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  • A volta do amor que nunca se foi
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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

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Palavras: 7249
Acessos: 419   |  Postado em: 02/05/2026

Capitulo 6

Por Marcela

Eu não tinha conseguido dormir naquela noite. Estava sendo atormentada pelas lembranças do ocorrido na casa de Micaela. A verdade, é que eu não conseguia esquecer da expressão de decepção no rosto da pequena Gabriela, que teve sua inocência envolvida em um drama que não a pertencia. Talvez eu tivesse gostado da garotinha mais do que deveria. 

– Não consegue dormir, filha? – Mamãe surgiu em meio a escuridão da cozinha. 

A luz foi acessa e embora cautelosa, era notório que ela me observava com interesse. 

– É, eu acho que não. Resolvi vir pegar um copo de água. E a senhora? 

– Seu pai pegou uma virose. A noite tá sendo difícil, então vou fazer um chá pra ele. 

– Como ele está agora? – Me preocupei. 

Mamãe me olhou por alguns instantes como se buscasse em minha alma algo que nem mesmo eu sabia o que era. 

– Acho que tá bem melhor que você. – Ela começou a pegar o que julgava ser necessário para fazer o chá. – Quer falar sobre o que está te deixando abalada? 

Tenho certeza que estreitei os olhos. Era possível que ela me conhecesse tão bem mesmo depois de anos que passamos morando longe? É, pelo o visto sim.

Contudo, eu não queria preocupar meus pais com meus dramas pessoais. Eu nem sabia exatamente como abordar aqueles assuntos com eles. No passado, embora eles soubessem o motivo determinante que me levou para Portugal, ainda assim nunca aprofundei tanto do assunto. Era o bastante que eles soubesse que nem sempre somos felizes com os amores que surgem em nossa vida.

– Tá tudo bem, mamãe. Eu só estou um pouco cansada. Acho que ainda não me adaptei a nova rotina. 

Ela me olhou por cima das lentes transparentes do óculos de grau. 

Meus mais nunca fora do tipo que se entremetiam na maneira como eu conduzia minha própria vida. Nossa relação sempre foi baseada em muitas conversas, e sim, quando juntavam ser necessário eles sempre me aconselhavam. Mas no fim, deixavam claro que as decisões estivam sempre em minhas mãos.

– Hum! Logo você vai se adaptar. – Me mostrou um sorriso gentil, mas logo continuou de maneira contida. – Você sabe que eu sou a pessoa que mais te ama no mundo, não sabe? 

A olhei sem entender onde ela queria chegar.

– Claro! Você e o papai sempre me deixaram muito segura quanto a isso.  Mas por que está me dizendo isso?

Mamãe ligou o fogo deixando a água esquentar para o chá que preparava com aquele cuidado que dedicava a tudo que fazia para nós. Em seguida, ela puxou uma cadeira e sentou na minha frente.

– É ela, não é? A Hanna. Você não sabe o que fazer com o turbilhão de sentimentos que estar na presença dela te causa. 

– Mãe, está tudo bem. – Tentei passar toda a segurança que eu não tinha.

– Não, filha. Você não está bem. Para mim está muito claro que você está perdida dentro de si mesma. Você nunca esqueceu essa moça, Marcela. 

– Eu nunca esqueci a decepção que ela me causou. – Reformulei rapidamente a informação.

– Sim! Isso faz todo sentido, afinal de contas, foi justamente por amá-la tão intensamente que o que aconteceu te marcou profundamente. É natural que você não tenha esquecido o que te aconteceu de ruim, mas não significa que tenha superado o que você desejava que fosse bom. – Ela falava tranquilamente sem qualquer respingo de julgamento. – Acho que você precisa saber que não é errado se você ainda amar essa mulher, Marcela. E que você não tem culpa por isso. O amor é complexo, cheio de nuances, armadilhas, obstáculos. O amor não possui regras, nem é uma receita de bolo a ser seguida. Na verdade, a única regra do amor, é que você não pode escolher como senti-lo. 

– Você tá me dizendo para simplesmente fingir que o passado não existiu, e viver um presente como um mar de rosas? – Ri sem humor, mas também sem ironia. 

Na verdade, eu estava me sentindo exausta. Nos últimos dias parecia até que tudo em minha volta envolvia Hanna. Era como se todo meu esforço de anos, de nada tivesse valido. 

– Eu estou dizendo que talvez você não devesse se cobrar tanto por sentir. Na verdade, você deveria se permitir. Você já pensou se por um instante você pudesse soltar esses fios que tens segurado por anos como rédeas curtas. E se, ao invés de lutar contra os sentimentos, apenas os observasse passar para seguir o curso que deve ser seguido? Ninguém sabe onde isso te lavaria. Mas talvez você pudesse vê-los mudar a sua vida, assim como as nuvens mudam seu formato no céu, e tá tudo bem, o espetáculo natural continua sendo incrível. 

– Minha vida amorosa tá longe de ser filosófica, mamãe. – Disse com tristeza.

Ela uniu suas mãos as minhas transmitindo toda amor que somente ela parecia capaz de me ofertar.

– Você é ainda tão jovem, meu amor. Tem tanta coisa para viver, para amadurecer. Imagina como sua cabeça vai explodir quando descobrir que nem todo problema precisa ser resolvido antes do sono chegar. Nem toda resposta precisa nascer no silêncio da madrugada. E que nem toda tempestade deve ser vista com apavoro. Talvez, só talvez, o descanso para seu coração venha quando você parar de determinar onde quer encontrá-lo. Quando entender que, mesmo que a mente insista no que parece ser a razão, seu corpo ainda merece o repouso encontrado nas imperfeições. Quando você entender isso, a cada novo amanhecer, tudo parecerá um pouco mais leve. 

