Capitulo 1
Pov Marcela
OITO ANOS ATRÁS
Flashback on
“– Então Marcela, você já decidiu o que vai fazer a respeito da proposta da especialização em Portugal?
Renata, que estava me ajudando finalizar minha mala, ganhou minha atenção quando começou a falar.
Aquele era um assunto que já tínhamos conversado em outros momentos, e por mais que ficasse triste com a possibilidade da distância, Renata sabia que era uma oportunidade de ouro para nós duas. Ela não tentava influenciar na decisão, mas demonstrava estar preparada para apoiar qualquer que fosse a decisão que eu tomasse.
– Não sei ainda, Rê. – Respondi com o coração apertado.
Ela ergueu a sobrancelha deixando claro sua incompreensão.
– Qual a dúvida exatamente? O que você não quer me contar?
– Não me olha assim, Renata. – Desviei do olhar de predador dela. – Não é tão difícil de compreender. Quero dizer… Estamos iniciando agora nossa sociedade, entende? Acabamos de abrir nossa empresa e, você sabe que todo começo é complicado. Eu não quero deixar você sozinha cuidando de tudo.
– Claro que eu sei de tudo isso, Marcela. Mas se for pela empresa, pensa comigo… Você estaria tendo a oportunidade de em um futuro próximo tornar nossa empresa um diferencial no mercado, quem sabe até uma referência. Você teria um conhecimento que poucos possuem, é isso seria bom para nós duas, não acha?
Não respondi! Não tinha muito o debater naquele ponto. Mas ela era a Renata. Me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.
Ela então seguiu:
– Eu acho que você deveria pensar bem na oportunidade que pode perder. Se esse for realmente o problema, eu posso cuidar de tudo enquanto você estiver fora. Você não vai ser ausente de nenhuma decisão importante, nenhuma demanda. Você pode me auxiliar com o que for necessário por conferências. Não seria fácil cuidar de tudo sozinha, é claro, mas também não seria algo eterno.
Eu sabia que aquela ideia de Renata não era tão absurda assim. Mesmo a distância, eu realmente poderia ajudá-la muito. Além disso, não seria por muitos anos.
Contudo, o que ela não sabia, era da existência de outros fatores que me impediam de dizer sim e seguir adiante com aquela proposta sem pensar e repensar muito. Por mais que fôssemos melhores amigas, eu ainda não tinha aberto para Renata o principal motivo que me aprisionava em Fortaleza.
– Eu sei. – Falei meio sem ânimo. – Bem, o fato é que estou bastante confusa em relação a isso tudo. Por enquanto decidi não pensar muito a respeito do assunto. Ainda tenho alguns dias para decidir. Por hora, quero apenas curtir nossa viagem de final de ano com as meninas e depois pensamos nisso, ok?
Seus olhos caíram sobre mim, e eu sabia exatamente o que ela estava fazendo. Droga! Por que ela tinha que me conhecer tão bem?
– Ok! – Ela disse por fim dando de ombros.
No entanto, quando pensei que ela daria o assunto por encerrado, ela então se afobou. Como pude esquecer que Renata não se contentava com poucos detalhes, especialmente quando se tratava de algo que provocava sua curiosidade.
– Mas me tira só uma dúvida, por favor. – Suplicou como uma criança birrenta. – Quando você vai assumir que toda essa sua dificuldade em decidir se vai ou não para fora do Brasil, não é apenas pela empresa, mas também por um motivo que tem nome e sobrenome? Você está apaixonada por ela, não está? A Hanna.
Percebendo o quanto aquela pergunta tinha me desnorteado, minha amiga se jogou na minha cama gargalhando com satisfação pelo o arte que acabará de cometer.
Tentando ganhar tempo, a repreendi pela bagunça que ela estava fazendo nas roupas que eu tinha acabado de separar.
– Você quer fazer o favor de parar de bagunçar tudo que eu já arrumei? – Voltei minha atenção para as roupas que precisavam ser dobradas novamente.
– Você está fugindo do assunto. – Renata rebateu com um sorriso malicioso nos lábios.
– Eu não estou fugindo de nada. – Menti descaradamente. – Você deveria parar de falar besteira. Quantas vezes preciso dizer que não tenho nada com a Hanna? Bem, além de amizade, é claro.
Falei sem muita certeza se eu estava transmitindo a confiança necessária para que minha amiga me deixasse em paz.
Vi Renata revirar os olhos e então bufou irritada.
– De todas nós, você sempre foi uma péssima mentirosa. Essa arte costuma ser bem sucedida pela Dani. – Não me contive e acabei rindo da sua afirmação. Realmente, Daniela era a que mentia melhor, especialmente quando se tratava dos seus rolos. – Olha, eu tentei ignorar. Juro que tentei! Mas você também não se ajuda. Acha mesmo que ninguém percebe como olha para ela? Você está uma boba apaixonada, minha amiga. Não tem como negar isso para ninguém, e acho que nem para si mesma. O que eu não entendo é o porque esconder isso. Amar não é pecado, sabia?
Me sentindo realmente cansada de fingir, suspirei e sentei ao seu lado.
– Ela é…
Até tentei organizar argumentos, mas diante da minha dificuldade, Renata logo se antecipou para completar meu pensamento.
