Capitulo 9
Por Hanna
UMA SEMANA DEPOIS
– Gabi, filha. Vem logo! A mamãe está atrasada para o trabalho, e ainda tenho que te levar para escola, meu amor.
Quase implorei para minha filha que fazia birra para não ir à escola. Era sempre assim… Bastava alguns dias em casa para voltarmos ao mesmo impasse. Gabriela odiava acordar cedo, e sempre dava trabalho antes de finalmente conseguirmos sair de casa.
– Não quero ir a escola, mamãe. Por que não me leva para passear no seu trabalho? – Os olhinhos brilhavam como se fosse cair em prantos a qualquer momento.
– Por que meu trabalho não é lugar para crianças. – Cruzei os braços e a olhei com firmeza. – Vamos embora, Gabriela Parado. Minha hora já está esgotando. – Era difícil resistir àqueles olhinhos pidões. – Filha, já ficamos em casa uma semana inteira. Hoje a mamãe precisa trabalhar, mas eu te prometo que ainda essa semana vamos tirar uma noite para fazer nossa noite de pijama, ok?
– Com direito a muita bagunça?
Estremeci! Quando Gabriela dizia “muita bagunça”, isso definitivamente não era um exagero. Nunca vi um ser tão pequeno, ser capaz de fazer tanta bagunça, ainda mais sendo uma criança sozinha.
– É, muita bagunça. – Afirmei sabendo que iria me arrepender disso depois. – Mas isso só vai acontecer se você for para a escola e se comportar direitinho. Combinado? – Fiquei satisfeita em ganhar atenção da minha filha e ver que ela aceitaria meu acordo.
– Bem que podíamos chamar uma convidada, dessa vez.
Olhei para a criança sem entender. Gabriela sempre foi muito tímida e tinha dificuldade para fazer amizades. Isso era uma das coisas que vinha sendo trabalhada pela a escola em seu desenvolvimento. Me admirava que ela estivesse cogitando a possibilidade de chamar alguma amiguinha para participar também.
– Você quer chamar alguma amiguinha sua da escola?
– Hum! Na verdade não. Eu gosto delas, mas tenho vergonha de chamar aqui pra casa. – Estreitei os olhos.
– Então quem você quer chamar?
– A titia Marcela. – Respondeu com animação. – Ela foi a única tia que ainda não veio brincar com a gente na noite do pijama. Acho que seria legal!
Estremeci ao ouvir a ideia mirabolante da minha filha.
– Filha, eu não sei. Marcela é uma mulher ocupada. – Expliquei sem dar muitos detalhes.
– Titia Mica também trabalha muito, e sempre ela dar um jeito de vir brincar comigo.
Não existia acusação no tom da garotinha. Pelo contrário, ela falava com a tranquilidade de quem sabia que tinha vencido no argumento.
– Por favor, mamãe. Chama ela! Voltou a pedir, dessa vez fazendo manha.
– Tudo bem, eu vou ver isso depois. Vamos ver se você vai se comportar essa semana. Mas agora precisamos ir, mocinha.
– Combinado, mamãe. Eu vou me comportar muito essa semana.
Estirou o dedo mindinho para que eu pudesse juntar o meu junto ao dela como se assim estivéssemos selando uma promessa.
…
Deixei minha filha na escola e segui para a empresa. Confesso que estava nervosa com esse retorno, afinal de contas, aquela seria a primeira vez que reencontraria Marcela depois do acontecido em meu apartamento. No entanto, esses dias mantendo distância também serviu para que eu pudesse alinhar meus pensamentos e concluir o que de fato eu queria para minha vida. Eu não sabia como ela iria reagir ao nosso reencontro, e me sentia uma adolescente boba suando frio por estar prestes a reencontrar um grande amor. O que mais mexia com meus pensamentos era não saber se Marcela novamente adotaria aquela postura fria em relação a mim, assim como havia feito nos primeiros dias após sua chegada ao Brasil, mas fosse como fosse, eu estava convicta que paciência seria necessário para tê-la novamente.
