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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

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Palavras: 6689
Acessos: 367   |  Postado em: 27/04/2026

Capitulo 3

Por Marcela

O cansaço da viagem, o aconchego do abraços dos meus pais, e o conforto de desfrutar de boa noite de sono, formaram o conjunto perfeito para me fazer despertar me sentindo bem comigo mesma. 

Há muito tempo eu não sabia o que era me sentir em casa. Sabia menos ainda o que era ter uma boa noite de sono. Não que minha vida em Portugal fosse ruim, mas nada se comparava a estar próximo daqueles que amamos. Amigas, família… Agora eu literalmente estava em casa, e me sentia bem ter tomado essa decisão.

Eu só não contava que me atrasaria justamente no meu primeiro dia na empresa. Eu havia combinado com Renata que chegaríamos na empresa antes do horário da reunião que teríamos com os funcionários. Isso porque precisamos alinhar alguns detalhes entre nós duas, é claro. Agora eu estava correndo contra o tempo para conseguir cumprir com o combinado.

Para não perder tempo, peguei a primeira roupa que vi pela frente e comecei a me vestir rapidamente. A blusa branca de alça fina combinava com cardigã preto e calça preta tipo alfaiataria que escolhi para a ocasião. Eu não costumava ser tão vaidosa, por isso apenas alguns acessórios básicos já eram suficientes. Mas com o cabelo sempre tive um cuidado a mais, e naquele dia optei por deixá-lo solto. Fiz uma maquiagem leve, apenas para que meus olhos estivessem destacados. Em momentos casuais, sempre optei pelo o simples, mas quando era em momentos de trabalho me preocupava em fazer as escolhas certas, afinal a boa aparência causa impacto no mundo dos negócios tanto quanto nossas escolhas comerciais. 

Depois de me olhar no espelho para me certificar que havia feito a escolha certa para aquela ocasião, aprovei o que vi a minha frente e desci às escadas em passos largos. No entanto, claro que eu não ousaria sair de casa sem antes passar pela mesa posta com um café da manhã reforçado, caso contrário, mamãe me mataria. 

Depois de comer uma fruta e tomar um suco da laranja, olhei o relógio e me espantei quando me dei conta que já se passavam das oito e vinte. Droga! Eu já estava muito atrasada. Pedi para meu pai fazer o favor de me levar até a empresa, pois àquela altura esperar um táxi já não seria uma opção.

Ao chegar à empresa percebi que por onde eu passava atraia olhares. Alguns curiosos, outros apreensivos como se minha presença ali os deixasse nervosos ou algo do tipo. Eu não queria parecer séria demais perante nossos colaboradores, mas também não era como se eu fosse aquele tipo de pessoa que costumava esbanjar simpatia gratuita.

Educadamente, desejei bom dia a todos que fui encontrando pela frente, esperando que eles estivessem certos que embora eu não fosse tão simpática como Renata costumava ser, eu também não seria uma megera que causava terror pelos corredores. Eu sabia que apesar das poucas vezes que estive presente naquele ambiente nos últimos anos, de alguma maneira conquistei a fama de “durona”. Não que eu fosse uma superior ruim, ou que tratasse mal meus funcionários. Longe disso, na verdade. Sempre me dei bem com toda equipe de trabalho independe do cargo e hierarquia. Contudo, talvez esse meu jeito tivesse algo haver com traumas do meu passado. Quero dizer, naturalmente me tornei alguém mais fechada para as convivências, principalmente com aqueles que eu não conhecia bem. Era algo automático da minha personalidade, como se o que aconteceu entre Hanna e eu tivesse feito   nascer uma Marcela. Uma mulher que não confiava totalmente em ninguém. 

Sem querer pensar muito nisso, peguei o elevador e segui direto para o andar onde ficava a sala de Renata, que por sinal ficava ao lado da que eu costumava ocupar quando era necessário vir ao Brasil. 

Cheguei à recepção e logo vi dona Marta ocupando sua mesa. A mulher que praticamente me viu crescer estava de cabeça baixa com a atenção voltada para alguns papeis a sua frente. Fui em sua direção e pela primeira vez desde que cheguei naquele lugar, me permiti sorrir verdadeiramente.

– Ora, se não é o amor da minha vida. – Eu disse e rapidamente ganhei sua atenção.

– Minha menina! Quanto tempo.

Com pressa, a mais velha levantou e correu para me dar um abraço apertado, que claro, foi rapidamente correspondido com a mesma urgência e saudade.

– Que alegria ver a senhora sempre aqui.

– Seria ainda melhor se você também estivesse aqui todos os dias. Esse lugar não é o mesmo sem você. – Ela respondeu chorosa.

Eu realmente estava me sentindo feliz em ver aquela senhora por quem eu nutria tanto carinho. Durante muitos anos, dona Marta tinha trabalhado como secretária pessoal do meu pai. Ao longo do tempo, a relação profissional evoluiu e logo ela e minha família estreitou laços. Era muito comum vê-la juntamente com sua família frequentar a casa dos meus pais em momentos informais ou de confraternizações. Cresci tendo contato com ela, e confesso que adorava os mimos que ela me fazia. Em meu coração foi criado admiração, respeito e carinho por dona Marta, e principalmente muita confiança. Por isso, quando resolvemos abrir a empresa, meu pai resolveu nos ceder dona Marta como nossa primeira funcionária. Papai sabia que naquele primeiro momento iríamos precisar de muita ajuda, e não tinha ninguém melhor que ela para cumprir esse papel, afinal ela não tinha apenas nossa confiança, mas também tinha competência e a experiência que por sinal faltava em mim e na minha sócia.