– Irmã da nossa amiga. Eu sei! Eu sei também que Micaela é extremamente protetorado com a irmã mais nova. É sério, eu sei de tudo isso. Sério que ia usar esse argumento de novo? – Acenou em negação. – Marcela, é nítido que vocês estão envolvidas, e Micaela também sabe disso, mas prefere fingir que não ver porque quer saber onde vai acabar tudo isso. A única coisa que nós não sabemos, é o ponto que esse envolvimento está ultrapassando. – Renata afirmou com convicção ignorando completamente meu desespero aparente. – Vocês já ficaram? Digo… Você entende.
– Pelo amor de Deus Renata, claro que não. – Por mais que eu não quisesse transparecer, meu desespero era gritante e obviamente perceptível. – Ela é... – Engoli seco ao lembrar do quanto Micaela era ciumenta em relação a irmã. – Droga! Tenho certeza que Micaela me mataria.
Micaela era irmã mais velha de Hanna, e uma das minhas melhores amigas. Era incrível o ciúme que ela sentia da irmã mais nova. Eu que era filha única, achava lindo a parceria e cuidado que as duas irmãs tinham uma com a outra.
– Digamos que a Mica estivesse tranquila com a possibilidade de ver uma amiga se envolvendo com a irmã caçula dela. Você assumiria que está completamente apaixonada por Hanna Prado?
– Rê, eu não paro para pensar nisso. – Menti novamente.
Tentei passar uma sensação de pouco caso, mas a verdade é que eu estava suando frio por ser confrontada daquela maneira, porque tudo que eu fazia nos últimos tempos era pensar na mais nova da família Prado, e sabia que Renata estava certa quando dizia que eu já não conseguia esconder meus sentimentos por Hanna. Acho que isso transbordava não apenas em meus olhos, mas também em atitudes.
– Às vezes eu acho que você subestima nossa inteligência, Marcela. – A indignação na voz de Renata me deixava em pânico com aquela pressão psicológica. Por quanto tempo mais eu aguentaria? – Todo mundo ver como vocês duas se olham. Além disso, ela não é tão nova assim. Se brincar, aquela lá sabe de mais coisas do que nós duas juntas. Só tem um problema...
– Ela diz que é hétero. – Falamos juntas e então voltei a me sentar.
Em que cilada do destino fui me meter? Não bastava ter me apaixonado pela irmã de uma grande amiga, a garota ainda era complicada e não aceitava a si mesma. Hanna adorava gritar para os quatro cantos do universo que era uma hétero convicta. Tudo bem, eu sabia que aquilo já não era uma verdade absoluta. Talvez bissexual? Era possível, já que Hanna estava se descobrindo enquanto mantínhamos um relacionamento em segredo. Contudo, para mim, que era uma mulher bem resolvida em relação minha sexualidade, era realmente exaustivo manter em segredo aquele relacionamento que vinha se tornando a cada dia em algo mais sério. Bom, pelo menos pra mim. Especialmente porque a cada dia que passava, eu me sentia mais envolvida por Hanna, ou seja, eu estava realmente mais que apaixonada. Eu sentia que a amava.
– Quer saber a verdade? – Ela acenou em concordância e então prossegui. – Eu me sinto atraída por ela desde o acampamento. Confesso que antes eu não a notava dessa maneira, quero dizer, não a via como uma mulher para se envolver. No entanto, lembra quando ela se perdeu naquele acampamento? – Renata concordou. – Eu estava desesperada porque estávamos demorando encontrá-la. Não sei explicar, mas comecei a imaginar o quanto ela devia estar apavorada por estar sozinha. Você sabe, Hanna não é exatamente o tipo de mulher aventureira. Ela é delicada como uma Barbie. – Sorri ao lembrar de quando encontrei a mais nova. O olhar dela pareceu se iluminar ao me ver. – Quando eu a encontrei no meio daquela chuva tenebrosa, aquela mata fechada... – Suspirei sob o olhar atento de Renata. – A vontade que eu tive foi de protegê-la. Segurá-la em meus braços e não soltar mais. Nunca senti algo parecido antes por qualquer outra mulher com quem me envolvi. – Respirei profundamente. – Eu não sei quando ou como, mas você está certa. Eu me apaixonei por Hanna. E desde aquele momento, não existe outra mulher em meu pensamento. Mas como você mesma disse, ela é hétero e, eu não quero problemas para meu coração.
Embora eu tivesse confessado a Renata os sentimentos que nutria por Hanna, mantive em segredo nosso namoro conturbado. Aquela que era a verdade oculta de todos por uma única razão: Hanna exigia manter segredo.
Desde o dia que encontrei Hanna perdida na mata durante aquele acampamento que fizemos entre amigos no ano passado, nós acabamos nos aproximando. As coisas foram acontecendo rápido, porém era como enfrentar um desafio de cada vez. Hanna ainda era um tanto imatura, confusa, rebelde..., mas ainda assim, irresistível. Era como um pecado a ser cometido sem pudor. Alguém que se tornou capaz de tirar minha sanidade do eixo de segurança. Maturidade? Nunca vi, nunca tive, nunca vivi. Com ela, era como viver o imprevisível mais afrodisíaco todos os dias.
A verdade é que durante todo esse tempo que vínhamos vivenciando uma relação que era mantida sob segredo absoluto, eu tinha esperança das coisas já terem progredido. Hanna, mesmo negando para sí mesma, dava sinais mais claros de que sua resistência uma hora ou outra cairia por terra.