Entrei na empresa e logo fui em direção à dona Marta.
– Bom dia, dona Marta. Poderia me dizer se Renata ou Marcela já chegou na empresa?
– Bom dia, menina Hanna. – A senhora me respondeu simpática. – Até o momento somente a senhorita Daniela chegou.
– Ok! A senhora sabe dizer se tenho algum compromisso externo marcado para hoje?
– Não! Dona Marcela me mandou remarcar todos os compromissos externos do setor jurídico para quando a senhorita retornasse. Como está à pequena Gabriela?
Não pude deixar de me sentir grata com o cuidado tido por Marcela. Mesmo tendo nossas questões mal resolvidas, ela tinha dado apoio, ainda que em silêncio.
– Graças a Deus, melhorou. Crianças sempre nos assustando, não é mesmo? – Respondi em meio a um sorriso sereno. – Bom, eu vou para minha sala. Devo ter muito trabalho acumulado.
– Pode ter certeza que isso tem de sobra. Quando uma de vocês cinco faltam, isso aqui vira uma bagunça, e pior, todo trabalho cai para mim que preciso sair reorganizando a agenda de vocês. Eu acho que preciso de um aumento significativo. – Choramingou a mais velha me fazendo rir.
Mas ela estava certa, o que seria de nós sem ela? Dona Marta era nosso anjo naquele lugar. De fato precisava de aumento só por nos aturar.
– A senhora sabe que nós te amamos, não sabe? – Deixei um beijo em seu rosto a fazendo sorrir. – Agora me deixa ir antes que nossa chefinha chegue daquele jeito que conhecemos.
– Por falar nisso… Quando vocês vão resolver se acertar? Será que não percebem que foram feitas uma para outra?
A senhora adotou um tom de repreensão, mas meu coração palpitou com aquelas palavras.
– E quem disse que ainda sentimos algo uma pela outra, dona Marta? – Pisquei para ela, mas antes que ela pudesse responder sai em direção a minha sala deixando-a com uma expressão de desgosto.
…
Aquela manhã estava passando muito rápido. Olhei no relógio e vi que já estava perto do horário de almoço, passei a manhã inteira analisando alguns contratos que necessitavam da minha aprovação.
Vi que estava tudo certo com os contratos, mas faltavam alguns pontos que precisavam ser revistos com Marcela, antes de repassar nossa proposta para o contratante. Decidi então enfrentar a realidade e finalmente ir até sua sala.
Bati em sua porta e ao abrir vi uma cena que me fez ir do céu ao inferno em questão de segundos. Uma súbita irritação começou a dominar meu peito. Marcela abraçava aquela ruiva sem sal, e eu me perguntava desde quando ela passou a frequentar tanto aquele lugar. Por qual raios de motivo agora ela não saia daquela sala?
– Desculpe, Bettencourt. Eu trouxe alguns contratos que precisam ser revistos, mas não sabia que estava com uma acompanhante, NOVAMENTE.
Acho que meu tom saiu mais bruto que o esperado. Pude perceber isso quando vi Marcela erguer a sobrancelha e em seguida estreitar os olhos em minha direção. Talvez tenha ficado intrigada com a postura que adotei, mas dane-se eu não gostei daquela ruiva e muito menos do que vi. Eu tinha mudado em muitas coisas, mas sempre fui péssima em conseguir trolar o ciúmes.
– Pode deixar na minha mesa, por favor.
Fiz o que ela pediu e já ia retornando em direção à porta quando a ouvi me chamando.
– Hanna... – Me virei para Marcela. – Sei que se viram outro dia, mas não as apresentei formalmente. Essa é a Yasmin, amiga da Daniela e a arquiteta responsável pela reforma do meu apartamento. Yasmin, essa é a senhorita Hanna Prado, responsável pelo o nosso setor jurídico.
Se me importava em ser apresentada aquela coisinha irritante? Obviamente não fazia diferença em minha vida, mas fui educada e aceitei o cumprimento.