– Martinha, eu imagino quão difícil é viver sem minha presença. Esqueceu que sou adorável? – Brinquei e a olhei provocativa. – Mas não se preocupe, delícia. Estou de volta, e dessa vez para ficar.

Recebi uma tapa no braço, mas o sorriso estampado em seu rosto denunciava que ela estava satisfeita com a notícia.

– Você realmente não muda, Marcela. Sempre foi convencida igual ao seu pai. 

– Eu não acredito que a senhora já está me trocando assim tão facilmente, dona Marta. Desse jeito vou ficar com ciúmes. 

Olhei para trás e me deparei com Renata se aproximando de onde estávamos. Em seu rosto estava desenhado um sorriso largo nos lábios, e logo abriu os braços para mim.

– Minha amiga! – A abracei com carinho.

Eu não sabia o quanto precisava estar de volta, até que finalmente estava presa ali naquele abraço. 

– Agora sim essa empresa vai ficar realmente completa. – Ouvi dona Marta sussurrar com emoção.

– Ou então vai virar um caos de vez. 

Daniela surge atrás de Renata, já opinando na conversa. Claro que ela não se fez de rogada quando logo me puxou para seus braços, envolvendo meu corpo em um abraço saudoso, apertado, porém um tanto quanto tenso.

– Marcelinha, minha lenda das noitadas, senti tanto sua falta. Renata e Micaela são caretas demais. Elas não sabem aproveitar a vida, sabia disso?

Vejo Renata revirar os olhos para o drama da amiga.

– Não somos careta! Nós só não costumamos ser irresponsáveis como você. – Defendeu-se Renata, e Dani deu de ombros.

– Viu? É disso que estou falando. Você é chata, mas pelo menos é divertida. Esse lugar às vezes fica meio tedioso com Renata no comando.

Ela sussurrou apenas para que eu a ouvisse suas últimas palavras, o que me fez rir.

– Daniela, Daniela... Você não muda nunca? – Continuei a rir, sabendo que de fato Daniela seria sempre daquele jeito sem jeito. – Fica tranquila, tá legal? Agora estou aqui para te livrar das garras dessa chata. – Provoquei Renata, que revirou os olhos com impaciência. 

Eu tinha que confessar que eu realmente sentia falta das minhas amigas, e agora, estando juntas novamente, eu estava feliz como a algum tempo não me sentia. 

– Pelo o amor de Deus, vocês duas tratem de se comportarem aqui nessa empresa. Tudo o que os funcionários não precisam, é ver o mau exemplo de vocês. – Renata praticamente suplicou.

– Eu realmente não sei como o Guilherme vai suportar essa mulher. Casamento já é uma prisão, agora imagine casar com uma mulher mandona como Renata. Ele realmente vai pagar todos os pecados.

Daniela falou se referindo ao noivo da nossa amiga, e claro, provocou gargalhadas de todas nós, até mesmo de Renata que acabou se rendendo as loucuras da amiga. 

– Vem, Marcela. Vamos para minha sala. Nós precisamos conversar antes que a reunião comece.

– Vixi! Eu vou logo subindo para sala de reunião e espero vocês lá. 

Vi Daniela se apressar para sair, e estranhei o clima tenso que se formou ali. 

– Eu posso saber o que é tão sério nessa conversa? Sim, porque para Daniela não fazer questão de participar, é algo realmente preocupante. Fofoqueira do jeito que é, ela normalmente daria pelo menos um braço para estar presente.

Estreitei os olhos enquanto observei as duas que se entreolharem com certa apreensão.

– Ei, eu não sou fofoqueira. Será que ninguém me respeita nesse lugar? – Dani fez drama tentando descontrair o clima. 

– Desculpem, mas vou precisar interromper os planos, dona Renata. – Renata encarou a secretaria que prosseguiu. – Nenhuma das três vai poder conversar nada agora. – Ela olhou o relógio de pulso. – Aliás, vocês já estão atrasadas para subir para sala de reunião. Todos os colaboradores já estão à espera de vocês.

– Mas a reunião é somente daqui a quarenta minutos. – Renata argumentou.

– Foi preciso adiantar o horário da reunião. Eu até tentei informar a vocês ontem, mas todas já tinham ido embora.

– Adiantar? – Questionou Renata com o olhar em pânico.

– A senhorita vai precisar comparecer na reunião da obra daquele conjunto habitacional às 10hrs. Parece que houve problema com o licenciamento da obra e solicitaram a presença da senhorita e também da senhorita Prado. Por isso precisamos adiantar a reunião. Acho bom subirem logo, pois estão atrasadas. 