Era natural que ela, que sempre havia demonstrado interesses por garotos, se visse em conflito consigo mesma quando percebeu seu interesse em mim, uma mulher. Assim, ela havia me pedido um tempo para conseguir se compreender e lidar com a situação. Um tempo para conseguir expor para sua família e nossas amigas aquilo que seu olhar transmitia para mim quando estávamos a sós.
Claro que a princípio compreendi seus motivos, afinal de contas, eu já tinha passado por aquela fase na adolescência, e sabia como era se sentir perdida em meio aos sentimentos. Além disso, Hanna acreditava que seus pais, em especial, não aceitariam nossos relacionamento justamente por se tratar de uma relação homossexual. Particularmente, eu não acreditava que isso aconteceria, pois se eu conhecia bem os pais de Micaela e Hanna, eles iriam se preocupar mesmo era com a felicidade da filha, o resto seria detalhes. No entanto, ainda assim deixei que ela tivesse seu tempo e espaço para lidar com a situação.
O fato é que eu estava completamente apaixonada por Hanna, e por isso tentei entendê-la e respeitar seu pedido, pois compreendia que eu estava bem resolvida em todos os aspectos da minha vida, ao contrário dela que encarava tudo como uma grande novidade a ser digerida. Hanna ainda estava no primeiro ano de faculdade e se vendo apaixonada pela primeira vez por uma mulher. Eram muitas mudanças pela qual era estava passando, e como a mais velha ali, eu achava que precisava ser compreensiva e paciente. Além disso, o fato da sua irmã ser uma das minhas melhores amigas e morrer de ciúmes da irmã mais nova, também foi um fator que levei em bastante consideração quando me convenci que realmente seria melhor ir com calma e preparar todos para a noticia. Não que eu tivesse medo da minha amiga, é claro. Mas Micaela sabia ser assustadora quando queria.
O único problema em toda aquela situação, é que com o passar do tempo se tornava cada dia mais difícil estar perto de Hanna e não poder tocá-la ou me comportar como sua namorada como eu gostaria. Mais difícil ainda, era conseguir esconder a tensão que existia ente nós duas sempre que estávamos entre amigas. Talvez por isso com o passar do tempo todos que conviviam com nós duas, começaram a fazer piadinhas sobre um possível envolvimento entre nós, e era nesses momentos que Hanna fazia questão reassumir sua heterossexualidade com tanta determinação, o que obviamente agora me incomodava bastante.
Era sempre a mesma história… a sós, acabávamos brigando por ela não se assumir de vez. Eu me questionava como ela queria preparar todos para aceitar nossa relação se ela continuava se impondo com um status bizarro de fodona heterotop.
Bem, era assim, vivendo entre brigas e paixão, que estávamos nessa situação há quase um ano.
– É uma situação complicada. – Pela primeira vez Renata falou em um tom sério. – Mas sabe o que é curioso? – A observei com interesse. – Claro, eu não posso afirmar para você com uma certeza que não tenho, mas é que olhando de longe, todas as vezes que ela se rotula como hétero, ela busca seu olhar. Pode ser coisa da minha cabeça, mas a sensação que ela me passa, é de culpa. Além disso, por que diabos ela precisa ficar reafirmando uma sexualidade a todo instante? Parece que é uma urgência de aprovação, uma coisa não com nós, mas com ela mesma. Olha, Hanna é difícil de lidar, eu sei. Mas se você está apaixonada por ela, talvez devesse conversar com ela sobre como se sente. Mas lembre-se, siga seu coração tentando não se machucar, certo?
Renata era sem dúvidas a amiga mais sensata entre nós. Na verdade, esse era um posto que ela dividia com Micaela, já que Daniela era um completo oposto, sendo a maluca sem filtro que todas nós amávamos mesmo querendo matá-la sempre.
– Certo! Prometo que vou lembrar disso. – Afirmei com um sorriso amargo nos lábios. – Agora vamos logo com isso, que já estamos atrasadas e temos um réveillon para curtir.
Pegamos nossas malas, colocamos no carro e seguimos viagem para canoa quebrada, onde as outras que tinham viajado mais cedo e já estavam a nossa espera.
…
Estava quase anoitecendo quando chegamos à casa de praia da família Prado. Micaela havia convencido os pais a nos emprestar a casa para passarmos o réveillon, o que não foi um obstáculo já que eles sabiam o quanto a filha mais velha era responsável.
Estacionamos o carro e confirmamos que todos os outros já haviam chegado ao lugar. Eu e Renata havíamos ficado para irmos mais tarde, já que precisávamos finalizar a análise de uma empresa que havia nos contratado para realizar um EIA (Estudo de impacto ambiental).
Nos próximos dias estaríamos em um grupo de sete pessoas: Eu, Hanna, Renata, Micaela, Robson que era seu namorado e quase noivo, Daniela que parecia ter fobia da palavra relacionamento, e mais dois amigos do Robson, que por sinal eu ainda não os conhecia.
Ao entrarmos na casa logo vimos às meninas na beira da piscina enquanto os meninos estavam afastados preparando um churrasco, e claro, já bebendo todas. Assim que descemos do carro já ouvimos Micaela resmungar enquanto se aproximava de nós:
– Finalmente vocês chegaram. Já estávamos começando ficar preocupadas. Se perderam no caminho?
Amorosa como sempre, ela nos cumprimentou com beijos em nossos rostos, transbordando aquele carinho que sempre nos ofertava. Essa era mais uma característica de Micaela, ela era praticamente a mãezona do grupo, sempre muito preocupada, carinhosa e cuidadosa com todas nós.
