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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 2831
Acessos: 322   |  Postado em: 03/05/2026

Capitulo 11

 

Alguns dias se passaram, o ambiente estava escuro. A única luz vinha de três monitores ligados, refletindo códigos e linhas de dados que se atualizavam em tempo real. No centro da tela, relatórios financeiros, acessos internos e movimentações da auditoria do Grupo Bastos.

O nome de Amanda Bastos aparecia repetidamente em Logs de acesso ao sistema. Cada vez mais próximo da verdade.

Uma notificação silenciosa surgiu.

AUDITORIA INTERNA — NÍVEL DE ACESSO EXPANDIDO.

Por alguns segundos… ninguém digitou. Então uma mensagem foi enviada.

Ela está chegando perto.

Pausa. 

Outra linha apareceu logo abaixo.

A auditoria encontrou mais do que deveria.

Silêncio.

O cursor piscou algumas vezes antes da resposta surgir na tela.

Então está na hora de agir.

Mais alguns segundos. A última mensagem apareceu, fria e objetiva:

Aproveitem o momento. Sem erros.

A tela escureceu.

E, naquela mesma manhã…

Fernanda ainda não fazia ideia de que, enquanto corria atrás de respostas…

alguém já havia decidido transformar Amanda no próximo alvo.

Fernanda, que havia mergulhado na investigação com ainda mais rigor, cruzava dados, revisitava depoimentos, reabria linhas que já haviam sido consideradas secundárias. Tentou, de forma quase disciplinar, manter distância emocional — menos mensagens, menos presença, mais foco.

Não funcionou. Amanda estava em tudo.

Nos silêncios entre uma análise e outra. Nas pausas do café que esfriava na mesa. Naquela sensação incômoda de que, se algo desse errado… ela saberia antes mesmo de ter provas.

E foi justamente o excesso de atenção aos detalhes que começou a incomodar.

Marcelo estava colaborativo demais. Transparente… no limite do conveniente.

Já Elias…

Elias estava quieto, discretamente ausente em decisões importantes. Presente apenas quando precisava validar algo… e sempre com respostas prontas demais.

Mas o ponto de virada veio nos dados. Um cruzamento simples, quase banal: horários de acesso interno da empresa com movimentações financeiras suspeitas que já estavam sob análise. Dois nomes apareciam, repetidamente, em janelas críticas. Não como executores diretos, mas sempre… próximos o suficiente.

Marcelo Fuentes.
Elias Vargas da Silva.

Não era prova, mas era um padrão e padrão… nunca é coincidência.

Fernanda não acreditava em timing perfeito, mas confiava em seu instinto — e, naquele dia, o instinto a fez acelerar.

Ela estava a caminho da empresa naquela manhã, com um objetivo claro: confrontar Elias Vargas da Silva e Marcelo Fuentes separadamente. As peças já não se encaixavam como antes — e algo nos padrões recentes indicava urgência. Mas, ao se aproximar do prédio, algo chamou sua atenção.

Não era visível à primeira vista. Um carro preto, com vidros fumês parado por tempo demais. Dois homens próximos à entrada, sem uniforme ou identificação — atentos demais para serem apenas seguranças. Fernanda reduziu a velocidade, estacionou e observou. Então viu Amanda saindo do carro para entrar no prédio, sozinha.

A abordagem foi rápida e profissional. Um dos homens avançou primeiro, segurando o braço de Amanda com força controlada. O outro abriu a porta traseira do carro, sem tempo para gritos ou alarde. Seria algo limpo, se não fosse Amanda reagir. Foi instintivo, no desespero, mas com precisão. Girou o corpo, tentou se soltar, atingiu o primeiro homem no estômago com o cotovelo, com isso acabou ganhando segundos, sendo suficiente para Fernanda agir.

Fernanda já estava fora do carro antes mesmo deles perceberem.

— Solta ela!

A voz cortou o ar, com autoridade pura. O segundo homem hesitou. Fernanda avançou sem dar espaço com um movimento rápido e calculado — neutralizou o primeiro agressor com um golpe preciso, deslocando-o do equilíbrio. O segundo tentou reagir, mas já estava atrasado, ela conseguiu atingi-lo com um chute no meio do peito, fazendo com que recuasse e fosse em direção ao outro comparsa para fugirem do local. Entraram no carro e desapareceram antes que qualquer reforço chegasse.

Fernanda percebe que Amanda está com a respiração acelerada, querendo entrar em pânico.

— Você está bem? — perguntou Fernanda, aproximando-se.

Amanda assentiu.

Mas não respondeu de imediato.

Os olhos ainda fixos na direção em que o carro havia sumido.

— Isso não foi um aviso… — disse, por fim.

— Não.

— Foi um pedido de execução.

