Capitulo 2
Por Narrador
Enquanto Marcela estava nos preparativos da sua voltar ao Brasil, na sala da presidência da MR serviços e consultorias ambientais, Renata tentava pela milésima vez acalmar Hanna. A Prado mais nova não conseguia controlar o nervosismo diante da notícia que acabava de receber.
Hanna já não era mais a garota que um dia Marcela deixou para trás. De alguma forma, o que aconteceu no passado serviu para ajudar em seu processo de amadurecimento. Além de muito linda, ela havia se tornado também uma mulher bastante responsável.
Ali diante do olhar de Renata, Hanna andava em círculos se perguntando como iria lidar com o que estava por vir com o retorno da mulher que um dia ela tanto magoou. Era inegável que Hanna estava visivelmente abalada com a notícia do retorno de Marcela, pois ela sabia que existiam duas verdades absolutas naquela história: Marcela era a mulher que seu coração jamais deixou de amar. Mas também era a mulher que ela havia perdido por ser imatura demais, cruel demais, em um passado não tão distante.
– Pelo amor de Deus, Hanna. Será que você pode se acalmar um pouco? Estou vendo a hora você abrir um buraco nesse chão, mulher. Sente-se!
Renata apontava para a cadeira a sua frente. Por sua vez, sem ter muitas alternativas, Hanna apenas a obedeceu sem contestar. A verdade é que com o passar do tempo, uma das coisas que Hanna aprendeu foi respeitar e ouvir os conselhos das suas amigas e da irmã mais velha. Ela sabia que nenhuma daquelas mulheres queria nada além do melhor para ela.
– Como assim ela está voltando para ficar? Isso foi assim, do nada?
– Não! Na verdade, já fazia um tempo que eu vinha tentando convencê-la. Graças a Deus, dessa vez ela me ouviu. – Renata respondeu mantendo a calma.
– E por que você só me conta isso agora? Poxa, eu podia ter sido preparada. – Hanna mal conseguia respirar enquanto questionava a amiga.
– Hanna, eu não conversei antes com você, porque eu não tinha certeza de qual seria a resposta da Marcela. Quantas vezes fiz o mesmo pedido e ela prontamente negou? Acho que não quis criar expectativas em mim mesma com a possibilidade. Para ser honesta, eu achava que ela recruzaria novamente, mas para minha surpresa dessa vez ela aceitou. Além disso, você sabe como ela é imprevisível. Somente ontem à noite que ela me informou sobre o retorno imediato. Acredite, fiquei tão surpresa quanto você quando ela disse que em poucas horas estaria chegando. Eu pensei que teríamos mais dias para lidar com tudo isso.
Renata viu a amiga mais nova suspirar pesadamente e ficou penalizada com sua situação. Embora no passado ela não tivesse defendido as atitudes impensadas de Hanna, ela não podia negar que assistiu de perto todo o sofrimento vivido pela mais nova desde que Marcela deixou aquela casa de praia. Ela jamais concordou com os atos de Hanna, mas o sofrimento da Prado mais nova aproximou as duas, e foi com ela que por tantas vezes Hanna chorou a dor do arrependimento. Hanna sabia que tinha Micaela em todos os momentos da sua vida, mas sabia também que a irmã a faria sentir um fardo ainda maior.
– Ela sabe? – Hanna questionou como se já temesse a resposta. – Digo, ela sabe que sou a nova responsável pelo departamento Jurídico da empresa?
– Não! Marcela sempre esteve a par de todas as decisões da empresa. Mas tudo aconteceu rápido demais. E achei que esse seria um assunto delicado demais para ser tratado por telefone. Eu preciso conversar com ela pessoalmente. – A resposta de Renata fez com que o estômago de Hanna embrulhasse. – Não me olhe com esse julgamento. Você sabe que qualquer assunto que te envolva, é como um campo minado. Marcela jamais aceitaria voltar ao Brasil e assumir essa empresa, se soubesse que conviveria com você todos os dias. Isso seria pedir demais a ela.
– Uau! Sua sinceridade é um acalento. – A loira respondeu em um murmuro.
Percebendo o drama a amiga, Renata suavizou o tom. Ela sabia que teria um longo trabalho pela frente em busca de apaziguar as coisas entre as duas.
– Olha, me desculpa. Eu não quis ser rude. E eu sei que para você as coisas também não foram fáceis. Quantas vezes estive aqui para você? Eu só quis dizer que preferi conversar pessoalmente com ela, porque incrivelmente Marcela se mostrou ser ainda mais difícil de lidar do que você durante todo esse tempo. A conversa não renderia por telefone, entende? E Hanna, eu realmente acho que já passou da hora de vocês superarem o passado.
