Esse capítulo contém cenas de violência sexual. Caso seja sensível ao assunto, é recomendado que não leia.
Capitulo 4
Por Hanna
DIAS DEPOIS
Eu sempre me perguntei como seria reencontrar Marcela. Me questionava como seria sentir a explosão de emoções e sentimentos que ao longo dos anos se acumularam em meu coração sem chance de serem verbalizados. Por mais que eu tentasse idealizar, eu não sabia como as coisas funcionariam de fato, e sabia menos ainda se eu conseguiria enfrentar a situação de cabeça erguida, considerando a culpa que me corroía. Mas uma coisa eu sempre soube… Não seria fácil.
No momento que a vi entrar naquela sala de reunião tenho certeza que esqueci como que se respirava. Sem sequer ter minha presença notada, eu a olhei e não pude conter meu coração que disparou em um misto de emoções contidas. Depois de longos oito anos, ela estava ali na minha frente ainda mais bonita, mais madura, e claramente trazendo em sua bagagem as mais diversas experiências. Mesmo em fração de segundos foi possível notar que não era exagero aquilo que já haviam me dito: Algo em Marcela havia mudado. Ela agora ela séria como jamais vi antes. Sua expressão não era de alguém chata, mas de uma mulher cruelmente marcada. Ela não deixava transparecer o que sentia, e se no passado eu conseguia lê-la apenas com um olhar, agora era como se fosse um livro de páginas em branco.
Quando percebi que Marcela ainda não sabia da minha existência naquela empresa, meu coração quase parou por um segundo, e isso só aumentou ainda mais quando ela pediu para que a apresentação fosse feita.
Quando nosso olhar se encontrou pela primeira vez, pude perceber o impacto indesejável que minha presença causava a ela. Mas o que eu podia esperar? Eu sabia que ela me odiava, e merecia isso. Contudo, não pude conter as memórias que me atravessaram em cheio naquele instante, e ainda que tomada pelo o impacto, percebi que ela sim vacilou quando demonstrou que assim como eu, também tinha sido levada de volta ao passado. Eu não sabia o que aquilo significava, tão pouco o quanto nos afetaria nos próximos momentos, mas sabia também que era algo tão forte que se tornou incapaz de ser internamente questionado. O espanto no olhar confuso de Marcela, deixava claro que não havia nada que ela pudesse fazer ao que sentiu naquele momento. Tão pouco eu, que fui arrastada por uma avalanche de culpa, sobrecarga emocional e dor. Eu sei que para Marcela as coisas não tinham sido fáceis, mas para mim também foram amargas. O castigo da minha irresponsabilidade afetiva, foi cruel.
Desde que Marcela havia ido embora há oito anos, eu conheci o verdadeiro significado da palavra sofrimento. Não teve um só dia que eu não me arrependesse amargamente de ter sido estúpida o bastante a ponto de colocar em risco minha felicidade ao lado dela. Eu amava Marcela e tinha essa certeza em meu coração, mas naquela época eu era tola demais para considerar miais importante as opinões alheias. O medo do que os outros pensariam e falariam sobre nosso relacionamento, infelizmente foi algo superior ao que eu sentia. Eu era uma garota imatura, mimada, superficial… Me assustava a possibilidade de passar por situações constrangedora ao assumir um relacionamento com uma mulher. Me apavorava a hipótese de sofrer preconceito entre amigos, família, sociedade. O que eu não percebia é que embora eu tivesse me apaixonado perdidamente por Marcela, o maior preconceito estava dentro de mim mesma. Sim, eu não me aceitava como eu era, e isso me fez perder o amor da minha vida.
Depois da partida de Marcela para Portugal, vivi dias difíceis enquanto tentava uma reaproximação e era devidamente ignorada. Após o acontecido naquela casa de praia, ela sempre deixou muito claro desprezo que sentia por mim, e não se esforçava para esconder isso. Ela não queria esconder. Marcela dizia para todas nossas amigas que não queria saber nada que diz respeitasse a mim, e embora sofrendo com a decisão dela, eu não a julgava por toda aquela explosão de desprezo, afinal de contas, eu sabia que tinha magoado-a profundamente, e embora me arrependesse amargamente, tinha que aceitar as consequências dos meus atos impensado.
Após muitas tentativas frustradas de reaproximação em busca do perdão de Marcela, e depois de saber que ela havia proibido nossas amigas de até mesmo mencionar meu nome para ela, resolvi respeitar sua decisão e sofrer em silêncio a falta que ela me fazia. Arrependida, porém consciente que tinha sido extremamente escrota com ela, resolvi deixá-la seguir sem tentar impor minha presença em sua vida. Eu já tinha causado muitos danos a seu coração, e embora não conseguisse jamais me perdoar por tudo o que falei naquele dia, sem saber que ela ouvia todas aquelas mentiras ditas sem pensar, deixei que o tempo se encarregasse de tudo. Se aquele fosse o fim da nossa história, eu só podia aceitar.