Eu ouvia o diálogo entre elas em silêncio, mas observei o novo olhar de apreensão trocado entre Renata e Daniela. Aquilo estava me incomodando, pois era como se as duas conversassem entre si algo que eu não pudesse saber. Até quis questionar o que estava acontecendo, e também do porquê seria necessário a presença de Micaela em um problema que aparentemente diz respeitava ao setor jurídico, já que licenciamento era algo resolvido por tal setor, e não pelo financeiro. Aquilo estava ficando estranho! E desde quando Dona Marta se referia à Micaela como senhorita e não senhora? Micaela já era casada com Robson a alguns anos, e por mais que odiássemos formalidades entre nós, dona Marta fazia questão de dentro das repartições da empresa manter a ordem. Fiquei completamente perdita entre as três, mas não tive tempo para entender nada.

Ao lado das outras duas, segui em silêncio para a sala de reunião. Renata parecia pensativa, por sua vez, Daniela estava visivelmente com aquela expressão apavorada que geralmente usava quando aprontava algo. 

Ao parar diante da enorme porta de madeira, Renata olhou novamente para Daniela, que parou segurando a maçaneta como se esperasse por uma autorização para abri-la somente se fosse seguro. Então Renata me olhou, respirou, e disse:

– Ok, Marcela. Estaremos na frente de boa parte dos nossos funcionários. Seja profissional e contenha suas emoções, por favor. Depois da reunião, eu prometo que conversamos e darei toda explicação que você me pedir. Eu confio em você! 

Ergui uma sobrancelha querendo entender à suplica feita por minha sócia. 

– Que loucura é essa, Renata? Por que eu precisaria me conter? Aliás, eu posso saber desde quando não sou profissional? 

Renata nada me respondeu. Ela apenas olhou para Daniela e acenou finalmente dando aquela autorização que ela esperava.

Daniela foi a primeira a entrar na sala, e simpática como costumava a ser, ela desejou bom dia a todos os presentes e em seguida sentou na cadeira vazia ao lado de Micaela. Logo depois Renata também desejou bom dia e seguiu em direção à cadeira que ficava na cabeceira da mesa. Inquieta, porém sem muita escolha, segui o exemplo das outras duas e também cumprimentei os presentes.

Por alguma razão desconhecida senti meu corpo queimar quando a atenção de todos logo voltaram-se para mim. Era como se estar sendo observada naquele momento estivesse me sufocando mais do que o normal, mas não estranhei a sensação, considerando na verdade nunca gostei de ser o centro das atenções. Normalmente me incomodava que de alguma maneira diversos olhares estivessem sob mim.

Incomodada, não sustentei o olhar de ninguém ali, apenas me apressei a ocupar a cadeira vazia ao lado direito de Renata, sem realmente observar nada ao redor. Ao sentar, pude ver que Micaela adotava uma expressão séria, e seu corpo denunciava o quanto ela estava tensa. Ela, que estava sentada a minha frente, parecia apreensiva demais, o que não era natural da Prado mais velha. Embora de fato fosse a mais séria de todas nós, normalmente Micaela estava longe de ter uma postura rígida. 

Todo aquele comportamento das minhas amigas estava me deixando tão tensa quanto elas, pois a sensação que eu tinha era que algo muito sério estava prestes a acontecer a qualquer momento, e eu era a única a não saber do que se tratava. 

Logo tive a atenção atraída pela voz decidida de Renata.

– Nos desculpem pela demora, pessoal. Houve uma falha de comunicação, e com isso só soubemos apenas agora a pouco sobre a mudança de horário dessa Reunião.

Percebi que Micaela cochichou algo no ouvido de Dani, que de cabeça baixa apenas acenou em negação. Ainda mais apreensiva do que já estava, Micaela se remexeu na cadeira adotando agora uma expressão preocupada. Foi nesse momento tive certeza que realmente alguma coisa muito errada estava acontecendo ali, e estava começando a não gostar disso. 

Sem alternativa, continuei a prestar atenção em Renata, que dava continuidade a seu raciocínio.

– Como vocês já foram informados anteriormente, hoje estamos aqui para dar boas vinda a minha sócia, Marcela Bettencourt. Muitos de vocês já a conhecem, é claro, e sabem que logo após fundarmos essa empresa, ela foi para fora do país com a responsabilidade de adquirir o conhecimento necessário para nos tornarmos um diferencial no mercado. Os anos que Marcela esteve fora do Brasil, foram de grande importância para estarmos hoje onde estamos. Sua especialização já nos rendeu muito, e continuará nos trazendo grandes oportunidades, tenho certeza. Contudo, não é apenas em nossas atividades que teremos mudanças e alcançaremos objetivos. Seu retorno para o Brasil nos trouxe também a oportunidade de mudanças em nossa diretoria. Posteriormente todos serão anunciados sobre algumas mudanças, mas por hora é importante que saibam que a MR serviços e consultorias ambientais, terá  Marcela assumindo a presidência. 

Alguns burburinhos iniciou. Algumas pessoas aplaudiram, outros comentavam entre si alguma coisa que eu jamais saberia do que se travava.

– Isso significa que a senhorita se ausentará da empresa? 

Olhei em direção de onde surgiu a pergunta, e me deparei com uma loira  olhos azuis que aguardava a resposta com atenção em Renata. Percebi que  eu não a conhecia, o que me fez deduzir que ela seria uma das recentes contratadas por Renata. Jovem e aparentemente inteligente, não dava para negar que ela era também uma mulher bonita. Eu estava pensando nisso quando involuntariamente um sorriso se formou no meu rosto e no mesmo instante senti alguém chutar minha canela por baixo da mesa, então olhei para frente encontrando Micaela me repreendendo com os olhos. Ela certamente sabia o que tinha se passado por minha cabeça pervertida.

