Capitulo 10
A ameaça física contra Amanda veio na manhã seguinte. Muito mais direta e agressiva que um simples recado. Amanda ligou o carro na garagem da Casa de Vidro e, segundos depois, um alerta no painel.
Falha no sistema.
O som veio seco, eletrônico demais para ser ignorado. No mesmo instante, a direção endureceu sob suas mãos. Não foi brusco — foi pior. Progressivo. Como algo sendo retirado aos poucos. Os freios responderam com um atraso mínimo, quase imperceptível para alguém comum, mas Amanda não era comum.
Seu corpo reagiu antes mesmo do pensamento se formar por completo. O pé saiu do acelerador, a mão firme no volante tentando entender o comportamento do carro, enquanto sua mente fazia o cálculo rápido:
Isso não é falha. Desligou o carro imediatamente.
O silêncio que veio depois foi denso.
Ela permaneceu parada por um segundo a mais, ainda com as mãos no volante, sentindo o próprio pulso desacelerar à força. Não havia pânico. Havia compreensão.
Saiu do veículo.
— Chama o segurança — disse, sem elevar o tom.
Horas depois, o diagnóstico:
— Alguém mexeu no sistema eletrônico do carro. — disse o técnico. — Não foi falha. Foi intervenção.
Amanda não demonstrou reação, mas a mensagem era clara.
Agora era físico.
Fernanda chegou antes mesmo de ser chamada — na verdade, nem havia sido. Desde o último encontro, o beijo, as mensagens trocadas e o episódio de ciúmes que ainda não tinha admitido nem para si mesma e as imagens de Amanda entrando no escritório minutos antes da morte de Eduardo, estavam deixando-a com uma inquietação persistente. Somada ao histórico recente de ameaças, foi o suficiente para levá-la até a Casa de Vidro antes mesmo de seguir para a delegacia. Ao chegar, encontrou uma movimentação fora do padrão: funcionários tensos, seguranças em alerta. Bastou um olhar mais atento para entender que algo havia acontecido.
Tomou ciência do ocorrido rapidamente.
— Isso muda o nível — disse, direta.
Mas o olhar dela já dizia que sabia exatamente o quanto.
— Eu percebi — respondeu Amanda.
— Você não pode continuar sozinha nisso.
Amanda cruzou os braços.
— E o que quer que eu faça?
O olhar entre elas sustentou algo não dito, mas Fernanda desviou primeiro, tentando se reorganizar dentro do papel que precisava manter.
— Vou solicitar proteção.
— Não.
A resposta veio imediata.
— Amanda!?
Dessa vez, havia mais do que insistência na voz de Fernanda. Havia tensão.
— Não quero polícia na minha rotina, Fernanda. Isso vira espetáculo.
— Já virou.
Silêncio.
Fernanda deu um passo à frente.
— Você quase sofreu um acidente. Isso não é aviso, é execução mal calculada.
Amanda respirou fundo.
— Eu preciso continuar. Se eu parar agora… eles vencem.
Fernanda se aproximou mais, firme.
— E se você continuar, pode não ter próxima etapa.
A frase saiu mais rápida do que deveria, mais carregada também e Amanda percebeu.
Aproximou-se um pouco.
— Você está deixando isso pessoal — disse.
Fernanda travou o olhar.
Por um segundo… longo demais.
— Eu estou fazendo meu trabalho.
— Não está investigadora.
Silêncio.
— Você está envolvida — completou Amanda com um meio sorriso.
Porque apesar dos sentimentos serem novos e confusos, Amanda começava a gostar de tudo isso.
Fernanda não respondeu de imediato, porque não havia resposta que fosse totalmente verdadeira — ou totalmente segura.
— Isso não pode interferir — disse, por fim.
Amanda inclinou levemente a cabeça.
— Já interferiu.
O silêncio que se seguiu foi diferente, muito mais consciente e próximo.
— Vem, eu te deixo na empresa e depois vou para a Delegacia. — Desta vez Amanda não retrucou, aceitou, esta luta já estava perdida.
O caminho até a empresa aconteceu em silêncio por tempo demais para ser casual. Amanda observava a cidade pela janela, postura firme, como se o simples ato de manter os olhos para fora fosse suficiente para evitar qualquer conversa mais perigosa. Fernanda mantinha as duas mãos no volante, mas a atenção estava longe de ser apenas no trânsito.
— Você vai continuar fingindo? — perguntou, sem desviar os olhos da pista.
Amanda demorou um segundo.
— Não sei do que você está falando.
Fernanda soltou um ar curto pelo nariz.
— As câmeras da Casa de Vidro, eu vi as imagens do corredor.
Silêncio.
Amanda não respondeu.
— Você entrou no escritório do Eduardo minutos antes dele morrer — continuou Fernanda, agora mais baixo. — E isso não apareceu em nenhum depoimento.
Amanda manteve o olhar fixo para fora.
— Investigadora—
— Não faz isso.
A resposta veio rápida demais.
Amanda finalmente virou o rosto.
— Fazer o quê?