Ela sorriu transbordando em compreensão e companheirismo. Em seguida levantou, preparou o chá e me ofereceu um xícara.

– Tome isso! Vai te ajudar a descansar. E pense no que eu te falei. 

 

…

 

O fim de semana tinha passado, e eu me esforçava para esquecer o que tinha acontecido na casa de Micaela. Aquilo tinha sido uma cena caótica. Sem contar que eu jamais deveria ter perdido a postura e deixar que Hanna soubesse o quanto me afetava. 

Mamãe também não tinha facilitado minha umas horas horas. Depois da conversa que tínhamos tido naquela madrugada, ela só sossegou quando finalmente contei com riqueza de detalhes o que tinha acontecido. O que ela fez? Fui duramente repreendida, é claro. Mamãe ficou indignada que quando soube que Hanna e eu tivemos aquele pequeno impasse na presença da pequena Gabriela. Pra ela era inadmissível que, segundo ela, duas adultas mal resolvidas envolvessem uma criança no meio disso tudo.

Claro que depois de tudo o que aconteceu no passado, minha mãe tinha lá suas questões pendentes contra Hanna. No entanto, nem mesmo o que tinha acontecido, foi capaz de fazer meus pais desgostarem totalmente da Prado mais nova. Na verdade, meu pai gostava tanto de Hanna, que até hoje ainda lamentava que não tivéssemos dado certo. Ele sempre apostava na ideia que ainda teria Hanna como nora, o que definitivamente eu considerava ser um insulto ao meu amor próprio. 

A semana não podia ter iniciado mais movimentada. Era uma segunda-feira daquelas que de tudo estava acontecendo na empresa. Reuniões marcadas, projetos acumulados, pagamento para serem feitos, visitas de campo para serem realizadas… E embora eu ainda estivesse me acostumando com aquele ritmo, estava satisfeita por conseguir ter me saído bem em minha primeira reunião com um investidor sem contar com a presença da minha sócia. Naquele dia, Renata tinha se ausentado da empresa, e tudo estava definitivamente em minhas mãos. O que não era ruim, já que eu precisava mesmo manter minha cabeça ocupada.

Eu tinha acabado de voltar do almoço, e já estava seguindo para uma visita de campo que estava agenda.

– Martinha, eu não pretendo voltar para a empresa hoje. Quando terminar a visita de campo, vou resolver uns assuntos pessoais. 

– Sim, senhora. Se cuida, Marcela. – A mais velha disse com carinho.

Até ensaiei deixar o ambiente, mas antes que eu pudesse alcançar a porta do elevador, fui bruscamente interrompida pelo soar da voz rude de Hanna.

– Onde você pensa que vai? 

Ergui a sobrancelha, mas não fugi daquele contato visual congelante.

– Desde quando eu tenho que te dar satisfação?

A indiferença de Hanna, era algo palpável. Nos últimos dias, eu jamais tinha visto ela daquela maneira. Era como se tivesse sido ativado um botão que revelava parte da Hanna que eu sempre conheci. Ou quem sabe, eu só não estava tão errada quando dizia que ela não havia mudado nada.

– Eu não quero sua satisfação, Marcela. Mas não estava brincando quando outro dia, eu disse que não aceitaria mais ser desrespeitada aqui dentro.

Estreitei o olhar, mas mal pude raciocinar. Hanna foi rápida quando jogou sob meu peito uma pasta vermelha que reconheci ser a mesma que passou por minha mesa no início da manhã.

Não gostei nenhum pouco de como Hanna mantinha a cabeça erguida enquanto me fitava. Eu poderia jurar que ela estava a ponto de explodir.

Assim como Hanna, mantive a cabeça erguida enquanto sustentei seu olhar.

– O que é isso? – Questionei me referindo a pasta. 

– Isso? Bem, isso é o seu trabalho. Estou aqui para fazer aquilo que mim é solicitado pela presidência dessa empresa, é claro. Mas não pelo o que é dito pela chefe do setor administrativo. Se a senhora quer ter bons resultados e um trabalho bem feito, sugiro que a partir de hoje aja como seu cargo exige, e solicite diretamente os meus serviços. 

– Mas o que é isso? – A olhei perplexa por tamanha ousadia.

– Estou farta dos seus abusos de autoridade, Marcela. Na verdade, você já ultrapassou todos os limites. Minha irmã não é minha chefe. Ela não pode se comportar como tal, quando é com você que tenho que me reunir para alinhar demandas.

Eu começava sentir meu sangue ferver enquanto tinha diante de mim, uma Hanna petulante atraindo a atenção dos funcionários dos demais departamento. 

– E eu sugiro que a senhora se recomponha. Mais uma audácia como essa e ganhará uma advertência. – Sussurrei entre os dentes tentando não chamar ainda mais atenção. 

– E mais o quê? Vai me punir por cobrar sua postura profissional? Vamos para um tribunal trabalhista terá sua causa perdida. A propósito, dirija-se a mim como senhorita. Obrigada!

Acho que meu queixo realmente caiu. Eu estava entendendo errado ou Hanna acabava de me intimidar com uma ameaça de processo? 

– Você está me ameaçando novamente? – Trinquei o maxilar dando um passo a mais até Hanna.

– Você está se sentindo amaçada? – Ela encurtou ainda mais a distância entre nós. – Não foi a intenção, mas que assim seja. Eu não estou pedindo algo absurdo, apenas para ser tratada com respeito como a funcionária que sou. Se minha presença nesse lugar incomoda a presidente, então que ela mesma resolva me demitindo.

Ri com descrença!