– De maneira alguma, Dra. Lorena. Durante todo o tempo que Marcela esteve fora do Brasil, ocupei o cargo da presidência, mas agora com o seu retorno, voltaremos ao que éramos no início. No entanto, o fato de não estar mais a frente da presidência não significa que vou tirar férias. Bom, pelo menos não agora. Vou ocupar meu antigo cargo de vice-presidente e continuar dando todo suporte que Marcela precisar. Alguém tem mais alguma pergunta? 

Todos acenaram em negação, e logo recebi os olhares vieram em minha direção como se esperassem então pelo meu pronunciamento. Aquele era um dos motivos que me faziam odiar reuniões. Eu me sentia exposta demais. Entretanto, especialmente naquele momento, algo estava me deixando mais inquieta que o costume. Desde que entrei ali, eu tinha a sensação que de algum ponto que ainda não tinha conseguido identificar, eu era observada de uma maneira diferente, intensa, possessiva.

– Bem, como nenhum de vocês possui qualquer dúvida, gostaria que você desse andamento a reunião a partir desse momento, Marcela. – Renata falou e em silêncio apenas concordei com um aceno. 

Vi ela levantar da cadeira pedindo para que eu a ocupasse. Eu realmente não achava aquilo necessário, já que status e formalidades costumavam ser algo banais para mim, mas levantei disposta a atender seu pedido. Ao passar por mim, Renata sussurrou de uma maneira que somente eu pudesse ouvi-la:

– Eu confio em você!

Fitei seu olhar e o desespero que encontrei naqueles castanhos tão intensos, me fez estremecer temendo o que poderia estava por trás daquele pedido. 

Sem escolha, precisando prosseguir com aquela reunião, tentei me concentrar no discurso que precisava fazer naquele momento, e afastar o tumulto em minha mente provocado por pensamentos e cogitações que eu começava me fazer.

 Estando agora de frente para todos, comecei a passear rapidamente os olhos pelo o ambiente em busca de me familiarizar com aqueles rostos ansiosos. Pude perceber que eu já conhecia a grande maioria que estava presente ali, porém assim como o da mulher que havia questionado a possível ausência de Renata, tinha mais alguns rostos que ainda eram desconhecidos para mim.

– Bom dia a todos. – Ouvi um sonoro “bom dia” ser respondido ao mesmo tempo. – Em primeiro lugar, gostaria de me desculpar pelo o atraso de hoje. Como já foi explicado por Renata, somente agora a pouco que nós fomos informadas da troca de horário desta reunião. Mas julgo que seja importante que todos vocês saibam que atraso não é algo que me agrada nenhum pouco. Imprevistos acontecem, é claro, mas geralmente prezo pela pontualidade. Sou alguém que costumo ter zelo por meus compromissos, e gosto da reciprocidade. Ou seja, não os deixo esperando jamais, e não suporto que façam do contrário comigo. Portanto, se tivermos um compromisso, por favor, não atrasem.

Embora meu tom de voz estivesse calmo, fui direta e objetiva, pois julgava que ser transparente com meus colaboradores era de extrema importância para construir laços de convivência e manter as coisas em ordem.

Continuei dar andamento ao meu pronunciamento e, a cada minuto que se passava, pude observar Micaela ficar cada vez mais inquieta. Do tanto que ela se remexia naquela cadeira, eu senti vontade de perguntar se ela estava sentada em um formigueiro. Me esforcei para ignora-la e me concentrei no que tinha programado a dizer.

– Para os que não me conhecem, gostaria que soubessem que juntamente com Renata, fundei essa empresa a alguns anos. Esse era um sonho que tínhamos incomum e que cultivávamos desde a faculdade. Graças a Deus, com muito esforço fizemos acontecer. No entanto, por motivos pessoais me mantive longe por longos anos, mas saibam que apesar da distância, sempre auxiliei no desenvolvimento da empresa, assim como também sempre estive presente nas decisões que eram necessárias serem tomadas. Durante esses anos em que estive fora, nunca tive dúvidas que essa empresa estava sob o comando de alguém muito competente. Não é fácil construir um império do zero e chagar onde chegamos, e se isso foi possível, foi porque aqui temos os melhores colaboradores nos diversos setores de atividades que ofertamos. Não é somente a presidência que importa. Cada um de vocês são importantes em nossa história. 