Então a ruiva disse:
– Bom, eu já estava de saída. Vou deixar vocês trabalharem. Já está na minha hora também. Hoje minha agenda está cheia. Depois te ligo, Marcela.
Revirei os olhos e pude notar que aquilo não passou despercebido por Marcela.
– Não precisa se incomodar em sair, Yasmin. Eu já vou me retirar. – Posso jurar que disse seu nome com desprezo.
Sai da sala ignorando o chamado de Marcela. Eu sabia que estava realmente ultrapassando limites em sair da sala daquele jeito sem ao menos olhar para trás. Eu acabava de desafiar Marcela, não como mulher, amiga, conhecida… Seja lá como ela se considerasse em relação a mim, mas sim como minha superior naquele lugar. Contudo, não é como se eu estivesse me importando muito com isso naquele momento. Se existia uma coisa em que eu era péssima, era em controlar minha raiva, e naquele momento eu sentia que estava prestes a cuspir fogo na primeira pessoa que surgisse na minha frente.
– Já te disse que você é a única loira da minha preferência?
Encarei a idiota da Daniela, que havia surgido na minha frente no momento errado.
– Já te disse que você era a última pessoa que eu queria encontrar na minha frente agora? – Devolvi a pergunta com sarcasmo.
– Credo! Assim você mágoa meu pobre coração. – A baixinha se fez de ofendida.
Sai empurrando Daniela para dentro da primeira sala que vi pela frente. Tomada pelo o susto repentino, ela me encarava espantada enquanto me observava fechar a porta atrás de nós.
– Quanta brutalidade! Particularmente sempre gostei de mulheres bravas, mas você é quase uma irmã, seria nojento, não acha?
Às vezes eu me perguntava que tipo de neurônios funcionavam na cabeça de Daniela. Nunca vi falar tanta besteira, gente.
Revirei os olhos, mas a ignorei. Tudo o que eu não queria naquele instante, era perder meu tempo retrucando as piadinhas de Dani.
A empurrei contra uma cadeira e fixei o olhar no dela.
– Quem é essa mulher que agora vive atrás da Marcela? Micaela disse que você as apresentou.
Para minha total desgraça, Daniela juntou as sobrancelhas e logo vi surgir um sorriso sínico em seus lábios.
– Ah, agora está explicado toda essa pose de leoa. Você está com ciúmes! – A baixinha jogou aquela verdade em minha cara sem a menor preocupação com a própria vida.
– Ciúmes, eu? Ora, Daniela. Me poupe da sua insanidade. – Reagi com impaciência.
– Se não está com ciúmes, então porque parece tão brava? Aliás, porque está me pedindo informações da moça?
O caramba que eu daria aquele gostinho a Daniela. Eu jamais admitiria o que estava se passando dentro de mim. Contudo, eu conhecia muito bem a amiga que eu tinha, e sabia que ela não se contentaria com qualquer explicação, também não estava muito afim de inventar explicações mentirosas, então resolvi fazer o que sabia de melhor… Em passos curtos, porém firmes, encurtei a distância entre nós duas, inclinei levemente a cabeça de modo que assim pudéssemos estar cara a cara. Eu estava séria, e pude ter certeza que minha expressão estava assustadora quando vi Daniela engolir seco. Ótimo! Esse era o propósito.
– Eu não fiz nada. Eu juro! – Ela apressou em se defender.
– Quem é ela, e por que você apresentou as duas?
– A Yasmin é arquiteta. Marcela me disse que estava precisando de um profissional competente e eu apenas quis ajudar. – Daniela tentou recuar a cadeira para longe de mim, mas não conseguiu, pois segurei firme dos braços da cadeira de modo que ela ficou “presa” a mim. – Ora, não seja psicopata. Me deixe sair daqui! – Desesperou-se.
Assustar as amigas foi uma especialidade que ao longo do tempo acabei aprendendo com Micaela. Dessa maneira, nós duas sempre conseguíamos conquistar tudo o que queríamos das outras três.