– Você fala isso porque sabe que seu contrato com esse lugar não te permite ser demitida. Nos taria uma multa absurda. Se bem que você está me dando uma justa causa. Onde já se viu, me desafiar desse jeito diante de todos?

Cuspi as palavras com fúria sabendo que àquela altura mais uma vez já estávamos sendo o centro das atenções. Pessoas estavam no corredor fingindo fazer qualquer coisa, quando na verdade só queria assistir aquela cena ridícula.

– Isso não estaria acontecendo se você costumasse me receber em sua sala assim como faz com os demais funcionários. – Ela acusou sem ao menos se mostrar abalada por minha raiva. – Você vai querer discutir meu contrato aqui mesmo? – Seu olhar parecia capaz de me queimar. – Vamos lá, Marcela. Vamos nos resolver como as adultas que somos, caso contrário não é você que vai ter o prazer de me demitir. Abro mão de qualquer multa contratual, se isso me garantir paz estando longe de você. 

Àquelas palavras atrevidas me causaram desconforto e raiva ao mesmo tempo, e eu não sabia o que fazer com aquele turbilhão de sentimentos. 

Olhei em volta e me dei conta que mais uma vez tínhamos ultrapassado todos os limites possíveis. Trinquei ainda mais o maxilar, me sentindo enfurecida.

– Venha comigo, senhorita Prado. – Em passos curtos fui em direção a minha sala enquanto sabia que era seguida por Hanna. No entanto, ao passar por dona Marta, disse: – Anote em sua agenda que precisamos mandar refazer as divisórias desse lugar. Mande essas paredes de vidro para qualquer lugar que esteja longe dos meus olhos, e de preferência opte por um material reforçado contra qualquer ruído. 

– Sim, senhora. – Afirmou dona Marta com pressa. 

– O show acabou! Voltem ao trabalho e façam algo de útil. – Determinei com rispidez aos funcionários que ia encontrando pelo caminho. 

Hanna me pagaria por ter me feito passar aquele papel ridículo diante de todos.

Passei pela porta não me preocupando em ser educada em manter aberta para que Hanna passasse. Ela mesma que abrisse e fechasse a maldita porta. 

Não demorou muito para que a loira entrasse na sala e seu maldito perfume fosse entranhado em todo o ambiente. Inferno! 

– O que você quer afinal? – Joguei contra ela as palavras.

– No mínimo, ser tratada com dignidade. Passei muita coisa para me tornar a profissional que sou, e eu não posso admitir que seja você a colocar isso em xeque. – Ela respondeu tão ríspida como eu fui.

Me permiti olhar para Hanna, desejando ter auto controle suficiente para não mandá-la para o inferno. Ali naquele lugar ela era uma funcionária como qualquer outra, e tinha razão quando fazia aquela exigência.

– Por que você insiste nisso? Não parece claro que não conseguimos conviver? Toda vez que estamos juntas, um caos acontece. – Argumentei. 

Parecendo cansada com aquele embate, Hanna foi a primeira a baixar a guarda. Ela suspirou pesado e mexeu em seus cabelos que mais uma vez se encontravam soltos.

– Marcela, por Deus, seja razoável. Nós duas sabemos que não podemos deixar nosso passado mal resolvido interferir em nossa convivência aqui dentro. Assim como sabemos que se continuarmos desse jeito, vai chegar um ponto que vai ficar insustentável. Eu tenho uma filha para criar. Preciso manter meu emprego, e preciso que você facilite as coisas para mim.

Confesso que daquela vez ela tinha conseguido por um momento me fazer recuar. Eu não queria prejudicar em nada a vida da garotinha.

– Não temos passado mal resolvido coisa nenhuma, Hanna. – Rebati imediatamente.

Mais uma vez, Hanna suspirou cansada. 

– Tudo bem, Marcela. Como você quiser, ok? O que importa aqui são os assuntos da empresa. – Ela pegou a pasta que eu havia jogado sob a mesa. – Sabe o que Micaela conseguiu me explicar disso aqui? Absolutamente nada! Ela ficou perdida em meio a tantos transmites legais que ela desconhece. A explicação que você deu a ela, se perdeu na memória dela, especialmente porque hoje é fechamento de balanço e dia de pagamento. Ela simplesmente não pode se ocupar com questões que nós duas deveríamos resolver. Marcela, eu não posso fazer o meu trabalho, se você não me ajudar. Será que poderíamos recomeçar novamente?

Foi minha vez de suspirar deixando o peso das minhas costas serem transbordados. Eu não tinha como negar que era uma situação difícil manter minhas questões pessoais longe das profissionais, mas era necessário. 

Também não tinha como negar que Hanna estava sendo madura o suficiente para expor o quanto aquela situação estava a cada dia mais difícil de lidar. Confesso que nem mesmo eu conseguia compreender coisas que Daniela, Micaela, ou até mesmo Renata explicavam no lugar de Hanna. 

Caminhei até minha cadeira e sentei. Em seguida apontei para a cadeira a minha frente. 

– Sente-se, por favor senhora Prado. Vamos fazer isso funcionar. 

Um brilho de esperança pareceu surgir no olhar de Hanna.

– Você tá falando sério?

– Alguma vez eu menti para você? 

Silenciamos! O clima pesou adotando uma atmosfera inexplicável. Portanto, logo tratei de concertar a besteira que fiz.

– Vamos logo isso. Eu preciso sair para uma visita de campo, e ainda preciso resolver uns assuntos pessoais. 

– Claro! Mas preciso te fazer um pedido antes. 

A olhei sem entender.

– Diga! 

