Capitulo 8
Por Marcela
Enquanto Yasmin falava animadamente sobre as mil e uma ideias que estava tendo para aproveitar melhor cada espaço, meu pensamento estava longe. Talvez a ideia que tive de tentar ocupar minha cabeça com qualquer coisa que me levasse para longe do apartamento de Hanna, não tivesse sido tão bem sucedida como projetei.
– Como você não tem filhos, podemos usar esse espaço para fazer seu escritório. Não sei porque, mas te olhando tenho a impressão que você é aquele tipo de mulher que adora levar trabalho para casa.
– Essa é uma maneira carinhosa de me chamar de careta? Daniela me chamaria de idosa, se quer saber.
Tentei soar espontânea enquanto tentava mês esforçar para estar alinhada com o que ela me dizia.
Yasmin gargalhou alto, parecendo se divertir com aquilo que ouvia. Ela sem dúvidas era uma mulher divertida. Alguém com quem passar um tempo era agradável.
– Vamos combinar, Marcela. Você pode ser muitas coisas, mas não uma idosa. – Quando me dei conta, ela já havia encurtado um pouco da distância entre nós. – Então, deixa eu te contar um segredo sobre mim. Eu não sou tão fácil de enganar.
– Desculpa, mas eu não entendi. – Fiquei realmente confusa com a mudança repentina do assunto.
A ruiva riu com certa elegância.
– Marcela, pra mim está bem claro que você não está totalmente aqui comigo. Você está se esforçando para prestar atenção no que eu falo. Podemos deixar esse assunto do apartamento para depois. – Ela sugeriu com tranquilidade.
– E você chegou nessa conclusão em minutos de conversa?
– Não! Eu conclui desde quando você me ligou. Acho que sei conhecer quando uma mulher está tentando fugir de algo que a aflige.
Sorri amarelo me sentindo constrangida.
– Desculpe, Yasmin. Te tirei de casa a essa hora da noite e não consigo focar no que importa. Eu realmente não tinha essa intenção. Pensei que me ocupando com outros assuntos, seria mais fácil. Mas pelo visto não deu certo.
– Hum! Tudo bem, eu entendo. – A ruiva sorriu com simpatia. – Vamos lá, anime-se. Quem disse que não podemos pegamos os limões e fazermos uma limonada?
– O que quer dizer? – Ergui a sobrancelha.
– Acho que você me deve um jantar, Marcelinha. Eu estava fazendo cozinhando algo para comer quando você me tirou de casa. Então, arque com as consequências. – Ela piscou o olho com divertimento e pegou a bolsa que estava na bancada de mármore do ambiente que seria a cozinha. – Então, vamos? Conheço um restaurante ótimo. A conta é sua.
Eu tinha que admitir que tinha sido pega desprevenida pelo convite. Além de perspicaz, Yasmin demonstrava ser uma mulher decidida.
Pensei um pouco a respeito. Eu não estava com cabeça para qualquer social, mas também queria parecer mal educada, então acabei aceitando. Eu realmente tinha tirado ela de casa, e sequer resolvemos nada do que era esperado. No mínimo poderia oferecer um jantar como pedido de desculpas.
Segui o carro de Yasmin, e não demoramos para chegar no restaurante indicado pela ruiva. Parecendo familiarizada com o local, ela mesma escolheu o lugar para sentarmos, assim como cumprimentou o funcionário com simpatia.
– Adoro a caipirinha daqui. Sério, você precisa experimentar.
Reagi com uma careta que a fez rir.
– Não acho uma boa ideia. Estou dirigindo, aliás, você também.
– Uma caipirinha não vai nos fazer parar na cadeia, Marcela. Confie em mim!
“Confie em mim!” Mal sabia ela que eu não era exatamente o tipo de pessoa que confiava facilmente nas pessoas. No entanto, naquele momento deixei que ela fizesse o pedido desejado.
…
Yasmin se mostrava uma mulher inteligente. Ela conseguia fazer o assunto fluir com facilidade, e também conseguia falar sobre tudo com bastante perspicácia. Era também uma mulher extrovertida, divertida, sedutora. Mas nada disso conseguia de fato me fazer focar. Minha mente estava longe, é um tanto conturbada.
– Eu acho que estou falando demais. Acho que é sua vez. – A ruiva sorriu com elegância. – Por que você não me fala mais de você?
– Não seria interessante. Eu não tenho muito o que falar sobre mim. – Respondi com educação, mas sem muito interesse.
– Eu discordo! Na verdade, te acho uma mulher muito interessante. Aposto que tem muito a ser revelado.
Existia um ar de sedução em meio a suas palavras. Eu não era uma mulher boba. Sabia exatamente reconhecer quando surgiu um interesse. Em outra época talvez eu até permitisse que algo acontecesse ali, mas naquela noite seria impossível. A única mulher que insistia em povoar meus pensamentos, era a mesma que eu julgava ser um erro.
– Daniela me disse que você voltou recentemente de Portugal. – A ruiva insistiu.
– Ah, sim! Eu precisava ajudar minha sócia conduzir a empresa.
– Morou lá por muito tempo? Eu sempre quis conhecer aquele país. Acho um lugar charmoso. Combina muito com você, inclusive.
Aquelas palavras eram dignas de alguém que sabia exatamente onde queria chegar. Alguém que possuía uma confiança inabalável, com pitadas de ousadia. Pareciam um convite para algo maior.
Antes que eu pudesse formular alguma resposta, fui surpreendida pela aparição repentina de Robson e Micaela. Ele segurava na mão da esposa, que por sua vez me olhava com um misto de surpresa e curiosidade.
– Marcela, que surpresa te encontrar aqui. – Robson me cumprimentou com alegria, e logo desviou o olhar para Yasmin, como se esperasse para ser apresentado. – Sempre muito bem acompanhada. Boa noite, moça. – Ele estendeu a mão para que Yasmin apertasse, e prontamente ela o fez.
