Capitulo 5
Por Marcela
Eu sabia que Renata e Micaela estavam fazendo um verdadeiro esforço para manter o clima descontraído enquanto mantinham uma conversa paralela, mas a verdade é que todas estavam com a atenção voltada para mim e a criança que estava em meu colo.
Eu sempre fui muito apaixonada por crianças, mas aquela tinha me ganhado rapidamente de uma maneira tão genuína quanto inexplicável.
– Prontinho! Viu, só? Eu te disse que não ia doer nada. – Disse para ela quando terminei de colocar o band-aid rosa das meninas super poderosas. – Gostou?
– Eu gostei muito. Você é mesmo muito boa nisso. – A pequena respondeu com entusiasmo. – Agora eu posso correr?
Sem querer acabei rindo do seu jeito infantil. Mamãe estava certa quando dizia que crianças curavam facilmente feridas que para nós adultos levavam tempo consideráveis. Talvez isso tenha algo a ver com maneira doce que enxergam a vida.
– Mais já? Eu acho que seria interessante se você encontrasse uma brincadeira que te deixasse longe de perigos. – Me aproximei do seu ouvido e murmurei baixinho. – Tenho certeza que sua mãe ia adorar.
– Mas brincar de quê? Ficar sentada parece algo tão chato. – Ela argumentou com sabedoria.
– Eu acho que sei de uma coisa legal. Por que não pede para seu tio te ensinar fazer bolhas de sabão? Quando eu tinha sua idade adorava. O desafio era pra ver quem conseguia fazer a maior bolha sem estourar.
– Uau, isso parece legal. Obrigada pela ideia, tia.
Senti um beijo estalado ser deixado em minha bochecha antes de vê-la saltar do meu colo e ir apressadamente em busca de Robson.
Fiquei olhando para a pequena que se afastava sem ao menos saber que do efeito que parecia ter causado em meu coração. Não sei exatamente explicar o que eu sentia, mas era uma sensação boa, como se algo tivesse quebrado no instante em que a vi pela primeira vez.
…
Até aquele momento eu ainda me sentia atordoada e sem conseguir compreender os últimos acontecimentos e últimas descobertas. Compreendia menos ainda o motivo que me levou pedir para que Hanna ficasse ali com todas nós, quando na verdade tudo o que fiz no últimos dias foi evitar sua presença e maltratá-la com palavras. Acho que ver a tristeza estampada no olhar da pequena criança de cabelos tão loiros quantos os da mãe, foi o que me fez reagir sem pensar. Se existia uma coisa que aquebrantava meu coração, era a pureza e inocência de uma criança. Ser mãe sempre foi um dos meus maiores sonhos, então sempre que me encontrava na presença de uma criança, de repente era como se outra Marcela estivesse surgindo.
Por sua vez, diferente de mim, Hanna sempre foi o tipo de mulher que amava sua liberdade, poder aproveitar os prazeres da vida, sua rotina onde sempre se colocava como prioridade, ou seja, cuidar de uma criança não era o maior sonho da sua vida. Não era sua prioridade, e aquela sem dúvidas era uma das nossas principais diferenças e objetivos de vida naquela época em que nos envolvemos. Sendo assim, claro que me senti completamente surpresa com a informação que ela era mãe daquela garotinha encantadora que me olhava com misto de curiosidade e interesse. A propósito, os olhos de cor verde esmeralda de Hanna, também foi herdado por sua filha, o que a deixava ainda mais parecida com a mãe.
Após o pedido que fiz para que Hanna ficasse, um silêncio constrangedor havia se instalado no ambiente. Não foi apenas Hanna que ficou surpresa. Nossas amigas também tinham ficado. Mas depois o ambiente foi ficando razoavelmente mais leve, e tínhamos conseguido almoçar em paz.
Vez ou outra eu me pegava encontrando o olhar de Hanna, mas fugia rapidamente do contato visual. Já com a criança as coisas eram diferentes. Era como se de repente uma conexão tivesse sido estabelecida entre a pequena e eu. Eu não conseguia controlar a urgência em desfrutar um pouco mais da presença da menina, saber um pouco mais sobre ela, descobrir um pouco mais daquela que parecia ser uma criança meiga, e muito inteligente.