– Culpa a esfomeada da amiga aí, que não pode ver uma loja de conveniência que quer parar e comer. – Rê apontou para mim, e eu respondi mostrando a língua para ela.
– Vocês duas não mudam nunca? Sempre tão kids.
Olhei para o lado e vi Dani se aproximando de nós com um sorriso debochado nos lábios.
– Justo você nos falando isso? Seria cômico se não fosse absurdo. – Alfinetei, mas logo a abracei.
Daniela era implicante, rabugenta, louca, curiosa, mas ainda assim eu amava aquela eterna garota em corpo de mulher. Na verdade, eu amava todas minhas amigas, e não conseguia ver minha vida sem nenhuma delas.
Por cima dos ombros de Dani, percorri o olhar para pelo o ambiente e vi que ao contrário das outras duas, Hanna continuou a beira da piscina sem vir nos cumprimentar. Ela parecia envolvida demais em uma conversa animada com um garoto desconhecido que logo deduzi ser um dos amigos de Robson. Aquilo me incomodou, já que era de se esperar que ela estivesse ansiosa para me ver, certo? Tentei não deixar transparecer o quanto fiquei afetada com a indiferença da minha namorada, afinal eu sabia que era sempre assim quando estávamos na frente de alguém, nada de contato ou demonstração de carinho, eu era apenas uma das amigas da sua irmã. Hanna sempre me tratava com indiferença ou causalidade como ela preferia descrever. Eu já estava acostumada com isso, embora fosse algo que me incomodasse.
– Sabe, Bettencourt. Eu acho que você poderia tentar no mínimo disfarçar a maneira que come minha irmã com os olhos. Vou acabar sendo obrigada a te deixar cega, garota.
Engoli seco quando me deparei com Micaela me observando. Sua expressão não era assustadora, mas suas sobrancelhas estavam juntas. Ela estava nitidamente estudando meu comportamento e reações.
– Credo, eu nem fiz nada. – Me defendi com urgência quanto Renata e Daniela gargalharam. – E quer saber? Você bem que gostaria de ter uma cunhada maravilhosa como eu, meu bem. – Pela primeira vez ousei afrontar Micaela.
– Tá ousada! Perdeu o amor à vida, Marcelinha? – Robson se aproximou de nós fazendo graça do meu desespero.
– Robson, meu querido. Você não tá dando conta do recado, não? Sua namorada anda muito rabugenta nos últimos tempos. – Brinquei arrancando risadas de todos, mas logo senti o ardor do tapa que levei de Micaela.
– Eu até tento, Marcela, mas essa mulher é difícil. Ela quem acaba comigo, acredita?
Dessa vez foi Robson que levou um tapa, e todos gargalhamos ainda mais ao ver a expressão indignada do homem a nossa frente. Robson e Micaela sem dúvidas formavam um casal muito bonito. Eles eram unidos, e eu não tinha dúvidas para não acreditar que seriam felizes no casamento.
– Posso saber do que estão rindo tanto? Quero sorrir também.
Ouvi a voz animada de Hanna que finalmente veio e se juntou a nós, contudo, não consegui conter a sensação de tristeza que amargava em meu coração. Ela estava linda, é verdade. É verdade támbem, que era impressionante como aquela garota mexia comigo sem fazer o menor dos esforços. Eu me sentia uma boba!
Olhei para trás vendo-a se aproximando junto com os dois amigos de Robson.
– Estamos falando o quanto sua irmã é difícil, e do quanto seu cunhado não dá no coro. – Renata respondeu com um sorriso maléfico.
– Aí você me quebra, mirmã. Tenho uma reputação a zelar, sabia disso? – Robson se defendeu e em meio aos risos, logo se prontificou em nós apresentar aos seus amigos. – Meninas, esses são o Guto e Henrique. Dois feios, é claro. rapazes, essas são Renata e Marcela, mais duas malas que terei que carregar depois que casar com Micaela. Vocês sabem, quando você se casa com uma mulher, leva as amigas delas junto.
Os dois que pareciam ser tão animados quanto Robson, nos cumprimentou.
– Prazer em conhecê-las, meninas.
– Já ouvimos falar muito de vocês. – Disse Guto, aquele que estava ao lado de Hanna.
O garoto apresentava ter pouco mais de vinte anos de idade. Era um rapaz muito bonito e aparentemente educado também.
– Estávamos falando também do quanto a Marcela está prestes em ficar cega por te comer com os olhos, maninha.
Micaela provocou com deboche e me olhou com uma expressão de quem dizia “você me paga assim”. Eu obviamente congelei diante da brincadeira feita por Micaela, porque sabia que Hanna não iria gostar nenhum pouco, então com pesar já previ o que iria acontecer.
– Mana, entre olhar e possuir existe uma diferença muito grande. – Respondeu uma Hanna ácida.
Como sempre o tom de voz usado por Hanna era de puro desdém. Sim, ela costumava ser fria e esconder muito bem seus sentimentos, ao contrário de mim, é claro, que sempre fui intensa quando o assunto era meus sentimentos. Normalmente nesses momentos a dor que eu sentia era tão intensa que eu costumava silenciar a qualquer coisa dita por ela, mas daquela vez, talvez por estarmos na frente de um estranho, eu me senti tão humilhada que resolvi devolver na mesma moeda.
