Capitulo 7
Por Hanna
Durante o caminho para o hospital um silêncio desconfortável se fazia presente no carro de Marcela. Enquanto ela mantinha a atenção no trânsito, eu estava ao seu lado olhando pela janela. Nenhuma de nós duas parecíamos saber o que dizer. Ou talvez só não quiséssemos colocar em risco nossos próprios limites.
Tentei concentrar minha atenção em qualquer ponto a minha frente. Sentia que precisava encontrar tranquilidade, mas a verdade é que eu me sentia nervosa por não saber exatamente o que tinha acontecido com minha filha.
– Ei, não fica assim. Ela vai está bem, Hanna. – A voz de Marcela soou tranquila. – Eu não sou mãe, mas crianças tem dessas coisas, né? Elas gostam de assombrar nossos corações com essas peças.
Busquei o olhar da mulher que tentava me tranquilizar, mas Marcela permanecia com seu olhar no trânsito. Devo admitir que de repente senti um aconchego em meu coração por ela estar ali ao meu lado. Marcela sempre teve o dom de transformar os piores acontecimentos, os deixando menos pesado. Lembro bem que naquela maldita noite que Jefferson me fez mal, por mais que eu tivesse muita gente ao meu lado tentando transmitir força, era por ela que meu coração ansiava. Era como se ele soubesse que somente ela seria capaz de transmitir exatamente o que eu precisava. O apoio de Marcela naquela época teria me proporcionado algo que eu não sabia explicar, mas que era valioso ao seu coração.
– Parece meio exagerado, não é? – Eu murmurei finalmente. – Eu sei que essas coisas é normal na idade dela. Mas estou preocupada de verdade. Gabi sempre teve uma saúde fragilizada, então sempre que ela adoece, eu fico assim. – Fiz uma pausa e suspirei cansada. – Eu só quero vê-la logo. Ter ela em meus braços o quanto antes.
Eu já não conseguia segurar as lágrimas que durante todos esse tempo contive.
Inesperadamente Marcela tirou uma mão do volante e buscou a minha. Aquilo me pegou de surpresa, é claro. Mas também não consegui conter a onda de sensações que aquele toque provocou por todo meu corpo. Por mais que eu quisesse fugir, meus sentimentos estavam ali, sempre estiveram guardado ali durante todo esse tempo.
– Não é bobagem! Ela é sua filha. É natural que você fique assim.
Era visível que sua intenção era unicamente me confortar. Mas as coisas ficaram estranhas quando paramos em um sinal vermelho e nos olhamos ainda de mãos dadas. Eu não sabia o que dizer diante daquele ato inesperado. Por sua vez, Marcela parecia nem mesmo compreender a si própria. Ela sabia que estava agindo completamente diferente de todos os últimos dias.
O clima ficou estranho, então ela desfez o contato das nossas mãos. Mas também não foi ríspida ou coisa assim.
Não demorou muito para que chegássemos ao hospital. Assim que o carro encostou, eu desci e praticamente corri em direção à entrada do hospital.
– Por favor, eu gostaria de informações sobre minha filha que deu entrada nesse hospital. O nome dela é Gabriela Avelar Prado. Ela foi trazida pelas responsáveis da escola onde estuda.
Eu falava tão desesperadamente, que não tinha certeza se estava passando para a moça da recepção todas as informações necessárias.
– Só um momento, por favor. Vou verificar as informações. – A recepcionista falou e então senti Marcela se aproximar ainda mais de mim. Talvez ela quisesse mostrar que eu não estava sozinha ali. – Sua filha seguiu para sala de emergência, senhora. Fica no segundo corredor à direita.
Antes que a recepcionista fosse capaz de dizer mais alguma coisa, nós duas seguimos para onde fomos informadas. Chegando à recepção de emergência, logo vi a supervisora pedagógica da escola onde minha estudava.
Eu corri em direção a mulher já buscando saber o que tinha acontecido com minha filha.
– Dona Cláudia, o que aconteceu com a minha filha? Por que a levaram para emergência?
– Graças a Deus a senhorita chegou, dona Hanna. Foram fazer alguns exames. Nós estávamos no horário de recreação, e então…
A mulher começou narrar toda a história para nós, que ouvíamos com atenção a cada detalhe do que era dito. Ela nos explicou que Gabriela começou reclamar de dor no corpo pouco depois que havia chegado na escola. Mas durante a recreação a pequena começou vomitar, e tinha sido nesse momento que a criança perdeu os sentidos.
Durante a narração feita pela profissional de educação, meu nervosismo aflorou. Eu estava tão preocupada, que sequer me atentei em apresentar Marcela para a supervisora. Só me dei conta disso quando Marcela falou:
– Desculpe por não ter me apresentado. Meu nome é Marcela. Sou uma amiga da família. A senhora pode nos informar se faz tempo que os exames começaram?
Olhei para Marcela e fiquei feliz em saber que por alguma razão ela se importava com Gabriela, mas torci internamente para que ela não entendesse mal por não ter sido apresentada. Eu sei que fazia isso no passado. Mas agora foi apenas um descuido mesmo.
– Muito prazer, Dona Marcela. Olha, faz mais ou menos uns trinta minutos. Eu acho que eles não demoram em voltar. – A educadora me olhou. – Senhorita Hanna, eu preciso voltar para a escola, pois hoje faltaram duas outras funcionarias e eu preciso auxiliar na secretaria. A senhorita pode nos manter informadas sobre o quadro da Gabi?
– Claro que sim, dona Cláudia. Assim que tivermos mais informações, ligo repassando à escola. Muito obrigada por ter cuidado da minha filha. Pode ir tranquila, agora eu assumo a situação.
Com a saída da funcionaria escolar, ficamos somente nós duas ali, compartilhando a agonia da espera por informações.
Acho que Marcela tentava não demonstrar, mas se eu ainda a conhecia um pouco, posso jurar que ela estava começando ficar nervosa. Na verdade, ela odiava esperar por qualquer coisa. Ela se sentou e levantou daquele sofá pelo menos umas quinze vezes.
Ainda que insegura, resolvi me aproximar e puxar assunto.
– Desculpe, Marcela. Eu estava tão nervosa que acabei não te apresentando a dona Cláudia. Posso me sentar perto de você?