A partida de Marcela também me trouxe problemas com minha irmã. Micaela sempre foi uma mulher muito justa, e embora eu fosse a irmã que sempre amou e protegeu, ela não conseguia me perdoar pelo o que eu tinha feito com a amiga. Na verdade, ela não conseguia entender o que fiz. Micaela ficou perplexa ao saber do tempo em que vivi um romance em segredos com Marcela, e ainda mais indignada por saber que cometi aquele erro pelo simples fato de não saber lidar com aquilo que eu era, ou seja, ter preconceito comigo mesma por amar e desejar uma mulher como jamais desejei e amei um homem. Não sei exatamente por quanto tempo tive que conviver com a frieza de Micaela, que por vezes também me ignorava porque era mais fácil do que entrar em um embate direto. Ela havia se magoado pela a amiga, mas também se decepcionado comigo por ver que coloquei a opinião alheia a cima da minha felicidade.
O tempo foi passando, Marcela cada vez mais se tornava um sonho distante. Ela havia se tornado um amor impossível. Contudo, devo dizer que foi tudo isso que fez de mim a mulher que me tornei. O tempo, o arrependimento, a dor da ausência e a indiferença de Marcela, foi o que me fez ter coragem de aceitar e assumir quem eu era, sem qualquer receio ou preconceito. Foi tudo aquilo que me fez lutar todos os dias para me tornar uma pessoa melhor.
Assumi minha sexualidade não apenas para minha família, mas para todos aqueles que de alguma forma estavam presentes no meu dia a dia, inclusive para colegas de faculdade. Dei um tempo nos envolvimentos amorosos, até porque a pessoa que eu queria não me queria de volta. Busquei focar no meu sonho de cursar direito e dar o meu melhor na faculdade. Consegui concluir o curso no tempo certo e com as melhores notas da turma, algo do qual sempre me orgulhei. Após algum tempo, abri espaço para me relacionar com alguém, mas foram poucas as mulheres que entraram em minha vida, e nenhum dos envolvimentos eram prolongados, pois todas elas sabiam que embora eu tentasse, eu não estava inteira como elas estavam, pois era sempre uma tentativa inútil de esquecer Marcela
Depois de dois anos da partida de Marcela, aconteceu o maior pesadelo que já vivi em toda minha vida. Era uma noite fria e chuvosa quando eu finalmente consegui terminar meus compromissos acadêmicos e andava pelos corredores da faculdade. Eu estava sozinha e iria ao ponto de táxi que ficava próximo do campus. Tudo o que eu mais desejava era chegar em casa, tomar um banho e deitar para descansar do dia tumultuado que tinha sido aquele. Em certo momento passei por uma parte do campus onde estavam três rapazes. Dois deles eu não conhecia, mas um em especial sim, eu conhecia perfeitamente bem, e era exatamente por conhecê-lo que sequer dei atenção para suas investidas. Na verdade, Jefferson Morais era o tipo de homem que eu queria distância. Ele estudava na minha turma, era um rapaz de aparência desejável por qualquer mulher, mas o caráter era duvidoso. Ele fazia o estilo play boy, visivelmente problemático, mimado e irresponsável. Jefferson pouco se importava com os estudos, ia para faculdade obrigado pelo o pai, um dos maiores influentes na área jurídica do Estado. Todos sabiam que o verdadeiro objetivo do rapaz era curtir a vida esbanjando o dinheiro do pai nas noitadas que tanto se orgulhava em detalhar para toda turma.
Tinha quem dissesse que Jefferson se drogava, e nos corredores do campus, a conversa era uma só: Ele só tinha vaga garantida, por ser filho de um grande amigo pessoal do reitor. Não acho que aquilo fosse uma mentira, considerando que qualquer outro em seu lugar que cometesse todas as inflações éticas e morais da faculdade, já teria sido expulso a muito tempo.
Desde que iniciamos o curso, Jefferson sempre tentou uma aproximação. O rapaz não escondia de ninguém seu anseio em chamar minha atenção, e também não fazia muita questão de ser cauteloso em suas demonstrações de desejos. Conclui que por ser a única naquele lugar a lhe dizer um não, acabou se tornando um jogo, um desafio… Aquela insistência não era sentimento. Era apenas ego ferido.
Porém, todas as investidas de Jefferson sempre foram prontamente ignoradas por mim. Ele não me atraía em nada, e suas insistências depois de um tempo se tornaram irritantes, desconfortáveis, assustadoras, já que percebi que tudo ficou ainda pior e fora de controle, quando Jefferson descobriu que assumi meu interesse por mulheres. Desde então, ele começou me tratar de forma baixa e preconceituosa, sempre empenhado em me humilhar na frente de todos. A princípio eu o ignorava na esperança de vencê-lo pelo cansaço. No entanto, eu não era exatamente o tipo de mulher que se deixava passar por constrangimentos sem no mínimo devolver os insultos na mesma moeda. Foi então que nossa convivência ficou caótica. Nos insultávamos e nos enfrentávamos como dois lobos disputando território. Era visível o ódio que ele sentia cada vez que eu o enfrentava. Mais ódio ele sentia, ao se ver humilhado na frente de todos aqueles de quem ele desejava ser bajulado como uma estrela pop. Sua masculinidade frágil o corroía quando os muitos amigos o zombavam por cada não que eu lhe dizia. Não foram poucas as vezes em que Jefferson esbravejou para que todos pudessem ouvir a frase machista que toda lésbica já ouviu pelo menos uma vez na vida: O problema dela é falta de um homem de verdade. Certamente um dia, eu posso resolver essa questão. Por outro lado, ainda que me sentindo humilhada e envergonhada por tamanha exposição, eu não deixava barato, e contra atacava sua ofensa e ameaça, respondendo: Esse dia só acontecerá quando você for capaz de descobrir onde ficava o ponto G de uma mulher.