POUCO TEMPO DEPOIS
Após o almoço ter descido seco, eu mantinha minhas mãos ocupadas com um copo de whisque que Robson fazia questão de não deixar esvaziar. Acho que aquele era o jeito dele mostrar apoio e que compreendia que estava tudo muito pesado para ser digerido sem uma boa dose de álcool.
Enquanto bebia, sem muita preocupação se estava ou não sendo observada por alguma delas, eu mantinha minha atenção na criança que corria pelo jardim de Micaela. Seus cabelos ondulados e dourados esvoaçavam ao vento, e em seus lábios um sorriso de satisfação deixava seu rosto infantil ainda mais angelical. Entre tantas perguntas que eu me fazia internamente, uma era constante e surpreendentemente sufocante: Quem seria o pai daquela criança? A quanto tempo Hanna estava casada? Eu começava chegar à conclusão que talvez ter escolhido não saber nada sobre a vida de Hanna naquela época, tenha sido uma péssima ideia. Não que fosse fazer grande diferença em minha vida, mas pelo menos eu não estaria descobrindo as coisas dessa maneira. Eu não teria sido pega de surpresa. E não estaria agora cheia de perguntas e sem nenhuma resposta.
Pensando nos últimos acontecimentos, senti o sabor amargo da mágoa começar invadir meu peito novamente. As lembranças do passado começaram dominar minha mente sem nenhum pudor, sem nenhum acalento. No entanto, percebi que agora não era somente o que aconteceu no passado que me causava aquela dor sufocante. A verdade é que embora eu tivesse sentido que meu coração havia sido arrebatado por aquela criança, ela também refletia algo que por muitos anos fiz questão de ignorar. A filha de Hanna refletia que enquanto minha vida havia parado no tempo, a dela tinha prosseguido. Hanna tinha seguido adiante, refeito a própria vida, conquistado sonhos, e até mesmo construído uma família, enquanto por escolha minha, eu permanecia aprisionada nas cicatrizes que ela me causou. A culpa não era da menina, é claro. Mas ainda assim eu não consegui controlar aquela sensação de amargura.
Me parecia injusto perceber que Hanna tivesse interferido em minha vida mesmo enquanto eu estive longe. O que ela me fez provocou consequências que determinam meu caminho. Eu simplesmente não conseguia mais confiar em nenhuma mulher, por isso para mim relacionamentos eram sinônimo de um fracassado já anunciado. Eu não conseguia me doar, não conseguia acreditar mais no amor. E olhando para aquele reflexo do passado em meio ao presente, eu acho que nunca estive errada quando conclui que durante meu relacionamento com Hanna, eu tinha amado sozinha.
No entanto, por mais que olhar para menina que brincava tranquilamente me trouxesse esses pensamentos amargurados, eu não conseguia sentir aversão a ela, pelo contrário, como uma energia forte, a pequena me atraía mais e mais a cada segundo.
– Sabe de uma coisa? Se você ficar só olhando, não vai tirar todas as dúvidas que estão passando por sua cabeça.
Me dei conta que Renata havia se colocado ao meu lado e agora também admirava a garotinha de olhos verdes.
– Ela parece muito com a mãe.
Foi tudo o que consegui dizer em meio a um sussurro, mas logo me repreendi internamente. Aquela observação não deveria ter sido verbalizada. Mas, por mais que eu tentasse ignorar alguns fatos, meu coração parecia disposto a me trair enquanto me fazia falar coisas que deveriam ser guardadas somente para mim.
Aquela confissão deixou Renata surpresa. Ela me olhava parecendo desejar ler um enigma indecifrável.
– Isso é bom! Sério, é a melhor coisa para as duas. – Minha amiga respondeu calmamente, mas eu não consegui compreender aquele comentário carregado por mágoa.
– Eu deveria perguntar o motivo? – Encarei Renata e ergui a sobrancelha.
Eu conhecia cada uma das minhas amigas, e sabia que naquele momento Renata se esforçava para relutar contra algum sentimento. E qualquer que fosse ele, não era algo bom, o que me deixou intrigada. O que poderia ter relação com Hanna e sua filha que deixasse Renata daquela maneira?
