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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 2632
Acessos: 376   |  Postado em: 03/05/2026

Capitulo 9

 

Amanda não conseguiu mais trabalhar naquele dia depois que Fernanda foi embora. Permaneceu no escritório, mas não produziu. As telas continuavam acesas, linhas de código abertas, logs esperando análise — tudo no lugar, funcionando, estável. Menos ela.

Havia um descompasso incômodo entre o ambiente e o que acontecia dentro dela.

Sua mente não estava ali. Voltava, repetidamente, ao momento que as duas haviam vivido minutos antes — não como uma lembrança linear, mas fragmentada: o gesto, a quebra de controle, a proximidade inesperada, o cheiro que ainda parecia impregnado na roupa, o gosto que insistia em não desaparecer.

Amanda fechou os olhos por um instante, como se isso fosse suficiente para interromper o fluxo. Não era.

Justo ela.

A constatação veio carregada de um peso silencioso. Sempre soube manter limites. Sempre soube exatamente até onde ir, quando recuar, como preservar distância. Era um tipo de controle que não exigia esforço — fazia parte dela.

Ou, pelo menos, fazia.

Com Eduardo, isso havia deixado de ser escolha e se tornado mecanismo. Sentir demais exigia cálculo. Reagir exigia contenção. E, com o tempo, ela aprendeu a reduzir, filtrar, ajustar. Não por fraqueza — por sobrevivência.

Agora, ali, nada daquilo parecia funcionar da mesma forma. Porque com Fernanda… os limites não estavam claros. E isso não era apenas desconfortável, era perigoso.

Muito mais do que qualquer ameaça externa que Amanda estivesse acostumada a mapear, prever e neutralizar. Aquilo não obedecia lógica, não seguia padrão, não podia ser controlado com precisão.

E talvez fosse exatamente isso que a desestabilizava.

Ela abriu os olhos, encarando a tela à sua frente sem realmente enxergar nada. Pela primeira vez em muito tempo, não confiava completamente na própria leitura da situação.

Nem na própria reação.

E isso era suficiente para mantê-la parada.

Enquanto isso, no apartamento, Fernanda fazia um carinho distraído em Bóris, repetindo mentalmente a cena — não com arrependimento, mas com análise.

O gesto não tinha sido impulsivo.

Isso era o mais problemático.

— Excelente — murmurou, passando a mão nos pelos do gato. — Absolutamente profissional da minha parte.

Bóris não reagiu de imediato, apenas manteve os olhos semicerrados, como se já tivesse visto aquele tipo de comportamento antes e não estivesse particularmente impressionado.

Fernanda soltou um pequeno suspiro.

Seria um erro estratégico? Se envolver justamente com uma das suspeitas de um crime. Seu julgamento, que sempre foi seu ponto mais forte, agora carregava interferência.

Comprometido.

Ou, no mínimo… enviesado.

O silêncio que ficou depois não trouxe alívio — só espaço demais para pensar.

Ela apoiou a cabeça no encosto do sofá, olhando para o teto como se ele fosse, de alguma forma, capaz de responder o que nem ela sabia formular direito. Havia algo incômodo naquela sensação — não exatamente culpa, mas também longe de ser tranquilidade.

Era como gostar de uma ideia que, na prática, ela sabia que não deveria existir.

— Ótimo — murmurou. — Agora eu tenho sentimentos com opinião própria.

Bóris, enroscado na almofada ao lado, abriu um dos olhos com a calma de quem claramente discordava daquela dramatização.

— Não começa — ela disse, virando o rosto para ele. — Eu sei exatamente o que você está pensando.

O gato piscou devagar.

— Isso. Julgamento. Sempre julgamento.

Ela suspirou, puxando as pernas para perto do corpo. O problema não era só o que sentia — era o fato de sentir coisas diferentes ao mesmo tempo, como se uma parte dela estivesse curiosa, quase atraída, enquanto a outra mantinha uma distância segura, observando tudo com desconfiança.

— Eu poderia simplesmente ignorar — continuou, mais para si mesma do que para ele. — Pessoas fazem isso o tempo todo. Ignoram. Fingem que nada aconteceu.

Bóris ergueu a cabeça, olhando diretamente para ela.

— Ah, claro — respondeu Fernanda, cruzando os braços. — Porque fugir sempre resolveu tudo, não é?

O gato apenas bocejou, num gesto lento e absolutamente desinteressado.

Ela soltou uma pequena risada, apesar de si mesma.