Ao vê-lo naquela noite totalmente bêbado e visivelmente drogado, eu estremeci de medo sem ao menos imaginar que de fato aquele seria um capítulo da minha vida que jamais seria superado. Isso porque quando seu olhar encontrou o meu, não foi difícil reconhecer que eu estava diante de um demônio.
Tudo aconteceu muito rápido e em poucos instantes eu estava em uma situação de submissão, após ter sido covardemente segurada pelos braços, pelos dois amigos de Jefferson que atenderam sua ordem covarde e nojenta. Enquanto ele se apossava do meu corpo com a luxúria e ódio que guardou por tanto tempo, eu me debatia como podia na vã tentativa de escapar daquele pesadelo. Àquele lugar escuro e silencioso do campus universitário, acabava de se tornar eternamente um palco de terror. Em uma hora como essas, nós vítimas sequer temos pensamentos ordenados ou capacidade para se dar conta do que acontecia ao redor. No entanto, jamais esqueci de um só segundo do momento que conheci o inferno. Lembro exatamente de tudo o que aquele crápula dizia enquanto tomava meu corpo com brutalidade. Suas palavras sujas condiziam exatamente com aquilo que ele me forçava enxergar em seus olhos: “Você nunca mais vai querer deitar com uma mulher, pois toda vez que você pensar nisso, vai lembrar que nenhuma delas vai te fuder tão gostoso quanto eu estou fazendo agora.” “Vadias como você gosta de ser comida assim, forte e fundo.”
Sim, eu era obrigada a ouvir tudo aquilo e muito mais enquanto suas estocadas brutas, frenéticas e dolorosas, pareciam dilacerar não apenas minha intimidade, mas também a alma da Hanna que fui um dia.
Foram longos minutos sendo abusada, torturada fisicamente e psicologicamente. Longos minutos sendo obrigada ouvir as palavras humilhantes e dolorosas. Palavras do tipo que acabam com qualquer mulher. Na verdade, o ato em si já acaba com vidas.
Enquanto aquele maldito abusava de mim, os outros riam e assistiam tudo com luxúria no olhar, como se esperassem pelo o momento que poderiam fazer o mesmo, o que não aconteceu por ordem dada por aquele que se sentia meu dono. Por mais que desejassem, nenhum dos dois ousaram sequer cogitar me tocar, mas isso não mudava em nada a participação deles. Os três estavam acabando com minha vida.
Não sei o tempo que tudo aquilo duro, mas cogito ter sido o suficiente para matar a mulher que fui um dia. Foi o suficiente para me fazer sentir um lixo, um nada… Alguém digna da morte. Ele que mal conseguia controlar o próprio prazer sujo, ejaculou dentro de mim como um animal violento e sem qualquer sentimentos ou escrúpulo. Não satisfeito, em seguida fez o mesmo em meu rosto, e quando tudo terminou, beijou meus lábios com possessividade. Àquela altura eu já não tinha forças para tentar impedi-lo de nada. Eu só queria que tudo aquilo acabasse.
Em seguida eles foram embora me deixando largada e sem forças para gritar por ninguém, porém ainda pude ouvi-los se vangloriar pelo o que acabavam de fazer.
Após longos minutos sem sequer conseguir mover meu corpo dolorido, sujo e molhado pelas gotas de chuva que caía, consegui discar o número de Micaela, e com a voz arrastada implorei para que ela fosse ao meu encontro. Implorei por socorro.
Aqueles foram os piores dias e meses da minha vida. Eu me sentia suja, sentia nojo de mim mesma, não queria ver ninguém, falar com ninguém, ouvir qualquer pessoa. Mas ainda assim, minha família me fez realizar todos os exames necessários, e com a prova genética que tinha sido colhida, me fizeram denunciar o rapaz que após alguns dias de busca, foi preso.
O caso se tornou um escândalo, especialmente na universidade, o que contribuiu para que que aquele maldito não fosse demorado a ser julgado. Mas, nem mesmo a condenação de Jeferson me trouxe paz. Saber que meu abusador e seus comparsas haviam sido julgados e condenados a anos de prisão, não foi suficiente para trazer de volta quem fui um dia. E nunca seria! A justiça em si é um acalento, mas em casos como o que vivi jamais será suficiente, porque jamais vai apagar o que vivi.
Bem, agora ele estava em uma penitenciaria cumprindo sua sentença, mas eu temia pelo o dia que ele fosse sair, afinal, sabemos que a lei brasileira é falha, e que sim, um dia ele voltará às ruas como tantos outros crápulas voltam.
Depois do que aconteceu, eu tinha medo de sair na rua. Tinha nojo de ver meu reflexo no espelho, odiava dias chuvosos porque tinha pesadelos com aquela noite em toda vez que tentava dormir. Minha vida virou um inferno! No entanto, com a ajuda da minha família e apoio das minha amigas, com o passar de alguns meses, aos poucos fui ensaiando voltar a viver.