Renata manteve o olhar conectado ao meu por longos segundos. Ela parecia viver um conflito consigo mesma, como sempre ponderando sobre como suas escolhas poderiam afetar ou não em outro alguém.
– Sim, você deveria. Mas talvez em outro momento. E claro, para outra pessoa. – Renata acenou em direção a Hanna, que alheia a nossa conversa, se mantinha entretida em um diálogo com sua irmã e Daniela.
– Eu não vou usar essa criança como uma ponte para qualquer aproximação com a mãe dela, Renata. – Rebati antes que qualquer expectativa fosse criada ali.
Ignorando aquilo eu disse, Renata voltou admirar a garotinha.
– Gabi é uma criança encantadora, Marcela. Você não acha? Eu tenho certeza que você ia gostar de conviver com ela.
– Sim, ela muito encantadora. Parece inteligente, esperta, e tem uma energia… – Me peguei sorrindo ao elogiar a pequena. – Ela é muito linda, também.
Não tinha porquê negar. Eu realmente concordava que talvez fosse gostar de conviver com aquela criança tanto quanto as demais conviviam. Mas eu também sabia que existia um obstáculo para que aquilo se tornasse uma realidade. Para conviver com a menina, eu certamente precisaria conviver com a mãe dela, e eu não me sentia pronta para aceitar isso. Para viver isso.
Ficamos em silêncio observando a menina gargalhar enquanto Robson a colocava no pescoço e corria pelo gramado verde. Sem dúvidas, ele se tornava uma criança enquanto estava com a sobrinha. Suspirei pesado e talvez pela força do álcool que começava queimar em meu sangue, me permiti pela primeira vez demonstrar o quanto viver novamente na presença de Hanna, estava me deixando confusa e afetada.
– Ela está muito diferente, mas ainda assim parece tão igual. – Disse ao olhar em direção a Hanna. – Quero dizer, eu não sou cega, não é mesmo? Fisicamente o tempo parece ter feito muito bem a ela.
Aquilo não era uma mentira. Por mais que eu não gostasse da presença de Hanna, eu não podia negar que o tempo deu ao seu rosto, traços que evidenciavam ainda mais sua beleza. Se no passado ela já era uma mulher que atraia atenção por onde passava, no presente tenho certeza que não era diferente. Perdi as contas de quantas vezes nos últimos dias, vi funcionários praticamente quebrarem o pescoço para vê-la passar pelos corredores da empresa. Dona de uma personalidade forte que naturalmente impõe sua presença em qualquer ambiente, Hanna era também uma mulher vaidosa, alta, dona de cabelos bem tratados que estavam quase sempre soltos, sempre mantendo seu estilo, maquiada, e quase como um pecado, ela era dona dos olhos verdes mais expressivos que já vi. Sem dúvidas ela era sim uma mulher muito bonita.
– Não apenas o físico, mas a personalidade também. Eu sei que você não acredita, mas Hanna é outra pessoa agora. Ela amadureceu, se arrependeu das besteiras que fez e aprendeu com as consequências que teve. Você descobriria isso se desse uma chance para conversarem. Marcela, talvez agora mais que nunca, fosse um bom momento para você se permitir.
O jeito que Renata me olhava causava um desconforto. Era como se fosse possível descascar cada camada que durante anos fui sobrepondo para me protejer. Contudo, cansada demais para continuar fingindo que eu não estava sendo afetada desde o meu retorno, pelo menos naquele momento decidir não seguir fugindo.
Sustentei o olhar da minha amiga sem nenhum constrangimento pela conversa que estávamos tendo. Talvez aquilo me inquietasse em outro momento, mas ali me permiti sentir e também ouvi-la.
– Rê, já faz muito tempo. Não faria diferença agora. Tudo mudou por aqui. Nós duas mudamos. Nós duas seguimos. Ela seguiu com vida, teve conquistas, construiu uma família… Por que deveríamos mexer em um passado que não nos beneficiaria em nada? Definitivamente, nada do que falássemos uma para outra mudaria nossas vidas. Só vai alimentar ainda mais o que já foi guardado no coração.