Fernanda parou no semáforo e, pela primeira vez desde que começaram a conversa, olhou diretamente para ela.
— Me responder como investigadora quando você sabe que não é só isso.
O silêncio dentro do carro ficou mais pesado. Amanda sustentou o olhar por alguns segundos… antes de desviar primeiro.
— Eu não matei o Eduardo.
Fernanda voltou os olhos para a rua.
— Não foi isso que eu perguntei.
Amanda fechou os olhos por um instante, como se estivesse decidindo entre continuar mentindo… ou ceder.
Quando falou, a voz saiu mais baixa.
— Antes do jantar, eu pedi a separação.
Fernanda não disse nada.
Amanda continuou:
— Ele não aceitou. Disse que, se eu saísse, faria questão de me destruir.
A mão de Fernanda apertou o volante com mais força.
— O que você foi fazer no escritório?
Amanda respirou fundo.
— Buscar algumas coisas.
— Que coisas?
Pausa. Amanda hesitou.
— Documentos. Alguns registros. Coisas que... eu precisava para garantir a minha segurança.
Fernanda não interrompeu.
— Eduardo mantinha certas informações sob controle. Senhas, acessos, documentos... — Amanda engoliu seco. — Se eu fosse sair daquele casamento, precisava ter uma forma de me proteger.
O carro desacelerou em frente à empresa. Nenhuma das duas falou por alguns segundos. Fernanda desligou o motor, mas não destravou as portas. Ficou apenas olhando para frente. Parte dela sentia o peso daquela resposta finalmente encaixando algo que estava errado desde o início.
A outra parte…
continuava fazendo perguntas. Porque Amanda tinha explicado o motivo, mas não apagado a mentira.
Fernanda finalmente virou o rosto.
— Isso explica por que você entrou.
Pausa.
— Mas ainda não explica por que você escolheu esconder isso de mim.
Amanda sustentou o olhar.
— Porque confiar em alguém... nunca foi exatamente uma coisa simples pra mim.
O silêncio entre as duas mudou de forma. Não mais acusação. Não totalmente confiança. Algo perigosamente no meio.
Fernanda destravou as portas.
— Vai trabalhar, Amanda.
Amanda segurou a maçaneta, mas antes de sair, olhou para ela mais uma vez.
— Você acredita em mim?
Fernanda demorou um segundo a mais do que gostaria.
— Eu acredito que você está me dizendo a verdade.
Pausa.
O olhar dela endureceu só um pouco.
— Só ainda não sei se está me contando tudo.
Amanda saiu sem responder.
E desta forma, Fernanda percebeu que o problema talvez não fosse Amanda estar mentindo.
O problema...
era o quanto ela queria acreditar nela.
Já na empresa, Amanda analisava um conjunto de contratos vinculados a “consultorias estratégicas”. Valores altos, destinos vagos, nomes genéricos demais para quem movimentava cifras daquele porte. No início, parecia apenas mais uma estrutura corporativa inflada — comum em empresas grandes. Mas, ao cruzar as informações com outros registros internos, algo não fechava.
Ela ampliou a tela, puxou mais dados, conectou pontos.
Os contratos não entregavam serviços claros, mas estavam ligados a sistemas que coletavam comportamento em larga escala. Não era sobre vender algo — era sobre entender pessoas e seus comportamentos.
E para o seu espanto, não só entender, influenciar.
Amanda franziu levemente a testa, relendo uma linha específica. Aquilo não falava em campanhas. Falava em ajustes. Direcionamento. Respostas previstas… sendo conduzidas.
Ela recostou devagar na cadeira.
— Isso é maior do que eu pensei…
Não era só análise de dados. Era manipulação. As pessoas achavam que estavam decidindo por conta própria, mas na verdade alguém estava empurrando essas decisões, milimetricamente, sem que percebessem.
Eduardo não estava apenas lendo o mundo, ele estava moldando.
E alguém — talvez mais de um — precisava que aquilo continuasse funcionando.
O silêncio do escritório pareceu mais pesado depois disso. Amanda passou a mão no rosto, tentando organizar a sequência dos acontecimentos. A morte. A ameaça. O carro sabotado. Agora isso.
Não eram eventos isolados., era um sistema reagindo e ela estava no meio deste furacão.
Naquela noite, Amanda não sustentou mais o papel de viúva perfeita. Sentada na sala da Casa de Vidro, sem telas, sem postura corporativa, sem ninguém assistindo… ela parecia menor. Não fraca — mas cansada de sustentar tudo.
O silêncio da casa agora não era confortável, denso.
Ela nem percebeu o momento exato em que alguém parou na entrada.
Fernanda.
Mas, dessa vez, diferente de todas as outras… ela não entrou de imediato, ficou ali, por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse reconsiderando.
Como se, pela primeira vez… não tivesse um motivo claro para estar ali. Ela passou a mão pela nuca, respirou baixo.
— Ótimo — murmurou para si mesma. — Invadir a casa da principal suspeita sem motivo profissional. Excelente plano, Vasconcellos.
Mesmo assim… entrou. Amanda levantou levemente o olhar ao perceber a presença. Não se assustou, talvez já estivesse esperando.
