargor que me impedia de engolir a comida. Não toquei no prato. O simples ato de vê-la ali, respirando o mesmo ar, já me embrulhava.

 

Eu sentia Victoria me observando de relance, calculando, tentando entender o que passava. Mas não havia como explicar a ela que ver Melissa naquela mesa era como enfiar uma lâmina em meu estômago e girar, lentamente.

 

 

 

 

À tarde, de volta ao armazém, a tensão aumentou.

A reunião era sobre a carga de armas. Discutíamos rotas, horários, caminhões, pontos de parada. Papéis e mapas espalhados sobre a mesa de ferro, cigarros acesos em fila, copos de vodka meio vazios. Eu estava entediada e irritada, e foi nesse estado que percebi Dimitri.

 

Ele não falava nada. Não precisava. O olhar dele dizia tudo.

Preso nas pernas de Victoria.

Eu o via acompanhar cada cruzar de coxas dela, cada vez que a barra da saia subia discretamente, cada inclinação quando ela se movia. E o sangue começou a ferver nas minhas veias. Dimitri sempre fora assim. Sempre se aproximava das mulheres com quem eu trans*va. Era uma forma de me provocar, talvez de competir, talvez só fetiche. Nunca me importei. Até agora.

 

Com Victoria era diferente.

Eu dizia a mim mesma que não devia me importar. Que era só fachada. Mas ver os olhos dele grudados nela me consumia por dentro como fogo.

 

 

Inclinei-me na mesa, encarando-o.

 

 

(Yelena) — Quer conservar os dentes ou anda farto deles?

 

 

Ele riu.

O maldito sempre ria. O deboche era um defeito de família.

 

 

(Dimitri) — Não entendo como uma puta tão cara quanto essa — apontou com o queixo para Victoria, sem nem olhar nos meus olhos — pode escolher o herdeiro errado.

 

 

Senti os músculos do meu corpo se contraírem. Eu suportava tudo: insultos, ameaças, até mesmo ordens diretas do meu pai. Mas ouvir ele falar dela daquela forma, e na frente dela, foi demais.

 

Antes que eu percebesse, já estava andando em direção a ele. Dimitri se levantou meio segundo tarde demais.

Meu punho acertou seu rosto com força, estalando ossos e espalhando sangue. Ele caiu sobre a mesa, derrubando copos e papéis, enquanto Nikolai e meu pai se levantavam de imediato.

 

 

(Viktor) — Chega! — a voz de meu pai cortou o ar. — Vai bater no seu irmão por causa de uma qualquer?

 

 

O mundo pareceu estreitar. A raiva me cegou por um instante.

 

 

(Yelena) — Eu? — gritei, sem conseguir controlar. — Você matou a mãe dos seus filhos por causa de uma biscate que não fez nem o colegial, porr*!

 

 

O silêncio que seguiu foi pesado.

O rosto de meu pai ficou vermelho, mas não esperei a resposta. Estendi a mão, agarrei Victoria pelo braço e a arrastei porta afora.

 

Ela não resistiu.

Mas senti a tensão no corpo dela.

E sabia, sem precisar olhar, que aquela cena inteira já estava gravada na memória dela, em algum relatório futuro, em alguma prova contra mim.

 

E, ainda assim, eu não me arrependia do soco, nem do escândalo.

O que me corroía era outra coisa: a forma como a presença dela, só dela, tinha o poder de me desestabilizar de um jeito que nem meu pai, nem meus irmãos, nem meu próprio ódio conseguiam.

 

 

 

O armazém ficou para trás com a porta metálica batendo às minhas costas, mas a vibração ainda ressoava dentro de mim, como se o metal tivesse entrado nos meus ossos. Eu agarrava o braço de Victoria com mais força do que deveria, mas não conseguia medir, não queria medir. O calor da minha raiva passava pela palma da mão, pela pele, pelos tendões retesados, e eu sabia que a pressão dos meus dedos na carne dela deixaria marcas. Pouco me importava naquele instante.

 

Arrastei-a pelo pátio de cascalho, o barulho das nossas passadas ecoando entre os contêineres empilhados. A poeira levantava, grudava na calça preta, no salto dela que ressoava contra o chão, mas não diminuía o ritmo. Eu não queria diminuir.

 

 

(Vick) — Me solta! — Victoria resmungou entre dentes, tentando puxar o braço de volta, mas eu só apertei mais. — Yelena, você está machucando!

 

 

(Yelena) — E daí? — cuspi as palavras, sem nem olhar pra ela. O gosto metálico da raiva ainda estava na minha boca, como sangue fresco. — Você queria o quê? Que eu sorrisse enquanto aquele imbecil falava de você como se fosse lixo?