– É pra mim que você diz isso? – Hanna riu sem humor. – Eu tentei por algumas vezes concertar as coisas, lembra? Eu realmente não sei se existe o que ser feito para as coisas funcionarem.
– Mas elas vão precisar funcionarem. Bem, pelo menos aqui dentro da empresa. – Renata segurou nas mãos da amiga tentando transmitir segurança. – Não existe uma cartilha que nos ensine lidar com emoções, é verdade. E talvez nem tenha concerto mesmo para vocês. Por mais que a gente queria que seja diferente, existem coisas que simplesmente são como são. Mas isso vocês vão realmente precisar descobrir juntas.
– Você não percebe o que vai acontecer quando ela souber? Essa empresa vai ser colocada a baixo. Por Deus, Renata. – Hanna não escondia o nervosismo. – Ela sendo presidente, eu vou trabalhar diretamente com ela. Tenho certeza que isso ela não vai suportar. Ela me odeia!
A loira levou a mão até a cabeça em desespero, enquanto Renata a olhava sem ter muita certeza de como rebater aquela verdade. Ela sabia que Hanna tinha razão, Marcela realmente surtaria quando descobrisse que iria trabalhar diretamente com Hanna. Por outro lado, ela torcia para que a sócia deixasse o seu lado profissional falar mais alto. Além disso, por mais que fosse verdade sobre o sentimento que Marcela transparecia sentir quando o assunto era Hanna Prado, Renata tinha uma teoria de que o amor e ódio andam de mãos dadas. Ela não conseguia sentir que Marcela realmente havia superado seu passado.
– Eu sei perfeitamente disso, mas será que não podemos ter pensamentos positivos?
Renata não estava tão certa das suas palavras, mas queria acreditar que aquela empresa não iria virar um campo de guerra nos próximos dias.
A morena tornou a segurar as mãos da amiga, tentando encontrar palavras para acalmá-la.
– Olha Hanna, o tempo passou e vocês mudaram. Infelizmente você aprendeu e amadureceu da pior forma possível, mas eu confio que você vai fazer tudo certo dessa vez. Confie em sí mesma, minha amiga.
Renata sentia a dor da amiga quando aquele olhar abatido sustentou o seu.
– É tão difícil absorver tudo isso. Quero dizer, saber que ela está voltando. Durante oito anos ela determinou que não queria saber nada sobre mim. Vocês respeitaram essa decisão, eu respeitei essa decisão… Marcela não sabe nada sobre minha vida. Vocês não contaram para ela, nada do que aconteceu comigo. Mas eu sempre soube tudo sobre ela, Renata. Sempre soube o quanto ela me odiava e me queria longe. – Hanna voltou sorriu com tristeza. – É patético demais assumir que nem mesmo toda a hostilidade dela serviu para me esquecê-la? Se eu resolvi não procurá-la, foi por respeitar as decisões dela. Eu não tinha o direito de ir atrás dela depois de toda dor que causei. Mas eu nunca a esqueci, Renata. Eu nunca a superei realmente.
Lágrimas escorreram pelo o rosto de Hanna ao lembrar o quanto precisou ser forte para desistir do amor que sentia e, não ir atrás de Marcela. É verdade sim que ela havia se arrependido de verdade de tudo o que fez a outra, mas percebeu tarde demais que o amor é mais importante que qualquer opinião alheia, e que não era o que pensavam ou diziam sobre ela que a definia, mas sim quem ela era e as escolhas que tomava na vida. Hanna não apenas se arrependeu, como também se envergonhou quando entendeu que quem mais tinha preconceito em relação ao que sentia, não era os outros, mas ela própria, e por isso aceitou a distância da sua amada como um castigo merecido.
– Eu sinto muito pela forma como tudo aconteceu, Hanna. Eu sei e vi o quanto você sofreu durante esses anos. Não posso dizer que vocês vão voltar a ficar juntas, e nem que você pode consertar o que fez no passado, mas quem sabe esse retorno não te dê a oportunidade de fazer um presente diferente? Não é pecado acreditar que pode ser possível.
A mais nova enxugava algumas lágrimas quando viu sua irmã entrar na sala sem ao menos se preocupar em bater a porta.
– Qual é Micaela, ficou mal educada agora? – Renata repreendeu a amiga, que nem ao menos se deu o trabalho de olhar para ela.