— Você é péssimo dando apoio emocional, sabia?

Mas, no fundo, sabia que não era isso.

Talvez o incômodo estivesse justamente no fato de que nada ali era simples o suficiente para ser descartado. Havia uma curiosidade persistente, quase irritante, que insistia em voltar, mesmo quando ela decidia ignorar.

E, pior — não parecia algo que desapareceria sozinho.

Fernanda fechou os olhos por um instante, tentando organizar o próprio pensamento, mas tudo parecia escapar por entre as tentativas de lógica. Era como tentar alinhar algo que não queria ser organizado.

— Eu não vou fazer nada — afirmou, em voz baixa, como se estivesse estabelecendo um acordo.

Silêncio.

Ela abriu um dos olhos e olhou para Bóris.

— Não vou.

O gato a encarava fixamente agora, imóvel.

— Para de me olhar assim.

Nenhuma reação.

— Sério.

Bóris desviou o olhar com uma lentidão calculada, como se tivesse chegado à conclusão de que aquela discussão não valia o esforço.

Fernanda soltou o ar pelo nariz, quase rindo.

— Tá bom. Talvez eu pense sobre isso.

E, pela primeira vez desde que aquela sensação começou a se insinuar, ela percebeu que o problema não era exatamente o que sentia — mas o fato de, no fundo, não querer parar de sentir.

Esse foi o pensamento que ficou.

Não o mais lógico.

Nem o mais seguro.

Mas o mais honesto.

Adormeceu sem perceber, vencida menos pelo cansaço físico e mais pelo desgaste de tentar entender algo que, talvez, ainda não precisasse de resposta.

 

Nos dias seguintes, o trabalho não esperou. A investigação seguia o seu curso e Fernanda precisava ir até a empresa do Grupo Bastos para conversar com algumas pessoas, ela não queria se encontrar com Amanda, mas sabia que era algo inevitável.

Fernanda chegou à empresa do Grupo Bastos acompanhada de Paulinho, que caminhava ao lado dela com o olhar atento — menos pela arquitetura imponente e mais pelo peso do nome envolvido.

— Então… — começou ele, ajustando o passo — é aqui que o cara controlava meio mundo sem aparecer?

— Basicamente — respondeu Fernanda, seca.

— E você resolveu… — ele lançou um olhar lateral — se envolver emocionalmente no meio disso?

Fernanda nem olhou.

— Foca no caso, Paulinho.

— Eu estou focado — respondeu, com um meio sorriso — só estou tentando entender o nível de risco que a gente tá chamando de “rotina”.

Foram direto para a sala de Marcelo.

Marcelo Fuentes os recebeu de pé, expressão controlada demais para alguém que havia perdido o chefe poucos dias antes.

— Investigadora. — Assentiu. — Imagino que isso não seja apenas protocolo.

— Nunca é — respondeu Fernanda, sem rodeio. — Precisamos revisar alguns pontos da noite do assassinato de Eduardo.

Paulinho abriu o bloco.

— O senhor estava onde, exatamente, entre o momento em que Eduardo deixou o jantar e o horário estimado da morte?

Marcelo não hesitou.

— Na área externa. Em uma ligação.

— Com quem? — perguntou Paulinho.

— Assunto financeiro. Não é relevante para isso.

Fernanda inclinou levemente a cabeça.

— O que é curioso… porque normalmente tudo relacionado a você parece relevante.

Silêncio.

Marcelo sustentou o olhar.

— Está insinuando algo?

— Estou observando padrões — respondeu ela. — O senhor controla fluxos financeiros complexos. Eduardo confiava nisso. Confiança demais costuma custar caro.

Marcelo deu um pequeno sorriso.

— E desconfiança demais… costuma gerar erros.

Paulinho anotou.

— O senhor sabia de alguma auditoria interna acontecendo?

Um micro segundo, mas foi o suficiente para chamar a atenção de Fernanda.

— Bom...Sei que Amanda está… interessada em entender a estrutura — respondeu Marcelo. — Nada além disso.

Fernanda registrou mentalmente.

— Interessada… ou próxima demais de descobrir algo?

Marcelo não respondeu.

E isso… já era uma resposta.

 

Elias foi o próximo.

Diferente de Marcelo, ele não tentou sustentar neutralidade.

Já estava preparado.

— Investigadora — disse, com um leve aceno — suponho que esteja conectando peças.

— Tentando entender quem está tentando esconder algumas — respondeu Fernanda.

Paulinho entrou na conversa:

— O senhor estava com Eduardo antes dele ir para o escritório?