– Então você quer me fazer acreditar que o envolvimento das duas é exclusivamente profissional? – Ri com descrença. Era óbvio que aquela ruiva albina estava arrastando asa para cima da Marcela. Bastava olhar naqueles olhos de loba, para ter certeza disso. – Vamos Daniela, fale tudo o que sabe.
A vi engolir seco! Se eu não estivesse tão irritada com a possibilidade de ter outra mulher surgindo em minha meu caminho como um obstáculo para reconquistar Marcela, certamente eu acabaria perdendo a pose e gargalhando do desespero da mulher a minha frente.
– Você não pode me julgar. Eu nem sabia que você ainda estava enrabichada para o lado da Marcela. Como eu podia saber disso depois de todo esse tempo? – Ela silenciou por poucos segundo e voltou a rir com sarcasmo. – Se bem que não era difícil imaginar, considerando que você só falta babar quando ver ela. Aposto que até baba, mas por outro lugar.
Senti minhas bochechas esquentar ao ouvir aquele comentário malicioso feito pela a outra. Não era como se eu não fosse acostumada ouvir coisas como aquelas, aliás, eu já tinha ouvido coisas até piores, mas era impossível conter a timidez, ainda mais considerando que desde que tive Gabriela, minha vida sexual era caótica. O trauma do que me aconteceu no passado, era uma das coisas com as quais ainda era difícil lidar.
– Daniela, não testa minha paciência. – Disse entre dentes.
– Olha, talvez… Quero dizer, hipoteticamente, podemos supor que ela esteja afim de algo a mais com a Marcela. Mas eu juro que não tive essa intenção quando apresentei as duas. Não que no lugar da Marcela eu perderia a oportunidade, é claro, mas não me julgue, a Min, é linda e isso você não pode negar.
Linda! Grande coisa. Bom, pelo menos agora eu sabia que não estava ficando doida. Aquela sonsa estava mesmo arrastando as asas de galinha para cima da Marcela. Agora a questão era: E Marcela, estava retribuindo?
– Você é uma idiota, Daniela.
– Calma! Eu não acho que seja recíproco.
Ouvi Daniela gritando, mas àquela altura eu já a tinha deixado para trás falando sozinha. Fui direto para a copa da empresa. Eu precisava de uma água gelada para acalmar os nervos.
Bebi pelo menos dois copos de água gelada enquanto buscava respirar profundamente. Peguei um terceiro para levar para minha sala, mas quando virei em direção a porta, esbarrei com um corpo ainda desconhecido. Só pude perceber que se tratava de Marcela, quando a olhei e me dei conta que sua blusa branca agora estava completamente ensopada. Sua expressão era congelante, o que me fez encolher os ombros.
– Des-desculpa. Eu não tive a intenção. – Disse com sinceridade.
Me apressei em deixar o copo na pia e buscar por algo que ajudasse minimizar o estrago. Peguei um pano limpo que encontrei e corri para ajudá-la se secar.
– Pelo o visto tem coisas que não mudam nunca. Você sempre foi tão estabanada. – Ela resmungou entredentes.
– Eu já disse que não tive a intenção. Não te vi entrando aqui. – Expliquei revirando os olhos.
– Você não me ouviu chamando? – A olhei e ela estreitou os olhos em desafio. – É claro que ouviu.
– Eu não quis atrapalhar. Pelo o visto minha chegada foi em uma péssima hora.
– Você chegou e nós já estávamos nos despedindo. – Ela argumentou como se aquilo resolvesse tudo.
– É, pude perceber. Você sempre foi mesmo muito receptivo. – Ironizei se quer parecer uma idiota.
Quis sair dali o mais rápido possível, mas antes que eu pudesse alcançar a porta, Marcela segurou em meu pulso.
– Espera! Eu preciso conversar com você.
Desci meu olhar para o local onde ela segurava. Não era como se fosse doloroso ou coisa assim, mas era preciso, firme, decidido.