Ao ver a expressão de sofrimento estampada no rosto da irmã, Micaela teve as respostas que tinha ido buscar na sala de Renata assim que Daniela havia contado a novidade.
– Então é mesmo verdade… Marcela está voltando?!
Renata não sabia bem se aquilo era uma pergunta ou afirmação. Mas apenas confirmou com um olhar que ela sabia que seria compreendido. A Prado mais velha voltou a encarar a irmã que ainda estava chorando. Micaela sabia que por mais que silenciasse, Hanna sofria cultivando um amor não superado.
Depois daquela cena que presenciou na casa de praia há oito anos atrás, Micaela tinha ficado atordoada sem compreender nada do que acontecia ali, e Hanna não teve outra saída que não fosse explicar para a irmã sobre o relacionamento secreto entre ela e uma das suas amigas. Embora amasse sua irmã, obviamente Micaela estava transtornada com o fato de imaginar o quanto ela havia machucado sua amiga, e jamais passou a mão sob os erros da irmã mais nova. Inicialmente, descobrir tudo aquilo resultou em um afastamento entre as duas irmãs, que por um tempo não mantiveram a mesma relação amigável de antes. Isso porque Micaela não conseguia compreender como era possível Hanna ter sido tão fria com Marcela, tão cruel... e tudo por quê? Status e medo dos julgamentos alheios? Aquilo não entrava em sua cabeça. Mas pouco tempo depois de tudo aquilo acontecer, o destino foi cruel com Hanna, e sua família e amigas não lhe negaram apoio, especialmente Micaela que não saiu do lado da irmã um segundo sequer. Todas sempre estiveram ao lado de Hanna para ajudá-la a superar cada momento difícil pelo o qual havia passado. Por isso, Micaela estava ali preocupada com a irmã, porque sabia que a volta de Marcela lhe traria dores de cabeça e sofrimento. Na verdade, Micaela temia pelas duas mulheres por quem nutria sentimentos destintos, porém verdadeiros. De um lado a amiga, do outro a irmã. Ela sabia que essa reaproximação inesperada poderia ser um caos emocional para ambas, e não queria ter que ficar entre as duas, não agora que as coisas estavam se ajeitando.
– Na verdade, ela está chegando ainda hoje, o que me lembra do favor que preciso que você me faça, Micaela. – A Prado mais velha olhou para Renata, com interrogação. – Eu tenho uma reunião em poucos minutos. Não posso ir esperá-la como ela pediu. Estou contando com você para ir buscá-la. Obviamente ela ainda não estar com um carro disponível aqui, e pediu para que uma de nós fizéssemos o favor.
– Tudo bem! Claro que vou.
Micaela assentiu concordando com a amiga, embora a expressão em sua face fosse de incertezas. Ela adorava Marcela e isso não era questionável, mas tinha que admitir que ao longo do tempo a amiga tornou-se assustadoramente difícil de lidar. Micaela sabia que ela faria inúmeras perguntas, e não queria ter que mentir para a amiga logo em sua chegada, pois se o fizesse, mais tarde isso atiçaria a fúria de Marcela que se sentiria traída por todas.
Micaela voltou olhar para a irmã.
– Ei, você está bem com isso? – Era perceptível a preocupação na pergunta de Micela.
– Eu vou ficar. – Hanna parecia mais tranquila. – Talvez eu sempre soubesse que isso iria acabar acontecendo em algum momento.
– Certo! Mas qualquer coisa estou aqui. Você sabe disso, não sabe?
– Eu sei! Agora vai logo para o aeroporto. Ela vai chegar cansada. É uma viagem longa. Além disso, todas nós sabemos que ela odeia esperar e vai ficar uma fera se alguém não estiver lá como pediu.
Micaela estudou a irmã por algum tempo e em seguida trocou olhares cumprisse e preocupado com Renata.
– Sabe com quantas pessoas você se importa tanto assim a ponto de observar detalhes? – Micaela riu sem qualquer humor. – É realmente uma pena as decisões que tomou, minha irmã. Realmente nunca vou conseguir entender o porquê você a deixou escapar se ela era tão especial assim.
Micaela tentou não ser rude em suas palavras, não era sua intenção julgar a irmã, mas ela nunca fez questão de esconder que sempre achou Hanna covarde por decidir não lutar pela pessoa que amava.
Antes que um embate entre as irmãs iniciasse, Renata chamou atenção da amiga.
– Há, Mica. Só uma coisa... – Renata parecia preocupada com a reação de Micaela quando ouvisse o que ela estava prestes a falar. – A Marcela ainda não sabe que a Hanna é nossa nova responsável pelo setor jurídico, então deixa que eu falo com ela pessoalmente, por favor.