— Estávamos conversando, sim.

— Sobre?

Elias fez uma pausa mínima.

— Assuntos jurídicos sensíveis.

Fernanda cruzou os braços.

— Sensíveis ao ponto de justificar um homicídio?

Elias sorriu de canto.

— Sensíveis ao ponto de justificar muitas coisas.

Silêncio.

— Eduardo estava preocupado? — perguntou Fernanda.

— Eduardo sempre estava no controle.

— Isso não responde.

Elias inclinou levemente a cabeça.

— Então respondo melhor: ele não demonstrava preocupação. O que não significa que não existisse motivo.

Paulinho anotou rápido.

— O senhor acredita que alguém fora da empresa teria interesse no assassinato dele?

Elias olhou diretamente para Fernanda.

— Investigadora… o tipo de informação que Eduardo manipulava não criava apenas aliados.

Pausa.

— Criava dependência.

E isso… criava risco.

 

Quando saíram da sala, o silêncio entre Fernanda e Paulinho durou alguns segundos.

— Tá — disse ele, finalmente — oficialmente: todo mundo aqui tem motivo.

— E controle suficiente pra fazer parecer limpo — completou ela.

— E você ainda resolveu complicar mais o cenário? Vai me conta porque está tão aérea ultimamente?

Fernanda lançou um olhar.

— Não começa Paulinho.

— Não comecei — respondeu ele, erguendo as mãos — só estou observando padrões.

Ela ignorou.

Foi no corredor que encontraram Amanda.

Ela vinha no sentido oposto, postura firme, mas o olhar… diferente do encontro anterior.

Mais atento e consciente.

Paulinho parou meio segundo a mais do que o necessário e sussurrou.

— Uau…

Fernanda fechou os olhos por um segundo.

— Não.

— O quê? — ele respondeu, baixo — Eu só pensei.

— Se possível, pensa em silêncio.

Amanda se aproximou.

— Investigadora Fernanda.

O olhar passou por Fernanda… e depois, naturalmente, por Paulinho.

— E…?

— Investigador Paulinho — ele se adiantou, com um sorriso fácil — estava na noite do assassinato junto com o delegado Dias, como está?

Amanda apertou a mão dele.

— Ah, sim, desculpe, eram muitos policiais, estou bem.

Paulinho não soltou imediatamente.

— Já ouvi falar bastante da senhora.

— Espero que não só coisas ruins.

— Depende do ponto de vista — respondeu ele, leve — mas pessoalmente… definitivamente melhor.

Fernanda cruzou os braços.

Devagar.

— A gente está trabalhando, Paulinho.

— Eu também — respondeu, sem tirar os olhos de Amanda.

Amanda percebeu.

E entrou no jogo.

— Imagino que vocês estejam avançando — disse, com um leve tom provocativo.

— Bastante — respondeu Paulinho — mas confesso que algumas coisas ainda chamam mais atenção que outras.

Fernanda soltou o ar pelo nariz.

— Incrível.

Amanda inclinou levemente a cabeça, agora olhando para Fernanda.

— Está tudo bem, investigadora?

— Perfeitamente.

Resposta rápida, curta e levemente seca.

Paulinho sorriu.

— Ela fica assim quando está... focada.

— Eu estou focada no caso— reforçou Fernanda.

Amanda deixou escapar um sorriso pequeno. Quase imperceptível.

— Claro que está.

Pausa.

O olhar entre as duas demorou meio segundo a mais.

E isso não passou despercebido por Paulinho.

— Bom… — ele quebrou o momento — a gente ainda deve voltar com mais perguntas.

Amanda assentiu.

— Estarei disponível.

Mas o olhar voltou para Fernanda.

— Imagino que sim.

Fernanda desviou primeiro.

— Vamos, Paulinho.

— Já? — ele respondeu, ainda olhando Amanda.

— Agora. —Disse firme

Quando se afastaram, Paulinho não se aguentou e soltou:

— Ok, oficialmente: entendi.

— Não entendeu nada.

— Não, entendi sim — disse ele, rindo baixo — você tá—

— Não termina essa frase.

— Com ciúmes.

Fernanda parou e virou devagar.

— Eu não estou com ciúmes.

— Uhum.

— Ela é uma suspeita cara!

— E eu sou cego agora?!

Silêncio.

Fernanda voltou a andar.

— Foca no caso.

— Eu estou focado — respondeu ele — só não sabia que o caso era tão… pessoal.