– Aí, gente. Adoro elogios! Boa noite, casal. – Respondeu ela com simpatia.
– Boa noite! – Micaela respondeu um tanto seca.
Ok, de todas as pessoas possíveis, eu não contava encontrar justamente com Micaela. Não que fosse um problema, mas sua presença automaticamente me remeteu a lembrança da sua irmã, e claro, o acontecido de mais cedo. Provavelmente Micaela fritaria meu fígado se soubesse que beijei sua irmã e agora estava ali acompanhada de outra mulher. Ela certamente entenderia tudo errado e não me daria tempo para explicar.
Me levantei rapidamente, e forcei um sorriso. O olhar de Micaela julgava pelo menos minha oitava geração, por isso logo tratei de explicar. Não era que eu devia satisfação da minha vida, mas também não queria mais problemas.
– Isso que posso chamar de uma cidade pequena. – Cumprimentei os dois com beijos e abraço. – Robson, essa é a Yasmin. Ela é amiga da Daniela, e agora está encarregada de fazer o projeto da reforma do meu apartamento. – Olhei para a ruiva que sorriu largo para o casal. – A Micaela acho que você já conhece. Vocês se viram mais cedo, não é?
– Claro que sim! Já nos encontramos outras vezes na empresa quando fui encontrar a Dani, não é mesmo Micaela?
– Sim, algumas vezes. – Micaela respondeu e em seguida me olhou. – Pensei que… – Ela sacudiu a cabeça como se tentasse afastar seus pensamentos. – Notícias da minha sobrinha? Não consegui falar com Hanna agora a noite.
– Ah, sim! As deixei em casa mais cedo. Devem estar dormindo a essa hora. Não se preocupa, Gabriela vai melhorar logo, tenho certeza. – Respondi me sentindo insegura, ou talvez constrangida por lembrar que beijei sua irmã.
Não sei que poder era aquele que Micaela tinha sobre mim, mas ela sempre conseguia me desconcertar com facilidade. Era como se seu olhar pudesse ler meus pensamentos, decifrar minha alma. Sei lá… Dani costumava dizer que eu tinha medo da Prado mais velha. Mas eu preferia dizer que era respeito. Ela era aquela amiga que mais parecia uma mãe. Micaela estava sempre disposta a cuidar de todas nós, e não era como se fosse possível ignorar seus sábios conselhos.
Senti que o clima pesava toneladas enquanto me sentia repreendida pelo o olhar de Micaela.
– Gente, vocês não querem sentar conosco? Nós já jantamos, mas adoraríamos a companhia. – Ofereceu Yasmin, com uma genuína satisfação.
Contudo, antes mesmo que Robson pudesse responder, Micaela o fez com pressa.
– Obrigada pelo o convite, mas vamos recusar. Estamos em um momento especial.
– É nosso aniversário de casamento. – Robson disse com empolgação. – Mas outro dia faço questão de sairmos juntos. Tenho certeza que vai ser divertido.
– Meus parabéns ao casal. Que a noite seja divertida, não é mesmo Marcela?
– Ah, sim. Claro!
Micaela nada disse, mas eu a conhecia muito bem. Por alguma razão a presença de Yasmin parecia ser um desafio enfrentado pela Prado mais velha.
Nos despedimos do casal, e voltamos a nossa conversa. No entanto, se antes eu já não prestava atenção em nada do que a ruiva falava, agora menos ainda. De alguma maneira a presença de Micaela havia me trazido um novo sentimento, algo inesperado, porém que me inquietou ainda mais que antes. Por que eu estava me sentindo uma escrota? Eu não devia nada a Hanna, certo? Tudo bem, tínhamos nos beijado, mas aquilo tinha sido um erro e jamais voltaria acontecer. Eu era uma mulher solteira, então não tinha mal algum estar conversando com uma amiga após um jantar, tinha?
Depois de algum tempo, resolvi me despedir de Yasmin, com a desculpa que precisaria estar na empresa logo cedo. Por sua vez, a ruiva parecia satisfeita com a noite que compartilhamos, e havia me prometido que logo voltaria me procurar com um esboço do projeto arquitetado com sua assinatura.
Pov Hanna
NA MANHÃ SEGUINTE
Durante muito tempo sonhei com o dia em que eu pudesse ter Marcela novamente em meus braços, mas com o passar dos anos, me conformei com a realidade e aceitei que isso não passava de um sonho bem distante. E essa certeza intensificou-se após seu retorno para o Brasil, pois embora Marcela agora estivesse perto, ainda assim parecia tão distante quanto jamais esteve. A maneira como ela me tratava no trabalho, só me deixava cada vez mais certa do quanto ela me queria longe da sua vida. Eu realmente cheguei acreditar que não voltaria ter chance alguma com ela.
No entanto, depois da nossa conversa, cheguei a conclusão que talvez eu ainda pudesse fazer algo para reconquistá-la. Aquele beijo dizia mais do que qualquer palavra que ela pudesse verbalizar. Eu estava certa que as coisas não seriam fáceis. Marcela certamente fugiria dos próprios sentimentos e também de qualquer investida minha. Sua mágoa era algo profunda e compreensível, mas com paciência eu poderia concertar as coisas.
O mais curioso é que aquela era a primeira vez que eu me pegava pensando em viver um romance. Depois do que me aconteceu no passado, eu me fechei para relacionamentos. Eu não conseguia confiar em ninguém, não me sentia bem em ter meu corpo tocado por qualquer pessoa… Era doloroso a sensação de me sentir exposta. Meus últimos anos tinham sido dedicados ao trabalho e a minha filha. Mas com Marcela as coisas eram diferentes. Era como se a atração existente entre nós fosse impossível de ser ignorada.
De qualquer maneira, eu precisava me manter centrada. Precisava pensar exatamente no que eu queria para a minha vida, e especialmente em agir da maneira certa dessa vez. Eu estava certa que dessa vez, era eu quem tinha que fazer algo por nós.
Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada da minha irmã e de Renata. As duas tinham avisado que passariam na minha casa antes do trabalho para visitarem Gabriel. Quando o porteiro interfonou avisando que estavam entrando, deixei a porta aberta para que não precisassem tocar a campainha, afinal de contas, eu não queria que elas acordassem minha filha.
– Nossa, o cheiro do café está delicioso. Eu estava mesmo faminta. Eu já disse que gosto de passar na sua casa antes de ir para o trabalho?
Renata não se fez de rogada. Ela puxou uma cadeira e logo foi fazendo o próprio prato. Micaela não foi diferente.
– Bom dia para vocês também. É claro que adora! Sabem que eu sou a única que preparo café da manhã. Adoro me sentir a empregada de vocês. – Revirei os olhos e as duas riram.
– Sorte a nossa que sua mesa está sempre posta para Gabriela comer antes de ir para escola. Eu não tenho tempo de preparar café da manhã. – Minha irmã resmungou aquilo que eu já sabia. – Mas então, onde ela está?
– Dormindo! Me deu um trabalhão durante a madrugada. A febre aumentou de novo, e eu tive que me virar para fazê-la dormir. – Respondi recordando da noite passada. Eu estava exausta.
– Eu te liguei várias vezes. Seu celular só dava desligado.
– Descarregou! Só vi agora cedo.
– Que mania ridícula de deixar o celular descarregar, Hanna. Eu estava preocupada. Se não fosse pela Marcela, eu não tinha ficado sabendo de notícias.
– Marcela? – Renata e eu falamos ao mesmo tempo.
A expressão de Micaela foi digna de alguém que acabava de perceber que tinha falado demais.
Renata olhava de mim para minha irmã como se buscasse entender como Marcela poderia dar notícias minha para Micaela. E eu? Bem, eu queria entender quando as duas tinham se falado. A última vez que vi Marcela ligar para ela, ainda estávamos nos hospital.
Micaela revirou os olhos com impaciência e disse para Renata:
– Marcela levou Hanna até o hospital. Eu não concordei, é claro. As duas são um perigo anunciado. Todas nós sabemos disso. Mas são adultas, e Hanna é capaz de tomar as próprias decisões. Então o que eu podia fazer?
Renata então virou o rosto para mim. É claro que ela ia me encher de perguntas.
– Eu sei o que você está pensando. E não, nós não nos matamos. – Revirei os olhos.
– Desculpa, mas eu não consigo imaginar vocês duas juntas sem discutir. Os últimos dias foram um inferno naquela empresa, e de repente vocês saem juntas!
– A convivência é difícil. Eu sei disso! Mas ela sabe ser razoável quando quer. – Dei de ombros. – Além disso, acho que foi mais pela menina. Por ironia do destino, as duas se dão muito bem.
– E como foi lá? Gente, eu preciso de detalhe. – Renata animou-se.
Meu estômago embrulhou ao recordar da noite passada. Eu não iria esconder aquilo das duas. Se fosse para ter alguma chance de fazer a coisa certa dessa vez, precisava ser assim, falando a verdade para aquelas que sempre estiveram ao meu lado.
Contudo, eu também sabia que dizer a verdade teria consequências. Minha irmã ia me jogar contra parede, isso era certo.
– Foi tudo tranquilo! Marcela foi gentil em todo instante. Me deu apoio, esteve junto a Gabi, e depois nos trouxe para casa.
Engoli seco ao ver minha irmã e Renata trocarem olhares, e em seguida se virarem para mim.
Micaela estreitou o olhar por algum tempo diante do meu silêncio. Eu quis encolher na cadeira. Então a vi passar as mãos pelo rosto em um sinal claro de nervosismo. Ela me conhecia… Ela sabia que algo que tinha acontecido.
– Por que eu tenho a sensação que vou querer matar vocês duas? – Micaela resmungo e Renata prendeu o riso. – O que aconteceu, Hanna? Diz logo de uma vez.
Voltei a engolir seco! Não é que eu tinha vergonha de dizer que tinha beijado Marcela. É só que depois de tantos anos, eu tinha a sensação que não sabia mais falar sobre essas coisas com ninguém. Eu tinha vergonha do meu corpo, tinha vergonha de qualquer conversa sobre sex*… Acho que poucos entenderiam, mas eu só não era mais a mesma.
Além de me sentir envergonhada, eu também sentia medo. Medo da rejeição de Marcela. Eu sabia que não seria um beijo que mudaria tudo. Na verdade, talvez ela fugisse ainda mais agora.
– Bem, nós… Nós nos beijamos. – Disse em um sussurro.
Renata quase cuspiu fora o suco que estava bebendo. O que era ridículo, considerando que aquela era o tipo de reação que Daniela teria, não ela.
Por sua vez, minha irmã voltou a passar as mãos pelo o rosto. Micaela não estava nervosa, mas parecia preocupada.
– Como assim vocês se beijaram? – Renata foi a primeira a falar alguma coisa depois de se recompor. – Eu não acredito! Quer dizer, eu gostei disso, mas não consigo acreditar.
– Simplesmente aconteceu! Depois de muita insistência minha, acabamos conversando sobre o passado, e então aconteceu.
– Uau.. Isso é incrível de diversas maneira e por todos os motivos possíveis. – Renata animou-se. – Você não acha, Mica?
Percebi que minha irmã ficou mais quieta que o normal. Ela parecia pensar no assunto, e eu comecei me incomodar. Eu sei que Micaela costumava ser protetora, e também muito ciumenta quando o assunto era eu ou Gabriela, mas eu não queria acreditar que ela seria contra qualquer envolvimento enter Marcela e eu.
– Eu realmente não sei o que pensar. – Micaela disse por fim.