Micaela levantou em sobressalto.
– Você só pode está de brincadeira. Você ainda não contou isso? Por acaso você ficou louca, Renata? Você está consciente que ela vai derrubar esse lugar antes que você consiga controlar a situação?
– Não podemos sermos confiantes? Eu acredito no potencial de Marcela. Ela é meio assustadora as vezes, eu sei. Mas eu acredito que ela saberá separar as coisas.
– Você também costuma acreditar em milagres, fofa? – Micaela ironizou.
– Muito espirituosa, você. Uma graça! – Renata revirou os olhos. – Olha, deixa comigo que eu dobro a fera.
Micaela suspirou pesado.
– Ok! Se você realmente acredita que é capaz. Só me avisa quando for contar pra ela, certo? Quem sabe assim, eu tenha tempo para pelo menos evacuar os funcionários. Caso contrário, vocês vão ficar falidas com o tanto de indenização que vão precisar pagar após ter esse lugar em ruínas.
– Não brinca com isso Micaela. – Hanna repreendeu a irmã.
– Quem disse que estou brincando? Se bem que se não fosse tão trágica a situação, eu pegaria pipoca e refrigerante para ver as próximas cenas dessa novela. O nome seria, as consequências do passado. O que acha?
Micaela lançou um olhar debochado para a mais nova que a fuzilou.
– Micaela, vai logo para o aeroporto. – Renata mandou a mais velha sair da sala antes que as irmãs começassem uma briga ali na sua sala.
...
Algum tempo depois de deixar a sala de Renata, Micaela só faltava correr pelo o aeroporto, pois o trânsito de Fortaleza estava um verdadeiro caos, e ela acabou atrasando mais do que pretendia. Ela sabia que sua amiga odiava esperar, então a essa altura ela estava ferrada nas mãos de Marcela.
Ela olhou no painel e viu que o voo informado por Renata já havia aterrizado a alguns minutos. Agoniada, olhou por todos os lados e nada de ver Marcela. Onde aquela diaba havia se metido? Ela pensava consigo mesma quando finalmente sentiu as mãos de alguém tapando seus olhos...
– Parece que tem alguém que está muito atrasada por aqui.
A mais velha abraçou a amiga que não via há algum tempo. Apesar da distância, Marcela sempre fez questão de manter contato com todas as amigas no Brasil, e buscar ser o mais presente possível na vida de cada uma. Às conversas por chamadas de vídeos sempre eram agradáveis. Bem, isso até que por alguma razão surgisse o nome de Hanna e o clima ficasse pesado. Mas com o tempo todas buscavam não deixar que isso acontecesse. Contudo, tendo Marcela ali envolvida por seu abraço, Micaela não podia negar que apesar de estar com medo pelo o que aconteceria com aquele retorno, também estava muito feliz de ter a amiga de volta, e dessa vez para ficar.
– Desculpa pelo o atraso Marcela, mas o trânsito dessa cidade me atrapalhou. Faz muito tempo que chegou?
– Não muito! Aproveitei sua demora e fui à loja comprar um chip local para o meu celular. – Até que ela não estava tão brava como todas pensaram que ficaria. – E então, cadê Renata e a Daniela? Eu achava que teria uma recepção mais calorosa.
– Elas precisaram ficar na empresa porque tinham uma reunião. Há, fala sério! Apenas minha presença não te basta não, sua ingrata? – Micaela tentava descontrair.
– Então quer dizer que só você não trabalha naquela empresa? Sinto que terei muito trabalho naquele lugar. – Marcela disse com divertimento enquanto começaram andar pelo aeroporto em direção à saída. – Apesar desse detalhe, sua presença é ótima, Mica. Agora percebo que realmente estava com saudades de todas vocês.
– É nós de você, amiga. Mas vem cá, você me respeita Bettencourt. Se brincar, eu sou a que mais trabalha naquele lugar.
– Jura? – Marcela disse com diversão.
– Idiota! Vamos embora antes que eu te ponha em um avião de volta para Portugal. Você voltou muito metida, sabia disso?
Elas riam da implicância uma com a outra. Às duas seguiram em direção ao carro, e era inegável que ambas estavam felizes por estarem juntas novamente, mas no fundo um assunto incomum deixava as duas tensas com a possibilidade de a qualquer momento surgir aquele nome proibido.
– E então, onde te deixo?