– E entre sua irmã falar uma bobagem e ser verdade, também existe uma diferença enorme, mas talvez você seja tão esnobe que ao menos consegue notar quando é ou não desejada por uma mulher como eu.
– Hiiiii…
– Ui…
Embora eu me sentisse magoada por ser o centro de toda aquela situação, e me sentisse humilhada por quem provocar aquilo ser minha própria namorada, não me importei com os múrmuros e piadas feitas especialmente por Robson e Dani. Os dois pareciam ter levado na esportiva, mas Renata e Micaela, paralisaram diante do clima pesado que se instalou entre Hanna e eu.
As duas estavam nitidamente surpresas com minha reação, e Hanna não era diferente. Ela me olhava atordoada, parecendo pela primeira vez não saber o que dizer. Até percebi que ela se esforçava para ensaiar responder algo, mas eu não queria prosseguir e prolongar aquilo. Era ridículo e doloroso, então simplesmente a cortei antes que tudo piorasse ainda mais.
Me voltei para Renata que permanecia séria.
– Vamos subir, Rê. Precisamos levar as coisas para dentro. Eu quero tomar um banho também.
Em silêncio, Renata apenas me seguiu ainda parecendo chocada com minha resposta a Hanna.
– Ok, aquilo foi muito estranho. – Ela finalmente falou quando chegamos no quarto que dividiríamos.
– Eu responder a altura? Renata, eu estou cansada de silenciar a petulância dessa garota, mas também não quero estragar nosso feriado, então se você puder não tocar mais no assunto, eu agradeço.
Nunca senti tanta raiva das respostas atravessadas de Hanna, como estava sentindo naquele momento. Talvez eu estivesse me sentindo cansada e afetada por ser frequente situações como aquela. Ou talvez eu só estivesse com ciúmes por vê-la tão próxima do tal Guto.
– Ok, amiga. Vamos esquecer isso! Bom, eu vou te deixar tomar banho e vou descer para me juntar a todos. Depois retiro as coisas da mala. – Renata me beijou o rosto e saiu do quarto.
Depois que minha amiga me deixou só, eu deitei e me permiti soltar algumas lágrimas. Eu não sabia mais o que fazer para aquela situação acabar. Já fazia alguns dias que vinha pensando sobre o assunto, e embora eu gostasse de Hanna, não sabia até quando seria capaz de aguentar aquele tipo de situação, aquele comportamento, e principalmente continuar escondendo nosso relacionamento.
Depois de alguns minutos resolvi tomar um banho que durou mais tempo do que eu esperava, era como se eu precisasse deixar aquela dor escoar junto com a água que passava pelo meu corpo. Eu precisava me sentir renovada antes de olhar nos olhos da garota que me fazia ir do céu ao inferno em questão de segundos. No entanto, para minha surpresa, quando sai do banho ela estava sentada na cama aparentemente me esperando. Sua expressão como sempre era autoritária, mas não recuei. Não daquela vez.
– O que está fazendo aqui? – Perguntei seca.
– O que está acontecendo com você? – Ela devolveu a pergunta me encarando com um olhar de acusação, o que me irritou ainda mais.
– Você tem problemas na cabeça, ou o quê? – Me exaltei. Minha paciência estava esgotada demais para medir palavras com Hanna naquele momento. – Como tem coragem de me olhar dessa maneira, me questionar com um tom de acusação como se eu estivesse errada? Aliás, como tem coragem de subir até aqui depois da humilhação que me fez passar na frente de todos? – Comecei caminhar pelo o quarto em um sinal claro de nervosismo. – Hanna, eu cheguei e você sequer foi me cumprimentar. Parecia estar ocupada demais com esse garoto que acabou de conhecer, e quando finalmente se aproximou de mim foi para mais uma vez me humilhar na frente de todos. O que você esperava que eu fizesse?
– Marcela, as coisas não são assim. Tudo bem, eu posso pegar um pouco pesado nas brincadeiras, mas você sabe que eu faço isso para que ninguém perceba...
Farta de ouvir a mesma coisa, interrompi a garota.
– PARA! Eu não aguento mais essas desculpas. Não aguento mais essa situação, não aguento mais fingir e mentir. Eu simplesmente não aguento mais. – Às lágrimas já escorriam pelos meus olhos sem que eu conseguisse contê-las.
– O que está querendo dizer com isso, Marcela?
Ela tentou se aproximar, mas recuei de qualquer contato. Nesse momento vi que ela se esforçou para segurar o choro, mas seus olhos lagrimejado a denunciaram.
– Estou querendo dizer que cansei, Hanna. Você tem que decidir, ou estamos juntas e assumimos isso que temos, ou simplesmente não posso seguir assim.
A garota a minha frente me encarava espantada e parecia tão perdida quanto eu estava, mas eu não poderia voltar atrás do que falei, eu tinha que seguir adiante por mais doloroso que fosse o final daquela história. Eu a queria, mas a queria inteira comigo.
– Você está falando sério? – Hanna parecia incrédula.
– Estou com cara de quem tá brincando?
Ela me analisou por algum tempo, até que suspirou pesado enquanto visivelmente vivia um conflito consigo mesma.
– Ok, me dá um pouco de tempo.
– Mais tempo? Já faz quase um ano, Hanna.