Mas nenhum castigo é suficiente até que se cumpra por completo, não é mesmo? Não o demorou muito para que mais uma bomba caísse sob minha vida. Eu descobri que em meu ventre carregava um fruto daquele que um dia foi meu abusador.
No inicio, quando recebi a noticia da gravidez, eu quis morrer. Eu me perguntava todo santo dia o porquê de Deus estar me castigando daquela maneira. Conclui que se realmente existia um Deus, eu o odiava. Por que comigo? Eu não sentia amor pela criança que estava em minha barriga, não sabia como poderia ser mãe de um ser que me faria recordar todos os dias o meu pior pesadelo. A princípio era tudo muito confuso, muito cruel… Mas, eu também não sabia o que fazer a respeito.
Com o passar do tempo, eu me permiti pensar a respeito e tentar ver a situação com um olhar mais brando. Eu sabia que tinham decisões que estavam somente em minhas mãos, e foi quando entendi que assim como eu, aquela criança também não tinha culpa da maneira como foi gerada. Assim como eu, ela também era uma vítima do que aconteceu. Era como se duas vidas tivessem sido condenadas por aquele homem. Obviamente, muitas mulheres em meu lugar poderiam não querer gerar a criança, cuidar da criança, amar a criança, e eu jamais as julgariam por isso, pois só conhece as consequências, os danos e a intensidade que é viver a dor de um estupro, aquela que vive. Mas no meu caso, não sei quando e como algo dentro de mim despertou para o desejo de me tornar melhor do que fui um dia. Eu queria ser melhor do que Jefferson e seus amigos criminosos. Antes mesmo que eu decidisse, eu sabia que não queria ser uma assassina, eu não teria o sangue de uma inocente em minhas mãos. Foi então que resolvi que eu não somente teria a criança, como também seria sua mãe, mesmo sem conseguir imaginar ainda como conseguiria olhar nos olhos dela ou dele.
O tempo passava e minha família e amigas me ajudavam com o que eu precisava para sustentar a decisão que tomei. Confesso que ainda que me sentindo impura, me peguei diversas vezes imaginando como seria mais fácil passar tudo aquilo ao lado Marcela, tendo seu amor, cuidado e zelo, mas quem era eu para ter tamanha graça? Eu tinha estragado minha chance de ser feliz ao lado da mulher que amava, tinha destruído minha própria vida, e não destruiria a dela obrigando-a conviver com o fruto de algo tão nojento como aquele. Definitivamente eu não usaria meu castigos para trazê-la de volta, até porque, seu amor era o que me interessava, não sua piedade.
Quando os meses passaram e finalmente chegou o momento em que segurei àquela criança pela primeira vez nos braços, surpreendentemente pude sentir algo que jamais havia sentido antes. Era como se todo sofrimento estivesse acabado naquele instante. Olhei aquele ser indefeso, minúsculo e que parecia se sentir protegido em meus braços, e então fui tomada por uma onda de sentimentos indescritíveis. Era como se naquele momento, eu descobrisse um outro significado de amor. Sim, eu ainda era capaz de sentir amor, mesmo enquanto me sentia destruída.
O bebê em meu colo precisava exclusivamente de mim para sobreviver, e percebi que eu era a única que poderia ensinar aquela criança que ela deveria ser melhor do que eu fui um dia, melhor do que o infeliz do genitor dela era. Uma coisa era certa… Ela só teria a mim, e jamais a família de Jefferson iria saber da sua existência. É, eu a amei desde o primeiro momento que a tive em meus braços, sem ao menos lembrar ou considerar que ela era fruto de um abuso sexual. Jamais! Ela seria eternamente minha doce Gabriela.
Os anos passaram, o pesadelo ficou no passado, e embora eu ainda seja uma mulher que convive com muitas consequências internas daquilo que me aconteceu, sigo buscando evoluir todos os dias ao lado da minha filha. Mas agora, Marcela que também fez parte do meu passado, estava de volta. Curiosamente ela me causa conflitos ao perceber que ela é igual àquela das minhas recordações, exceto pela sua personalidade. A mulher que um dia se mostrou doce, cuidadosa, protetora, apaixonante, quando diz respeitava a mim, se mostrava fria, carrasca, dura. Vingativa!
Os dias na empresa estavam sendo os mais torturantes para mim, porque apesar de trabalharmos diretamente juntas, no nosso primeiro contato a sós, Marcela fez questão de mostrar o quão dura poderia ser. Ela deixou claro que nosso contato se restringiria somente naquelas paredes da empresa, que seria exclusivamente profissional, e mesmo assim, somente quando necessário. No geral, Marcela fazia questão ignorar minha existência ao máximo, e sempre que era possível, me encaminhava para Renata, para que a mesma tratasse de assuntos que precisavam serem vistos com a direção. Confesso que meu coração batia mais forte sempre que eu estava na presença dela ou ouvia sua voz, além de sentir uma dor quase insuportável no coração por receber tamanho desprezo de Marcela. A mim parecia um sentença com a qual eu tinha que me conformar. Minha Marcela não existia mais.
– Dona Marta, a Marcela está?