Enquanto os presentes que ouviam tudo com atenção, iniciaram algumas palmas, aproveitei para beber um pouco de água, mas logo voltei a falar:

– Tenho muito orgulho de dizer que sempre contamos com a melhor administração, comanda a alguns anos pela senhora Micaela Prado. Sem dúvidas, isso nos ajudou a trilhar os caminhos certos com os pés no chão. Hoje somos referência em diversos setores, entre eles, tenho orgulho de dizer que os dados anuais nos mostram que temos a maior competência na área jurídica do serviço de licenciamento ambiental dessa cidade, o que basicamente nos trouxe o reconhecimento que temos hoje no mercado. – Todos ouviam com atenção o que eu falava, me dando a confiança necessária para prosseguir. – Agora estou definitivamente de volta para ajudá-los a fazer o que sabemos fazer de melhor. No entanto, embora eu esteja a partir de hoje disponível para auxiliar a todos vocês, devo adiantar que será justamente no departamento jurídico onde estarei mais presente, considerando que minha especialização em termos de licença poderá contribuir significativamente para o desenvolvimento do departamento. Assim, vou pedir para cada um de vocês se apresentarem, contudo, como sei que o jurídico foi um dos setores que recentemente passou por mudanças, gostaria de começar justamente por esse departamento. – Olhei em volta tentando reconhecer quem iria se pronunciar. – Por favor, qual de vocês é o novo ou a nova responsável pelo o setor?

Com uma sincronia absurda, minhas amigas se entre olharam, Renata se levantou e se colocou ao meu lado. Aquilo me pareceu estranho, mas nem perdi meu tempo tentando compreender o que acontecia com aquelas três malucas. Daniela estava tão branca que eu pensei que ela iria parar no hospital a qualquer momento. 

Voltei prestar atenção aos funcionários, e foi então que quando olhei para a última cadeira da mesa, onde agora alguém se remexeu, meu mundo parou por alguns instantes. Ela que até então estava recuada o suficiente a ponto da ocupante se tornar ocultada pelo corpo de um rapaz musculoso sentado ao seu lado, agora me revelava quem jamais desejei encontrar, ainda mais ali, de onde eu não poderia fugir. 

Eu congelei! Meu corpo parecia ter sido atingindo por algo do qual eu seria eternamente incapaz de descrever. Desacreditei naquilo que meus olhos viam. Minhas pernas ficaram pesadas, mas não tanto quanto meu coração. Embora parecesse estar tão apreensiva e nervosa quanto as demais, ela era diferente… ela sempre foi diferente. Mais ousada, mais decidida, mais determinada. 

Vi quando ela levantou e elegantemente ousou sustentar meu olhar. Por um momento eu quis crer que era uma mentira, uma ilusão pregada por minha mente. Mas aquele sem dúvidas era um rosto familiar, o mesmo rosto que contra minha vontade, jamais foi abandonado por minha memória traidora. 

Ela estava exatamente igual ao que eu recordava, mas ao mesmo tempo totalmente diferente. Tão bonita quanto antes, é verdade, mas certamente teria adotado linhas de expressões adultas quanto jamais eu havia visto antes. Lá estava ela, com os olhos verdes esmeraldas que sustentavam os meus castanhos enquanto nitidamente seu peito subia e descia em um ritmo acelerado. Cabelos mais longos que no passado, levemente ondulados e em uma tonalidade de um loiro que não era o mesmo do passado. Sim, ela havia clareado ainda mais os cabelos. Foi nesse momento que me dei conta que eu não queria perceber tudo aquilo em fração de segundos e tentei reprimir toda e qualquer observação, mas foi como um poder magnético forte o suficiente para ser contido.

Aqueles olhos verdes intensos que um dia eu tanto gostei de admirar, agora estavam novamente aprisionados nos meus, e aquilo me trazia um misto de incômodo com dor, desprezo e desespero. 

Ela usava um terno social que a deixava semelhante a figura de uma mulher madura e imponderada, o que combinava perfeitamente com a expressão séria adotada naquele instante. A vi ajeitar a própria roupa quando com uma confiança vacilante, ela fez aquilo que por oito anos me recusei de todas as maneiras permitir. Me forçou ouvir sua voz quando respondeu:

– Sou eu! Eu sou a nova responsável pelo setor jurídico da empresa. – Ela finalmente se fez ouvida. 

Nosso olhar permaneceu aprisionado um no outro, o que me levou de volta a um passado não tão distante. 

 

Flashback on

Minha amizade com Micaela tinha aflorado desde a primeira vez que nos conhecemos através de Daniela, mas aquela era a primeira vez que eu estava na casa da família Prado.

Enquanto Micaela me apresentava aos seus pais, um barulho vindo da escada atraiu nossa atenção. 

– E essa é a Hanna, minha irmã mais nova. – Micaela foi em socorro da irmã que acabava de tropeçar nos próprios pés. – Por que você é tão estabanada, pirralha? Isso não é jeito de receber visitas. 

Estava nítido que a implicância da mais velha parecia ser algo natural entre as duas.

Ignorando a mais velha, a loira recém chegada no ambiente apenas deu de ombros com elegância enquanto não disfarçava a curiosidade em me olhar. Ela não parecia ser exatamente o tipo de pessoa que se fazia de rogada, pelo contrário, era determinada o suficiente para erguer o nariz enquanto mantinha um brilho sedutor no olhar. 

Eu não sabia explicar, mas ser observada pela intensidade daquelas esferas verdes me provocava algo… algo que jamais senti antes. 

Eu ainda não sabia, mas aquela foi a primeira vez que me perdi no tempo. Primeira vez que me perdi naquele olhar. Para ser honesta não sei por quanto tempo permanecemos presa no olhar uma da outra, até que finalmente quebrei o silêncio de uma maneira estupidamente colegial. Sem saber muito o que dizer, e ainda me sentindo impactada, optei apenas pelo o básico. 