– Não é fácil para mim, Marcela. Eu sei que você conseguiu se assumir com facilidade. Sei que seus pais te apoiaram, e que você nunca se importou com os julgamentos das pessoas. Mas não somos iguais, tá legal? Cada pessoa tem seu tempo. Você sabe que não é fácil para me assumir minha sexualidade, Marcela.
– Do que você tem medo, Hanna?
– Minha família, é claro. Meus amigos, as pessoas…
– Sua família? Suas amigas? – Estreitei o olhar e ri com tristeza. – Já parou para se perguntar se seu medo realmente é esse, ou será que é você mesma que não se aceita do jeito que é? – Para minha tristeza, ela não respondeu minha pergunta. – Você tem o tempo que pediu, Hanna, mas até lá, até que decida o que quer, seremos apenas amigas.
– O quê? Você está terminando comigo? – Ela pareceu chocada.
– Eu estou te dando o tempo que precisa. Você realmente precisa descobrir o que é prioridade em sua vida. Se será sua felicidade, ou o que as pessoas pensam e dizem sobre você. Há, e por favor, contenha-se nas suas ofensas, pois caso contrário, fique certa que receberá uma resposta à altura. Não aceito mais suas humilhações, Hanna.
Novamente ela tentou se aproximar, e mais uma vez recuei. Por mais que me doesse, eu não podia deixar que Hanna continuasse com o controle daquela situação.
– Você pode me deixar sozinha, por favor?
Ainda atordoada por ser colocada contra parede, a garota apenas assentiu com a cabeça. Ela me encarou por mais alguns segundos, mas não voltou a investir. Hanna saiu do quarto em silêncio deixando uma sensação de vazio corroendo meu peito, mas eu sabia que precisava ser assim.
…
Depois daquela chegada movimentada, o restante do feriado estava correndo normalmente entre muitas brincadeiras e animação. Todos estavam se dando super bem naquele ambiente. Graças a Deus, eu e a Hanna agíamos naturalmente na presença uma da outra, sem nenhuma alfinetada ou brigas, e até conseguíamos conversar amigavelmente mesmo que o clima não fosse tão natural se comparado com as conversas que eu tinha com as demais.
A noite do dia 31 de dezembro estava chegando ao fim e todos estávamos animados na praia fazendo a contagem regressiva para o inicio do novo ano que logo iniciaria. Logo vimos um show de faíscas brilhantes e coloridas tomarem conta daquele céu escuro e estrelado, e com alegria nos abraçamos felicitando uns aos outros. Naquele momento éramos apenas um grupo de amigos felizes festejando um novo ciclo de vida que desejávamos viver juntos.
Senti uma mão delicada tocando a minha e, nesse momento meus olhos cruzaram com aqueles olhos verdes vibrantes da Hanna. Ela sorriu como uma feiticeira capaz de me domar, e sem muito pudor me puxou para nos afastarmos de onde todos estavam. Mesmo sabendo que era perigosa aquela aproximação, apenas me deixei ser levada por ela sem ao menos questionar para onde iríamos.
Seguíamos em silêncio pela areia da praia por um caminho desconhecido. O barulho das pessoas estava ficando cada vez mais distantes, dando espaço apenas ao som das ondas e do vento que nos abraçava. Depois de um tempo caminhando em silêncio e ainda de mãos dadas, paramos em frente a uma cabana que tinha uma vista linda do mar imenso a sua frente. Olhei para ela sem entender nada e então a vi sorrir lindamente.
– Bonito, não é?
– Muito! Mas como conhece isso aqui?
– Bom, outro dia estava caminhando de tarde quando passei por aqui e descobri esse lugar. No mesmo instante pensei que era o lugar ideal para te trazer. Pode não parecer, mas eu te conheço, Marcela. Sei do que você gosta, sei o que te deixa feliz. Eu tinha certeza que você iria gostar conhecer esse lugar.
Não tinha como dizer que aquelas palavras ditas por Hanna, aqueceram meu coração apaixonado. Ainda que eu estivesse magoada e triste por nossa situação, eu a amava e não negaria isso.
– É realmente muito bonito. Obrigada por me trazer. – Sorri para ela que pareceu relaxar.
– Senti falta do seu sorriso. – Ela disse e fez um afago em minha mão. – Vem, vamos entrar.
Fiz o que ela pediu e, quando entrei pude observar que o local estava preparado com algumas velas e um jantar que parecia ter sido colocado ali não há tanto tempo. Fiquei bestificada e sem compreender nada.
Antes que eu perguntasse algo, Hanna explicou:
– Digamos que eu tive uma ajudinha da nossa querida amiga Renata Albuquerque. – Sorridente, ela piscou o olho e foi impossível conter a surpresa ao ouvir aquilo.
Percebendo minha surpresa diante da afirmação, ela apenas sorriu.
– Você contou para ela? – Perguntei.
Ela concordou e um misto de felicidade e surpresa invadiu meu coração. Eu não esperava aquilo vindo dela.
– Eu não conseguiria fazer tudo isso sozinha, não é mesmo? – Seu olhar caiu sob o meu. – Você pode não acreditar Marcela, mas mesmo com esse meu jeito sem jeito, eu te amo. Quero poder te mostrar isso todos os dias da minha vida.
Se existia significado para a palavra felicidade, certamente era o que eu sentia naquele momento.
Permiti que Hanna encurtasse a distância entre nós, e me deixei levar pelas inúmeras sensações que seu beijo me provocava. Meu coração aquecia só de estar em seus braços, e não pude deixar de negar como naquela noite ela parecia cuidadosa como jamais esteve antes.