A pobre mulher que era sempre tão gentil, me olhou com timidez. Ela certamente se sentia culpada por ter que mentir. Mas eu sabia que não era culpa dela. Marcela tinha determinado para a secretária não me deixar entrar em sua sala, a menos que fosse chamada.
– Claro que ela está. – Conclui antes que ela pudesse responder. – Eu preciso falar com ela.
– Dra. Hanna. Eu sinto muito, mas não posso permitir que entre.
– Isso é um absurdo! Eu trabalho aqui, e tem coisas que preciso falar diretamente com ela, e não por meio de recados.
A mais velha suspirou cansada.
– Quer saber? Eu vou entrar!
– Menina, por favor não faça isso.
A ouvi praticamente implorar, mas àquela altura eu já estava a caminho da sala de Marcela. Eu sabia que aquele era o maior risco que eu estava correndo de perder meu emprego, mas eu não podia permitir que as coisas permanecessem como estavam.
Quando abri a porta e o olhar de Marcela encontrou o meu, vi sua expressão oscilar de surpresa para fúria em questão de segundos.
– Mais o que está acontecendo aqui? – Marcela questionou para dona Marta que naquele momento entrou eufórica na sala.
– Dona Marcela, e-eu… Eu juro que tentei impedir.
– Dona Marta não tem culpa. Foi eu que decidi ultrapassar os limites estabelecidos. – Me fiz ser ouvida sustentando o olhar raivoso de Marcela. – Por favor, Dona Marta. Nos deixe a sós.
A pobre mulher que estava pálida parada ao meu lado, intercalou o olhar entre Marcela e eu, visivelmente sem saber o que fazer.
Marcela levantou, porém seguiu me olhando sem esconder o desagrado com a situação. Seu peito subia e descia tão rápido que eu pensei que a qualquer momento ela iria explodir.
– Pode ir, Dona Marta. – Ela finalmente ordenou, porém sem recuar do meu olhar.
Ouvimos o baralho da porta sendo fechada. Agora era somente eu e ela.
– Faz uma semana que tento conversar amigavelmente com você. – Resolvi quebrar o silêncio.
– Se depender de mim, vai continuar tentando. Eu não tenho nada para falar com você.
Nervosa com a situação, ri com certo desdém.
– Você sabe que as coisas não são assim. Cadê aquela profissional que um dia eu conheci?
– Foi para a puta que pariu com a mulher que você matou um dia. – Ela cuspiu as palavras sem qualquer chance para raciocinar antes de dizê-las. – Isso não vai rolar. Saia da minha sala, Hanna.
Aquela foi a primeira vez que a ouvi mencionar meu nome. Não era como se fosse algo bom, é claro, afinal de contas a situação era deplorável. Mas ainda assim era um avanço.
Contudo, não pude deixar de sentir meu coração apertar com a maneira como aquela acusação foi feita. Não era como se eu esperasse flores ao invés de espinhos, mas ainda assim era doloroso.
– Eu não estou aqui apenas como a Hanna que você despreza. Eu estou como advogada dessa empresa, e espero que esse seja o peso ao ser usado para me tratar aqui dentro. Como você pode recusar uma reunião que solicitei para tratar de assuntos do seu interesse?
– Se são assuntos da empresa, resolva com aquela que empregou você. Não foi Renata que te trouxe? Pois bem!
– Ela não me trouxe. Eu estou aqui por méritos meu, e não admito que meu profissionalismo seja colocado em xeque por você.
Marcela gargalhou alto, mas aquilo estava longe de ser uma pessoa que se divertia. Na verdade, ela mal estava conseguindo conter a raiva que minha presença causava.
– Você quer mesmo que eu acredite em méritos? Você sempre foi boa com palavras. Quem me garante que você não a convenceu para ganhar a vaga com facilidade? Não é isso que você sabe fazer de melhor? Manipular as pessoas de uma maneira que as coisas sejam favoráveis a você? NADA DO QUE VOCÊ ME FALAR OU FIZER, VAI ME FAZER ACREDITAR QUE VOCÊ É ALGUÉM MELHOR DO QUE AQUELA PESSOA QUE EU CONHECI. QUEM ME GARANTE QUE VOCÊ NÃO BUSCOU ENTRAR NESSA EMPRESA APENAS PARA ME AFRONTAR?
Estremeci diante daquelas palavras amargas, mas embora a dor pelo o desprezo fosse intensa, era ainda maior a raiva que senti pela a acusação feita envolvendo meu profissionalismo. Eu merecia sim o desprezo de Marcela, mas jamais aceitaria que isso envolvesse meu trabalho, pois só eu sabia o quanto ralei para chegar onde cheguei.
– Você é patética! ACHA MESMO QUE TUDO GIRA EM TORNO DE VOCÊ? SE EU QUISESSE TER QUALQUER ENVOLVIMENTO COM VOCÊ, VOCÊ ACHA QUE TERIA ESPERADO OITO ANOS? EU SUPEREI O PASSADO, MARCELA, O QUE NÃO PARECE SER O SEU CASO. – Gritei de volta sem pensar muito nas consequências.
– O que tá acontecendo aqui? – Micaela questionou ao invadir a sala. – Dá para ouvir a gritaria de vocês duas do outro lado da empresa.
Com a respiração alterada e mantendo o olhar no meu, Marcela mantinha as mãos fechadas como se aquilo pudesse ajudá-la conter a fúria.