– Oi. – Eu disse para ela quase em um surro.

De repente meu coração se viu ansioso, nervoso, palpitando forte e cultivando uma esperança ainda incompreendida. 

Ela sorriu largo, demonstrando ser dona de uma simpatia perigosa que me fez encolher, mas também estremecer. E eu me perguntava desde quando havia me tornado uma pessoa tímida. 

– Oi. – Respondeu Hanna em um tom de voz aveludado. – Eu não sabia que teríamos visita. Desculpe pelo o jeito sem jeito. 

A moça estendeu a mão buscando por um cumprimento, e me surpreendeu quando ao tocar em minha mão me puxou para junto do seu corpo dando início a um abraço amigável, deixando claro que embora não tivéssemos qualquer afinidade, ela era diferente o suficiente da irmã mais velha que sempre podava suas atitudes.  

Aquela também foi a primeira vez que me perdi em seu cheiro levemente adocicado.

Flashback off

Nós duas sabíamos que ela precisava ser formal, então, como se estivesse tomando a frente de uma guerra, ela voltou a quebrar o silêncio ensurdecedor.

– Meu nome é Hanna Prado. Sou formada em direito pela universidade federal, e possuo especialidade na legislação trabalhista.

Enquanto Hanna dava início a sua apresentação, que diga-se de passagem, nós duas sabíamos que era desnecessária já que eu sabia exatamente quem ela era, eu seguia sendo teletransportada para memórias que um dia fiz questão de aprisionar em algum lugar do meu coração.

Flashback on

– Socorrooooooo!

Meu coração bateu descompensado quando finalmente ouvi a voz de Hanna. Seu tom era quase falhado, mas estava visível que ela estava apavorada. 

– HANNAAAAAA… EU ESTOU CHEGANDO! GRITA DE NOVO PARA QUE EU POSSA SEGUIR SUA VOZ. Aguenta firma, eu vou encontrar você. – Sussurrei as últimas palavras como uma promessa que fazia a mim mesma. 

E assim ela fez! Ela seguiu gritando por socorro até que finalmente eu a encontrasse. 

Eu nunca havia experimentado a sensação de medo absoluto. Mas quando percebemos que Hanna havia se perdido na trilha, meu coração dilacerou em uma dor que nunca pensei ser capaz de existir. 

– Meu Deus! Você está aqui. – Disse quando a vi caída. 

Me ajoelhei ao seu lado, e com urgência a tomei em meus braços. Era um abraço apertado, de alívio, de felicidade por encontrá-la… Era um abraço carregado por sentimentos que vinham sendo silenciados a algum tempo. Sentimentos que normalmente só eram expressados por um olhar que transbordava em palavras não ditas.

Flashback off

 

– Assim como todos aqui presentes, eu tenho satisfação em poder contribuir com o crescimento desta empresa, e coloco-me a disposição para esclarecer qualquer dúvida. 

Hanna finalizou sua apresentação sem vacilar em seu tom de voz forçadamente calmo, e ainda com o olhar preso no meu. Sinceramente, não sei como ela foi capaz de conseguir, considerando que nós duas estávamos visivelmente atordoadas. Mas era da Hanna que estávamos falando. Como podia ser diferente? Ela sempre conseguia manipular as próprias emoções. De qualquer maneira, ela continuava tão ousada quanto costumava ser no passado. Mas ela sabia que aquilo colocava nós duas em um campo minado.

Contudo, para mim existia uma questão ainda mais delicada no centro daquela situação. A confiança que eu tinha em Renata! Aquilo não podia ser verdade. Hanna era a nova responsável pelo departamento jurídico da minha empresa? Como é possível acontecer isso e eu não saber? 

Ainda mantendo o olhar aprisionado aos dela, eu tinha plena consciência do clima tenso que se estabeleceu naquela sala, e sabia que nós duas estávamos atraindo olhares curiosos. Mas o que eu podia fazer pare evitar? Então, quase sem conseguir respirar, imediatamente busquei explicações no olhar de Renata, o que obviamente foi uma tentativa frustrada da pela a súplica muda que transbordava dos castanhos da minha sócia. Só então pude compreender toda aquela tensão existente entre as três mulheres que eu tinha como amigas, mas que obviamente tinham me apunhalado pelas costas. Sinceramente, eu não sabia dizer de quem mais eu sentia raiva naquele momento. Se era delas, ou de Hanna por estar ali materializada em minha frente com a ousadia de quem certamente acreditava não me dever nada.

Era natural que todos esperassem por uma reação minha, mas eu continuava paralisada mantendo o olhar fixo em Renata, mal podendo acreditar que aquilo era mesmo verdade. Ela continuava mantendo suas súplicas em silêncio, e nós duas sabíamos que não tinha o que ser feito, não tinha o que ser dito, pelo menos não ali diante de todos que nos assistia intrigados. 

Por fim, tentando encontrar forças e olhar novamente para a frente e voltar a me deparar com a presença da mulher que um dia partiu meu coração, finalmente me recompus, respirei profundamente e a olhei novamente tentando acreditar que não era mesmo um pesadelo aquilo tudo. Percebi que embora toda sua ousadia, ela estava tão nervosa quanto eu, mas ainda assim continuava me fitando com aquela petulância que eu tanto conhecia. Resolvi ser profissional, afinal, era o que me restava.