– Por mim, não precisávamos nos tratar com formalidade. Mas já que é uma exigência sua, então por favor não me chame de senhora. Eu não sou casada, Marcela. E convenhamos, embora eu tenha uma filha, não sou tão velha assim.

Confesso que aquele pedido me despertou curiosidade. Hanna era mãe solteira então? O que teria acontecido? Olhei para sua mão e sequer vi marca de aliança. Aliás, o único anel que ela usava era um que tinha a pedra vermelha, o que me remetia a sua formação.

– Tudo bem! Se assim prefere. Mas eu também tenho um pedido para te fazer. 

– O que seria? – Hanna pareceu intrigada. 

– O que aconteceu hoje, jamais poderá voltar acontecer novamente. Nós duas perdemos totalmente o equilíbrio da coisa, e isso não pode acontecer aqui dentro.

– Eu concordo! E digo mais… Tão pouco deve acontecer na frente da minha filha.

Engoli seco! 

– Sobre aquilo… 

– Eu sei! Você não teve a intenção. Não pensei do contrário nem por um momento, Marcela. Isso não condiz com sua postura. 

Acenei em afirmação, e até mesmo grata por ter sido compreendida. Confesso que eu não esperava isso de Hanna. Bem, pelo menos compreensão não era uma das suas características no passado.

– Como ela está com o que aconteceu? 

– Me fez muitos questionamentos. Ela é uma criança curiosa, então é claro que faria. – Suspirou. – Eu não contei sobre nosso passado com riqueza de detalhes. Apenas expliquei que tivemos um desentendimento. 

– Ela deve me odiar agora. – Observei com certo pesar.

– A Gabriela é uma criança doce, Marcela. Ela é incapaz de te odiar. Ela só ficou Confusa, afinal de contas, você foi a primeira pessoa que ela ouviu dizer que odiava a mãe dela. 

– Me desculpe por isso. Eu realmente não quis confundir a cabeça dela. 

– Não se preocupe, senhora. Está tudo bem!

– Apenas Marcela, Hanna. Assim como você, eu também não sou nenhuma idosa. 

Revirei os olhos, porém me senti inquieta. Será que fiz certo em dispensar a formalidade?

– Como quiser. – Ela se concentrou na tarefa de organizar os papais que estavam na pasta. – Podemos discutir isso agora? Não quero mais tomar o seu tempo. 

– Podemos agora. – Afirmei ainda me sentindo insegura em sua presença.

– Maravilha! Não podia esperar menos de você. 

Hanna se remexeu na cadeira e colocou o óculos de grau, me fazendo questionar internamente desde quando ela havia passado usar óculos para leitura.

Não posso negar que observei o quanto Hanna se mostrava profissional enquanto discutíamos aqueles documentos. Sem dúvidas, ela tinha se tornado uma excelente advogada, e agora eu começava compreender o que Renata quis dizer quando explicou que ela havia sido a melhor no processo seletivo. Eu tinha que admitir que nosso departamento jurídico estava em boas mãos, mas minha vida particular definitivamente estava caótica. 

Por narrador

UM MÊS DEPOIS

 

Havia se passado pouco mais de um mês, e durante esse tempo que passou desde sua chegada, Marcela já estava conseguido se estabilizar novamente no Brasil. Seu empenho nos últimos dias, foi especialmente em conseguir comprar um apartamento para mudar da casa dos pais o quanto antes. Embora a convivência com os pais fosse muito boa, desde muito jovem Marcela tinha a convicção que precisava manter sua privacidade e liberdade. Ela gostava da sensação ter a própria casa, a própria rotina.

Em relação a sua convivência com Hanna, após aquele momento em que Marcela finalmente cedeu ao justo apelo da advogada. Ambas sabiam que as coisas não estavam resolvidas entre elas, e que talvez não fosse fácil resolver. Mas Marcela sabia também que Hanna não estava fora da razão quando apelou para o lado profissional da executiva. A cordialidade e boa convivência dentro da empresa eram necessárias para que ambas conseguissem desempenhar suas devidas funções.

No entanto, embora as duas se esforçassem para manter a cordialidade necessária, sempre que se encontravam a atmosfera do clima que as envolviam era sempre um tanto quanto tenso. Hanna mantinha a postura de uma mulher que sabia se colocar em seu lugar. Para ela já era um grande avanço terem conseguido estabelecer a paz dentro da empresa. Por sua vez, Marcela mantinha-se na defensiva. O medo de experimentar novamente o sabor amargo da decepção, e até mesmo de descobrir que talvez não odiasse Hanna como  sempre fez questão de dizer, faziam com que ela não ultrapassasse o limite do profissionalismo.

O problema é que nem tudo parecia estar no controle de Marcela, como ela gostaria que estivesse. Ela não podia negar que manter aquela cordialidade profissional com Hanna, de alguma maneira as aproximavam, e assim Marcela acabava sendo obrigada a enxergar em Hanna aquilo que desejava continuar negando… Ela realmente demonstrava que já não era mais a mesma mulher fútil e insegura do passado. Pelo contrário, a cada dia que passava Marcela conseguia enxergar em Hanna uma mulher forte, determinada, educada, e muito responsável com tudo e todos a sua volta, especialmente com sua filha. 

Por mais que seu coração tivesse o anseio de saber mais sobre a pequena Gabriela, Marcela se recusava em fazer perguntas diretas a mãe da criança. Mas observava e ouvia coisas, como por exemplo, ela sabia que Hanna não abria mão de buscar a filha na escola, tão pouco a faltar reuniões e apresentações escolares. Mantinha a agenda médica da menina sempre em dias, e já tinha visto Hanna recusando um convite para uma social com algumas colegas de trabalho pelo o fato daquele ser o dia na semana que tirava para ter a noite do pijama com a filha. Ela era sem dúvidas era uma mãe presente. O que não parecia ser o caso do pai da criança, já que em hipótese alguma o mesmo jamais foi citado por Hanna ou qualquer uma das amigas. Isso despertava curiosidade em Marcela. O que teria acontecido com o pai da criança? 