– Não se preocupe com isso. Eu sei que você está nervosa. – Ela respondeu dando espaço para que eu pudesse ocupar um lugar ao seu lado. – Quantos anos a Gabi tem?
– Vai fazer cinco anos.
– Hum! Entendi. – A vi ponderar por um instante, mas antes mesmo que eu pudesse me preparar, ela perguntou: – Você não vai avisar ao pai dela que estamos aqui?
Congelei! Eu não estava preparada para ter aquela conversa com Marcela. Ainda mais ali, naquele instante. Contudo, eu sabia que cedo ou tarde aquele assunto de alguma maneira seria mencionado. Não era como se fosse possível fugir por muito tempo.
Após alguns segundos tentando pensar, cheguei a conclusão que responderia a verdade. Ou pelo menos parte dela.
– Gabriela não tem pai. – Senti um nó se formando em minha garganta.
– Como assim ela não tem pai?
A olhei! Eu não queria julgá-la, tão pouco ofendê-la. Mas mesmo que eu tivesse a maior parcela de culpa no rumo que seguiu nossa história, ainda assim eu também tinha minhas questões, minhas mágoas. Além disso, embora eu não tivesse vergonha alguma da minha filha, eu tinha medo, sentia receio de com qual olhar Marcela veria aquela situação. Eu sentia medo do julgamento, receio do que mudaria, afinal de contas quantas vítimas de abuso são consideradas culpadas pelo o acontecido? Eu sabia que Marcela era uma mulher de caráter, de princípios, mas aquilo não era sobre Marcela. Era sobre mim. Os anos passavam e eu ainda não conseguia conter todos os sentimentos que àquela situação me causava.
– Durante todos esses anos você não quis saber nada sobre minha vida. Tem certeza que quer saber disso agora?
Por um momento o olhar de Marcela dizia muito mais do que qualquer palavra. Ela tinha sido atingida pelo o peso da minha acusação, e agora fazia questionamentos a si mesma.
– Me desculpe! Eu não quis ultrapassar limites. – Ela respondeu com timidez.
– Você não ultrapassou. E eu também não estou te julgando. Eu realmente acho que temos muitos assuntos pendentes. Mas gostaria de saber sobre os limites que posso ou não ultrapassar com você.
– Eu entendo!
Marcela baixou a cabeça. Estava claro que tinham questões que ela mesma não sabia como lidar. Ela estava perdida, confusa… Micaela estava certa quando dizia que nós éramos um caos anunciado.
Tomada por um impulso, busquei sua mãos e segurei firme enquanto sustentava seu olhar assustado. Mas embora eu estivesse com medo da sua reação, não me arrependi de ter dado aquele passo. Eu precisava ser ousada se queria avançar o sinal.
– Eu realmente acho que temos muito o que conversar. Na verdade, eu gostaria que pudéssemos fazer isso. Eu sei que faz muito tempo, mas muita coisa ficou por ser dita. Eu te devo no mínimo um pedido de desculpas.
– Hanna, por favor. Não faz isso! Como você disse, já faz tempo. Vamos combinar que você me deve nada, ok?
– Por que você tem tanto medo de termos essa conversa?
– Porque eu realmente acho que não vai nos levar a um bom lugar. – Ela respondeu sem restar dúvidas.
– Ainda dói, não é? A decepção que eu te causei… ela ainda dói?
Marcela não respondeu dessa vez. Seu silêncio dizia mais do que qualquer palavra, e isso me atingiu em cheio.
– Huum! Por que decidiu me acompanhar? Eu sei que não sou sua pessoa preferida no mundo. E de verdade, eu consigo entender isso. – Afirmei para ela que me olhou sem receio.
– Eu não sei! De verdade, eu te diria se tivesse a resposta. Mas eu simplesmente gosto muito da sua filha. Foi uma coisa de primeiro olhar. Eu me senti conectada a ela, antes mesmo de saber que você era a mãe.
Os olhos castanhos se encontraram com os meus verdes. Nós duas acabávamos de seremos tomadas por sanções inexplicáveis, adormecidas, talvez.
– Responsáveis pela menor Gabriela Prado?
Imediatamente nós duas levantamos e fomos em direção ao médico que chegava à recepção.
– Sou a mãe dela Dr. O que a minha filha teve?
– Pode me acompanhar até a minha sala, por favor?
Olhei para Marcela quase suplicando por sua companhia. Eu não sabia como pedir para que ela me acompanhasse, então esperei que ela entendesse meu olhar.
– Quer que eu te acompanhe?
Marcela questionou e eu rapidamente concordei. E assim seguimos o médico, lado a lado e em silêncio.
Já na sala, o médico explicava que Gabriela tinha testado positivo para a Dengue, e por estar desidratada iria precisar ficar no soro naquele momento. Depois ela iria poder ir para casa, mas iria ser necessário manter repouso absoluto e seguir alguns cuidados especiais, já que seu quadro apresentou perca de sentidos e febre alta.
Depois de todas as explicações e orientações do médico, fomos autorizadas a ficar no quarto com Gabriela. Antes de me acompanhar, Marcela se prontificou em ligar para Micaela e avisar sobre todo o quadro clinico da sobrinha.
– Posso entrar?
Após alguns minutos na ligação, Marcela surgiu batendo na porta. Mantendo seu olhar fixo em Gabriela. Ela esperava autorização da criança para poder entrar no quarto.
– Titia Marcela. – Gabriela pareceu ficar surpresa. Em seguida olhou para mim, como se questionasse se ela podia entrar ali. – Ela pode, mamãe?
– Claro, filha! Entra Marcela.
Gabi logo se animou. Eu não entendia bem aquela conexão que minha filha tinha tido com Marcela, mas desde o dia que se encontraram na casa de Micaela, era comum que a pequena me fizesse muitas perguntas sobre a “nova tia”. Era ainda mais comum que Gabriela insistisse em saber se já tínhamos feito as pazes. Em sua inocência, Gabriela não conseguia entender que qualquer divergência que Marcela e eu tivéssemos, era bem maior do que ela pudesse imaginar.