– Como pode ter tanta certeza do que diz? – Vi Renata suspirar pesado como se estivesse fazendo uma força sobrenatural para ponderar suas palavras. – Marcela, eu amo vocês duas, e somente por isso eu vou repetir o que já te falei depois daquela reunião catastrófica. Hanna passou por muitas coisas depois que você se foi. Coisas que não cabem a mim te contar, até porque a raiva fez você optar por não querer saber nada sobre ela no passado. Contar ou não, hoje é uma decisão que cabe a ela. Assim como querer ou não saber, é algo que cabe a você. Mas eu acho que uma conversa honesta poderia mudar pelo menos a maneira como você enxerga ela.
– Falando desse jeito parece que sou culpada pelas escolhas que fiz. Preciso te lembrar que foi ela que quebrou meu coração? – Me defendi chateada.
– Acredite, nem mesmo ela esqueceu dos próprios erros. Ninguém defendeu ela por agir como uma adolescente babaca. Mas é justamente por ser sua amiga, que não posso mais continuar em silêncio enquanto te vejo permanecer aprisionada a essa dor. Marcela, você parece alguém amargura. Você que sempre foi tão ética, hoje leva para dentro da empresa problemas pessoais que deveriam ser deixados fora. Você parece estar sempre triste, irritada… Você não é assim, Marcela. E como sua amiga, eu preciso abrir seus olhos.
– Eu não sou triste. – Mentira! Eu sempre me senti triste. Sempre foi como se algo me faltasse para que eu pudesse me sentir realizada e feliz. – Eu apenas escolho não conviver com ela.
– Tudo bem! Você está no seu direito de não querer conviver socialmente com ela. Mas pelo menos dentro da empresa, você precisa fazer as coisas funcionarem. Continuar decidida a julgá-la pelo o passado interfere no presente de vocês. Você é a presidente da nossa empresa, e tem se comportado como uma adolescente se recusando ver o primeiro amor após ter o coração despedaçado. Preciso ter de volta a profissional que você é, Marcela.
– Então agora a culpa é minha? – Ri sem qualquer humor.
A verdade, é que por mais que eu soubesse que Renata estava certa quanto aquela questão profissional, eu estava odiando ser exposta. Além disso, eu realmente achava que todas elas também tinham uma parcela de culpa pelo meu comportamento inadequado. Se eu tivesse ficado sabendo antes do que me esperava, talvez eu tivesse tido uma chance para decidir o que queria fazer a respeito. Seria uma decisão minha conviver ou não com Hanna.
– Não foi isso que eu disse. – Renata respondeu se contendo, mas eu sabia que ela estava com receio do caminho que aquela discussão estava seguindo. – Olha, você pode ter o tempo que quiser para pensar a respeito. Mas posso te dar um conselho? – Nada respondi, então ela prosseguiu. – Pelo menos encontre uma maneira de superar o seu passado. Não por ela, muito menos por qualquer uma de nós. Mas por você mesma. Você não pode viver com isso te aprisionando eternamente. Cultivar mágoa também é uma maneira de morrer enquanto ainda está viva.
Ok, Renata acabava de fazer um desabafo que parecia ter sido sufocado por dias em seu coração, e embora aquilo me causar desconforto, eu não poderia dizer que ela estava errada. Nos últimos dias, eu tinha sido tudo, menos a profissional que deveria ser. Eu sabia que profissionalmente, eu não podia seguir evitando Hanna como vinha fazendo. Isso estava causando danos aos negócios, além de tornar o clima dentro da empresa como algo insuportável. Meu comportamento ocasionava desconforto não apenas a Hanna, mas também as outras, que praticamente vinham servindo de pombo-correio e levando documentos de um lado para o outro, assim como recados que deveriam ser decisões tomadas em reuniões importantes entre Hanna e eu.
– Eu tenho medo, ok? – Pela primeira vez em anos, me permiti falar exatamente o que se passava dentro de mim.
– Você quer falar sobre isso? – Ela questionou repousando sua mão em meu ombro.