– Pode seguir para a casa dos meus pais. Estou chegando de surpresa, acredita?
– Acredito! Você não faz ideia do quanto conseguiu surpreender a todas nós, se quer saber. Eu mesma só fiquei sabendo agora a pouco. Aliás, porque só Renata sabia?
– Eu só contei a ela quando já estava a caminho do aeroporto. Acho que tive receio de desistir antes de check-in
– Hum! – Micaela imaginava o motivo por trás daquela afirmação. – Então você vai voltar a morar com seus pais? – A mais velha sabiamente resolveu mudar de assunto.
– Tá brincando? Depois que deixamos o ninho e aprendemos a voar, tudo muda. Por enquanto vou precisar ficar por lá uns dias, mas pretendo conseguir um apartamento para mim o quanto antes.
– Então você realmente vai ficar?! Caramba! É inacreditável que esse dia chegou.
Marcela encarou a amiga e não pode deixar de perceber que Micaela parecia preocupada.
– Isso é um problema?
– Eu realmente espero que não. – Micaela olhou para Marcela que ficou séria. – Eu estou feliz com seu retorno, minha amiga.
– Eu vou ficar, Mica. Renata vai casar e precisa de um tempo para organizar tudo. Não seria justo deixá-la dividida entre o trabalho e o casamento. Eu devo isso a ela, não devo? Além disso, já estava na hora que eu assumisse minhas responsabilidades sem deixar que nada e nem ninguém as atrapalhem. – As duas se entreolharam. – Eu também estou feliz por voltar.
Micaela analisou a amiga e percebeu o quanto Marcela estava mudada, não apenas fisicamente, mas havia se tornado uma mulher madura, séria e bem mais fria do que parecia ser nas chamadas de vídeo em que conversavam. Fazendo essa observação ela chegou à conclusão que talvez sua irmã não estivesse preparada para lidar com aquela nova Marcela.
– Por falar em responsabilidades, como estão as coisas na empresa? Renata me passou algumas coisas, mas não o suficiente para que eu tenha conhecimento de todas as mudanças desde a última vez que estive aqui. Ela me informou que alguns funcionários dos principais setores foram substituídos. Quais foram os departamentos?
Micaela não esperava por aquela pergunta e quando ela foi feita nem percebeu o que estava prestes a acontecer. A mulher freou o carro parando em cima da faixa de pedestre evitando atropelar uma senhora que estava prestes a atravessar a rua. O sinal tinha ficado vermelho sem ela perceber.
– DROGA, MICAELA – Marcela gritou assustada. – Seu objetivo é nos matar ou virar uma assassina de velhinhas?
– Desculpa, Marcela. Eu não vi o sinal fechando. Você está bem? Se machucou?
– Sim, está tudo bem. Mas não sei se posso dizer o mesmo da senhora. – Ela disse observando a senhorinha que agora xingava Micaela de todos os nomes possíveis. – Porque você está tão nervosa? – Marcela analisou o rosto pálido da amiga ao seu lado.
– Não estou não, apenas estava distraída. Voltando a sua pergunta... Não acha que está cedo demais para se preocupar com a empresa? Você chegou agora, deveria descansar primeiro. – Micaela tentava desconversar daquele assunto. – Vamos, pode começar a me contar como foi esses últimos tempos em Portugal. Vamos ter quantas portuguesas malucas atrás de você por aqui?
– Que absurdo, eu quase nem ficava com ninguém.
– Conta outra, Marcela. Todas sabemos que cada fim de semana era uma diferente. Daniela diz que se dedos engravidassem era capaz de você ter que pagar pensão para uma geração inteira. Um filho de cada mãe diferente. – As duas gargalharam. – Quantos corações você quebrou por lá? Eu quero saber de tudo. – Micaela tentava fazer graça com a amiga que estava ficando perplexa com a má fama que havia adquirido.
As duas continuaram conversando até chegarem à casa dos pais de Marcela. A mais velha não demorou muito na casa, pois sabia o quanto sua amiga iria precisar de tempo para acalmar sua mãe que não conseguia controlar a emoção por ter a filha de volta.
Mais tarde Marcela ligou para Renata e ficaram certas que não se encontrariam naquela noite, pois concordaram que Marcela precisava descansar da viagem, mas que no dia seguinte ela estaria na empresa logo cedo, antes da reunião com todos os responsáveis pelos departamentos, onde Marcela seria oficialmente apresentada como a nova presidente da empresa.
Renata desligou a ligação e pensou consigo mesma: é amanhã que eu enfrento a fera.
Fim do capítulo
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