– Eu quero manter uma convivência em paz com você, senhorita Bettencourt. Aqui dentro, é claro. Sou uma funcionária como qualquer outra, e sabemos que abuso de autoridade é crime. – Em um tom mais baixo, porém ignorando Micaela, disse diretamente para Marcela.
– Você está me ameaçando? – Ela estreitou os olhos que faiscavam em fúria.
– Não! Eu estou te fazendo recobrar a sanidade e a postura que o cargo que você ocupa exige. Não quero problemas com você, mas não vou admitir que me falte com respeito novamente. Eu mudei muito Marcela, mas não sou uma santa.
– Percebo que mudou. – Ela riu com desdém enquanto seu olhar transbordava em ódio. – Sinta-se à vontade para dizer às pessoas que sou o monstro da sua história. Mas não esqueça de dizer em qual capítulo você me criou. E saiba que nada do que você me falar, eu acredito. Tá para nascer alguém que me faça acreditar que você mudou. – Seu olhar buscou o de Micaela. – Por favor, tire sua irmã da minha sala.
FIM DE SEMANA
Era o segundo sábado desde o retorno de Marcela para o Brasil, mas devido a correria do dia a dia, e tudo o que tinha acontecido, o clima não andava dos melhores. Somente agora as meninas haviam conseguido se organizarem para proporcionar uma recepção para a amiga, até porque até poucos dias, a mesma ainda estava arredia demais com as três e negava qualquer aproximação que ultrapassasse os departamento da empresa. A verdade é que Marcela se sentia traída pelas amigas por elas terem ocultado que a pouco tempo eu havia me tornado uma das colaboradoras da empresa. Eu não a julgava, é claro, afinal de contas, desde o início disse para Renata que aquilo iria ser um motivo de desavenças entre elas.
Naquele sábado ensolarado, as quatro resolveram fazer uma social para comemorar sua volta, e quem sabe ser o primeiro passo para que as coisas fossem concertadas entre elas. Obviamente eu não iria participar do evento. Além de ainda estar magoada com o que tinha acontecido na última vez em que tentei conversar com Marcela, eu não queria estragar o momento delas, tão pouco impor minha presença quando sabia que Marcela simplesmente me odiava. Mas como Micaela sabe ser impossível, não pude negar seu pedido para ir ao mercado com uma lista de compras que seria necessária para o almoço que ela estava organizando em sua casa.
Após ir ao mercado, passei rapidamente na casa da minha irmã para deixar as bebidas e comidas que ela havia me pedido para comprar, já que o Robson, que agora era seu marido, não tinha podido sair para fazer isso por ela.
Ao chegar lá, encontrei todas no jardim de frente para piscina enquanto conversavam animadamente, ou melhor, riam de alguma loucura dita por Daniela. Minha filha que estava prestes a fazer cinco anos de idade, ao descer do carro, logo correu em direção ao tio, que claro, entrou em uma brincadeira infantil de pega-pega com a criança. Robson e meu pai faziam questão de dividir na vida da minha filha, o status e obrigações de pai. Os dois não faltavam uma festinha escolar no dia dos pais, não faltavam uma apresentação escolar da pequena, cuidavam de levá-la ao médico sempre que eu não podia, enfim, eram os dois homens da vida da nossa pequena Gabriela. Não é que eu sozinha não bastava ou não dava conta da sua criação para ela, ou que eu tivesse pedido por essa atitude deles, mas sim porque eles a amavam profundamente e aos poucos faziam questão de ser o exemplo masculino na vida da pequena garotinha de cabelos loiros. Sem contar que Robson era louco para ser pai, mas Micaela ainda estava enfrentando complicações para realizar o sonho que ambos dividiam. Então, Gabriela era a filha que Robson ainda não tinha, e eu era extremamente grata por tê-lo como cunhado.
– Aqui está tudo o que me pediu. Mas tenho que dizer, você é muito folgada. – Disse entregando as sacolas para Micaela. – Juro que da próxima vez vou cobrar pelo favor.
Antes que Micaela pudesse responder algo, Daniela o fez com certo prazer.
– A quem você quer enganar? Eu posso jurar que você fez de bom grado. Logo você que odeia supermercado, resolveu atender ao pedido assim… Conta outra! Só fez porque de certa maneira era para a Marcela.
Renata sempre foi a mais contida de nós, mas nem mesmo ela conseguiu esconder o risinho sínico ao ouvir a alfinetada da amiga nanica.
– Você é tão kids, Daniela. Vou me dar ao luxo de te ignorar, ok? – Tudo o que provoquei foi a gargalhada da baixinha de cabelos curtos escuro. Revirei os olhos e me voltei para Micaela. – Bem, as compras estão entregues. Agora vou embora antes que sua convidada chegue. Eu não quero causar problemas.
– Vocês não conseguiram evoluir nenhum pouco na convivência? Já faz duas semanas que ela voltou. – Daniela me perguntou e eu apenas acenei em negação, o que a fez reagir com uma careta de desgosto. – Caramba! Eu não achei que ia ser difícil segurar o tesão reprimido.
– Tesão? Daniela, aquela mulher me odeia. Ela pode sentir qualquer coisa por mim, mas garanto que tesão não é uma delas.