Renata sempre foi aquela que me ouvia. Ela sempre demonstrou apoio em todas decisões que tomei, e mesmo que não concordando com algumas delas, ela sempre me apoiou. Mesmo falando o que realmente pensava, julgamentos não fazia parte da sua personalidade. Talvez por isso sempre me senti bem em conversar abertamente com ela mesmo sobre assuntos que me causavam um turbilhão de sentimentos.
– Conviver com ela novamente é sufocante e ao mesmo tempo assustador. É como se o tempo não tivesse passado, porque até o perfume dessa mulher me causa receio, sabe? Eu não consigo definir o que sinto. Acho que sinto tudo e nada ao mesmo tempo.
Minha amiga não escondeu a surpresa pela revelação que ouvia. Nos últimos anos, eu nunca havia dito algo assim.
– Você consegue definir em palavras o nome para isso?
Baixei a cabeça me sentindo frustrada. Talvez eu soubesse… Talvez, só talvez eu não quisesse admitir que de alguma maneira, mesmo que eu sentindo raiva por tudo o que ela me fez passar, bem lá no fundo do coração eu soubesse que Hanna ainda me afetava. Mas eu não entendi como isso era possível. Eu não queria e nem me esforçaria para entender. Então escolhi responder o que me deixava mais segura comigo mesma. Em casos como esse, a negação é sempre a primeira opção.
– Não! Mas a verdade, é que parte de mim segue me lembrando que a presença dela é como um insulto a cicatriz que carrego em meu coração. Eu tinha me entregado para ela, Renata. Entreguei minha confiança, meus sonhos, meus desejos mais profundos, e tudo o que ela fez foi me tratar como lixo. Como posso ser indiferente a isso? Ao vê-la todos os dias naqueles corredores, eu me esforço para não esquecer o que ela me fez. Assim eu consigo estar imune a qualquer coisa que me quebre novamente.
– Então na verdade você tem medo de sentir. – Renata cravou com cautela, porém sem culpa. – Mas se você sentir, não significa que seja fraca por se dar uma chance, Marcela. Significa apenas que você é humana.
– Eu não sinto. Eu não vou sentir. – A olhei de cabeça erguida e decida a escolher meu próprio caminho. – Eu tenho medo sim. Tenho medo de que mesmo de depois de tantos anos terem passado, ela ainda possa me causar danos. Por isso escolho o que for mais seguro para o meu coração.
Àquela altura eu já sentia uma dor sufocante dominar meu coração. Ainda que decida a não recuar, era tarde demais… Eu já não tinha como camuflar meus sentimentos diante do olhar compreensível de Renata. Ela não me julgava, mas queria me entender. E a quem eu queria negar? Eu também sentia que precisava me entender comigo mesma.
– Conversar com ela? Céus, eu tenho pânico do que posso ouvir em uma conversa com ela. Ela sempre ganhou as discursões que tinha comigo, sempre conseguiu tudo o que queria. Lábia ela tem, e nós duas sabemos disso. Não é atoa a profissão de advogada. Eu tenho medo de sentir novamente a mesma dor sufocante que estava sentindo quando subi naquele avião para Portugal. Tenho medo de descobrir que não superei o passado como gostaria de ter superado. Eu também tenho mágoa, muita mágoa guardada. Eu sinto dor, tenho lembranças de noites em claro que vivi enquanto chorava por reviver cada palavra que escutei naquele maldito dia. Eu chorava ao ver a cena daquele maldito beijo depois dela ter passado a noite anterior em meus braços fazendo juras de amor. E as palavras? Céus! Às palavras me corroem a alma até hoje.
– Marcela… – Renata tentou me interromper.
Mas àquela altura eu já não conseguia mais me conter. Era como se tudo o que guardei por anos, de repente tivesse ganhado vida própria e já não pudesse mais ser silenciado.
– Não! Agora me deixa falar. Você não tem noção de como sofri, Renata. Ninguém tem noção. Ela não tem noção. Renata, eu a amava como jamais imaginei que amaria alguém. Talvez nem mesmo eu soubesse o quanto que eu a amava naquela época. E eu descobri da pior maneira a intensidade daquele amor. Foi a maior decepção da minha vida.