Minha filha se animou quando viu Marcela entrando no quarto. Eu precisei ser mais rápida para segurá-la antes que ela saísse da cama e perdesse o acesso do soro em seu braço.
– Ei, calma aí mocinha. Você não pode levantar, não.
Marcela falou enquanto apressou os passos para se aproximar da cama. Em uma demonstração de carinho, ela beijou a testa de Gabriela.
– Você veio mesmo me ver? – A pequeno questionou com euforia.
– Claro que sim! Como você está se sentindo, princesa?
– Aqui tá dodói.
A pequena fez manha apontando para o local onde a agulha estava em seu braço. Eu já conhecia as artemanhas de Gabriela, e sabia que o drama era usado para que tivéssemos pena e a levássemos dali o quanto antes. Gabriela odiava hospitais.
A expressão de Marcela foi como se tivesse levado um soco no estômago.
– Eu sei que é chato tomar soro. Mas é para seu bem, pequena. Quer uma notícia boa?
– Uhum! Adoro notícias boas. – Gabriela se empolgou.
– Então escuta essa… Se você se comportar e ficar quietinha sem perder o acesso, logo vamos para casa. Não é legal?
Eu assistia a interação das duas. Elas se davam bem, e por mais que eu ainda estivesse me acostumando com isso, não era como se não me agradasse saber que Marcela gostava da minha filha. Por um momento me peguei pensando como teria sido minha vida se Marcela não tivesse ido embora.
Meus pensamentos foram interrompidos quando Marcela chamou minha atenção.
– Hanna, eu já avisei para Micaela. Eu disse que te faria companhia aqui e em seguida te levaria em casa. Se você quiser, é claro.
Envergonhada, desviou o olhar e concentrou sua atenção em Gabriela. Por sua vez, minha filha parecia atenta a conversa.
– Tudo bem! Mas eu não quero incomodar.
– Não vai ser um incomodo. – Ela garantiu.
– Você vai ficar aqui comigo? – Gabi questionou com animação.
– Se você deixar, eu fico sim.
– E com a mamãe também?
Marcela me olhou por alguns segundos. Não era como se fosse possível adivinhar o que estava se passando em sua cabeça, mas pelo menos naquele momento não existia vestígios de raiva.
– Aham! E com sua mãe também.
Os olhos de Gabriela acenderam um brilho instantâneo de pura empolgação.
– Então agora eu posso gostar de verdade de você? Não preciso mais ter medo de você não gostar da mamãe?
Marcela engoliu seco, mas sorriu torto em seguida. Embora a situação constrangedora que minha filha nos colocava, ainda assim ela parecia buscar conduzir com leveza.
– Gabriela, chega de interrogatório. Marcela vai pensar que eu não te dou educação. – Ralhei com a menor.
– Mas eu nem tô sendo mal educada. Só quero ser bem informada.
Marcela riu com a resposta da criança. Quem via não dizia que estávamos mesmo conversando com uma criança prestes a completar cinco anos.
– Você não pode negar que ela tem um bom argumento. – Marcela disse para mim enquanto se esforçava para não rir ainda mais.
Acho que aquela era a primeira vez que eu a via descontraída.
– Ah, que gracinha a sua. Espera só esses argumentos serem usados contra você. Vou querer ver se você vai achar engraçado. – O sorriso se transformou em careta. – Sabe quem ensina essas coisas pra ela? Daniela, é lógico.
O tempo foi passando em meio a centenas de questionamentos feitos por Gabriela. Todos eles nos colocava em saia justa. Eram perguntas do tipo: Como vocês se conheceram? Por que eu não te conhecia como conhecia as outras? Vocês vão ser amigas, agora?
Eu tenho certeza que era uma situação ainda mais embaraçosa para Marcela, do que para mim que já sabia lidar com perguntas feitas por uma criança curiosa.
Quando me dei conta, Marcela e eu estávamos uma de cada lado da cama ouvindo as histórias contadas por Gabriela. Ela que não parava de falar um minuto sequer, parecia estar com mais energia do que o seu normal. A empolgação era tanta, que não dava lugar nem mesmo para reclamar do soro. Minha garotinha falava de coisas paralelas, um tanto desconexas, o que acabava provocando nossa risada.
Vez ou outra era quase que inevitável não trocarmos olhares carregados por sentimentos não ditos. Estávamos silenciando, mas a regra que nos envolvia era clara e palpável. Nós duas estávamos compartilhando aquele momento enquanto mergulhávamos confusão, tristezas, mágoas, e por que não admitir que também sentíamos saudades? Ela não admitiria tão cedo, eu tinha certeza disso. Mas eu senti que por um instante ela se permitiu sentir o mesmo que eu.
…
Por Marcela
Já era quase fim de tarde quando o médico liberou para que levássemos Gabi para casa. A garotinha estava tão exausta, que já havia adormecido no colo da mãe enquanto seguíamos para o estacionamento. Como eu não estava preparada para nada daquilo, e claro, sequer tinha criança em minha vida, lógico que eu não tinha uma cadeirinha para acomodá-la como era o certo a fazer, então Hanna precisou ir no banco de trás do carro com a filha.
Abri a porta para Hanna, e esperei ela se acomodar. Ela fazia isso com cautela para não acordar a criançada seu colo.
– Então, para onde eu te levo?
Questionei tentando ocultar o desconforto que estava sentindo com o embaraço que aquelas últimas horas estavam provocando em mim. Mas também, o que eu esperava? Foi minha a decisão me meter naquela história. Se eu tivesse um pouco de sanidade mental e doses de amor próprio, eu deveria ter deixado que Micaela acompanhasse a irmã. Mas o que eu fiz? Droga! Eu nem sabia explicar o que tinha me motivado fazer aquilo. Agora, fosse como fosse, o fato é que já não dava para voltar atrás.
Ela me explicou o endereço e apesar de fazer muito tempo que não andava por Fortaleza, eu conhecia muito bem a cidade, então não seria realmente um problema chegar ao logo indicado. Era um endereço bem central, o que conclui que era intencional para facilitar sua vida, já que o mesmo era próximo ao trabalho e a casa de Micaela.