Fernanda concordou.

— Eles vieram para te levar.

Silêncio.

Amanda virou-se para ela, os olhos marejados, as mãos trêmulas, ela não sabia o que fazer. Sem perceber acabou dando um passo à frente e abraçou Fernanda.

Fernanda hesitou por um segundo, elas estavam na rua, na frente de várias pessoas, mas então, correspondeu ao abraço.

 

Mais tarde, depois de deixar Amanda em segurança, Fernanda revisava mentalmente tudo, a tentativa de sequestro e a atitude de Amanda, mudava completamente o eixo da investigação. Amanda deixava de ser apenas suspeita e passava a ser um novo alvo e isso, somado às evidências anteriores, quebrava a hipótese.

Fernanda escreveu no caderno:

AMANDA — NÃO É AUTORA. POSSÍVEL VÍTIMA COLATERAL.

 

Naquela manhã Amanda não conseguiu se concentrar, claro que o fato da tentativa de sequestro era algo que a deixava nervosa, mas a reação de Fernanda, no momento certo, acabou livrando-a de algo ruim. Uma ideia ficava martelando em sua cabeça, ela precisava agradece-la, afinal estava sã e salva graças a ela, decidiu ligar, Fernanda atende no 2º toque.

— Olá senhora problema, aconteceu alguma coisa?

—Pensei bem e acho que devia agradecer melhor você — disse Amanda.

— Capaz, não precisa, só fiz o meu trabalho.

Amanda suspira.

— Eu sei, mas mesmo assim… eu quero.

Silêncio breve.

— Jantar. Hoje à noite. Sem investigação.

Fernanda considerou por um segundo.

— Isso parece uma má ideia.

Amanda sorriu de leve.

— Provavelmente é.

— E mesmo assim você vai insistir?

— Com certeza.

Fernanda pareceu pensar e responde.

— Que horas?

— Às 20hs, lá em casa, vou pedir para a Arminda cozinhar algo para nós.

— Ok. — Responde Fernanda.

 

A Casa de Vidro, estava ficando diferente, menos imponente mais… íntima. Amanda preparou tudo com cuidado — não como anfitriã de negócios, mas como alguém tentando criar um espaço que nunca teve ali. Nada de formalidade excessiva. Apenas… real e Fernanda percebeu assim que Arminda abriu a porta.

— Nossa Arminda, está nem parece a mesma casa — comentou, entrando.

— Talvez nunca tenha sido, investigadora — respondeu Amanda.

O jantar foi leve.

Inesperadamente leve.

— Então você chegou a invadir sistemas antes de ser investigadora? — perguntou Amanda, com um leve sorriso.

Fernanda arqueou a sobrancelha.

— Isso é uma acusação?

— É curiosidade.

— Digamos que eu entendia mais de sistemas do que deveria.

Amanda riu baixo.

— Eu sabia.

— E você? Sempre foi a melhor da turma?

Amanda fez uma expressão pensativa.

— Não, mas eu odiava perder, então...

Fernanda sorriu de canto.

— Isso explica muita coisa.

Elas acabaram conversando sobre tudo, menos sobre o caso. Falaram sobre o interior do Rio Grande do Sul, sobre o vento frio nas manhãs cedo, sobre ruas pequenas onde todo mundo sabia o nome de todo mundo — e como Amanda, mesmo sentindo saudade, nunca mais conseguiu pertencer àquele lugar depois que saiu. Também falou de São Paulo, da correria, dos erros que não teria coragem de repetir… e dos acertos que vieram sem aviso. Fernanda ouviu tudo com atenção genuína e, quando falou de si, foi mais do que Amanda esperava. Ela falou da família que morava em Ribeirão Preto, do fato que sua transferência para a capital a fez ficar mais distante deles e o que Amanda percebeu foi um tom mais leve do que o olhar deixava transparecer, falou também do início na polícia — duro, cheio de portas fechadas — e de como precisou aprender a ser mais firme do que gostaria, falou também que logo estaria fazendo o curso para delegada, de alguns relacionamentos que não deram certo devido a sua carreira, e claro, ela não podia deixar de falar dele, o Bóris.

— Ele acha que manda em mim — disse, com um meio sorriso.

— E manda? — perguntou Amanda, divertida.

Fernanda deu de ombros.

— Às vezes.

Amanda riu e aquele riso… ficou.

Depois da sobremesa, se acomodaram lado a lado no sofá, próximas o suficiente para sentir o calor uma da outra, mas ainda sem se tocar completamente. Amanda pediu para Alexa tocar Adele, a música preencheu o ambiente com uma melancolia suave, quase íntima.

— Hoje… foi diferente — disse Amanda, mais baixo, quase como se estivesse pensando em voz alta.