Bem, embora se recusasse falar com Hanna sobre assuntos paralelos, e até mesmo perguntar por Gabriela, por considerar que poderia forçar uma aproximação indesejada por ambas, ainda assim ela sempre dava um jeito de perguntar para Micaela se a garotinha estava bem. A verdade é que toda a raiva e mágoa que durante anos, Marcela cultivou pela loira, agora estavam dando espaço à curiosidades que surgiam aos montes sobre tudo o que pode ter acontecido com Hanna durante o tempo que passou fora do Brasil. E principalmente, nada daquilo que aconteceu entre elas no passado parecia interferir no carinho instantâneo que sentiu pela filha da sua ex. Marcela também começava perceber que a cicatriz em seu coração era fácil de ser inflamada, porque só sentimos aquilo com a qual nos importamos. Por mais que não admitisse, ela se importava mais do que desejava.

Marcela estava pensativa olhando para uma foto antiga que jamais saiu da sua carteira. Era a imagem de cinco garotas pousavam abraçadas e sorridentes. Os traços jovem davam vida a uma época não tão distante, uma época em que Marcela se permitia sentir sem culpa. 

Uma batida na porta foi ouvida e logo após autorizar a entrada, viu que se tratava de Daniela. A baixinha surgia com aquela animação contagiante de sempre. 

– Flor do meu jardim, desculpe incomodar, mas preciso falar com você. Está muito ocupada agora?

– Claro que não, Dani. Vem cá!

Daniela sentou na cadeira de frente para a amiga e vi o momento em que Marcela se apressou para guardar a foto. Ela não disse nada, mas reconheceu a imagem, afinal de contas, cada uma delas tinha uma foto igual aquela. 

Mesmo sendo aquela amiga que todas consideravam como relaxada, desapegada da vida, e tanto quanto irresponsável, Dani era também observadora. Ela sabia que naquele momento Marcela precisava de um apoio que não viesse seguido por cobranças, pois se ela se sentisse pressionada, não ajudaria em nada na situação. Não é que Micaela e Renata, não apoiassem a amiga. Pelo o contrário, as duas estavam dispostas ao que fosse necessário para que Marcela ficasse bem. Micaela mesmo já tinha questionado Hanna se não seria melhor procurar outro emprego para que as duas ficassem bem. Contudo, Micaela e Renata eram maduras e responsáveis demais, elas tratavam a vida com a seriedade que faltava em Dani. Para a baixinha ela enxergava situações como aquela um jeito diferente. Para ela, às vezes a vida só requer justamente o contrário, ou seja, no seu ponto de vista a situação vivida por Marcela e Hanna era muito simples de ser superada, as duas precisavam enxergar a situação com seriedade sim, mas também com a leveza que só uma alma jovem pode ter, assim as peças se encaixariam no seu tempo conforme tivesse que ser. 

Por essa razão, mesmo sem verbalizar, Daniela havia se encarregado nos últimos dias, de sempre que possível manter Marcela ocupada com banalidades, diversões, liberdade… Ela queria que a amiga se sentisse leve para conviver com as emoções conturbadas. Queria que Marcela estivesse bem consigo mesma quando percebesse que a mágoa não era a única razão por toda aquela aversão a convivência com Hanna. Para ela, que observava a situação com o olhar de uma jovem vendo a amiga viver “dramas adolescentes”, cedo ou tarde Marcela perceberia que toda a mágoa e decepção só sobreviveu a tantos anos, porque por trás existia algo maior. Algo do qual ela não conseguiria lutar contra. 

– Eu trouxe isso! Percebi que você não saiu para almoçar hoje. 

Aquela tinha sido a mentira mais descarada que Daniela já havia contado para a amiga desde o seu retorno. Não tinha sido ela quem havia percebido a ausência da amiga no almoço. Tão pouco a que teve a ideia de levar aquele sanduíche.

Intrigada, Marcela desembrulhou o alimento. Em seguida olhou para a amiga erguendo a sobrancelha. Se existia uma coisa que era inquestionável na convivência entre as cinco amigas, era o quanto cada uma conhecia as outras. 

– Você percebeu, é? E também foi sua a ideia de me alimentar?

– Claro! Sou um poço de gentileza. 

Daniela tentou brincar com a situação. Ela tinha dito desde o início que aquilo não ia funcionar. Todas elas sabiam que se atentar ao detalhes não era sua maior qualidade, mas Hanna insistiu e até ameaçou a baixinha caso ela não fizesse o que ela estava mandando. 

– Aham! Claro que sim. Você também é atenciosa o bastante para pedir que a alface fosse retirado. Quem não sabe que odeio alface, né? – Marcela ironizou.

– Por que você não pode apenas aceitar e comer sem fazer perguntas? – Daniela quase desesperou-se. 

Ela costumava ser uma boa mentirosa, mas isso jamais funcionava bem com Marcela. Ela parecia ter o poder de fazer Daniela relevar até mesmo suas mentiras mais pecaminosas.

Marcela riu com o desespero da amiga. Pra ela estava óbvio que a baixinha estava mentindo. 

– Claro! Obrigada pela gentileza, Dani. O que seria de mim sem você? 

Ela sabia! Marcela sabia que somente duas delas seriam capaz de um gesto daquele. As irmãs Prado! Somente elas tinham essa atenção exagerada com alimentação. Micaela ainda conseguia ser menos paranóica do que Hanna. Isso porque a mais a nova sempre foi a musa fitness das cinco amiga.