Todo o trajeto foi feito todo em silêncio. A verdade, é que minha mente estava navegando em um turbilhão de pensamentos desordenados. Perceber que naquelas horas, onde em silêncio estabelecemos um acordo de mantermos uma tréguas entre nossas diferenças, me trouxe incertezas que eu sequer sabia que era capaz de existir. Era possível que de alguma maneira eu pudesse sentir qualquer outro sentimento por Hanna, que não fosse rancor? Não! Eu me negava aceitar isso. A anos atrás, eu já havia prometido para mim mesma que jamais permitiria que ela tivesse o poder de interferir novamente em minha vida, e eu cumpriria essa promessa. Eu devia isso a mim mesma.
Segui reforçando internamente as promessas que havia me feito durante todos esses anos. Talvez assim as coisas não fugissem do meu controle.
Estacionei em frente da guarita do prédio e olhei para o banco de trás. Gabriela ainda estava dormindo profundamente nos braços da mãe. O que me restava fazer? Arcar com as consequências das minhas escolhas, é claro. Eu sabia que estaria ultrapassando ainda mais meus próprios limites, mas olhar para a menina adormecida como um anjo, me fazia ter certeza que valeria a pena.
Educadamente me prontifiquei em subir até seu apartamento para ajudá-la com sua bolsa e a mochila escolar da menina. Insegura, Hanna hesitou por um momento, mas por fim também se deu conta que não tinha muita escolha.
Baixei o vidro para que Hanna pudesse falar com o porteiro autorizando a entrada do meu carro no local.
Entramos em silêncio no elevador. Acho que não sabíamos o que dizer. O momento era embaraçoso demais para que algo fosse dito.
Quando paramos na frente da porta do apartamento indicado, ela finalmente quebra o silêncio:
– Marcela, será que você pode pegar a chave que estar nesse bolso da frente , por favor? – Disse se referindo a bolsa dela que estava nas minhas mãos.
Levemente constrangida com a intimidade que não tínhamos, em silêncio fiz o que ela pediu. Em seguida abri a porta.
Abri espaço para que Hanna pudesse entrar com Gabriela. Ao passar por mim, pude sentir seu perfume invadir meus sentidos. Hanna me olhou e apenas acenou autorizando minha entrada no apartamento. A princípio fiquei sem saber o que fazer, mas tomada por um instinto desconhecido, acabei aceitando o convite silencioso.
Quando entrei no apartamento e fechei a porta atrás de mim, senti meu estômago embrulhar. Eu estava sendo envolvida por uma sensação atormentadora. Era como se eu não tivesse mais controle da situação. Eu me culpava por sentir que estava abrindo espaços que não deveriam ser abertos. Também sentia que estava ultrapassando minhas próprias barreiras, e depois não iria saber como lidar com isso. Era como se ao atravessar a porta daquele apartamento, eu estivesse automaticamente entrando novamente na vida de Hanna, no espaço intimido dela e da sua filha, e isso parecia perigoso e errado. Pior, era como se eu estivesse deixando aberto para que ela fizesse o mesmo, e se sentisse convidada a entrar em minha vida, o que seria ainda pior.
– Algum problema, Marcela?
Hanna me trouxe de volta a realidade. Engoli seco ao perceber que havia me perdido em pensamentos enquanto seu olhar preocupado parecia me analisar.
– Problema nenhum! – Respondi rapidamente sem conseguir passar nenhuma credibilidade e segurança.
– Eu vou coloca-lá na cama e já volto. Pode ficar a vontade! – A ouvi falando, mas meus pensamentos novamente já estavam longe.
Automaticamente, uma curiosidade incontrolável passou aquecer meu coração. Quando me dei conta, já estava passeando pelo o ambiente. Era um apartamento pequeno, porém aconchegante e organizado. Parecia ser o ideal para mãe e filha.
A decoração era impecável. Mas como podia ser diferente? Hanna sempre teve bom gosto. Observei vários portas retrato espalhados pelo o cômodo, a maioria eram com fotos da Gabriela em diversas fases da sua vida, algumas de quando era apenas um bebê. Também tinham algumas fotos de Hanna com seus pais, e também tinha uma dela ao lado de Micaela e Robson durante a festa de casamento dos dois. Mas um porta retrato em especial chamou minha atenção… Nele estava uma foto de Hanna com Gabriela nos braços, parecendo ter sido tirada ainda no hospital após o nascimento da menina. A expressão de Hanna era de cansada, mas ainda assim seu sorriso era lindo. Era a imagem somente as duas. Mãe e filha. O que me fez novamente questionar sobre onde estava o pai da menina. Em um momento como aquele era de se esperar que o pai estivesse ao lado, não era? Eu também já tinha notado que no hospital ao mencionar o nome da pequena para a recepcionista, a menina carrega apenas o sobrenome da família de Hanna.
– Nessa foto a Gabi tinha acabado de nascer.
A chegada repentina me assustou, especialmente por ter sido pega com o objeto na mão enquanto admirava a imagem. Dei um pequeno pulo e olhei para trás como um criança fazendo arte. Hanna estava escorada na porta do corredor mantendo os braços cruzados enquanto olhava fixamente para minhas mãos que ainda seguravam o porta retrato.
Rapidamente voltei a colocar o objeto em seu devido lugar. Embora ela tivesse comentado sem parece ter se incomodado, achei melhor me manter longe da sua privacidade.
– Você quer beber alguma coisa? – Ela ofereceu quebrando o silêncio constrangedor entre nós.
– Não, obrigada! Talvez seja melhor eu ir embora. – Disse me sentindo sufocada, especialmente quando tive seu olhar determinado preso ao meu.
– Acha que é bom adiar essa conversa por mais tempo? – Ela foi clara.
Eu sabia o que ela estava querendo dizer, ou melhor, sobre o que ela estava se referindo. No entanto, eu não tinha uma resposta como gostaria de ter. Meu coração dizia uma coisa, minha cabeça dizia tantas outras. A verdade é que eu estava vivendo um turbilhão de emoções ao mesmo tempo, o que me deixa incapaz para tomar qualquer decisão que não me levasse ao arrependimento mais tarde.
– Eu não sei! Na verdade, eu não sei se estou preparada. Não sei nem se devemos arriscar. Já faz tanto tempo, então porque agora? Seria como mexer em um vespeiro. Acho que não precisamos disso. – Respondi com sinceridade.