– Obrigada pela apresentação, senhorita. Pode voltar a sentar. – Tentei não soar rude, e tenho certeza que minha voz saiu quase que em um sussurro forçado. Rapidamente voltei minha atenção para os outros. – Os demais podem fazer o mesmo, por favor?

Enquanto todos começavam suas apresentações e dizerem em que setor estavam trabalhando, eu me esforçava para demonstrar interesse em ouvi-los, mas a verdade é que eu já não era mais a mesma de quando entrei ali. O choque que a presença de Hanna havia me provocado, era algo que eu não estava esperando ter que lidar naquele momento, e que faziam surgir vários questionamentos internos. Como eu poderia conviver com aquela mulher em meu dia a dia de trabalho? Aquilo definitivamente não ia dar certo. 

Após alguns minutos, todos haviam se apresentado, então eu disse:

– Gostaria de desejar boas vindas a todos vocês que chegaram a pouco tempo, e dizer que espero que possamos todos nos dar muito bem durante minha gestão. – Disse sem muita certeza que aquilo seria possível. Pelo menos não com Hanna. – Gostaria de informá-los que agora com meu retorno estaremos expandindo nossa área de atuação. Quando iniciamos essa empresa contávamos apenas com consultoria ambiental, realizando estudos de impactos ambientais e planejamentos ambientais. Com o passar do tempo começamos atuar nas áreas de licenciamento ambiental e também passamos oferecer cursos de educação ambiental externo e interno para demais instituições. Hoje, além dos serviços já citados, contamos também com alguns novos cursos, principalmente na área de segurança do trabalho. Atuamos ainda com geoprocessamento e engenharia. No entanto, a partir de agora estaremos expandindo para oferecer serviços ambientais no geral, como por exemplo, recolhimento e tratamento de resíduos sólidos hospitalares, bem como demais resíduos. 

Eu estava nervosa, não sabia como estava conseguindo seguir adiante com toda aquela explanação. Sentia que minhas pernas iriam falhar a qualquer momento, mas me esforcei para não transparecer aquilo, embora sentisse pesar sob meu corpo, um olhar inquietante.

– Gostaria de solicitar da vice-presidente que faça prosseguir essa reunião continuando abordando a pauta e explicando como funcionará cada nova área que essa empresa atuará, já que eu ainda não estou tão familiarizada com os últimos acontecimentos como acredito que já deveria estar. 

Meu tom de acusação simplesmente saiu sem que eu pudesse fazer nada a respeito Acho que eu mesma já havia ultrapassado todos os meus limites para manter a calma. Para ser bem sincera, tudo o que eu mais queria era sair daquela sala.

Vi Renata respirar profundamente, certamente entendendo o significado das minhas últimas palavras. 

Voltei a me sentar enquanto ela começava a falar sobre os novos serviços que iríamos prestar pela empresa. Mas a verdade é que eu estava me sentindo sufocada demais para dar atenção a suas palavras.

Da minha cadeira, eu podia ver Hanna, que estava do outro lado da mesa. Agora parecia impossível não notá-la. Ela parecia estar tão desconfortável quanto eu estava com aquela situação, mas assim como eu, ela também procurava manter a postura profissional, embora não parecesse fazer questão nenhuma de desviar o olhar do meu, e assim ficamos nos fitando por longos minutos, como se pudéssemos conversar tudo que silenciamos durante todos esses anos. Eu estava sendo levada para aquele dia a oito anos atrás. Minha cabeça começou fervilha, meu coração foi preenchido por varias emoções e a raiva que há tanto tempo estava adormecida, não demorou tomar conta do meu peito, mas se tinha uma coisa que Hanna havia me ensinado, tinha sido ser fria e dissimulada, então todo o resto da reunião eu passei a agir friamente e quase que de maneira mecânica, e por mais que eu desejasse profundamente abandonar àquela sala, eu continuei ali esperando o fim daquela reunião que tinha me levado do céu ao inferno em questão de segundos.

 

ALGUM TEMPO DEPOIS

 

Sai daquela sala sem falar com ninguém. Corri em direção à sala de Renata percebendo que ela me seguia em passos tão apressados quanto os meus. Entrei na sala batendo a porta e então me permiti extravasar todos aqueles sentimentos aprisionados nas últimas horas.  

– POR QUE NÃO ME CONTOU? POR QUE ME DEIXOU SER PEGA DE SUPRESA ASSIM, RENATA? VOCÊ TEM NOÇÃO QUE EU QUASE INFARTEI NAQUELA SALA? EU SOU UMA PALHAÇA PRA VOCÊ?

– Calma Marcela, por favor. Se continuar gritando dessa maneira certamente vamos ser ouvidas por todos. 

– CALMA? – Sorri sem qualquer humor. – Como pode me pedir calma sendo que me escondeu algo assim? O que aconteceu é muito grave quando se trata de uma sociedade. VOCÊ ME TRAIU, RENATA.