– Você não concordaria delas ficarem juntas? – Renata demonstrou curiosidade. – Mas você sempre foi a primeira que dizia que Hanna errou em não ter lutado para concertar as coisas. O que mudou agora?
– Marcela mudou. – Micaela sequer pensou para responder. Ela parecia bem convicta com a própria opinião. – Eu realmente queria que Hanna tivesse concertado as coisas e que as duas tivessem uma chance para viver o que sentiam. Mas agora eu não sei. Eu realmente me preocupo com o rumo que as coisas podem seguir. Marcela está consumida pela mágoa. Nós vemos isso no comportamento dela.
– Mas você não acha que ela insistir para acompanhar Hanna ao hospital e depois ainda fazer questão de trazê-la em casa, diz muita coisa? Ela está magoada, é verdade. Mas o comportamento hostil também pode ser uma defesa, uma relutância contra o que sente de verdade. Seria compreensível depois de tudo o que aconteceu.
Os argumentos de Renata eram válidos, mas minha irmã parecia relutante.
– Eu não estou julgando por ela agir como vem agindo. Eu posso não gostar, afinal de contas Hanna é minha irmã. Mas eu entendo, de verdade. Poxa! Ela é minha amiga. Eu a amo também! Como eu poderia não entender seus motivos? Eu só não quero ver nenhuma das duas machucadas nessa história.
Micaela buscou meu olhar. Ela estava apreensiva, e eu começava perceber que talvez existisse algo que ela estivesse se segurando para não falar.
– Hanna, não existe ninguém no mundo que deseje mais sua felicidade do que eu. Por isso, minha irmã, eu preciso que você me diga… Você sabe o que está fazendo? Você tem certeza que quer mesmo dar sequência a essa história? Você não vai machucá-la dessa vez?
– Foi apenas um beijo, Micaela. Mas sim, eu estou consciente dos meus atos. – Respondi com convicção.
– Você não pode ser irresponsável dessa vez, Hanna. Nem com os sentimentos dela, nem com os seus. Além disso, você precisa lembrar que agora não é apenas vocês duas. Gabriela está no meio do caos que vocês são. Se algo fugir do controle, ela também será atinginda.
– Eu entendo sua preocupação. Mas eu sou outra pessoa agora. Eu não vou fazer nada que vá machucar Marcela. Tão pouco vou envolver minha filha nisso.
– Gabriela já está envolvida nisso, Hanna. Primeiro que a menina parece ser incrivelmente louca por ela. Nunca vi Gabriela se dar tão bem com alguém que conhece a pouco tempo. Segundo que não é como se fosse possível você viver um conto de fadas sem inserir a menina na história.
– Eu pensei que fosse ficar satisfeita por saber que de alguma maneira pudéssemos ter uma nova chance. Mas você parece estar chateada, Micaela. Eu não estou entendendo.
Minha irmã me olhou com uma expressão pensativa, e logo voltou a sentar na cadeira a minha frente.
– Eu não estou irritada. Talvez um pouco confusa, surpresa, preocupada. Se Marcela for sua felicidade, eu vou ser a primeira a dar forças a você. Mas eu preciso ter certeza que ela também está tão envolvida quanto você.
Eu conhecia bem Micaela, e sabia que embora sempre tivesse torcido para que em algum momento eu tivesse minha história com Marcela resolvida, ela sempre teria preocupação sobre a possibilidade de que eu sofresse uma decepção com a rejeição da outra, afinal, todas nós sabíamos que aquela era uma possibilidade real.
– Eu acho que entendo a Mica. Todas nós torcemos por vocês duas. Juntas ou separadas, só queremos ver vocês bem e felizes. – Renata ponderou com tranquilidade. – Se eu puder dar um conselho, vai ser o mesmo para as duas: Sejam pacientes para entenderem o que sentem. Não ultrapassem os próprios limites. Deixem as coisas fluírem, e principalmente, antes de qualquer coisa se permitam a se perdoarem.
– Renata tem razão! Se vocês quiserem seguir, se quiserem tentar, nós vamos estar aqui para apoiar vocês. Só peço que tenham certeza do que querem. Nós não podemos permitir que vocês se magoem novamente.
– Ela não me fez juras de amor. Se querem saber, acho até que voltamos ao zero da questão. – Disse desanimada.
– Por quê? O que aconteceu?
– Gabriela aconteceu. – Passei as mãos pelo o rosto. Eu sabia que estava vermelha de vergonha. Sabia também que minha irmã ia dizer que estava certa quando dizia que a sobrinha já estava envolvida em nossa confusão. – Ela acordou e veio para sala. Não sei se viu o beijo. Nos afastamos rapidamente como duas adolescentes pega em flagrante.
A idiota da Renata gargalhou alto.
– Meu Deus! Se eu bem conheço Marcela, ela deve ter desejado abrir um buraco para se enterrar.
– Tá vendo? Eu digo que a menina não é segura com vocês duas. – Micaela fez careta.
– Mas qual o problema, afinal? – Renata quis saber.
– Eu não soube como reagir, e tenho receio que ela entendeu errado. Acho que ela saiu daqui achando que sou a mesma Hanna do passado, disposta a esconder qualquer envolvimento que venha ter com ela. Não me julguem, mas eu nunca estive em uma situação semelhante. Como eu explicaria para Gabriela que estava beijando uma mulher. Aliás, o problema não é ser uma mulher. Eu não saberia explicar para minha filha que estava beijando ninguém. Agora ela vai me rejeitar ainda mais que antes, não vai?
Renata e Micaela voltaram trocar olhares, dessa vez em cumplicidade, mas também uma visível preocupação.
– Isso explica muita coisa. – Minha irmã murmurou mais para si mesma do que para nós.
– Explica o quê? – Eu quis saber.