Fernanda assentiu, sem tirar os olhos dela.

— Foi.

O silêncio que veio não era vazio, era carregado, cheio de tudo que ainda não tinha sido dito. O olhar se manteve. Demorou mais do que o normal, mas tempo suficiente para perceber, decidir. Amanda foi a primeira a se mover. Virou o corpo lentamente na direção de Fernanda, como se cada gesto tivesse peso, como se aquele momento merecesse ser sentido inteiro. Fernanda não se afastou, mas também não avançou, ela queria que partisse de Amanda.

Quando Amanda se aproximou, a respiração das duas já não estava no mesmo ritmo. O beijo começou suave, os lábios encostando com cuidado, como se testassem o terreno… como se quisessem confirmar que aquilo ainda era permitido, mas não ficou assim por muito tempo. Amanda aprofundou primeiro, com delicadeza, mas sem hesitação e Fernanda respondeu na mesma medida — ajustando o ângulo, aproximando ainda mais o corpo, deixando que o contato se tornasse mais firme. As mãos de Amanda encontraram o braço de Fernanda, deslizando lentamente até o ombro, onde ficaram por um instante — como se precisassem de apoio ou de coragem. Fernanda levou a mão até a lateral do rosto de Amanda, o toque foi quente, seguro. O polegar roçando de leve a pele, quase distraído…, mas suficiente para fazer Amanda suspirar contra os lábios dela. O beijo ganhou ritmo. As pausas entre um movimento e outro ficaram mais curtas, como se nenhuma das duas quisesse realmente se afastar. A respiração já não acompanhava, se misturava. Amanda se inclinou um pouco mais, diminuindo ainda mais a distância, seu corpo encostando no de Fernanda com naturalidade. Havia desejo entre elas. Quando se afastaram, foi devagar. Como se nenhuma das duas quisesse quebrar completamente o momento. A testa de Amanda quase encostou na de Fernanda por um segundo. Respirações ainda próximas, quentes e descompassadas e naquele instante havia só duas pessoas ali, se permitindo sentir.

Amanda se afastou primeiro, ainda sorrindo, como quem sabia exatamente o efeito que tinha causado.

— A gente devia… parar por aqui hoje.

Fernanda soltou um pequeno riso, passando a mão pela nuca, visivelmente um pouco sem saber onde colocar as mãos agora.

— É… eu estava pensando exatamente isso.

— Ah, estava?

— Não — respondeu, sincera — mas parece uma decisão inteligente.

Amanda riu.

— Investigadora prudente hein.

Fernanda levantou e deu um passo em direção à porta, ainda meio encabulada, mas com um sorriso que não conseguia esconder.

— A gente continua isso… em outro momento.

Amanda cruzou os braços, divertida.

— Com planejamento?

Fernanda abriu a porta, olhando para trás.

— Definitivamente sem planejamento.

— Melhor ainda.

E, antes de sair, Fernanda completou:

— Boa noite, Sra problema.

— Boa noite… investigadora.

 

Os próximos dias da semana passaram correndo, enquanto Amanda analisava os relatórios da Auditoria, realizava algumas mudanças na empresa e participava de centenas de reuniões, Fernanda investigava, olhava as provas e tentava encontrar pistas para o caso, mas à noite o momento era delas, trocavam mensagens, ficavam horas conversando, assunto nunca era problema. Nestes dias, a tensão entre elas mudou, do suspense inicial com um assassinato no meio, para algo mais leve e casual.

Na sexta à noite, foi Fernanda quem sugeriu.

— Você precisa sair dessa casa — disse, quase como uma ordem disfarçada.

— Eu saio — respondeu Amanda.

— Não. Trabalho não conta, é diferente.

Amanda estreitou os olhos, divertida.

— E o que você sugere, investigadora?

Fernanda pensou por um segundo.

— Parque Ibirapuera, amanhã. Sem glamour. Sem imprensa. Sem empresa.

— Um encontro?

Fernanda hesitou um pouco.

— Um… piquenique operacional.

Amanda riu.

— Nossa, que romântico.

— Eu estou tentando me esforçar aqui, o que acha?

— Até que você está indo bem.

O sábado chegou mais leve do que Amanda imaginava, o Parque Ibirapuera estava vivo — gente caminhando, crianças correndo, o som distante de música e conversas se misturando ao vento nas árvores. Nada ali exigia postura ou cobrava perfeição. Fernanda já estava sentada na grama quando Amanda chegou, calça jeans, camiseta simples, óculos escuros, despretensiosa e ainda assim… impossível de não notar.

— Você trouxe comida? — perguntou Amanda, sentando ao lado.

— Eu trouxe o básico.

Amanda olhou a sacola.

— Sanduíche, fruta… e isso é… biscoito?