– O que você quer? – Puxei meu braço para desfazer do contato. Eu estava irritada por saber que mesmo depois de tanto tempo, Marcela ainda era capaz de despertar em mim o que obviamente eu recruzaria admitir para qualquer pessoa, é claro. Mas eu sabia o danado do ciúmes havia me pego de jeito, e isso era extremamente irritante
– Como Gabi está? – Seu olhar transformou-se em timidez. – Eu quis te mandar mensagem em busca de notícias dela, mas tive receio de você não gostar.
– Ela está bem. Obrigada pela preocupação. Era só isso? Eu tenho trabalho a fazer.
Voltei ser segurada por Marcela quando ensaiei deixar o ambiente.
– Por que você tá tão irritada?
– Eu não estou. – Menti descaradamente.
– Hanna…
Respirei fundo! Como eu iria dizer a ela que naquele momento me sentia a pessoa mais insegura do universo?
Ficamos ali presa no olhar uma da outra. Ela tentando me decifrar, e eu tentando fugir. Se fosse em outro tempo eu saberia exatamente o que fazer, mas agora as coisas eram diferentes, eram estranhas.
– Por que você me beijou e logo em seguida foi encontrar outra mulher? Aquela mulher! – Não consegui controlar.
Levou um tempo até que Marcela conseguisse formular algo como resposta.
– Por que diabos agora vocês fofocam tanto? Foi a Micaela que te disse, né? Mas as coisas não são o que parece. Não foi esse tipo de jantar que vocês está pensando. A propósito, você contou a sua irmã do nosso beijo?
– E por que eu não contaria? Ela é minha irmã. É minha melhor amiga.
– Mas no passado…
Marcela tentou, mas a cortei antes mesmo dela concluir. Eu sabia exatamente o que ela ia dizer. Aquilo já estava ficando repetitivo.
– No passado eu era uma tola, mas as coisas mudaram. Eu não tenho porque me esconder. Eu precisava conversar com alguém, mas pasme… Tive um balde de água fria jogado sob minha cabeça quando soube que na mesma noite você estava com outra mulher. Pode falar, eu sou uma idiota, não é mesmo?
Marcela desesperou-se em se explicar.
– Não fale como se eu fosse uma escrota filha da puta. Não é como se eu tivesse te usado ou coisa assim. Naquele dia eu já tinha combinado com Yasmin de irmos ao apartamento para que ela pudesse conhecer o lugar e fazer projeto.
– E pelo o visto achou de bom tom desviar o caminho. – Ri com ironia.
– O quê? As coisas não aconteceram assim. Mas que droga! Por que estamos discutindo isso? Nós não temos nada, Hanna.
Aquelas palavras me corroeram. Ao ver o olhar da outra, tenho certeza que ela não quis usá-las para me magoar, mas foi o que aconteceu. Mas sim minha por me deixar levar por algo que talvez não passasse de uma fantasia da minha cabeça.
– Você tem razão! Nós não somos nada. Não temos nada.
– Hanna, desculpa. Eu não quis…
– Não precisa se desculpar. Você está certa! – Voltei afirmar sentindo um sabor amargo na garganta.
– Não! Não estou. Quer dizer, estou em partes. Eu… Droga! Eu não consigo racionar direto agora. – Ela parecia cansada consigo mesma.
– Marcela, tudo bem. Olha, eu vou voltar para minha sala. Tenho trabalho acumulado. A propósito, vou abrir um processo de seleção para uma estagiária. Estou precisando de ajuda do setor.
– Aham! Pode fazer isso. – Ela concordou, mesmo eu não tendo certeza se ela sabia de fato com o que estava concordando.
Deixei o espaço me sentindo ainda pior que antes. Talvez não tivesse mais jeito para nós duas mesmo.
…
Definitivamente, o meu dia estava uma merd*. Eu não conseguia me concentrar no trabalho enquanto tinha pensamentos desordenados povoando minha mente. Nesse momento meu celular tocou. Vejo no visor a foto de Renata, e resolvi atender mesmo sem vontade de falar com ninguém naquele momento.