O olhar de Micaela sustentou o meu, e embora apreensiva, ela não fez rodeios quando respondeu:
– Ontem era o aniversário do meu casamento. Robson e eu fomos jantar naquele restaurante italiano que mamãe adora. – Ela fez uma pausa, mordeu os próprios lábios parecendo decidir se seria certo prosseguir. – Hanna, foi lá que encontrei Marcela e ela me deu notícias suas.
– Tá, e qual o problema nisso?
– Ela estava acompanhada, Hanna. Era com aquela arquiteta. Aí… isso doeu.
Micaela ralhou com Renata e alisou a própria canela.
– Por que você precisa ser tão direta assim? Eu em! – Renata repreendeu minha irmã.
– Eu só sou objetiva. – Minha irmã me olhou. Eu engoli seco o nó que se formou em minha garganta. – Olha, eu não quis dizer que elas estavam juntas com intimidade, ok? Pelo contrário, se te deixa feliz saiba que a cara da Marcela estava péssima. Eu só quis dizer que talvez você tenha razão quando disse que Marcela pode ter entendido tudo errado. Isso explica o fato dela estar com aquela cara.
– Ela saiu com outra depois de me beijar?! – Murmurei para mim mesma.
– Pelo o que eu entendi era assunto de trabalho. Quer dizer, parece que a ruiva está responsável pelo o projeto da obra do apartamento dela. – Minha irmã explicou.
– Você não poderia ter começado explicar por essa parte? – Renata repreendeu novamente a outra. – Hanna, não vamos retroceder, ok? Não vai pensar besteira e tirar conclusões precipitadas. Ela realmente havia me falado que Daniela ia conseguir uma profissional para cuidar da obra do apartamento.
– É, mas de qualquer maneira se eu fosse você abriria o olho. Se você quer saber, a ruivinha é pra frente. Ela me parecia saber exatamente o que queria, e acredite, não acho que seja apenas o trabalho.
– Micaela! – Renata dessa vez atingiu outro chute na canela da minha irmã.
– Mas que diabos! Vou ficar com canela roxa desse jeito.
– Você está parecendo a Daniela. Desde quando ficou tão sem jeito assim? Além disso, sua função é apaziguar a situação. Não colocar gasolina na fogueira. – Renata disse olhando feio para a amiga.
– Eu estou cumprindo exatamente meu papel aqui. Estou dando um choque de realidade na Hanna. Ela precisa entender que se ela vai encarar isso, as coisas não vão ser fáceis como no passado. E precisa estar pronta para jogar o jogo conforme as peças do tabuleiro estejam sendo movidas. – Minha irmã me olhou feio. – Onde já viu isso? Se tivesse que explicar a Gabriela que estava beijando uma mulher, que explicasse com clareza. Você não pode fazer as mesmas coisas que fazia no passado. Se for para lutar por Marcela, faça isso às claras, faça isso com vontade. Não esconda de ninguém o que sente, porque o que você sente não é um erro, não é feio, é muito menos é indigno.
– Ei, espera aí. Eu não pensei nada nisso. Eu só não soube realmente como agir, porque esse tipo de coisa não é algo que deve ser feito na frente de uma criança. – Me defendi.
– Concordo! Mas vocês não estavam sendo obscenas na frente dela ou coisa assim. Se acontecesse, era um acaso e deveria agir naturalmente. – Micaela segurou em minhas mãos. – Hanna, presta atenção no que eu tô falando. Um dia você machucou o coração daquela mulher. Vai levar um tempo até você conseguir conquistar a confiança dela novamente. Por favor, minha irmã. Se você quer lutar por ela, não deixe que ela tenha dúvidas do que você sente, do que você quer, e principalmente faça ela ter segurança que você mudou.
– Nisso, eu concordo. A cicatriz que ela trás no coração não pode falar mais alto do que a sua evolução. Mostre a ela que você mudou, Hanna. Eu vou estar aqui para ajudar nisso. – Renata assegurou.
– E seja rápida em suas decisões. Tem concorrente gata na fila. – Dessa vez Micaela disse sorrindo.
– Micaela! Pelo amor de Deus, você está um caso sério hoje. – Renata brigou.
Revirei os olhos! Eu merecia mesmo ter que aguentar minha irmã zoando minha cara a essa altura da minha vida. Mas nada eu disse. Eu estava realmente incomodada em saber que aquela ruiva seria um obstáculo em meu caminho. E não era como se eu soubesse controlar meu lado ciumenta. Aliás, ciúmes sempre foi uma coisa que Marcela soube aflorar bem em mim.
– Quando você volta ao trabalho? – Renata quis saber.
– Marcela me deu folga pelo o tempo que Gabriela estivesse doente para que eu possa cuidar dela. Ela precisa de repouso, e eu não quero deixar ela sozinha nem por um segundo. Mas espero poder voltar semana que vem!
– Você terá tempo suficiente para pensar em sua vida, minha irmã. Tenho certeza que você vai tomar a melhor decisão, até porque você é a mulher mais resiliente que conheço. Você não vai se deixar ser vencida pelo o tempo mais uma vez. – Micaela piscou olho, levantou e beijou minha testa. – Agora eu precisamos ir. Me manda notícias da minha princesinha depois, ok?
– Pode deixar! – A beijei de volta. – Antes que Micaela pudesse alcançar a porta, a chamei. – Mica!
– Oi?
– Me faz um favor?
– Aham! Se eu puder, claro.
– Diga a Daniela que desejo profundamente que ela vá para a puta que pariu. – Disse tentando conter a irritação ao lembrar da baixinha.
Daniela precisava mesmo aparentar uma mulher para Marcela?
Micaela me olhou com um sorriso debochado nos lábios.
– E isso tudo porque você não é uma mulher ciumenta, claro.
Revirei os olhos, mas dessa vez não escondi o incômodo que estava tomando conta do meu coração desde que soube que Marcela havia saído com outra mulher. Seja lá o que ela tenha ido fazer, não importava. Só o fato de ser outra mulher desfrutando da sua companhia, e não eu, já era o suficiente para que eu xingasse até a última geração de Daniela.