— Gourmet não era o objetivo.

— Eu estou impressionada.

Fernanda deu de ombros.

— Eu sou cheia de surpresas.

— Percebi. — Elas riram juntas.

Comeram ali mesmo, sentadas na grama, dividindo coisas simples. Rindo de pequenas bobagens. Em algum momento, a conversa diminuiu, não por falta de assunto, mas porque o silêncio… era suficiente. Amanda se deitou na grama, olhando o céu. Fernanda fez o mesmo, ao lado. Os braços quase se tocando, até que Amanda, sem olhar, encostou de leve a mão na dela, Fernanda sentiu a eletricidade passar pelos dedos, o coração até errou uma batida, ela não se moveu, somente virou a palma e entrelaçou os dedos. Eram pequenos gestos, mas que diziam muito.

Foi então que, ao longe, o som brusco de pneus arrastando no asfalto cortou o ambiente. Amanda se enrijeceu no mesmo instante. O corpo travou antes mesmo que ela percebesse. Os dedos apertaram os de Fernanda com força demais e sua respiração perdeu o ritmo por um segundo.

Fernanda virou o rosto imediatamente. Não perguntou o que houve. Com cuidado, apertou de volta a mão de Amanda e aproximou um pouco mais o corpo.

— Ei… — disse baixo, firme. — Olha pra mim.

Amanda demorou um segundo, mas obedeceu. Fernanda sustentou o olhar com calma.

— Você está aqui.

Pausa.

— E ninguém vai encostar em você.

A respiração de Amanda ainda estava irregular, mas, aos poucos, começou a desacelerar. O aperto nos dedos diminuiu. O olhar, antes perdido, voltou a encontrar o dela.

— Desculpa... — Amanda murmurou, quase irritada consigo mesma.

Fernanda balançou a cabeça, sem soltar sua mão.

— Não me pede desculpa por isso.

O silêncio que veio depois foi diferente, mais íntimo e honesto.

Mais tarde, caminharam sem rumo pelo parque. Amanda observando tudo como se estivesse redescobrindo o mundo… e Fernanda observando Amanda com atenção demais para fingir que era só costume profissional.

— Você fica diferente aqui — comentou Fernanda.

— Melhor ou pior?

— Mais leve.

Amanda sorriu.

— Eu gosto dessa versão.

— Eu também.

O sol começou a se pôr devagar, a luz ficando dourada, suave, o tipo de momento que não precisa de legenda.

— Minha casa é mais perto do que a sua daqui — disse Fernanda, casualmente.

Amanda ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi um convite?

Fernanda deu um meio sorriso.

— Foi. Mas principalmente porque você precisa conhecer o Bóris.

— Este é o seu argumento?

— Ele é importante.

— Eu estou com medo de não ser aprovada.

— Olha, ele é muito criterioso.

— Ótimo, vou querer correr este risco.

Amanda ainda segurava a mão de Fernanda enquanto caminhavam em direção ao estacionamento. Nenhuma das duas parecia com pressa. Fernanda destravou o carro à distância e abriu a porta para Amanda com uma naturalidade que fez as duas perceberem… e ignorarem ao mesmo tempo.

Já dentro do carro, Amanda colocou o cinto e olhou de lado.

— Então… esse Bóris realmente manda em você?

Fernanda ligou o carro e saiu com calma do estacionamento.

— Eu prefiro o termo “liderança compartilhada”.

Amanda sorriu de canto.

— Confesso que eu ainda não decidi se “Sra. Problema” é um apelido… ou uma ameaça.

Fernanda lançou um olhar rápido para ela.

— Depende do quanto você pretende continuar complicando a minha vida.

Amanda apoiou o braço na janela, olhando a rua.

— Então definitivamente é apelido.

Fernanda manteve os olhos na rua, mas o sorriso apareceu.

— O problema…

Pausa.

— É que eu não estou exatamente reclamando.

Amanda apoiou o braço na janela, tentando esconder o próprio sorriso.

— Confesso que estou mais nervosa em conhecer seu gato do que quando fui interrogada.

Fernanda riu pelo nariz.

— Isso é bom. Significa que você tem senso de prioridade.

Amanda virou o rosto para ela. Ficou olhando alguns segundos mais do que deveria.

— E você? Está nervosa?

Fernanda segurou o volante com uma das mãos, sem desviar os olhos da rua.

— Com o Bóris… ou com você?

Amanda sorriu.

— Acho que você acabou de responder.

Fernanda não respondeu, mas o canto da boca entregou.

E, enquanto a cidade corria do lado de fora, pela primeira vez em semanas…

nenhuma das duas parecia preocupada com o próximo problema, pelo menos… não até chegarem em casa.

 

Fim do capítulo


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