– Fala! – Eu realmente estava mal humorada.
– Vixi! Que bicho te mordeu? Quanto mal humor! Sabia que isso é falta de sex*? – A ouvi dizer do outro lado da ligação.
– Há Renata, vai te catar. Fala logo o que você quer, e seja rápida, por favor. Hoje não estou com paciência.
– Jura? Se você não falasse quase que eu não perceberia. – O sarcasmo de Renata me fez revirar os olhos.
– Por que você esta me ligando se estamos praticamente em salas vizinhas?
– Praticidade minha cara amiga. Te liguei porque estou fazendo uma intimação para todas, e você foi a última com quem consegui falar.
– Posso saber do que se trata? – Falei impaciente.
– Como sou uma amiga maravilhosa, estou convidando todas vocês para desfrutar da minha companhia e almoçarmos juntas. O que aliás, deve ser a exatamente quinze minutos.
– Todas? Tipo, todas mesmo?
– É Hanna, todas mesmo. E claro, isso quer dizer que nossa querida Marcelinha vai estar lá também.
– Sabe o que é, Rê...
Eu nem terminei de falar e já fui cortada pela minha amiga.
– Não quero desculpas, Hanna Prado. Você está sendo intimada, então não é como se tivesse opções a sua disposição, querida.
– Desde quando você ficou tão abusada? Sabe que isso é influência da sua amiguinha que voltou recentemente, não sabe? – A ouvi gargalhar do outro lado da ligação.
– Vocês duas são muito complicadas, mas ainda vejo vocês no altar. Vou ser a madrinha, não vou?
Resolvi que ignorar Renata seria minha melhor escolha. Eu só podia ter imã para amigas com personalidades caóticas. Nem mesmo Renata que costumava ser mais sã, escapava de momentos de insanidade.
– Ok, Renata. Você venceu! Nós encontramos no estacionamento.
Desliguei o telefone sem dar a ela chance de responder mais nada, e muito menos levar aquele assunto adiante.
Depois de desligar chamada, organizei minhas coisas para descer e encontrar com as outras como havia combinado. Levei mais que os quinze minutos estabelecidos por Renata, na tentativa de acalmar a raiva que ainda estava sentindo de Marcela, Yasmin e companhia. Na verdade, acho que eu estava com raiva do universo que parecia disposto a conspirar contra mim.
Chegando ao estacionamento logo vejo as quatro em volta do carro de Renata.
– Finalmente, em? Eu já estava pensando em mandar os seguranças irem a sua procura. – Renata falava com impaciência e eu apenas revirei os olhos.
– Não enche, Renata. Eu só demorei dez minutos a mais.
Me defendi, percebendo que havia me tornado o centro das atenções, já que todas me encaravam.
– Ótimo! A donzela chegou. Agora vocês querem deixar de conversa e vamos embora? Eu estou faminta! – Daniela resmungou.
– E quando você não está? – Marcela debochou da amiga e bagunçou todo seu cabelo a deixando ainda mais irritada.
Não pude deixar de observar a interação das duas, e vendo Marcela daquele jeito descontraído, eu não pude conter a sensação de paz que me preenchia. Era como se o tempo tivesse colocando as coisas no lugar, como se ela fosse a mesma de antes, como se todas nós fôssemos as mesmas de antes. O problema é que não éramos. O tempo havia passado e muitas coisas haviam mudado. Contudo, ainda assim me peguei presa ao pensamento de como ela era linda, principalmente quando sorria.
– Sabe, Hanna. Você poderia deixar para gastar suas energias comendo nosso almoço daqui a pouco, e deixar a Marcela para comer como sobremesa.