Contudo, embora intrigada, Marcela resolveu não questionar Daniela sobre quem teria sido a dona do ato. Chegou a conclusão que talvez fosse mais saudável comer em silêncio. 

– Então, lembra daquela amiga arquiteta de quem te falei outro dia? Ela veio me encontrar para almoçarmos. Como você disse que estava precisando, pensei que talvez fosse uma boa oportunidade para conversarem. A convidei para subir. Eu já até adiantei o assunto da reforma que você precisa. Ela tá com agenda lotada, mas como é um pedido meu, ela disse que poderia conseguir conciliar. Você pode receber ela agora?

– Claro! Na verdade, tenho muito interesse. Quero me mudar o quanto antes. Só vou terminar de comer, e já peço para ela entrar.

– Ótimo! Você aí gostar do trabalho dela. Ela tem uma pegada meio moderna. Acho que combina bem com o que você tá querendo. 

– Uhum! Esse suco tá sem açúcar. – Marcela fez careta ao experimentar o líquido. – Desde quando você prefere suco sem açúcar? 

A resposta que Marcela evitou buscar, estava bem e ali. Agora ela sabia quem tinha sido a responsável pelo o gesto de cuidado, e embora aquilo despertasse algumas sensações, ela preferia fingir que não havia percebido. Era apenas um almoço, não era? Não é como se aquilo fosse aproximar as duas. 

– Vai à merd*, Marcela. Apenas beba de uma vez. – Retrucou a baixinha. 

Enquanto observava a amiga comer, Daniela começou tagarelar sobre diversos assuntos na tentativa de manter a mente da amiga ocupada o suficiente, quem sabe assim ela não esquecia de uma vez aquele assunto. 

– Bom, pode mandar sua amiga entrar agora, por favor. 

– Certo! Ela está lá na minha sala aguardando. Eu vou lá e já volto trazendo a donzela para sua aprovação. 

– Daniela, se contenha. – Repreendeu Marcela percebendo o duplo sentido na frase da amiga.

– Você tá ficando uma velha rabugenta, Marcela. Pois eu sigo aproveitando bem a vida. Se ela me quiser, eu não fujo de cometer o pecado. Primeiro a gente ajoelha, e depois reza. 

Daniela deu uma piscada de olho e em seguida saiu da sala deixando a executiva rindo do seu descaramento. Claro que ela não estava cogitando aquela possibilidade, mas tinha que admitir, ela não duvidava que Daniela já tivesse se envolvido com a tal arquiteta, considerando que poucas não caiam na sua lábia. 

Em poucos minutos Daniela retornava a sala de Marcela sendo acompanhada por uma ruiva de olhos azuis expressivos. A mulher que era da mesma altura de Marcela, tinha a pele albina, o que proporcionava um contraste perfeito com com aquele cabelo de fogo. Daniela não havia exagerado quando disse que a mulher que agora estava a sua frente, era um pecado a ser cometido. Mas óbvio que esse pensamento foi guardado apenas para si mesma. 

– Marcela, essa é minha amiga Yasmin. Ela é a melhor arquiteta dessa cidade. Min, essa é a Marcela, a amiga de quem te falei que precisa das suas mãos de fadas.

Todas haviam entendido aquele duplo sentido na frase de Daniela. A executiva se perguntava o porquê da amiga ser daquele jeito, tão sem jeito. 

Enquanto Marcela sentiu suas bochechas queimarem, a arquiteta riu com divertimento. Embora fosse mais discreta, ela e Daniela se davam muito bem exatamente por compartilharem da mesma personalidade extrovertida.

Ela ergueu a mão para que Marcela a cumprimentasse, e sorriu largo quando a mesma aceitou o aperto de mão. A verdade mesmo, é que ela se divertiu com a timidez de Marcela, que sequer poderia imaginar que Yasmin era tão “dada” quanto Daniela.

– Muito prazer em te conhecer, Yasmin. Daniela não economizou elogios quando me recomendou seu trabalho. Sente-se, por favor. – Marcela disse sem qualquer pretenção aparente.

– Daniela é muito exagerada. Acho que nós duas concordamos nisso, não é mesmo? – As duas compartilharam sorrisos enquanto Daniela se fez de ofendida. – Mas tenho que admitir que sempre dou o meu melhor, especialmente quando quero muito algo. 

Marcela não percebeu, mas existiu um duplo sentido naquela indireta. Ela estava alheia a isso, é claro, mas assim que a ruiva viu Marcela, sentiu um interesse tomar conta dos seus desejos. Assim como Daniela, Yasmin também não era uma mulher de apegos emocionais, mas sabia aproveitar bem a vida, e não se fazia rogada quanto a isso. Especialmente quando estava diante de uma mulher tão bonita quanto Marcela. Por sua vez, Daniela não era boba. Ela logo percebeu o interesse instantâneo da ruiva. 

As três mulheres se envolveram em uma conversa descontraída até que Marcela então iniciou falar sobre a reforma que pretendida fazer no seu novo apartamento. Marcela nem percebia, mas aos poucos sutilmente Yasmin ia colhendo informações que julgava serem importantes, tais como: E teremos um quarto infantil? Imagino que você vai desejar uma atenção especial a suíte do casal, não é mesmo? O ambiente precisa ser aconchegante para a família. Sim, a ruiva sabia onde queria chegar. Yasmin ainda não queria fazer perguntas diretas sobre a vida de Marcela, pelo menos não naquele instante, então optou por ser sútil enquanto buscava descobrir se Marcela era uma mulher desimpedida, para quem sabe, ela poder investir em algo além do trabalho. 