– Eu tenho uma visão completamente contrária sobre o assunto. Acho que temos muito para falar. Sempre tivemos, e deveríamos ter assumido isso no passado. – Ela disse com segurança.
– Por quê? Por um motivo muito óbvio, eu sempre fiz questão de não saber nada sobre você. Então conversar agora talvez não mude nada.
– Ou talvez mude tudo. – Respondeu Hanna dando de ombros.
– Isso não é uma boa opção para nós duas. Vamos falar coisas que não devemos. Vamos machucar ainda mais uma a outra. – Argumentei sendo incapaz de continuar sustentando seu olhar.
Virei meu corpo ficando de costa para Hanna, e fitei a vista que a varanda da sala proporcionava.
– Te entendo! – Ela me surpreendeu. – Sério, entendo de verdade mesmo. Eu sei que te magoei demais. É natural que você queira se manter distante de qualquer coisa que a leve de volta ao passado. Inclusive longe de mim.
Ouvi seus passos encurtarem a distância entre nós. Ela então parou ao meu lado também admirando a vista a nossa frente.
– Para ser honesta, eu sempre pensei que jamais teríamos a chance de ter essa conversa um dia. Mas depois que você voltou, acho que isso é quase que inevitável, Marcela. Uma hora ou outra isso ainda vai acontecer. Talvez possamos adiar por mais algum tempo, mas não tê-la são chances nulas, e você sabe disso.
– Por quê? Podemos ignorar. Podemos seguir. – Argumentei com pressa.
– Acho que depois daquele dia em que você se deixou expor tudo o que realmente sente a meu respeito, ficou bem claro para nós duas que seguir sem uma conversa não é bem uma opção.
Hanna parecia determinada em expor razões que me convencessem a não fugir novamente daquela conversa. Isso não me surpreendia, considerando que ela sempre foi assim… Sempre foi determinada quando queria muito conseguir algo.
Mas ainda assim eu me questionava o porquê para ela parecia tão importante ter vivermos aquele momento. Ela não tinha seguido com sua própria vida? Esquecer tudo aquilo deveria ser a única coisa incomum que deveríamos ter.
– Acha tão necessário assim? Que diferença vai fazer? Não basta saber que as experiências dolorosas nos trouxe até aqui?
– É exatamente por isso. – Ela disse e reagi sem entender, o que a fez continuar. – Foram experiências muito dolorosas. Aquilo que aconteceu poderia ter nos afastado para sempre. Mas olha só… Aqui estamos nós duas, frente a frente. Gosto de pensar que isso é uma oportunidade para acertarmos as coisas.
– Acertarmos as coisas? – Acabei rindo com indiferença. – Isso não é algo possível para nós duas, Hanna.
– Se tivéssemos tido essa conversa a oito anos atrás, talvez tivesse sido tudo diferente.
Me virei ficando de frente para ela, que por sua vez, agora estava ainda mais próxima a mim.
Olhei para aquela mulher que parecia tão igual a garota que um dia conheci, mas ao mesmo tempo estava tão diferente, e não consegui mais definir que sensações que sua presença me causava. Hanna agora adotava uma postura ainda mais segura de si, madura, objetiva, responsável… fisicamente não havia mudado tanto, era tão atraente quanto antes. Mais e o caráter? Isso sim era um verdadeiro mistério aos meus olhos.
– Não tinha como ser diferente. Você fez escolhas, Hanna. Você me magoou profundamente. Nada do que você dissesse naquela época, mudaria o fato de que a cicatriz em meu coração estava aberta. Nada do que você me falasse me faria confiar em você novamente. Assim como não consigo confiar agora.
Por mais duras que fossem minhas palavras, eram necessárias. Mas surpreendentemente, eu não alterei o tom. Pelo contrário, aquelas palavras também doíam em mim, por isso quase sussurrei cada uma delas.
Por sua vez, eu consegui ver um brilho de tristeza em seu olhar. Ela havia sentido o peso daquelas palavras tanto quanto eu senti.
– Eu entendo o que você quer dizer. E acredite quando digo que isso me dói muito. Se eu pudesse voltar no tempo jamais iria ferir seu coração novamente.
– Mas o tempo não volta, não é mesmo?
– Não volta, mas nos dar novas oportunidades. – Hanna sustentou meu olhar. – Eu mudei, Marcela. E também aprendi muitas coisas.
– Eu até duvidava que você tinha mudado. Bem, não sei ao certo o que pensar ainda, mas pelo menos hoje percebo que você se importa com alguém além de si mesma. Fico realmente feliz por isso. – Fui sincera.
– Você está se referindo a Gabriela, não é mesmo? Também fico feliz que tenha percebido isso. – Ela sorriu, mas não existia felicidade naquele sorriso. – Eu daria minha vida por minha filha. De tudo de ruim que me aconteceu desde o dia que te perdi, ela foi o que me aconteceu de melhor.
Nós duas silenciamos! Cada vez que o nascimento de Gabriela era mencionado, ou a existência do pai da menina, um brilho triste surgia no olhar dela. Era como se lembrar disso a levasse para um lugar sombrio, e isso começava me deixar inquieta, intrigada e um tanto atormentada. Era como se meu coração quisesse tirar aquela dor existente em algum lugar da sua alma. O que podia ter acontecido de tão ruim para marcá-la, assim? Bem, fosse como fosse, Hanna não parecia querer falar sobre aquilo comigo. E isso também começava me incomodar.
– Fico feliz em saber que no meio disso tudo, pelo menos por um momento alguma de nós duas foi feliz. No meu caso, eu não tive a mesma sorte. – Lamentei me permitindo ser sincera não com ela, mas comigo mesma. – Naquele dia em que você destruiu meu coração, também foi o dia que me perdi de mim mesma. – Deixei um riso irônico escapar. – Por que, Hanna? Eu te amei tanto. Eu confiava tanto no que você dizia que sentia por mim. Confiava em nós… Sério, eu cheguei acreditar que teríamos um futuro juntas. Eu sonhei com isso, eu desejei isso.
Não consegui esconder a mágoa que aquelas lembranças me causavam.