Pov Micaela
– Por que eu estou deixando você me convencer disso? – Resmunguei ainda inconformada.
– Por que no fundo você sempre gostou da ideia de ter Marcela como cunhada.
– Por Deus, Renata. E se não for o certo intervir? Não seria melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente?
– Mas nós não vamos interferir. Mas você esqueceu que nós duas somos o cérebro por trás desse quinteto?
Eu precisava admitir que aquilo era uma verdade. Renata e eu sempre fomos o equilíbrio que faltava nas outras três. Basicamente éramos nós duas que sempre dávamos um jeito de “concertar” as bagunças que Hanna, Marcela e Daniela faziam com as próprias vidas.
– O que você pretende fazer dessa vez? – A olhei de relance.
– Eu ainda não sei. Preciso de tempo para pensar. Aliás, tempo e certeza que algo deve ser feito.
– Como assim? – Quis entender o raciocínio da outra.
– Na verdade, por enquanto quero apenas entender como Marcela está se sentindo. Aposto que a cabeça dela está explodindo depois de beijar sua irmã.
Reagi com uma careta. Por mais que eu soubesse que Hanna era uma adulta, parte de mim ainda a via como minha garotinha. Eu não gostava exatamente da imagem de alguém beijando minha irmã, mesmo que esse alguém fosse uma das minhas melhores amigas.
– Misericórdia! Você ainda tem ciúmes? – Renata murmurou entre risos.
– Me deixa, Renata!
…
Eu sabia que Marcela e Hanna não tinham mais se falado depois do ocorrido no apartamento da minha irmã. Sabia também que provavelmente o que aconteceu fosse o motivo pelo o qual ela estava tão pensativa naquela manhã. Justamente Marcela que sempre era tão focada no trabalho, parecia não estar dando a mínima para a reunião que estávamos tendo. Eu a observava e começava a concluir que talvez Renata tivesse razão. Nós iríamos precisar ajudar de alguma maneira, pois aparentemente nem Marcela, nem Hanna, estavam sabendo lidar bem com a situação, o que era compreensível considerando tudo o que aconteceu entre elas. As duas eram envolvidas por muitas inseguranças, ressentimentos, medos, culpas… Como podia ser diferente?
Estávamos na sala de reunião analisando um balancete mensal, mas como a atenção de Marcela estava longe daqueles papeis e de tudo o que falávamos para ela, as coisas não estavam fluindo.
Troquei olhares com Renata, e lá estava aquela expressão de quem dizia “a coisa é mas sério do que pensamos”.
Chamei a atenção de Marcela, mas ela não me deu ouvidos. Vi o exato momento que Daniela acertou a canela da outra com um chute.
– Ai… Isso doeu, sua criatura estranha! – Marcela ralhou com a baixinha. – Por que está me batendo?
Daniela nada verbalizou, apenas acenou com a cabeça em minha direção. As duas eram assim… Viviam em pé de guerra, mas se entendiam apenas com um olhar.
A executiva engoliu seco diante do meu olhar.
– O que foi? Por que estão me olhando assim?
– Eu que pergunto… Está acontecendo algo? Estou a alguns minutos te chamando. – A encarei e questionei séria. – Você não está nem prestando atenção nos dados que estamos apresentando.
Àquela altura todos os olhares estavam sob Marcela, na expectativa de ouvir o que ela iria responder.
– E-eu… – A vi engolir seco enquanto tentava encontrar uma explicação. – Desculpem, eu acabei me perdendo. Onde estávamos mesmo?
– Eu estava dizendo que Hanna não pode vir trabalhar hoje, mas me mandou o relatório de quantos novos contratos assinamos esse mês. Eu posso apresentar os lucros de cada um deles. – Expliquei com paciência.
– Ou seja, estávamos todas aqui, ao contrário de você que parece perdida. Isso é coisa de quem está pensando em algum rabo de saia. – Daniela jogou sob a mesa a acusação sem nenhum pudor ou culpa.
Quis rir da cara de desespero de Marcela, mas me controlei. Ela parecia desesperada talvez pensando que Daniela sabia de algo indevido. Mas a verdade é que a baixinha estava alheia ao acontecido entre Marcela e minha irmã. Caso contrário, aí sim Marcela estaria ferrada nas mãos da outra.
– O quê? E-eu não estava pensando nessas coisas não. – Ela se apressou em defender-se. – Por que raios ela tá aqui? Ela não trabalha não?
O Pedido de socorro à Renata foi instantâneo.
– ÊPA! Trabalho sim, e muito. Como você acha que essa empresa está chamando tanta atenção no mercado? Faço mágica com a publicidade desse lugar. – Dani respondeu com convencimento. – Aliás, aproveitando que Micaela está aqui, vocês duas bem que poderiam autorizar um aumento de salário. – Apontou para Renata e Marcela.
Recebi o olhar insatisfeito de Marcela.
– Corta o vale alimentação dessa pequena criatura linguaruda.
– O quê? Nem fudendo! Preciso me manter bem alimentada para ter boas ideias.
– Você deu sorte que mandei cortar seu vale alimentação e não sua língua. – Marcela respondeu mostrando o dado do meio para a outra.
– Que comportamento digno de uma presidente, né? – Dani debochou. – Se você cortar meu vale, eu te denuncio por abuso de autoridade. Hanna disse que podemos fazer isso.
Marcela estreitou os olhos e novamente eu quis rir.
– Esquece o corte do vale. – Ela disse me olhando. – Sua irmã é uma péssima influência para os funcionários dessa empresa.
– Vocês querem parar com essa discursão boba? Desse jeito não vamos terminar isso nunca. – Renata cruzou os braços repreendendo as duas. –Daniela eu sei que já é uma causa perdida, mas você, Marcela?