Por questões de trabalho, Daniela precisou se ausentar, deixando as duas a sós para dar sequência a pequena reunião.

– Então, Yasmin. Como eu já te disse, retornei há pouco tempo para o Brasil. Comprei um apartamento mais próximo à empresa, e quero me mudar o quanto antes, mas eu odeio ter que lidar com reformas, por isso quero que seja feita antes da mudança. O foco é deixar o ambiente com mais minha cara, trocar as instalações elétricas e hidráulicas, se for necessário, claro. Costumo ser prática! Não quero ter dor de cabeça depois que entrar lá.

– Super entendo! Reforma é mesmo muito chato. Bem, costumo levar tempo para organizar meus projetos antes de mostrar a meus clientes, mas como você tem pressa, acho que posso facilitar as coisas. Que tal ainda hoje irmos ao apartamento para você me mostrar o imóvel? Assim eu conheço o espaço, os detalhes, e então começo alinhar os pensamentos.

– Ainda hoje? Rápido assim?

– Se você tiver muito trabalho agora a tarde, podemos fazer isso no início da noite. – A arquiteta deu a ideia ao ver a surpresa de Marcela. 

– Não será um problema para você? 

– Claro que não, Marcela. Você é amiga da Dani, e eu jamais negaria um pedido feito por ela. – A ruiva deu de ombros. – Também não tenho crianças em casa me esperando, então não temos um problema aqui. Pelo menos não da minha parte.

As duas sorriram com satisfação, mas talvez por claros motivos diferentes.

Nesse momento Marcela escutou batidas em sua porta, e dessa foi vez Hanna que apareceu na entrada do local. 

– Desculpe! Eu não sabia que estava ocupada. – A loira se apressou a explicar. – Dona Marta não estava na recepção para informar. Eu volto outra hora.

Hanna não pôde deixar de conter a curiosidade. Ela olhou para a ruiva como se estivesse julgando até sua oitava geração. Ela nunca tinha visto aquela mulher ali antes, mas também não se sentiu bem em sua presença. Foi algo tão instantâneo quanto inevitável. Ela não costumava julgar as pessoas, mas algo em Yasmin a incomodou. 

Hanna já ia fechar a porta quando ouviu seu nome ser chamado por Marcela.

– Senhorita Prado, você pode entrar. Se veio até aqui, é porque precisa de algo. Algum problema urgente?

Marcela estava agindo mais natural do que normalmente conseguia ser. Talvez no fundo ela estivesse grata pelo o gesto de gentileza de Hanna em lembrar de Daniela levar almoço para ela. Contudo, ela pecou quando não sentiu necessidade de apresentar as duas mulheres. Aquele gesto mais tarde poderia render dor de cabeça.

– Preciso que assine esse documento. É para que eu possa dar entrada no pedido de licenciamento do novo contratante. – Hanna entregou alguns papéis para ela.

Marcela não a olhou, e isso não passou despercebido pela ruiva. Yasmin era inteligente e incrivelmente intuitiva. Ela sentiu que existia uma tensão entre as duas. Marcela não teve a intenção de provocar qualquer desconforto a Hanna. Por incrível que pudesse parecer, naquele dia ela estava mais tranquila que o normal.

– Só um minuto, Yasmin. Prometo ser rápida e logo voltamos ao nosso assunto. – Disse Marcela com educação enquanto Hanna esperava que ela analisasse os documentos.

Enquanto Marcela lia a assinava os papeis, um silêncio desconfortável se fez presente na sala. Hanna se perguntava quem seria aquela ruiva. Essa por sua vez, se perguntava o porquê de Marcela ter adotado uma outra postura tensa diante da loira. Seria Hanna um obstáculo para seus planos? Bem, de qualquer maneira ela gostava de uma boa competição.

O silêncio foi quebrado quando a porta da sala foi bruscamente aberta, assustando as três mulheres que até então permaneciam em silêncio.

– Desculpem interromper assim, mas é urgente. – Marcela teve certeza disso quando viu o desespero no olhar de Micaela que encarava a irmã com agonia. – Hanna, ligaram da escola da Gabi. Ela não está bem. Parece que passou mal durante a recreação. Ligaram para você, mas como você não atendeu, ligaram no meu celular.

Micaela falava tão apressada que parecia tropeçar nas próprias palavras.

– Como assim ela passou mal? O que falaram para você Micaela? Responde pelo amor de Deus. – Hanna desesperou-se.

Marcela levantou rapidamente e sem perceber, se colocou ao lado de Hanna passando a tentar tranquiliza-la diante da situação. Yasmin que não era íntima de nenhuma das presentes ali, resolveu apenas observar toda aquela cena em silêncio, mas se sentia penalizada pelo o estado de desespero que automaticamente tomou conta de Hanna.

– Calma, Hanna. Nervosa desse jeito você não vai entender nada. 

A morena de cabelos ondulados segurou a mão da ex, e a puxou para sentar no sofá da sala, sem ao menos lembrar as diferenças que existiam entre elas. Marcela olhou para Micaela e tomou a frente da situação. 

– Você também está nervosa. Tenta se acalmar e nos explica com calma o que realmente aconteceu.

– Eu não sei exatamente o que aconteceu. A professora apenas disse que levaram a Gabi desacorda para o hospital, e que precisamos ir para lá. Ela me passou esse endereço.

Micaela mostrou o papel, mas antes que Hanna pudesse pegar, Marcela se antecipou. Embora apreensiva, ela era a menos nervosa das três. Após analisar o que estava escrito, Marcela olhou para Hanna.