Se eu quis morrer com o comentário feito por Daniela? Óbvio que sim! Na verdade, eu desejei ainda mais matar ela do que antes. A encarei e tenho certeza que meu olhar era assassino, mas a peste não tinha amor a vida, ela apenas gargalhou alto sabendo que tinha conseguido um grande feito. Por sua vez, Marcela estava tão ruborizada quanto provavelmente eu estava. Renata e Micaela se entreolharam e logo Renata fez favor de quebrar o silêncio constrangedor que instalou ali.
– Aí, meu Deus. Vocês são tão kids quando se juntam. Por que eu só lembro disso depois que faço o convite? – A morena passou as mãos pelo o rosto. – Vamos embora que ainda temos trabalho hoje. – Renata nos repreendeu. – Vamos todas no meu carro.
Eu juro que nunca vi alguém tão mandona como Renata.
– Eu vou na frente! – Minha irmã falou já correndo em direção à porta do carona. – Mas ao passar por mim, falou baixinho: – Pelo amor de Deus, disfarça pelo menos. Me mata de vergonha parecendo uma adolescente virgem.
Abri e fechei a boca diversas vezes em busca de algo para responder, mas nenhum palavra parecia ser suficiente para demonstrar o quanto o insulto me deixou chocada.
– O quê? Há qual é Micaela. Fala sério! – Daniela resmungou indignada. – Por que eu tenho que ir no banco de trás e aguentar o tesão mal resolvido dessas duas? Você é a mais velha aqui, sabe conter melhor a situação. Além disso, a você elas temem, já a mim é capaz de jogarem pela janela.
– Vou fazer isso se você não parar de falar besteira, Daniela. Agora entra no carro e vamos embora.
O tom sério de Marcela, foi o suficiente para Daniela arregalar os olhos e estremecer diante da ameaça. E eu, é claro que sorri da sua cara de trouxa.
…
Durante o caminho, Daniela, Renata e minha irmã não paravam de falar um minuto, porém eu e Marcela permanecíamos em silêncio. Era como se existisse uma ponte desmoronada entre nós duas, nos afastando o quanto fosse possível.
Ao Chegarmos ao restaurante já tinha uma mesa reservada por Renata. Fizemos nossos pedidos e as meninas continuavam conversando, mas dessa vez Marcela interagia com as outras, mas eu não estava muito para conversa então apenas as observava.
– Hanna, algum problema com a Gabi? Você está muito quieta hoje. – Minha irmã perguntou parecendo preocupada.
Bastou o nome de Gabriela ser citado, para que Marcela, que até então parecia disposta me evitar, lançou um olhar apreensivo como se estivesse urgência em ouvir a resposta.
– Problema nenhum! Aliás, ela está muito bem. Estou apenas com dor de cabeça. – Falei sem animo, mas aquilo não era uma mentira. Eu realmente estava me sentindo indisposta.
– Você sabe que isso é falta de sex*, não sabe?
Às vezes eu achava que só tinha amiga louca, não era possível. Quem em sã consciência falava aquilo no meio de um restaurante sem se preocupar em ser ouvida pelas pessoas das mesas em volta? Mas claro que algo como aquilo só podia sair da boca de Daniela. Ela era incomparável.
Enquanto Renata prendeu o riso o ocultando no copo que havia levado até a boca, Marcela engasgou sabe-se lá com o que. Por sua vez, minha irmã encarou a amiga com aquele talento que ela tinha de deixar qualquer pessoa constrangida com apenas um olhar. Ao perceber que era observada por Micaela, Marcela ruborizou, atingindo um certo nível de desespero. É, parece que tem coisas que simplesmente não mudaram. Marcela sempre teria pânico de Micaela.
Resolvi não fugir do assunto dessa vez. Sustentei o olhar de Daniela, e disse:
– Por que diabos tudo na minha vida, vocês dizem que é falta de sex*? É a segunda vez que escuto isso hoje. – Fiz careta ao lembrar do fato. – Estou muito bem, obrigada.
– Não seja mentirosa! Ninguém que seja sã, pode dizer que vive bem sem sex*. Sério, gente. Sexo é vida! – Daniela afirmou dando de ombros, mas dessa vez eu tive certeza que o sr. da mesa ao lado tinha ouvido. O pobre coitado ficou tão vermelho que eu poderia jurar que ele também tinha engasgado com algo.