– Eu nunca quis te machucar daquela maneira, Marcela. Eu fui tola! Não é uma explicação, eu sei disso, mas eu era muito jovem, boba, insegura, medrosa. Até aquele dia, eu sequer conseguia entender a intensidade do que eu sentia. Não conseguia reconhecer e aceitar a mim mesma.
– O que você quer dizer com isso?
Hanna suspirou como se um fardo estivesse sob meus ombros.
– Marcela, o medo do preconceito que eu tinha, não estava relacionado a minha família como eu dizia. Era do preconceito que eu tinha comigo mesma. – Ela me olhou profundamente. – Eu te amava de verdade, e isso me assustava porque na minha cabeça uma mulher não podia amar outra daquela maneira. Só que quanto mais o tempo passava, mais intenso ficava o sentimento que eu tinha por você. Por mais que eu quisesse fugir de quem eu era, mais aquilo ganhava identidade. E eu me importava demais com a opinião que as pessoas teriam sobre mim. Somente depois, eu descobri que o pior dos preconceitos é aquele que carregamos contra nós mesma, porque esse sim é capaz de mudar o rumo da nossa vida.
– Então você concluiu que era uma boa ideia me humilhar e me trair bem diante dos meus olhos? – Novamente ri sem humor. – Bem, você teve a Gabriela. Acho que no fim das contas você conseguiu definir sua sexualidade conforme achava que era o correto, não é mesmo?
– Não use o surgimento de Gabriela na minha vida, como um atestado da minha sexualidade. Isso não cabe aqui. Além disso, eu nunca pensei em te humilhar. Aquilo não foi calculado, Marcela. Aquilo foi apenas eu, sendo idiota. Eu sequer sabia que você estava ouvindo e vendo aquela merd*.
Hanna rapidamente se defendeu. Ela deu um passo em minha direção, porém rapidamente eu dei dois passos para trás. Ouvir a verdade conseguia ser ainda pior do que tudo o que eu imaginei por anos.
– Marcela, eu não consegui formar uma opinião sobre o que eu estava sentindo e vivendo. Não consegui ter maturidade suficiente para lidar com a situação de uma maneira adulta. Eu nunca tinha me sentido atraída por mulheres, até o dia que te conheci. Naquele dia na mata quando você me encontrou perdida, eu já não conseguia lutar contra o que sentia por você. Eu achei que era louca, porque a única mulher que me trazia aquele turbilhão de sentimentos, era você. Só que depois eu entendi.
– O que você entendeu?
– Que não era qualquer mulher. Era a mulher da minha vida. Era você, Marcela.
Eu tentava a todo custo segurar as lágrimas que queriam escorrer pelo meu rosto. Tudo o que ela falava me levava para o passado de forma cruel fazendo toda dor adormecida despertar dentro de mim. E tê-la se declarando daquela maneira, era como ser puxada novamente para juras e declarações sem qualquer verdade.
– Àquelas palavras foram cruéis, mas nunca foram reais, Marcela. Nunca foi o que eu sentia naquele momento. Me perdoa! Eu te queria demais, e Deus sabe como eu te queria, mas eu era fraca demais para enfrentar meus próprios preconceitos, por isso usava meus pais como argumentos para esconder nosso namoro. Eu te queria, te amava, mas não entendia o porquê. Dizer aquilo tudo não era para punir você, mas sim a mesma. Negar que te amava, doía em mim.
Hanna começou a chorar, e eu me esforçava para não me deixar levar por suas lágrimas. Eu não podia me comover. Não podia retroceder.
– Pelo menos agora você reconhece que o problema real sempre foi você. Mas sinceramente, isso não muda as coisas. Você foi rude, foi fria, foi cruel. – Acusei.
– E eu não já admiti isso? – Ela se apressou em se defender. – Eu sei dos meus erros, e hoje assumo todos eles. Eu sacrifiquei o amor da minha vida por fraqueza. – As lágrimas de Hanna começaram rolar ainda mais pelo seu rosto. – Marcela olha para mim. – Ela pediu com urgência, e mesmo contra vontade, eu cedi. Porém, a mágoa tomava conta do meu coração. – Eu fui sim muito estúpida, mas quando você se foi daquela casa de praia, eu percebi que não importava o que acontecesse na minha vida, você era o que já tinha acontecido de melhor. Eu sei que percebi isso tarde demais. Mas será que você pode perdoar?
– E-eu… Eu não tenho certeza. – Respondi com insegurança.
Hanna se aproximou. Dessa vez eu não recuei.
– Naquele mesmo dia, eu fui atrás de você. Eu juro que fui, Marcela. Eu queria ter concertado as coisas naquele mesmo dia. Mas, você não atendia minhas ligações. Você também não me recebia na casa dos seus pais. Foi como se você tivesse evaporado do mundo.
– E você queria que eu fizesse o quê? Eu estava destruída, Hanna. Te ver beijar outra pessoa na minha frente foi a coisa mais… – As palavras pareceram ficar aprisionadas em minha garganta. – Eu não podia viver o resto da minha vida esperando um dia você criar coragem. Eu já nem acreditava em você.
A mágoa na minha voz era amarga e cortante.
Eu vi Hanna ficando desesperada parecendo não saber como continuar, tão pouco parecia saber como me convencer.
De repente uma coisa voltou a povoar meus pensamentos. Não deveria ser algo importante ou incômodo, mas o fato é que era algo existente. Algo que não podia ser ignorado.
– De qualquer maneira, você refez sua vida, não é? Gabriela está aqui como prova disso. Por favor, não pensei que estou te condenando por isso. Eu nem tenho nada a ver com isso. É só uma constatação.
Por um instante Hanna sustentou meu olhar. Ela parecia viver um dilema consigo mesma. Era como se algo a incomodasse, e ela estivesse decidindo qual caminho seguir.