Curtimos a noite ali naquela cabana, só eu e ela. Sem brigas, sem clima tenso, sem receios… Nós jantamos, namoramos, conversamos e, pela primeira vez em nossa relação conturbada, fizemos amor ali mesmo em meio as almofadas que tinham sido improvisadas para decorar o ambiente.
Ter Hanna tão entregue para mim daquela maneira foi algo inexplicável, foi maravilhoso, e acima de tudo, foi mágico.
No dia seguinte olhei para o lado na esperança daquela noite não ter sido um sonho, e para minha completa felicidade ela ainda estava ali, completamente nua e adormecida ao meu lado, me trazendo flashes da noite maravilhosa que tivemos.
Acordei Hanna com beijos e carinho, pois apesar de querer passar o resto da vida ali com ela, eu sabia que precisávamos voltar para a casa onde estávamos hospedadas. Nossas amigas já deviam estar preocupadas, e provavelmente Micaela estava louca atrás da irmã.
Depois de muita relutância da mais nova, ela se deu por vencida e espantou a preguiça matinal. Nós voltamos para casa conversando animadamente sobre a noite anterior. Hanna me garantiu que estava decidida e que iria contar sobre nós para sua família assim que voltássemos para Fortaleza. Concordamos que por enquanto apenas Renata ficaria sabendo. Seria só mais uns dias até que finalmente eu pudesse mostrar ao mundo a mulher por quem meu coração batia forte.
Ao chegarmos em casa, obviamente fomos metralhadas por muitas perguntas, mas logo Renata tomou conta da situação dizendo que nós teríamos participado de uma festa e que avisamos a ela, mas que ela esqueceu de avisar aos outros sobre isso.
Apesar de não querer me afastar de Hanna, subi para tomar banho sentindo uma felicidade que não se continha dentro de mim. Quando sai do banho acabei deitando e pegando no sono. Quando acordei já era tarde, embora o sol que banhava o Nordeste ainda estivesse convidativo lá fora. Minha barriga roncou e só então percebi que ainda não tinha comido nada naquele dia, então rapidamente troquei de roupa e fui para cozinha. Notei que todos estavam na piscina, então comi meu sanduíche e em seguida fui para a área externa da casa sem saber que mais uma vez seria levada do céu ao inferno.
– Há, confessa pirralha. Você não dá uma chance para o Guto porque está apaixonada pela Marcela. Todo mundo percebe como seus olhos brilham quando estar com ela. Por que não assume isso de uma vez?
Como de costume, Robson parecia implicar com a cunhada enquanto estavam todos dentro da piscina. Eu não conseguia olhar nos olhos de Hanna porque ela estava de costas, porém somente sua voz gélida foi o suficiente para me fazer sentir a pior das dores que alguém pode provocar a outra pessoa.
– Claro que não, Robson. Eu não sei de onde vocês tiram um absurdo desses. Eu não gosto de mulher, ok? E mesmo que gostasse, jamais ficaria com a Marcela. Somos muito diferente, você não percebe isso? Ela é careta demais, irritante demais. Não faz o meu tipo! Na verdade, eu só convivo com ela, porque é amiga da Mica.
– Então prova! Beije o Guto.
Instigou Robson, parecendo não acreditar que ela aceitaria o desafio, mas para minha infelicidade, ela foi além daquelas palavras dolorosas.
Parecendo decidida não perder aquele desafio, assisti Hanna puxar o tal rapaz e em seguida o beijou sem pensar duas vezes.
A dor de assistir aquela cena era cortante, só não sabia se era pior do que a dor provocada pelas palavras que ouvi de Hanna.
Tentei juntar o pouco de dignidade que me restava e lutei para não permitir que nenhuma lágrima caísse dos meus olhos, não ali, não na frente dela. Ela não merecia ver nenhum sofrimento meu. Ela não merecia nada além da minha indiferença.
Dei mais alguns passos e só então tive minha presença notada. Todos olhavam espantados em minha direção certamente se perguntando até onde eu tinha ouvido. Ninguém ali parecia saber o que fazer ou dizer, especialmente Renata que parecia atordoada demais para conseguir organizar os próprios pensamentos.
De cabeça erguida, eu apenas me aproximei mais um pouco de onde estavam e então vi a garota soltar o menino rapidamente e olhar para trás em desespero quando finalmente falei:
– Pessoal, apenas queria me despedir de vocês. Estou voltando agora para Fortaleza, preciso organizar uma coisas antes de viajar para Portugal.
– Portugal? – Micaela foi a primeira a correr ao meu encontro. – Que história é essa?
– Vocês não sabiam, mas eu tinha recebido um proposta para fazer uma especialização em Portugal. Eu estava pensando em aceitar, mas como não tem nada que me prenda aqui no Brasil, não vejo porque prolongar a decisão.
Todos me olharam surpresos, espantados, confusos... Renata praticamente correu em minha direção, e Hanna então pareceu não saber como se conter. Ela nitidamente se desesperou com o que ouviu, mas não me importei. A mim, ela não enganaria mais. Eu teria caído em seu canto de sereia por duas vezes, mas a terceira não completaria. Hanna Prado não teria mais o poder de me ferir.