– A propósito, gente. Hoje Hanna me surpreendeu.
Arregalei os olhos já imaginando a merd* que aquela fofoqueira filha de uma mãe, iria falar. Fui mais rápida e enchi a boca dela com uma boa quantidade de farofa, a impedindo assim de dar continuidade a sua intenção.
– Cala a boca, Daniela. Eu juro que te mato! – Ordenei com toda minha capacidade de me tornar assustadora quando necessário.
– Pelo amor de Deus, se comportem como as senhoras do 30+ que são. Vão conseguir a maestria de fazerem nos expulsarem. – Renata ordenou com seriedade. – Calem a boca que agora eu quero falar algo realmente sério. – Todas nós olhamos para Renata, e eu me sentia satisfeita por ver Daniela se esforçando para engolir toda a farofa que ainda havia em sua boca. Tenho certeza que ela continuaria de boca fechada por pelos menos alguns minutos a mais. – Como vocês sabem, estou organizando os preparativos do meu casamento com o Guilherme. Uma das coisas mais difícil é a escolha das madrinhas e padrinhos, porém para mim não foi nada difícil, porque algo tão especial assim tem que ser destinado a pessoas especiais, por isso eu escolhi as minhas quatro melhores amigas para serem minhas madrinhas de casamento e gostaria de saber se vocês aceitam.
Óbvio que todas ficamos emocionadas com o convite feito por Renata, e não demorou nem mesmo um minuto para que todas nós tivéssemos aceitado tamanha honra e demonstração de carinho.
– Hanna... – Renata segurou minha mão com carinho. – Eu quero que você aceite que a Gabi seja minha dama de honra.
Esse sim foi o convite que me emocionou de verdade. Para mim sempre significou muito que todas elas tenham amado minha filha desde o primeiro momento que souberam que eu daria continuidade aquela gestação. Em nenhum momento Gabriela foi rejeitada por minhas amigas ou família, ao contrário, nunca vi criança mais amada que Gabriela.
Abracei Renata com emoção e carinho, e tenho certeza que ela compreendeu o significado que aquilo representava para mim.
– É claro que aceito, Renata. Muito obrigada por isso, minha amiga.
…
Durante o resto do almoço nos envolvemos em uma longa conversa sobre os preparativos para o casamento da nossa amiga. Como não podia ser diferente, cada uma dava uma opinião diferente, o que obviamente começou a causar um pequeno tumulto em nossa mesa, atraindo assim olhares em nossa direção. Em nenhum momento eu e Marcela nos falamos diretamente, mas vez ou outra nosso olhar se encontrava, e ainda que por breves segundos, isso era capaz de me causar um turbilhão de sensações. Não era de se esperar que amar ela procurasse conversar sobre o que tinha acontecido naquela noite? Talvez eu tenha apenas fantasiado demais.
– Não se preocupe. Eu vou te ajudar. – Olhei para minha irmã sem entender nada.
– Está falando de quê?
– Vou te ajudar a reconquistar a Marcela. – Ela sorriu e eu a olhei sem entender o porquê dessa atitude tão inesperada. Como se pudesse ler meu pensamento ela disse: – É uma verdade que existe muita mágoa pelo caminho. Muitas incertezas, dúvidas, mas é verdade também que existe amor de verdade, Hanna. Posso ver nessa troca de olhares nada discreta entre vocês, e isso é um bom motivo pelo o qual vale a pena lutar. Talvez não seja fácil, mas não desista, irmã.
Sorri em cumplicidade para minha irmã. Olhei para Marcela e lá estava ela com aqueles lindos olhos indecifráveis me encarando novamente.
Fim do capítulo
Boa noite e uma ótima leitura ??
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Sem cadastro
Em: 06/05/2026
Aí que lindo capítulo, amando cada dia mais a história...... continua ....
Bjs
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