– Marcela, por favor… Você precisa se acalmar. – Renata tentou novamente.
O problema é que eu estava cega… Eu não conseguia ver mais nada em volta, não conseguia me ouvir e tão pouco me conte. Agora eu queria falar, eu tinha a necessidade de falar.
– Por muito anos, eu decidi que odiá-la era mais seguro. Era seguro pra mim, para meu coração. E eu consegui, sabia? E agora de repente tudo muda? Agora eu preciso conviver? O caramba que eu preciso seguir o que o destino traçou. Eu sou dona da minha vida. Se eu decidi que deveria odiá-la, é assim que deve ser. Hanna Prado não pode e não vai exercer nenhum poder sob mim. Nunca mais, Renata. Eu vou odiá-la sim. Nada nem ninguém vai mudar isso.
– Já chega, Marcela. – Renata
Renata não gritou, não foi rude, mas foi necessariamente firme.
Olhei em volta e então senti meu estômago embrulhar. Eu não sei exatamente o meu tom voz ao verbalizar tudo aquilo. Mas me dei conta que àquela altura eu já tinha atraído todos os olhares para mim. Mas o que realmente me incomodou, foi quando vi que Gabriela me olhava assustada enquanto Hanna tentava acalmá-la em seus braços. Eu não sabia dizer o que se passava na cabeça de Hanna. Ela estava séria e se mantinha empenhada em cuidar da filha que me olhava chorosa. Por que aquilo partia meu coração?
O clima tinha pesado toneladas, mas mesmo que meu peito estivesse apertado, ainda assim eu ergui a cabeça e não me deixei abalar. Ou pelo menos demonstrar que estava abalada. Diferente do passado, eu não derramava nenhuma lágrima, mas sentia meu coração bater acelerado enquanto uma dor insuportável parecia ter tomado conta de mim.
Micaela nada dizia, mas me olhava de um jeito… Não era como se ela tivesse me culpando por sentir tudo aquilo. Mas talvez ela não concordasse com muita coisa do que disse naquele momento. Por sua vez, Renata parecia ter esquecido de respirar.
Tudo ficou ainda pior quando a garotinha que me olhava com mágoa, quebrou o silêncio.
– Por que você odeia a mamãe? Eu tinha gostado de você.
Tentei formular palavras que dissessem qualquer coisa considerável, mas nada parecia suficiente. Eu não sabia o que dizer para a criança, especialmente porque de repente ouvi-la foi como ter sido atinginda por lâminas afiadas. A muito tempo eu não sabia que ainda era possível em me sentir daquele jeito… Completamente sem chão e dilacerada por dentro. Era como se decepcionar a garotinha tivesse sido meu maior pecado.
Me sentindo perdida e muito envergonhada, busquei o olhar da mãe da menina. Ela não verbalizava nada, mas seu olhar congelante dizia muito.
– Agora eu não posso continuar gostando de você. – A menina tornou a dizer. – Não é legal gostar de quem não gosta da mamãe. Ela tão boa. Por que você não gosta dela, tia Marcela?
Dessa vez Hanna se apressou em interferir.
– Meu amor, quantas vezes vou dizer para você que não pode se meter em conversas de adulto?
– Mas mamãe, eu não me meti. Foi ela que gritou e eu ouvi tudo. – Defendeu-se a criança com a precisão de um adulto.
– Tenho certeza que Marcela não quis dizer isso, Gabi. – Foi a vez de Micaela interferir. Porém, diferente da irmã, ela mantinha o olhar no meu. – Adultos brigam às vezes, Gabi. Mas sua mãe e Marcela vão conseguir resolver essa bagunça. E você não precisa desgostar dela. Eu tenho certeza que ela também gostou muito de você.
A menina se remexeu no colo da mamãe, pedindo para ser colocada no chão. Ela então veio até mim, e sem pedir licença e qualquer constrangimento, sua mãozinha pequena segurou a minha provocando ondas de sensações desconhecidas e inexplicáveis.
– Quando eu brigo com alguma coleguinha na escola, mamãe diz que a melhor solução é sempre conversar e fazer as pazes. Eu sei que você tem medo, mas eu posso te ajudar nisso.