Sem dizer mais nada, dei um passo para trás e virei em direção à porta de entrada. Eu temia que se ficasse ali por mais algum tempo minha armadura iria cair e virar pedaços incontáveis.
Em passos apressados voltei para dentro da casa decidida a arrumar minhas coisas, mas então escuto ela gritando por mim.
– Marcela, espera. Por favor, nós precisamos conversar.
Seu desespero não me comovia nenhum pouco, muito pelo contrário, eu estava com tanto ódio que não me importei com nada e nem com ninguém, apenas me virei e permiti que minha dor fosse colocada para fora.
– O QUE VOCÊ AINDA QUER COMIGO, GAROTA? DEVERIA ESTAR FELIZ POR SABER QUE AGORA VOCÊ NÃO VAI PRECISAR ME ATURAR POR SER AMIGA DA SUA IRMÃ. ESTOU INDO PARA LONGE DE VOCÊ, HANNA. ESQUECE A NOITE QUE TIVEMOS ONTEM, ESQUECE TODO O TEMPO QUE NAMORAMOS EM SEGREDO, ESQUECE QUE UM DIA EU AMEI VOCÊ. ESQUECE QUE EU EXISTO, HANNA. PORQUE A PARTIR DESSE MOMENTO NÃO EXISTE MAIS LUGAR EM MINHA VIDA PARA VOCÊ. – O choro contido já não me permitiu controlá-lo por mais tempo. Eu me sentia ferida e exausta demais para lutar comigo mesma. – Esquece tudo Hanna, porque eu vou fazer questão de te esquecer.
Àquela altura todos já estavam a nossa volta e ouvindo cada palavra que falei, mas não me importei com nada, não me importei que soubessem que Hanna Prado era o sonho da minha vida que se tornou um pesadelo. Apenas queria sair dali, e foi isso que fiz. Sem olhar para trás a deixei chorando chamando por meu nome, e segui para arrumar minhas coisas e ir embora daquele lugar para nunca mais voltar.”
Flashback off
DIAS ATUAIS
Oito anos já haviam se passado desde que sai do Brasil. Muita coisa tinha mudado… Eu havia mudado. Hanna tinha extraído o meu melhor, mas também o meu pior eu. Para muitos, eu era uma mulher fria. Para outros, uma mulher solitária. Mas para mim mesma, eu havia me tornado uma mulher prática. Namoros? Jamais! Eu costumava viver a vida no momento, ou seja, trans*s casuais, envolvimentos breves e sem qualquer apego emocional. Compreendi que o amor fere muito mais do que acalenta, e não estava disposta a passar por tudo aquilo novamente.
Depois que eu sai do Brasil, retornei ao país poucas vezes e em todas elas fiz questão de não encontrar com Hanna. Minha especialização durou apenas dois anos, porém mesmo após finalizar aquele período, sempre arrumei um jeito de prolongar ainda mais minha estadia em Portugal e retardar meu retorno definitivo ao Brasil. Contudo, a pequena empresa de consultora e serviços ambientais que há anos atrás eu tinha aberto em sociedade com Renata, hoje era uma referência não apenas em Fortaleza, mas em cidades e Estados vizinhos. Por anos fugi de todas possibilidades de retorno ao meu país, mas agora aqui estava eu, arrumando as malas para voltar ao local do qual tanto fugi. Agora eu não podia apenas continuar auxiliando a distância, especialmente porque Renata resolveu que era hora de passar o comando da empresa para mim, já que ela pretendia se casar em poucos meses e precisava de tempo para organizar tudo. Agora, eu seria a nova presidente da MR serviços e consultorias ambientais. Eu precisava voltar!
Durante esses oito anos sempre ajudei nos serviços e administração da empresa, mas com um tempo, Micaela e Daniela assumiram os cargos de administração e marketing respectivamente, e isso me deu mais liberdade para ficar longe atuando apenas como vice-presidente e precisando ir poucas vezes ao Brasil. Não que eu fosse irresponsável, mas eu sabia que nossa empresa estava em boas mãos e eu não me sentia preparada para voltar. No entanto, agora era diferente e eu precisava aceitar isso. Renata sempre foi muito paciente com o tempo que precisei para superar tudo aquilo do passado, mas agora era minha vez de dar um tempo para que ela pudesse organizar seu casamento sem as preocupações que o trabalho trazia no dia a dia. Eu estava mais madura e sabia que não poderia fugir para sempre e, por mais que de fato eu não tivesse certa que tinha superado totalmente minha história com Hanna, em poucas horas eu estaria em solo brasileiro, com a certeza que cedo ou tarde eu teria que encarar meu passado.
Fim do capítulo
Olá!
Após anos afastada, que misto de sentimentos trago em meu coração com esse retorno, ainda mais por estar trazendo de volta um dos livros mais queridos por vocês em uma época não tão distante.
A volta do amor que nunca se foi, foi lançado nesta plataforma em 2019. Assim como os demais de minha autoria, aqui ele permaneceu por muito tempo, sendo retirado em seguida. E hoje, venho trazendo novamente essa história com a esperança que transborde em nostalgia para aquelas que já conhecem, mas também que aqueça o coração daquelas que venham ler pela primeira vez.
Desejo a todas que seja um período de divertimento, e uma boa leitura.
Abraços e até logo!
Pris Kelly
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priskelly Em: 04/05/2026 Autora da história
Lea, minha querida. Tão bom te ver por aqui ??
Espero que esteja gostando dessa nova versão.
Bjus!