 

 

Senti o corpo dela resistir, se virar contra mim, mas puxei de novo, impiedosa, quase a desequilibrando. O contraste entre a minha força e o esforço dela para manter a postura me irritava mais. Não por ela resistir, mas por me lembrar que Victoria não era uma das minhas. Ela não tinha crescido entre cães selvagens como eu, não tinha aprendido a reagir primeiro e pensar depois.

 

 

(Victoria) — Você não precisava fazer isso na frente de todo mundo! — ela retrucou, a voz mais firme do que eu esperava. — Está entregando sua fraqueza pra eles de bandeja!

 

 

Parei. Girei de repente, tão rápido que ela quase esbarrou em mim. Ainda segurava o braço dela, agora entre meu corpo e a porta do carro. Os olhos dela me encararam, um brilho de fúria contida, de desafio que eu conhecia bem demais.

 

 

(Yelena) — Fraqueza? — minha voz saiu baixa, arrastada, mas cortante. Inclinei o rosto, quase encostando o nariz no dela. — Eu dei um soco nele porque ele abriu a boca sobre você. Não porque eu me importo com o que dizem de mim. Isso eu já não sinto faz muito tempo.

 

 

Ela respirou fundo, e por um segundo vi a garganta dela se mover, como se as palavras ficassem presas ali. Eu sabia o que ela estava pensando. Eu também sabia que não devia ter feito nada daquilo, que cada gesto só complicava mais a porr* toda. Mas era tarde demais.

 

Apertei o punho no braço dela antes de soltar, finalmente, quase empurrando-a contra a lataria do carro. O som seco da palma batendo no metal reverberou entre nós.

 

 

(Yelena) — Você devia aprender a calar a boca quando não entende, — murmurei, mas sem força de verdade. Não era uma ordem. Era quase um pedido, engolido pela minha própria cólera.

 

 

Ela não recuou. Não desviou os olhos. E isso me partia e me incendiava ao mesmo tempo.

 

No silêncio que se seguiu, só dava pra ouvir minha respiração acelerada e os ecos da conversa ainda borbulhando dentro do armazém. Então, no instante mais maldito possível, o ponto no ouvido dela estalou.

 

Um chiado leve, depois a voz masculina abafada:

 

 

(Ethan) — Victoria, está me ouvindo? Relate a situação.

 

 

Fechei os olhos. Passei a mão pelo rosto. A tensão atravessou meu peito como uma faca. Era a lembrança cruel, o lembrete inevitável de que ela não era minha. Nunca seria. Estava ali a serviço deles, não meu.

 

 

(Yelena) — Desliga essa merd*, — rosnei.

 

 

(Vick) — Eu não posso. — ela ajeitou discretamente o ponto, como quem sabia que estavam esperando. — Eles precisam saber que estou bem.

 

 

Aquilo foi o fim. Senti uma risada seca escapar, quase histérica, sem humor nenhum.

 

 

(Yelena) — O que eu tô fazendo? — falei sozinha, mas alto o bastante pra ela ouvir. — Eu devia ter matado todos eles no primeiro dia. Evitaria essa porcaria de acordo, essa encenação... — dei um passo pra trás, mas sem perder o olhar dela. — Maldita hora em que deixei você entrar na minha vida.

 

 

Meu peito subia e descia como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. Cada palavra era cuspida entre dentes cerrados, o cigarro apagado ainda preso no canto da boca, esquecido.

 

Bati a mão contra o teto do carro, com força. O som metálico ecoou pelo pátio vazio mais uma vez. Virei de costas sem esperar resposta, abri a porta do motorista e me joguei no banco.

 

Não disse mais nada. Liguei o motor, o ronco grave preenchendo o silêncio. Fiquei ali, com as mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente, mas sentindo cada músculo do corpo vibrar. A espera era quase uma tortura, mas eu não ia sair sem ela.

 

Se queria jogar de agente perfeita, que entrasse. Se não, que ficasse ali, sozinha, no meio da carcaça podre que era a minha família.

 

Minhas unhas cravaram no couro do volante. Eu não sabia se queria que Victoria obedecesse e entrasse, ou se queria que me desafiasse mais uma vez.

 

Talvez, no fundo, eu quisesse só que ela dissesse que não era teatro.

 

Mas, claro, isso eu nunca teria.

 

 

 

 

Fim do capítulo


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 10 - Capitulo 10:
Zanja45
Zanja45

Em: 17/04/2026

Yelena ficou muito desistabilizada depois de passar a noite inteira a base de fumo e whisky. E a opção dela em ceder a cama para Vick não ajudou muito, porque ela remoeu as cenas da execução do olhar da namorada sobre ela. Mas Vick tem que ver como realmente é, apesar dizer que já sabia como Yelena era.

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 17/04/2026

Yelena entregou a fraqueza dela para a família. Ela agiu levada pelas emoções e agora eles sabem onde puxar para desistabilizar ela. E Victoria já percebeu que ela é o ponto fraco de Yelena. Pelo menos foi isso que veio embutido nas palavras da agente

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web