Fernanda deu as costas para ele e foi para o carro.

Na delegacia, o clima voltou ao eixo: quadro, anotações, café ruim. Fernanda abriu o notebook e puxou as imagens do sistema de segurança da Casa de Vidro.

Paulinho se aproximou com o próprio bloco nas mãos.

— Ainda olhando a noite do jantar?

— Ainda olhando o que ninguém quis mostrar — respondeu ela.

A gravação começou. Convidados circulando. Taças. Conversas. Funcionários entrando e saindo com bandejas. O caos elegante de uma noite cuidadosamente organizada.

Até Fernanda erguer a mão.

— Volta dez segundos.

Paulinho voltou.

Amanda apareceu na tela.

Sozinha.

Ela se afastava discretamente da área principal do jantar, caminhando pelo corredor lateral da casa com passos firmes, sem hesitação. Parou diante da porta do escritório de Eduardo. Digitou a senha e entrou.

O silêncio na sala mudou. Paulinho franziu a testa.

— Isso ela não comentou.

Fernanda não respondeu. Seus olhos estavam presos ao horário no canto da tela.

21h51.

Amanda permaneceu lá dentro por pouco mais de sete minutos. Quando reapareceu, sua expressão continuava controlada, impossível de ler, mas havia algo diferente. Segurava a bolsa com firmeza em uma das mãos e na outra, o celular.

Como alguém que tinha ido buscar algo…

ou garantir que algo não fosse perdido.

Amanda fechou a porta atrás de si e voltou para a festa sem olhar para trás.

E então...

A imagem congelou.

Paulinho se inclinou para frente.

— Que diabos...

A tela escureceu.

SEM SINAL.

Fernanda estreitou os olhos.

— Quanto tempo?

Paulinho abriu o log técnico.

— Nove minutos e quarenta e três segundos.

A gravação voltou.

Segundos depois, Eduardo apareceu no corredor. Sozinho, caminhando em direção ao escritório.

Entrou e nunca mais saiu de lá vivo.

O silêncio entre os dois ficou mais pesado. Paulinho cruzou os braços.

— Alguém usou essa janela de falha na gravação.

Fernanda manteve os olhos na tela.

— Não.

Pausa.

— Alguém criou essa janela.

Paulinho virou para ela.

— Você acha que Amanda derrubou o sistema?

Fernanda demorou um segundo antes de responder.

— Amanda saberia como fazer.

Pausa.

— Mas isso não significa que foi ela.

Fernanda fechou o notebook devagar. Uma peça fora do lugar não anulava as outras. E, até aquele momento, Amanda não era a única deixando rastros incompletos.

— Marcelo sabe mais do que falou.

— Concordo — disse Paulinho. — E o Elias… não escondeu nem que tem coisa grande ali.

Fernanda anotou:

PADRÃO: CONTROLE / OMISSÃO / TEMPO

— E tem mais alguém nesse jogo — completou ela.

— Alguém fora da empresa?

— Ou alguém que ainda não apareceu.

Paulinho assentiu.

— E a Amanda?

Fernanda demorou meio segundo.

— Ainda não encaixa.

— Ou encaixa… de um jeito que você não quer ver.

Silêncio. Fernanda fechou o caderno.

— A gente trabalha com evidência.

— Sempre — disse Paulinho.

Pausa.

— Mas às vezes… o problema não é a falta de evidência.

— É o que a gente faz com ela.

Fernanda não respondeu, mas o olhar… já não estava tão neutro quanto antes e isso, para ela… era o maior risco até agora.

Mais tarde, revendo a planta da residência:

Fernanda analisava a planta técnica da Casa de Vidro quando parou.

— Isso aqui...

Paulinho se aproximou.

— O quê?

Fernanda apontou para a lateral do escritório.

— Essa passagem. —Fernanda aponta o local.

— Lembro do responsável da segurança dizendo que é um acesso técnico.

— Técnico como?

— Climatização, elétrica... manutenção. Fica escondido atrás do painel de madeira. Quase ninguém usa.

Paulinho levantou os olhos.

— E dá onde?

— Na garagem de serviço.

O silêncio caiu entre os dois.

Fernanda cruzou os braços.

— Então quem entrou durante o apagão...

Paulinho completou:

— Não precisou sair pelo corredor.

Fernanda fechou a planta devagar porque, naquele momento, uma coisa ficou clara:

o assassino não improvisou.

Ele conhecia a Casa de Vidro como alguém que já havia estado lá antes.

 

Fim do capítulo


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