– Acho que dessa vez eu vou precisar concordar. Vocês precisavam ver o ódio que ela tinha nos olhos quando entrei naquela sala. Eu mal pude reconhecê-la. – Micaela disse sem esconder a tristeza. – Eu lamento muito que as coisas sejam assim, minha irmã.
– Vocês esperavam que ela me tratasse com flores?
– Eu esperava que ela fosse menos irredutível e mais tolerante. – Renata confessou.
– Pelo amor de Deus, vocês não briguem com ela por minha causa. Além de todas nós sabermos que ela tem os motivos dela pra agir assim, eu tenho uma filha para criar. Preciso manter meu emprego. – Disse para as três em um tom sério.
Eu não queria que aquela convivência entre as quatro permanecesse fragilizada por minha culpa. Pelo contrário, eu precisava que elas se resolvessem rápido, quem sabe assim o humor de Marcela não melhorava pelo menos um pouco.
– Sabe meninas, podíamos fazer como vovó costumava fazer comigo e meus primos. Quando brigávamos e ficamos sem nos falar, ela colocava um neto para cheirar os orifícios do outro. Claro, para o bem da minha sanidade mental, eu me rendia e buscava a paz antes de correr o risco de conhecer um c…
– Cala a boca, Daniela. Que nojo!
Renata esbravejou com a amiga antes que ela pudesse terminar de contar mais uma das suas histórias insanas.
eu ri, e assim como Renata, Micaela reagiu ao relato com uma careta de nojo. Sério, eu amava aquela baixinha. Mas eu tinha que concordar, as histórias contadas por Daniela passavam do ponto, e sempre, sempre eram caóticas. Entre as três, Daniela era aquela tia de péssima influência para minha pequena Gabriela, mas para meu desespero, era também uma das que minha filha mais gostava.
– Mas eu a entendo, Dani. Eu fui escrota com ela no passado. Não é como se eu pudesse esperar o melhor da Marcela, quando tudo o que ofereci a ela, foi o meu pior.
– Isso não é verdade. Você ofereceu também sua virgindade. – A baixinha fez aquela expressão encapetada, e claro, eu ruborizei com a lembrança.
Vi uma rolha de vinho atingir a baixinha que logo reclamou.
– Aí! Isso doeu. Pra que essa agressividade toda? Cadê o respeito, oras? – Daniela fez bico ao questionar minha irmã que a olhava feio.
– Você é uma ridícula! Ela ainda é minha irmã, sabia?
– Grande coisa. Não é como se Hanna fosse freira. Ela sempre teve mais fogo no rabo, do que todas nós juntas. – Dani revirou os olhos com impaciência.
O tempo havia passado, mas Micaela continuava sendo muito ciumenta quando o assunto me envolvia.
Minha irmã revirou os olhos, suspirou profundamente e certamente contou até dez para não sucumbir ao desejo de afogar Daniela naquela piscina. Em seguida ela me olhou e disse:
– Tudo o que aconteceu já faz tempo. Vocês precisam pelo menos conversar para conseguir conviver amigavelmente. Bom, pelo menos na empresa. – Ela falava enquanto colocava as bebidas para gelar.
– Gente, não é tão simples assim. Sem falar que ela não sabe nada sobre minha vida desde que ela foi embora. A imagem que ela tem guardada, é daquela Hanna que quebrou seu coração.
Nesse momento tivemos nossa conversa interrompida pelo grito desesperado de Robson.
– GABRIELA, CUIDADO COM O CARRO.
Todas corremos em direção onde minha filha agora estava caída no chão a poucos centímetros do carro que havia parado bruscamente.
Vi Marcela descendo do veículo ainda mais desesperada que todas nós. Ela correu em direção a Gabriela e se ajoelhou diante da minha filha ficando a sua altura enquanto a analisava como se buscasse se certificar que não faltava nenhum pedaço da criança. Por sua vez, Gabriela parecia estar em choque! Ela estava com os olhinhos arregalados enquanto tinha seu olhar preso ao de Marcela.
– Meu Deus! Vocês está bem, pequena? Se machucou? Céus, como eu sou idiota. É claro que você se machucou. – Marcela se desesperou ao notar que o joelho de Gabriela estava arranhando e sangrando. – Robson, eu juro que não a vi passar na frente do carro.
Pude ouvir a voz desesperada Marcela enquanto me aproximava vendo ela fazer um carinho em minha filha, que até então não tinha qualquer reação.
– Tudo bem, Marcela. A culpa é minha que abri o portão para você e não segurei essa menina. Ela deixa qualquer um doido. Você está bem Gabi?
– Uhum! – Ela apenas murmurou para o tio.
Assim como Marcela, me ajoelhei ao lado de Gabriela. Mais calma que a outra, olhei o ferimento que sangrava, assim como também me certifiquei que aquele era o único problema. Os anos de maternidade haviam me ajudado amadurecer o suficiente para saber lidar com problemas como aquele sem entrar em pânico. Se eu alarmasse, Gabriela certamente ficaria ainda mais nervosa.
– Mamãe, me desculpa? Eu não quis machucar de propósito.
Chorosa, Gabi se jogou em meus braços e escondeu o rosto na curva do meu pescoço.