– Eu sei onde fica. – Marcela levou e dirigiu sua atenção para a ruiva que permanecia em silêncio. – Yasmin, podemos nos falar em outro momento? Sei que estávamos combinando de nos vermos a noite, mas podemos falar sobre  isso depois? Eu vou precisar sair para acompanhar Hanna até o hospital.

Marcela falava calmamente, porém convicta. Ela não pediu licença, autorização, nem mesmo opinião. Tudo o que ela precisava para tomar aquela decisão, ela já tinha… O carinho pela menina com quem só teve contato uma vez. Por sua vez, embora estivesse em pânico pelas poucas informações que tinha a respeito do estado de saúde da filha, Hanna também não pôde deixar de se dar conta do que acabará de ouvi: “estávamos combinando de nos vermos a noite”. A loira não conseguiu controlar o aperto no peito. Então era isso? Marcela estava conhecendo outra mulher?

– Claro, Marcela. Eu compreendo perfeitamente a situação. – A ruiva buscou pela a bolsa. – Olha, esse é meu cartão. Fico esperando sua ligação para marcarmos o que combinamos. Eu já vou indo, meninas. – A ruiva olhou para Hanna e foi sincera quando disse: – Desejo melhoras para sua filha.

– Obrigada! – A loira limitou-se em responder. 

Micaela percebeu que a resposta da irmã foi seca. Ela observou a situação e teve certeza que a presença da ruiva de alguma maneira afetava a irmã. Por mais que ela negasse, Micaela sabia que a paixão de Hanna por Marcela jamais tinha acabado. Marcela era uma mulher livre para se envolver com quem quisesse, mas ela sabia que a irmã iria sofrer no dia que presenciasse aquilo.  

Yasmin despediu-se e não demorou em deixar as três a sós.

– Marcela, você não precisa se preocupar. Se você me liberar, eu mesma acompanho minha irmã. – Ponderou Micaela.

– Eu faço questão, Micaela. – A executiva manteve-se firme. – Bem, se você não se incomodar, é claro.

Dessa vez Marcela disse para Hanna.

– Eu não quero parecer chata, mas eu não sei. – Micaela tornou a dizer antes mesmo que Hanna pudesse falar algo.

– O que você não sabe? – Marcela estreitou o olhar. 

– Como não sabe? – Micaela passou as mãos pelo o rosto. Ela estava prestes a fazer aquilo que havia prometido a si mesma que não faria. – Eu não quero ficar no meio de vocês duas. Mas quando envolve minha sobrinha, eu preciso interferir. Droga! Vocês duas são um perigo para vocês mesmas. Eu não sei se me agrada que fiquem sozinhas com a Gabriela antes de resolverem a bagunça que vocês são. Quero dizer, vocês podem iniciar uma discussão em dois segundos. A menina não pode ficar no meio disso. 

Micaela era completamente apaixonada pela sobrinha, e tinha visto naquele dia em sua casa o quanto Gabriela tinha ficado mexida por não conseguir entender a relação conturbada entre as duas adultas. Ela não queria interferir entre a irmã e a amiga. Achava sim que elas precisavam se resolverem, mas estava decidida que deixaria o tempo cuidar. Contudo, temia as consequências quando o assunto de alguma maneira começasse envolver a sobrinha. 

– Micaela, vocês duas estão nervosas. Quem vai dirigir assim? – Compreendendo as razões da amiga, Marcela tentou ser racional. – Olha, eu entendo sua preocupação, ok? Mas coloque um pouco de fé em mim. Eu prometo que não vou fazer nada que decepcione a Gabi. Eu só quero ajudar.

Marcela não compreendia a urgência que queimava em seu coração. Tudo o que ela sabia, é que queria ver a menina de perto para ter certeza que tudo estava bem. E também tinha a urgência de ajudar no que pudesse, por mais louco que isso pudesse parecer. 

As duas amigas mantiveram aquela troca de olhar silencioso. Mesmo em silêncio Marcela tava transferir para Micaela, a segurança necessária para que houvesse confiança. Por sua vez, Micaela buscava vestígios de que seria seguro. Ela sabia que no fim das contas era a decisão de Hanna que valeria ali. Mas queria estar certa que a irmã seguiria o próprio caminho não apenas com o coração, mas também com a razão. 

Por fim, Micaela suspirou pesado. Passou as mãos pelo o rosto em um sinal claro de nervosismo.

– Eu confio em vocês duas. Me deem notícias assim que possível, por favor. Eu largo tudo aqui e vou ao encontro de vocês. 

– Pode deixar! Eu mesma farei isso. Agora procure se acalmar também. – Marcela assegurou e em seguida virou-se para a Prado mais nova. – Vamos, Hanna?

Quando estavam prestes a deixar a sala, Micaela voltou a ser ouvida.

– Marcela.

– Oi? 

– Você vai estar tomando conta de dois dos meus bens mais preciosos. Mesmo que só por hoje, faça o seu melhor. – Existia súplica em seu olhar.

Marcela acenou. Ela sabia o que aquilo significava. Micaela que sempre foi muito família, estava realmente desejando que aquilo funcionasse. 

– Eu farei! 

Quando Micaela se viu sozinha naquela sala ela apenas respirou profundamente, desejando em seu coração que não tivesse feito a escolha errada. Para ela aquele momento entre Marcela e Hanna só poderia ter dois destinos: O inicio para um novo tempo, ou a certeza de que nem sempre o tempo é suficiente para colocar as coisas no lugar.

Fim do capítulo

Notas finais:

Boa noite! 

Aqui vai mais um capítulo para aquecer o coração nesse fim de noite. Estão gostando? 

 

Instagram: priskellyautora

 

bjus!


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