Por fim, ela disse:
– As coisas não aconteceram assim como você pensa. Quando você se foi, eu contei para os meus pais, para minha irmã. Não era como se fosse possível continuar escondendo que eu te amava. Eu estava sofrendo com sua ausência. Eu não comia, não dormia, não tinha felicidade. Durante algum tempo, eu te esperei voltar. Eu realmente tinha esperança que nós voltássemos a ficar juntas, tinha esperança de te reconquistar. Mas, você fazia questão de ficar cada vez mais distante de mim. Quando vinha ao Brasil, sempre fez questão de sequer estar no mesmo local que eu também estivesse. Então resolvi te respeitar e sumir da sua vida. Me entreguei dia e noite aos livros e matérias do curso de direito na tentativa de ocupar minha cabeça com outra coisa que não fosse você. Aos poucos aquela Hanna de curtição e felicidade que você conheceu foi morrendo. Minha vida era feita de pesquisas e mais pesquisas. Não foi como se eu tivesse curtindo a vida por aí, Marcela.
– Mas e a Gabi?
– Por Deus, por que de repente isso parece ser o mais importante para você? – Hanna agoniou-se consigo mesma.
– Porque ela é sua filha?! E eu nunca acreditei que cegonhas entregam bebês por aí. – Fui óbvia.
– Gabriela foi o maior presente que Deus me Deu. Mas o genitor… – A vi pensar por um instante. – Olha, Marcela. Eu preferia não falar sobre ele. Até porque a conversa é sobre nós duas.
Era possível perceber que aquele era um assunto que incomodava Hanna. Mencionar o pai de Gabriela parecia causar dor nela. Pelo menos era isso que diziam seus olhos. Por mais que eu ficasse curiosa para entender aquele quebra-cabeça, eu não podia simplesmente obrigar Hanna falar, mas iria encontrar um jeito de descobrir o que tinha acontecido.
– Tudo bem! Se você não quer falar, eu respeito. Na verdade, eu acho que já vou indo.
– O quê? Assim? Nós ainda não terminamos de conversar.
Foi minha vez de suspirar cansada.
– O que você espera que eu diga? Não é como se pudéssemos mudar oito anos, Hanna. – Me dei conta que meus olhos lagrimejavam. Me esforcei para não deixar as lágrimas caírem, mas era difícil conter. – Foram anos vividos em meio a mágoas e noites mal dormidas. Depois do que aconteceu, eu não tinha paz. Eu só caia no sono depois de muitas lágrimas transbordarem pelos meus olhos e taças de vinho afogarem a dor do meu coração. O que nós vivemos foi por pouco tempo, mas o sentimento foi intenso, foi verdadeiro da minha parte. Por isso doeu e dói até hoje.
– Não foi verdadeiro apenas da sua parte. – Hanna apressou-se em dizer. – Também me doeu. E ainda me dói. Ainda mais agora que você tá de volta. Como você acha que fico em ter que lidar com sua indiferença todos os dias? Como você acha que me senti em ouvir você dizer que me odeia.
– Eu realmente não sei dizer como você se sente. Não sei nem se eu consigo acreditar em você, Hanna. Mas eu posso afirmar que você foi à primeira mulher que amei de verdade, mas também foi a única que quebrou meu coração.
Comei andar de um lado para o outro tentando não gritar minhas dores, pois não queria acordar a pequena Gabriela que dormia no quarto ao lado.
– Nunca passou pela sua cabeça que eu seria capaz de compreender todos os seus medos? Eu poderia não ficar feliz. Mas entenderia, e estaria ao seu lado para ajudar você se entender consigo mesma. Hanna, eu estava entregue a você, e faria tudo para te apoiar. Teria sido mais fácil se você não tivesse disposta a me ferir. Mas agora, depois de todo esse tempo, como você espera que eu consiga passar por cima disso? Eu lembro daquele dia com dor, lembro com tristeza da maneira como você me tratava, lembro com amargura das palavras secas que você dizia sem pensar como me machucava. Eu lembro as humilhações que você me fazia passar na frente de todos. São muitas coisas a serem superadas, Hanna. São muitas cicatrizes.
Minhas lágrimas já não pediam licença, e agora rolavam pelo meu rosto aos montes.
– Eu realmente não sei o que estou fazendo aqui te ouvindo. Eu vou embora!
Fui em direção à porta quando senti sua mão tocando meu braço. Hanna me puxou em direção ao seu corpo fazendo com que ficássemos com nossos rostos tão próximos, que eu era capaz de sentir sua respiração tocando em minha boca.
– Não vai, por favor. Nós não podemos acabar essa conversa de um jeito ainda pior do que começamos. Você não pode fugir de novo sem me dar chance de fazer algo por nós. E eu sinto que se você sair por porta assim, eu nunca mais vou ter outra oportunidade como essa. – Ela desesperou-se.
Aquela aproximação despertou dentro de mim o que jamais gostaria de voltar a sentir. Como era possível que eu ainda desejasse aquela mulher? Aquilo me causou de tudo um pouco. Eu sentia tanta raiva de mim mesma por estar desejando a mulher que jurei esquecer. Era como se eu estivesse traindo a meu próprio coração.
– Eu nunca fugi de você. Eu escolhi viver longe de você, assim como escolhendo permanecer longe agora. – Disse aquelas palavras com frieza, porém sussurrando. – Não houve chance para nós no passado, Hanna. E nem não existe agora.
Tentei ser o mais seca possível, e percebi que consegui atingi-la com minhas palavras, mas ela me surpreendeu quando se mostrou decidida a lutar por qualquer coisa que acreditasse ser possível.
– Olha nos meus olhos e diz que você não me quer mais. Diz que isso não significa nada. Diz que eu estou louca em sentir que embora sua boca diga uma coisa, seu corpo diz outra quando responde ao meu toque, Marcela. – Ao falar, ela passava a ponta dos seus dedos pelo o meu braço, que involuntariamente se arrepiaram. – Diz que não sente nada enquanto te tenho em meus braços. Fala olhando nos meus olhos que você não me ama mais, e que minhas chances são nulas. Diz tudo isso, e eu prometo que dessa vez quem ficará longe de você sou eu. Mas se você não disser, enquanto existir um porcento de chance, saiba que eu lutarei por você.
Fui totalmente pega de surpresa com aquela reação de uma mulher determinada. Àquelas palavras e a certeza com a qual ela pronunciava cada uma delas, foi torturante. Em outro momento facilmente eu poderia dizer tudo aquilo que ela estava me pedindo, mas naquele instante não consegui mentir. Algo no meu coração não me permitiu.