Diante da repreensão da sócia, a vi abrir e fechei a boca diversas vezes sem saber o que responder. Por fim, Marcela deixou os ombros caírem e afundou-se na cadeira.
– Ótimo, já que o silêncio reinou, vamos prosseguir. – Renata determinou com pressa parecendo temer que uma discussão iniciasse ali.
…
A reunião tinha acabado e Daniela foi a primeira a sair correndo com a desculpa que estava apertada para ir ao banheiro. Ficamos apenas Renata e eu, olhando para Marcela e julgando todas suas gerações.
– O que foi? – Ela enrugou a testa. – Por que estão me olhando assim?
– Você vai nos contar, ou vamos precisar descobrir sozinhas? – Renata respondeu colocando a amiga contra parede.
– Contar o quê?
Por mais que tentasse conter, Marcela demonstrava o nervosismo. A verdade é que ela nunca soube como agir diante ao se sentir pressionada.
– Pelo amor de Deus, Marcela. Não subestime nossa inteligência. Está muito claro que alguma coisa tem te perturbado. Você não é tão desatenta assim.
Renata argumentou sem querer dizer que já sabíamos o que possivelmente estava acontecendo.
– Não está acontecendo nada.
– Você quer mentir para nós duas, ou pra si mesma? – Apertei um pouco mais. – Marcela, somos suas amigas. Você sabe que pode nos contar tudo. Não estamos aqui para te julgar. Queremos o seu bem, e ajudar no que for possível.
Eu queria que Marcela conseguisse perceber que independente de qualquer coisa, nós ainda éramos as mesmas amigas que sempre fomos. Sei que talvez pra ela não fosse fácil admitir que sua situação com Hanna estava deixando-a cansada, confusa… Especialmente porque era minha irmã. Mas eu queria que ela soubesse que ela também era importante pra mim. Que eu também saberia ouvi-la e entendê-la.
– Micaela tem razão. Você não precisa passar por nada sozinha. – Renata sorriu com ternura.
– De todas nós, você era a menos provável, sabia? – Também sorri.
– Eu deveria saber sobre o que estamos falando agora? – A morena me olhou intrigada.
Embora inquieta com o rumo do assunto, Marcela não se recusava em seguir com a conversa, o que me fez sentir segurança em prosseguir.
– Eu tenho certeza que você sabe. Não somente sobre o quê, mas também sobre quem estou falando. – Sorri de canto.
A vi baixar a cabeça, mas logo segurei seu queixo a fiz me olhar. Eu tinha um carinho enorme por Marcela, e por mais difícil que fosse a situação, já que envolvia minha irmã, ainda assim eu conseguia compreendê-la. Na verdade, eu sei porque aceitei a ideia de Renata, em tentar ajudar as duas. Não era apenas porque eu queria vê-las bem. Era também porque no passado eu queria ter tido a chance de confortar minha amiga. Ela nunca mereceu passar por aquilo tudo.
– Amiga, o que eu quis dizer, é que você era a menos provável de cair em um poço de amargura, justamente porque você sempre foi a mais doce criatura que já conheci. E acredite, eu sempre admirei isso em você. Sua maneira verdadeira de se entregar aos próprios sentimentos sempre foi algo invejável. Marcela, você tinha cede de viver, e sabia viver como nenhuma de nós. Você era aquela que sentia, e sentia muito, sentia de verdade, sentia tanto que o sentimento transbordava em seu olhar. No passado, por mais que eu não imaginasse o andamento da sua história com Hanna, uma parte minha sabia que você a amava. Você não conseguia esconder isso. Bastava você olhar para ela e lá estava os seus sentimentos escancarados ao universo.
– Por que temos que falar disso? – Ela sustentou meu olhar com timidez. – Nós duas sabemos que foi uma história que deu errado.
– Porque deu errado, mas não morreu. – Troquei olhares com Renata que acenou me incentivando a continuar. – Eu sei que dói em você. Mas acredite, também dói nela. Hanna se culpa até hoje por ter te perdido. Ela ainda te ama, Marcela. Ela errou sim, mas nunca deixou de te amar. Por favor, não pense que quero defender minha irmã. Eu só acho que se existe sentimentos. Se você também sente algo por ela, talvez não fosse errado se permitir deixar ver para onde o destino levará vocês duas.
– Nós sabemos, Marcela. – Renata ponderou, mas prosseguiu. – Sabemos que vocês se beijaram.
– O quê? – Marcela arregalou os olhos com espanto. – Ela contou?
– Ela não nos contou por fofoca, ou coisa assim. – Me apressei em explicar. – Ela só está tão assustada quanto você. Ela sabe que não é um beijo que vai mudar as coisas. Ela tá com medo da rejeição, do rumo que as coisas vão seguir agora.
– Na verdade eu estou surpresa que ela tenha contato. Não era o tipo de coisa que ela faria no passado.
– Hanna mudou, Marcela. Você ainda vai se convencer disso. Quanto a nós, só não queremos que vocês duas precisem fazer disso um problema. Não errado sentir o que vocês sentem. Se aconteceu, foi porque as duas quis, e tá tudo bem. – Renata assegurou transmitindo paz para a amiga que parecia apavorada.
– Mica, eu… E-eu não quis… Quer dizer, eu quis sim. – Ela estava confusa enquanto tentava se explicar. – Olha, só não quero pense que me aproveitei da sua irmã ou coisa do tipo.
– Eu te conheço Marcela. – Estreitei o olhar, mas em seguida dei de ombros. – No fim das contas, essa sempre foi uma batalha perdida. Eu sei que você já fez coisas piores com minha irmã, do que um simples beijo.
Renata não conteve a risada, enquanto a outra encolheu na cadeira. Marcela estava tão vermelha, que parecia prestes a explodir de timidez.