Foi inesperado, mas quando percebi a garotinha já estava ali unindo minha mão junto a mão da sua mãe.
Eu fiquei sem reação. E tenho certeza que Hanna não estava diferente. Na verdade, a loira estava apavorada. Ela certamente estava esperando a minha pior reação possível. Mas eu estava travada demais para saber como reagir aquilo. Aquela era a primeira vez em anos, que eu tinha um contato físico com Hanna, e eu não sabia exatamente como explicar que aquilo estava me provocando algo. Eu não sabia se era algo ruim ou algo bom, ou se simplesmente era algo. E também não queria causar ainda mais danos emocionais a garotinha que olhava esperançosa para nós duas, como se aguardasse que seu grande feito tivesse de fato resolvido as coisas.
Por um momento tudo o que era possível ouvir naquele ambiente, era o som dos passarinhos que esbanjavam beleza no jardim de Micaela.
– Vocês vão ser amigas agora? Eu não gosto de gritos, tia Marcela. E queria muito que você ficasse bem com a mamãe, assim posso ficar bem com você também. Mamãe diz que sentir medo é normal, tia. Posso ficar aqui com você até o medo que você tem dela, passar.
Não sei explicar o que aconteceu, se era a inocência que transbordava no olhar aquela criança, ou se era sua mão pequena grudada a minha e de Hanna que acabava me transmitindo uma energia muito superior capaz de rapidamente me fazer sentir a sensação de calmaria invadir meu coração por anos angustiado.
– Gabriela, adultos resolvem as coisas diferente, filha.
Desfiz o contato físico com Hanna, porém não de maneira rude. Eu não podia ser indiferente aos sentimentos da pequena Gabriela. Não queria que ela pensasse que seu esforço foi em vão.
Abaixei para ficar a altura da menina, e a olhei dentro daqueles verdes intensos. Eu não planejei, mas deixei me levar por sua doçura. Que não se levaria?
– Gabriela! Você tem o nome mais bonito que já conheci, sabia? – Acariciei seu rosto. Ela era tão meiga, tão pura… – Me desculpe por ter te assustado e te magoado. Eu não queria que isso acontecesse, e estou muito envergonhada pelo meu comportamento. Você pode me perdoar?
– Não se preocupe, tia. Eu sei perdoar! Mamãe diz que perdoar o próximo cura nosso coração e também o da pessoa que nos feriu. E você, seria capaz de perdoar a mamãe?
Não existia apenas expectativa no olhar da pequena, mas também certa urgência por uma resposta positiva.
– Gabriela… – Hanna tentou intervir, mas me apressei.
– Deixa! – A olhei. – Tá tudo bem.
Tornei a encarar a criança, mas Hanna foi decidia quando interferiu.
– Não! Nada está bem. Gabi, precisamos ir.
Gabriela olhava para nós duas visivelmente desapontada. Por sua vez, Hanna me fitava com um mix de sentimentos que eu não conseguia explicar, mas era notório que entre eles, existia irritação, assim como também existia culpa.
– Você não vai envolver a criança nisso, vai? – Eu disse entre dentes.
– Não, Marcela. Não vou envolver minha filha nisso. Mas por hoje as coisas já fugiram do controle, não acha? Eu não posso permitir que ela seja mais uma presença imposta a você. – Atrevida como sempre foi, Hanna alfinetou e eu compreendi exatamente ao que ela estava se referindo.
Até pensei em responder, mas me contive quando vi Micaela se aproximar de nós com uma expressão nada boa.
– Já chega! Eu não preciso lembrar a vocês, como devem se comportar diante de uma criança. Ou será que preciso? – A Prado mais velha nos repreendeu em sua tonalidade aveludada. – Se resolvam em outra outra hora e em outro lugar. Longe da Gabriela, de preferência. Ela não merece ser envolvida na bagunça que é vocês duas.
– Mas o que vocês precisam resolver longe de mim? – Gabriela questionou a nós duas, com curiosidade.
– Nada! – Respondi apressada.
No entanto, simultaneamente Hanna também respondeu confrontando o que eu acabava de dizer a menina.
– Tudo!