— Você devia descansar — disse Fernanda, tentando soar natural demais… e falhando um pouco.
Amanda soltou um riso baixo.
— Você sempre entra assim ou hoje é um caso especial?
Fernanda cruzou os braços, encostando levemente na parede.
— Hoje eu… — pausou, claramente sem uma resposta pronta — estava passando por perto.
Amanda arqueou uma sobrancelha, divertida, apesar do cansaço.
— À noite. Na minha casa.
Pequena pausa.
— Conveniente.
Fernanda soltou um sopro pelo nariz.
— Eu posso inventar uma justificativa melhor, se você quiser.
— Não precisa — respondeu Amanda, mais suave. — Essa já foi interessante o suficiente.
O silêncio que veio depois não era desconfortável, era… leve. Pela primeira vez.
Fernanda se aproximou um pouco mais.
— O carro… a auditoria… isso não vai parar... É... estou preocupada.
Amanda assentiu.
— Eu sei.
— E mesmo assim você continua seguindo em frente?
— Eu preciso.
Pausa.
— Eu não posso sair disso sendo só… a esposa viúva?
A frase ficou no ar, mais pesada do que qualquer outra.
Fernanda parou à frente dela.
— Mas você nunca foi apenas isso, a esposa.
Amanda levantou o olhar.
E, ali, algo mudou de novo — mais consciente, mais exposto.
— Então por que ainda parece que estou presa nisso? — perguntou, mais baixo.
Fernanda respondeu sem hesitar:
— Porque você ainda está no meio de tudo.
Silêncio.
Amanda deu um passo à frente.
— E você? — perguntou — Também está no meio?
Fernanda sustentou o olhar, dessa vez… sem recuar.
— Estou.
E dessa vez, não era só sobre o caso e as duas sabiam.
O segundo beijo foi diferente.
Mais lento no início, como se ambas soubessem exatamente o que estavam fazendo — e, ao mesmo tempo, quisessem prolongar cada segundo. Amanda inclinou o rosto com mais segurança dessa vez, os lábios encontrando os de Fernanda com uma precisão quase provocativa. Não havia mais dúvida, só vontade.
Mas houve um instante, mínimo, quase invisível, em que Fernanda hesitou. Não o suficiente para parar. Só o suficiente para saber que estava cruzando uma linha. E ainda assim… não recuou.
Mas, ao se afastarem para recuperar o fôlego, a realidade voltou com força. Como um choque frio.
Amanda respirou fundo, os olhos ainda presos aos de Fernanda, como se parte dela resistisse a sair dali.
— Isso… complica — disse, com um meio sorriso que tentava aliviar o peso.
Fernanda assentiu, ainda próxima demais para parecer totalmente racional.
— Muito.
Amanda soltou um pequeno riso, quase sem humor.
— Eu devia ter previsto isso.
Fernanda arqueou levemente a sobrancelha.
— Previsto o que exatamente?
Amanda sustentou o olhar.
— Que você seria um problema.
Fernanda deu um passo mínimo para trás, mas o sorriso permaneceu.
— Ah, então eu sou o problema? — perguntou, com a ironia habitual. — Interessante... passei dias investigando um homicídio e, no fim, descobri que o caso era eu.
Por um segundo, Amanda quase sorriu.
— Não com esse nível de detalhe.
Pausa.
O ar ainda carregado.
— E não muda o fato de que eu ainda sou suspeita — completou Amanda, agora mais séria.
— Não, ainda não. — A resposta veio mais baixa dessa vez.
Silêncio.
— E você ainda precisa me investigar.
Fernanda respirou fundo, agora voltando, pouco a pouco, ao próprio eixo.
— Sim.
Mas havia algo diferente, porquê dessa vez, quando se afastou… ela não levou só dúvidas profissionais, levou embora a vontade de ficar e isso não cabia em nenhum relatório.
No caminho de volta, o silêncio dentro do carro não trouxe clareza — trouxe verdade. Fernanda manteve os olhos na estrada, mas a mente não acompanhava. Em algum ponto entre a Casa de Vidro e a cidade, ficou evidente: o problema já não era apenas resolver o caso.
Era Amanda.
Era a forma como sua presença permanecia, mesmo na ausência. O jeito como desmontava seu raciocínio lógico sem esforço. O fato incômodo — e impossível de ignorar — de que ela queria estar perto. Fernanda apertou levemente o volante, como se aquele gesto pudesse reorganizar algo que já tinha saído do lugar.
Aquilo não podia se prolongar, não daquele jeito. Ela precisava de uma linha de corte. E, pela primeira vez, essa linha não vinha da investigação — vinha dela mesma.
Resolve o caso.
A decisão se formou sem dramatização, mas com peso. Resolver tudo, expor o que estivesse escondido, encerrar o que precisava ser encerrado. Só então… ela teria espaço para escolher ficar ou ir embora de vez. Sem meio-termo. Sem zonas cinzentas.
Só que no fundo — e isso foi o que mais incomodou —
ela já sabia qual escolha queria fazer.
Fim do capítulo
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