Meu silêncio parece tê-lá encorajado ainda mais, e sua mão que antes me segurava apenas pelo pulso, agora se apossavam da minha cintura sem encontrar a resistência que eu desejava demonstrar. A troca de olhares que já durava um certo tempo, foi interrompida somente quando senti seus lábios tocando suavemente em meu queixo, e em seguida descendo em direção ao meu pescoço. Suas mãos tocavam com maestria minha cintura enquanto ela me puxava ainda mais contra si. Por um momento eu não sabia o que fazer, não sabia como agir. Não sabia se queria agir. Sentir a pele dela sobre a minha, era algo torturante e ao mesmo tempo embriagante. Então pude perceber o quanto eu sentia falta daquele toque na minha pele, e isso era uma droga.
Me vendo ali totalmente entregue a cada beijo que ela distribuía em meu pescoço, Hanna foi ousada. Ela subiu os beijos seguindo trilhas em direção a minha boca. Eu já não raciocinava com precisão, já me sentia incapaz de tomar decisões entre o que era loucura e o que era necessário. Me entreguei a maior burrice que estava prestes a cometer, mas já era tarde, quando me dei conta já segurava Hanna pela cintura com uma mão, enquanto a outra se apossava da sua nuca. Contudo, a impedi de aprofundar o beijo que tanto ansiava e estava prestes a iniciar. Olhei em seus olhos em busca de qualquer respingo que me trouxesse de volta a realidade, mas tudo o que encontrei foi o mesmo que eu sentia. Desejo!
– O que eu faço com você, em? – Grudei minha testa na dela e a vi sorrir lindamente para mim.
– Só me beija, Marcela.
A resposta sussurrada de Hanna foi o suficiente para que eu pudesse esquecer todo o passado por um minuto. A quem eu queria enganar? Desde que a reencontrei naquela empresa, eu senti vontade de tê-la em meus braços novamente. Sempre senti falta dos beijos que se encaixava tão perfeitamente com o meu. E agora que ela estava ali na minha frente pedindo para beijá-la, eu não conseguia resistir. Por mais que eu soubesse que me arrependeria depois, eu jamais conseguiria resistir.
O beijo iniciou de quase obsceno. Era urgente, era saudoso. Estávamos tomadas por desejo e emoções. Sentia sua língua pedindo passagem, o que rapidamente foi concedida. Suas mãos passeavam pelo o meu corpo enquanto eu segurava em seus cabelos sem me preocupar se estava sendo rude. Existia entre nós uma entrega carregada por uma energia inexplicável.
Só interrompemos o contato dos nossos lábios quando sentimos que já estávamos sem ar, mas quando assim fizemos, não nos afastamos do corpo uma da outra por nenhum momento. Ficamos ali, com nossas testas coladas e nos olhando profundamente, mergulhadas em um silêncio significativo. Seus braços eram possessivos ao entorno do meu pescoço.
Então só depois de algum tempo, com um sorriso tímido nos lábios, ela teve coragem de quebrar o silêncio.
– Tão bom como sempre sonhei que seria. Na verdade tá ainda melhor do que eu conseguia recordar. – Senti seu carinho delicado em meu rosto. – Você pode não acreditar, mas sempre sonhei com o dia que voltaria sentir seus lábios nos meus.
Não me dando tempo para dizer nada como resposta, novamente senti sua mão segurar meu rosto e seu olhar desceu para minha boca. Não demorou para que novamente eu tivesse seus lábios encostando nos meus, porém dessa vez o beijo era calmo, transmitindo toda saudade e ondas de emoções que durante anos guardamos em nossos corações.
– Mamãe, tive um pesadelo.
Nos afastamos rapidamente quando ouvimos a voz sonolenta da garotinha que agora nos olhava com aquela inocência que tanto me deixava rendida toda vez que a tinha por perto.
Naquele momento minha sanidade mental parecia ter voltado. Me dei conta do que tinha acabado de acontecer naquela sala e me desesperei por ter me permitido ir tão longe. O que eu tinha feito? Eu não poderia me machucar de novo.
Hanna olhou assustada para a filha, provavelmente se desesperando por ter sido pega no fraga enquanto me beijava sem pudor. Em seguida me olhou como se pedisse em silêncio que eu a compreendesse. Mas o que eu esperava? Não era sempre assim, um segredo a ser contato?
Sem nada dizer para Hanna, fui até onde Gabi estava e a beijei na testa. Olhei novamente para Hanna e disse:
– Eu preciso ir! Pode tirar folga pelo o tempo que precisar para cuidar da sua filha.
Sai daquele apartamento antes que ela pudesse responder qualquer coisa. Primeiro que eu não queria ter que lidar com seu olhar de arrependimento, e segundo que eu não podia correr mais nenhum risco de ir contra tudo o que julgava por ser certo.
Entrei no carro, baixei a cabeça no volante tentando acalmar minhas emoções, só então percebi que prendia o ar e já estava ficando sufocada. Respirei fundo e então peguei o celular procurando um número que havia adicionado na agenda mais cedo.
– Alô! – Permaneci em silêncio me dando tempo para pensar no que estava fazendo. – Marcela, você está ai? Aconteceu alguma coisa? Fala comigo.
Respirei fundo e então respondi
– Yasmin, podemos ir ao apartamento agora como havíamos combinado?
– Claro que sim! Estava mesmo ansiosa por sua ligação.
Fim do capítulo
Boa noite!
E não é que vamos terminar o domingo com beijo?!
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Em: 04/05/2026
Feliz que vc tenha voltado para o site , como sempre nos surpreendendo com suas atualizações a história está ficando melhor do que já era . Mal espero a hora de devorar outro capítulo .....
Espero que esteja tudo em sua vida autora, abraços.....
Luna_ally
Em: 04/05/2026
Feliz que vc tenha voltado para o site , como sempre nos surpreendendo com suas atualizações a história está ficando melhor do que já era . Mal espero a hora de devorar outro capítulo .....
Espero que esteja tudo em sua vida autora, abraços.....
priskelly
Em: 04/05/2026
Autora da história
Fico feliz que esteja gostando dessa nova versão ??
Por aqui está tudo bem, graças a Deus. O tempo se encarrega de colocar as coisas no lugar.
Bjus!
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