Mais uma vez Gabriela se viu confusa diante de nós. Aquilo estava ficando complicado, meu Deus.
Olhei feio para Hanna, que sequer pareceu se abalar, mas respondeu:
– Eu não costumo mentir para minha filha. – Explicou diretamente a mim, e em seguida olhou para a filha com uma expressão suave, porém que nitidamente ela parecia se esforçar para deixar transparecer. – Isso é coisa de adultos, filha. Não é nada com você. Mas não se preocupe, ok? Eu prometo que em outro momento Marcela e eu conversamos.
– Vocês adultos são chatos e complicados. Eu não quero crescer nunca. – Resmungou a pequena mostrando que além de ser esperta, também era dona de uma personalidade forte. – E eu também não quero mais ser sua amiga. Se você não gosta da mamãe, eu não gosto de você.
– Gabriela, isso não é jeito de falar. – Hanna repreendeu a filha que continuava inconformada.
Voltei a baixar, mas dessa vez para pegar Gabriela no colo. Embora relutante, magoada e um tanto quanto manhosa, era visível que Gabriela pareceu gostar de estar em meu colo. Ela se agarrou ao meu pescoço com carinho. Não sei explicar que sentimento senti ao ser abraçada pela filha de Hanna, mas uma coisa era certa, o passado que envolvia a mãe dela e eu, definitivamente estava claro não alcançaria a convivência que eu teria com aquela criança. Era inexplicável que em poucas horas de convívio, Gabriela tivesse o poder de arrancar o melhor de mim.
– Adultos são realmente chatos, minha pequena. Mas não fique brava, ok? O que sua mãe quis dizer é que temos que resolver coisas que não seria legal você participar. – Expliquei com paciência enquanto senti ao peso do olhar de Hanna em mim.
– Vocês vão brigar? Não gosto que briguem com minha mamãe.
Engoli seco!
– Não vamos brigar, filha. – Hanna me encarou. – Marcela nunca fez ou fará mal a mim. Não tem com o que se preocupar, meu amor. – Ela passou a mão pelos fios dourados da filha que agora parecia mais tranquila.
– Você promete, tia? Promete que não vai brigar com a mamãe? Gostei de você, e não quero ficar brava com você de verdade.
Voltei a engolir seco! O que eu podia responder? Fiz o mais fácil, mesmo me julgando por estar fazendo uma promessa que eu não sabia se seria capaz de cumprir. Olhei para Hanna e mesmo incerta, respondi:
– Prometo, pequena. – Me permiti desfrutar do seu abraço quando voltei a ter meu pescoço enlaçado por seus pequenos braços.
Vi Micaela passar as mãos pelo rosto. Ela não conseguia esconder o quanto estava brava por ver a sobrinha, mesmo que de maneira inocente, sendo envolvida naquela bagunça caótica que era Hanna e eu. Por sua vez, enquanto Renata presenciava tudo com atenção, Daniela serviu para ser o alívio cômico da situação.
– Se alguém tivesse me dito que eu assistiria uma série dramática, eu teria feito pipoca. – Disse a baixinha entre risos descontraído.
O clima tinha ficado estranho, pesado, eu diria. A Prado mais nova insistiu que gostaria de ir embora, mas cedeu aos pedidos da filha que implorou para ficar mais um pouco. Robson se encarregou de tentar descontrair o ambiente, e junto com Gabriela, os dois fizeram um bom trabalho. Embora não tivesse passado despercebido aos meus olhos, a tristeza que tomou conta de Hanna. Ela evitava a todo custo encontrar meu olhar. Enquanto Robson me fazia contar sobre minha temporada em Portugal, as meninas me atualizavam sobre os acontecimentos do Brasil, especialmente sobre os preparativos do casamento de Renata. Claro que Daniela arrancava risadas enquanto deixava claro o quanto queria ficar longe do altar por no mínimo uns trinta anos a mais. Hanna, por sua vez, ouvia mais do que falava alguma coisa. Era notório o desconforto que existia entre nós duas. Aquela convivência era nosso tormento incomum, agora ainda mais que antes.
Fim do capítulo
Instagram: @priskellyautora
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