– Olha, eu jurei pra mim mesma que não iria me meter nisso, mas eu preciso falar… Eu preciso tentar fazer algo porque eu amo vocês duas, e cuidamos de quem amamos. – Suspirei pesado. – Você não sabe como me entristece ver que justamente você se tornou essa pessoa mergulhada nas dores de um passado que causou muitos danos emocionais. Justamente você que não tinha receio de viver, de sentir, de se entregar, hoje se tornou uma pessoa difícil. Alguém que tenta a todo custo bloquear os próprios sentimentos. Alguém que usa da brutalidade, para se reafirmar a si mesma que superou o passado. – A olhei me sentindo profundamente tentando transmitir a preocupação que sentia com ela. – Você nega um abraço mesmo precisando de um. Diz estar bem, se sentindo péssima. E pior, quer ficar sozinha, mesmo quando o coração implora por uma companhia, ou melhor, a companhia dela. Você não é assim, Marcela. Você não é solitária, tão pouco amargurada.
Ela inquietou-se, ou melhor, me entrou em desespero. Sufocada, e,a parecia estar prestes a se deixar levar por lágrima, mas no fim não o fez. Ela tinha aprendido a camuflar os sentimentos, a controlá-los, mas isso não era algo bom, pelo contrário, era algo que a tornava uma pessoa triste.
– Você está fazendo suposições. – Ela tentou argumentar, mas silenciou logo em seguida.
– Não estou supondo nada. Estou dizendo aquilo que seus olhos gritam mesmo quando você se esforça para silenciar. – E também não estou aqui como uma irmã casamenteira. Estou aqui como sua amiga. Estou falando tudo isso porque imagino como você deve estar enlouquecendo enquanto busca uma maneira de continuar evitando o que sente. O problema é que essa busca incessante é perigosa demais não apenas para você e ela, mas para uma terceira pessoa que pode acabar se machucando, afinal ninguém merece alguém pela metade.
– Quê? De quem você tá falando?
– Sair com uma mulher depois de beijar outra, apenas para esquecer o que aconteceu, não me parece uma maneira inteligente de lidar com a situação, Marcela.
Ela entendeu no mesmo instante que me referi ao seu jantar com a ruiva. Tudo bem que ela havia explicado sobre a tal reforma do apartamento, mas eu não era nenhuma idiota. Eu tinha percebido o interesse da arquiteta em Marcela. E conhecia Marcela o suficiente para saber que em algum momento, sem pensar nas consequências, ela usaria dessas investidas da ruiva para tentar fugir do que sentia por minha irmã. Seria o maior erro que ela cometeria, porque no fim das contas quando percebesse que não tomou a decisão certa, iria se culpar por usar uma mulher para esquecer outra.
– Eu não tenho nada com a Yasmin. Pelo amor de Deus, Mica. Eu não a usaria assim
– Nem por um momento você pensou? – Confrontei com a determinação de quem a conhecia bem.
Ela engoliu seco! É, eu estava certa. Em Portugal, Marcela era muito boa nisso. Sempre se afogava em uma noite regada por farra e sex* sem compromisso.
Diante do seu silêncio, suspirei e prossegui.
– Você pode não ter intenções, mas ela tem. Ela quer, e você sabe muito bem disso. E eu não seria contra se caso você a quisesse. Mas apenas para fingir que não sente nada por Hanna? Seria errado e eu não poderia dizer do contrário. – Segurei em sua mão. – Marcela, me dói muito que tenha sido justamente minha irmã a te levar para esse lugar de negações, incertezas, mágoas… Mas infelizmente aconteceu. O problema é que como sua amiga, eu preciso te alertar para não ver você tomar decisões erradas. Pra mim está claro que sua história com Hanna não parece estar bem resolvida, e talvez fosse de bom tom você pensar a respeito. Não é saindo com meio mundo de mulheres, que você vai resolver suas questões. Se fosse assim, não estaríamos tendo essa conversa agora, afinal de contas, não foi isso que você fez durante esses anos?
– Existem três coisas na vida que jamais deveríamos quebrar: Promessa, confiança e um coração apaixonado. Sua irmã conseguiu a proeza de quebrar essas três coisas de uma só vez. – Seu olhar sustentou o meu. – Você que trabalha com probabilidade, pensando nesse cenário, me diz quais as chances que existem para Hanna e eu?
– Eu nunca vou saber como você se sentiu naquele dia, mas se tem uma coisa que eu sei, é que o amor é frágil. E nem sempre cuidamos bem dele, então se essa coisa frágil sobreviver a mentira, a decepção e especialmente ao tempo, talvez signifique que merece ser vivido. Pensa nisso, ok?
Me aproximei e carinhosamente beijei a testa de Marcela.
– Eu preciso ir agora. Tenho alguns trabalho para fazer. – Disse e me levantei em seguida.
Já estava alcançando a maçaneta da porta quando ouvi sua voz chamando por minha atenção.
– Mica.
– Sim? – Me virei e a encarei com tranquilidade.
– Eu deveria te agradecer por me deixar ainda mais confusa?
– Eu sou sua amiga. É meu dever te falar a verdade, mesmo aquela que você não quer ouvir. – Respondi com um sorriso amigável.
Novamente toquei na maçaneta, mas dessa vez foi minha a decisão de voltar a encará-la, porém agora adotando uma expressão Que certamente era assustadora.
– Por favor, se contenha. Não sou obrigada ver você comendo minha irmã com olhos por aí. E por favor, quando for beijá-la de novo, se certifique de que Gabriela não veja. Vocês vão traumatizar minha sobrinha. Você já me respeitou mais, sabia?
– E-eu não vou. – Gaguejou miseravelmente.
– Marcela, por favor. Não sou idiota. É claro que você vai.
Revirei os olhos e antes de deixar a sala, ouvi Renata gargalhando do desespero da amiga.
Fim do capítulo
Boa noite!
Gente, os capítulos estão sendo atualizados diariamente, mas sempre que houver algum imprevisto avisarei no perfil do Instagram: @priskellyautora
bjus!
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