Ao ouvir Gabriela me chamar de mãe, Marcela não escondeu a reação de susto. Ela me olhou e em seguida olhou para as outras que continuavam em pé, como se buscasse resposta. Ela estava claramente confusa.
– Tudo bem, Gabi. Mas você precisa ter atenção, meu amor. Poderia ter acontecido algo muito sério com você, filha. Eu não já ensinei que precisa olhar para os lado antes de atravessar na frente de um carro? – A pequena, ainda chorosa, assentiu concordando. A puxei ainda mais para meus braços. – Você está bem, meu amor? Machucou em outro lugar? – Beijei o rosto da minha filha que agora estava em meus braços.
– Não, mamãe. Tô boazinha! – Afirmou com inocência. – Mas estar ardendo muito.
– Eu vou pegar o kit de emergência. – Robson se prontificou e praticamente correu para dentro de casa.
– Mãe? Você é mãe dessa criança, Hanna?
Marcela atraiu minha atenção para ela, quando pela primeira vez em dias, falou comigo sem qualquer respingo de rispidez em seu tom de voz. Sua expressão era um misto de surpresa com curiosidade.
Eu não imaginava que ela ficaria sabendo disso tão cedo, tão pouco que aquilo fosse descoberto daquela maneira, mas sustentei seu olhar de cabeça erguida. Se existia uma coisa que eu não tinha vergonha, era da minha filha.
– Sim! Gabriela é minha filha. – Afirmei calmamente, porém com o coração acelerado por não saber qual reação esperar de Marcela diante de mais uma novidade.
Curiosa e atenta a conversa, Gabriela questionou:
– Ela também é minha tia, mamãe? Por que eu não a conhecia?
A pergunta inocente parecia ter pego todas nós de surpresa, o que provocou um silêncio constrangedor. Percebendo que nenhuma de nós sabíamos o que responder para a criança que tinha expectativa no olhar, Renata tomou a frente.
– Gabi, que tal você vir com a tia Renata? Vamos tomar um sorvetão de chocolate com bastante cobertura, o que acha?
Esquecendo a pergunta que havia feito, minha filha logo se animou com a ideia é jogou os bracinhos para que Renata a pegasse no colo.
– Renata, por favor. Eu tenho que ir embora, você sabe disso. É melhor vocês deixarem o sorvete para outro dia. – Eu disse sem querer causar mais problemas.
A criança fez cara de choro no colo de Renata, e então veio à surpresa que nenhuma de nós esperávamos.
– Por que você não fica? Ela parece que gostaria de ficar. Você não vai estragar a diversão da criança, vai? – Fiquei paralisada com a calma que existia na voz de Marcela. E ainda mais perplexa por ela estar falando diretamente comigo. – Fica Hanna. Por ela!
Marcela não me olhava quando falou as últimas palavras. Mas deslizava a mão pelo o rosto de Gabriela, que aceitou o carinho de bom agrado.
– Eu posso cuidar do seu ferimento, pequena? É como um pedido de desculpas por ser tão estabanada. – Marcela falou diretamente com Gabriela que sorriu tímida.
– Vai arder? Eu não gosto quando arde.
Marcela sorriu largo e seu olhar brilhou. Aquela era a primeira vez que eu conseguia enxergar um pouco da mulher que um dia conheci.
– Prometo que não vai arder. Vou cuidar bem direitinho, ok?
Para surpreender ainda mais a todas nós, sem pedir qualquer permissão, Marcela tirou Gabriela dos braços de Renata, levando-a para seu colo. Seu olhar analisava os traços do rostinho da minha filha como se buscasse algo… Uma semelhança, talvez. Por sua vez, Gabriela pareceu se sentir a vontade naqueles baraços, e sob o olhar admirado de todas nós, minha filha não se fez de tímida quando deslizou sua pequena mãozinha pelo rosto de Marcela. Marcela sorriu largo ao sentir o contato, e Gabriela correspondeu com a mesma satisfação. Era como se naquele momento silencioso as duas estivessem conhecendo as extremidades uma da outra de uma maneira genuinamente linda e íntima, o que claro, era inexplicável.
Confesso que eu não sabia descrever o que estava sentindo ao assistir aquela cena, mas uma coisa eu tinha certeza, Gabriela estava feliz.
Fim do capítulo
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Lea
Em: 23/05/2026
O que a Hanna passou foi desesperador e de uma violência sem perdão. Eu não à julgaria se,ela fizesse um aborto,na minha opinião ela não estaria cometendo nenhum crime. A decisão de levar a gestação a diante,era unicamente dela e hoje ela tem um amor incondicional que aparentemente é a cópia dela.
Esse primeiro contato da Marcela e Gabriela,apesar de quase ter acontecido uma tragédia,foi um encontro de almas.
NúbiaM
Em: 29/04/2026
A Marcela irá esganar essas amigas! Não saber notícias da vida da Hanna é uma coisa, agora de uma tragédia como esta!!
E não diria que o sentimento seria piedade, mas empatia, no minímo.
Gostando da história.
Bj
priskelly
Em: 04/05/2026
Autora da história
Verdade! É um assunto delicado, e não me parece que ela seja do tipo que iria ignorar se tivesse ficado sabendo.
Obrigada por estar acompanhando. Bjus!
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