– Não, não… Pelo amor de Deus, não diga assim. Eu jamais trairia você, Marcela. – Nervosa, ela passou as mãos pelo o rosto. – Eu ia te contar, eu juro.  Mas achei realmente que essa precisava ser uma conversa que deveríamos ter pessoalmente. Foi por isso pedi para você chegar mais cedo, só que eu não contava que precisaríamos entrar lá antes do esperado. – Renata tentou segurar minhas mãos, mas com raiva recuei de qualquer contato. – Marcela, quando aconteceu dela assumir o cargo, eu não te contei porque você determinou que não queria sequer ouvir o nome dela. Você nos proibiu de mencionar qualquer coisa referente a ela. 

– ISSO ERA DIFERENTE, RENATA. VOCÊ ME FEZ VOLTAR PARA O BRASIL SEM SABER O QUE ME ESPERAVA AQUI. TEM NOÇÃO DO QUANTO ERRADO ISSO FOI?

– Se você soubesse da verdade não teria voltado, Marcela. E você sabe o quanto que eu e essa empresa estávamos precisando de você. – Embora eu estivesse enfurecida, Renata mantinha a calma sem elevar o tom de voz. – Marcela, agora não somos mais uma microempresa como no passado. Você precisava assumir seu posto. 

Eu sabia que no fundo ela tinha razão, mas eu não conseguia deixar de me sentir mal com tudo aquilo. 

Sentei e deixei às lágrimas escorrerem.

– Me desculpe por você ter descoberto dessa maneira. Eu juro que não foi o que planejei. Mas me escuta Marcela, eu não fiz as coisas de caso pensado. Por mais que eu quisesse evitar que você fosse forçada a conviver com ela, eu não podia simplesmente não aceitá-la no cargo. Você sabe que todos nossos funcionários passam por um processo seletivo, e que isso não é feito por nenhuma de nós justamente para não parecer favoritismo com alguém. O que eu poderia fazer? Ela passou com a melhor nota do processo. Tinha os requisitos para assumir o cargo. Ela era exatamente o que estávamos procurando.

Renata não estava contando nenhuma mentira. Tinha sido ideia minha admitir nossos funcionários após passarem por um processo de seleção da qual nós duas sequer pudéssemos interferir, pois em minha visão, isso além de ser ético, era também importante para garantir que teríamos os melhores.

– Então ela é mesmo a responsável pelo setor jurídico? Isso significa que eu vou precisar trabalhar diretamente com ela, Renata? 

– Sim, para todos seus questionamentos. Hanna mudou muito, Marcela. Ela hoje se tornou uma mulher muito responsável e posso te garantir que o setor não está em mãos melhores.

– Foda-se o setor. Esse não é o problema aqui. – A olhei com mágoa.

– Lá fora o problema pode ser outro, Marcela. Mas aqui dentro nossa preocupação precisa ser a empresa. 

– Se você está preocupada com a empresa, deveria repensar o processo. Pelas minhas contas, não faz tanto tempo assim que ela tenha terminado a faculdade. Que experiência ela pode ter para assumir o setor? – Acusei sem culpa, e por fim determinei sem conter a raiva: – Eu quero ela fora daqui. 

– Isso é impossível. Você sabe muito bem que temos um contrato a seguir. Além disso, não era você que defendia que para termos experiência precisamos que alguém seja o primeiro a confiar em nós? – Renata acenou em negação. – Você não é assim, Marcela. Não costuma confundir as coisas e misturar o pessoal com o profissional. Além disso, embora apesar dela ser jovem, ela conseguiu terminar a faculdade no tempo certo, passou por estágio, fez especialização… Ela amadureceu, se tornou responsável, e tudo isso durante um período que passou por dificuldades das quais você nem imagina.

Fiquei curiosa com a lamentação em seu tom, é verdade, e não podia negar isso para mim, mas pude ocultar para Renata.

– Eu não quero saber nada da vida pessoal dela. Isso não me interessa em nada, Renata. Se eu serei obrigada a tolerar isso, então que fique claro que meu contato com ela será extremamente profissional e, por favor, certifique-se que isso só aconteça quando for extremamente necessário. Aliás, nos últimos dos últimos casos. 

– Já faz oito anos, Marcela. Você deveria deixar essa raiva de lado e tentar uma conversa amigável. Talvez seja isso que esteja faltando para que esse ciclo na sua vida seja superado.

– Eu não vou conversar com ninguém, Renata. Não tenho o que conversar com ela. Aliás, nem tenho mais nada o que conversar com você também. Eu vou para minha sala.

Sai da sala de Renata e percebi que Daniela e Micaela estavam no corredor como se esperassem para falar comigo, mas apenas pedi para conversar com elas depois. Falei para dona Marta não deixar ninguém entrar na minha sala e segui em direção a mesma trancando-a e logo em seguida me escorando na porta como uma criança assustada.

Não era possível que depois de tanto tempo eu estivesse ali diante do meu passado. Pior, não era possível que eu estivesse totalmente afetada pela presença de Hanna. Aquilo não era justo. 

Fim do capítulo

Notas finais:

Instagram: priskellyautora 


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Comentários para 3 - Capitulo 3:
Lea
Lea

Em: 09/05/2026

O passado se fazendo presente,onde menos a gente espera!


priskelly

priskelly Em: 12/05/2026 Autora da história
É tão bom reviver o passado no presente ao lado de vcs.

Bjus!


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