Gurias,
O capítulo de hoje comprova que, às vezes, o problema beija de volta...
Capitulo 8
A ameaça não veio anunciada, ela veio precisa e calculada. Naquela manhã, no escritório da empresa, Amanda encontrou um envelope encima de sua mesa. Não possuía remetente, tampouco identificação, apenas seu nome, impresso em tipografia comum — impessoal demais para ser casual e dentro, uma única folha branca. Com duas pequenas frases:
“PARE A AUDITORIA.”
E, abaixo, em letras menores:
“VOCÊ NÃO SABE AONDE ESTÁ SE METENDO.”
Amanda leu duas vezes, não demonstrou reação imediata, mas, por dentro o impacto foi claro. Não era mais apenas uma suspeita, este aviso foi uma confirmação.
Ela não chamou a segurança, nem fez alarde, pegou o telefone da mesa e falou com sua secretária Carla para perguntar se alguém havia entrado na sala antes dela, mas não teve sucesso, ela nada sabia.
Logo depois ligou para Fernanda.
— Preciso de você aqui!
Sem explicação ou rodeios.
Fernanda entendeu.
— Ok, já chego aí!
Enquanto isso, dois movimentos aconteciam dentro da empresa… sem conexão aparente.
Marcelo Fuentes, no financeiro, revisava relatórios com uma atenção incomum.
— Isso não pode sair — disse, em tom baixo, para um analista.
— Mas está dentro da auditoria…
Marcelo interrompeu:
— Então ajusta.
O olhar não era nervoso, era estratégico, como alguém que sabia exatamente o que precisava desaparecer.
Enquanto isso, Elias encerrava uma ligação.
— Não, ainda não — disse, calmo. — Ela não tem tudo.
Pausa.
— Mas está chegando perto.
Silêncio.
— Eu resolvo isso no tempo certo.
Desligou.
Ajustou o relógio no pulso. E, por um breve instante, seu reflexo no vidro mostrou algo que ele raramente deixava escapar: Preocupação.
Fernanda chegou rápido, como havia prometido e ao entrar na empresa, dirigiu-se diretamente à recepção que antecede a sala de Amanda.
— Bom dia, pode avisar a Sra. Amanda que eu cheguei? — disse, com a mesma objetividade de sempre.
Carla levantou os olhos e demorou meio segundo a mais do que o normal.
— Nossa… — soltou, quase sem filtrar — você é ainda mais bonita pessoalmente.
Fernanda arqueou levemente a sobrancelha, surpresa, mas não desconfortável.
— Obrigada… acho.
Carla levantou-se, contornando a mesa com um sorriso que já não era mais profissional.
— Sou a Carla… secretária da Sra. Bastos.
Estendeu a mão, mas manteve o contato tempo demais.
— Fernanda Vasconcellos, sou a investigadora do caso do Sr. Eduardo Bastos.
— Eu sei — respondeu Carla, inclinando levemente a cabeça — difícil não saber.
E então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, deslizou os dedos pelo braço de Fernanda.
Um toque leve, desnecessário e absolutamente intencional.
— Você sempre anda assim… armada desse jeito? — disse, olhando-a de cima a baixo.
Fernanda soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Só quando o ambiente pede.
— E aqui pede? — Carla se aproximou um pouco mais.
— Ainda estou avaliando.
Do outro lado da porta…
Amanda ouviu, primeiro a voz de Fernanda. Depois… o tom e, em seguida… Carla.
Amanda levantou-se antes mesmo de perceber que tinha decidido fazer isso. Abriu a porta e encontrou exatamente o que imaginava.
Carla… próxima demais.
A mão ainda no braço de Fernanda, sorrindo daquele jeito. Amanda parou por um segundo e observou e algo… muito específico aconteceu. Não foi raiva ou irritação, foi… incômodo. Pontual e completamente injustificado. O maxilar travou levemente, seus braços se cruzaram antes que ela percebesse. E o olhar…
o olhar não era exatamente amigável.
— Carla — disse, com uma calma que não combinava com a cena — você pode voltar para a sua mesa.
Carla virou o rosto, surpresa.
— Ah… eu só estava...
— Eu sei exatamente o que você estava fazendo — interrompeu Amanda, com um sorriso fino — e não faz parte da sua função.
Silêncio.
Carla retirou a mão do braço de Fernanda… um pouco mais rápido do que colocou.
— Claro.
Voltou para a mesa, mas não sem lançar um último olhar para Fernanda e isso… definitivamente não ajudou. Amanda desviou o olhar imediatamente.
— Pode entrar — disse, já virando sem esperar resposta.
Assim que a porta se fechou, o silêncio ficou… diferente.
Fernanda cruzou os braços, encostando levemente na parede.
— Então… — começou, com um leve traço de diversão na voz — isso foi o quê? Parecia até ciúmes.
Amanda nem se virou.
— Não é nada disso.
Resposta rápida demais.
— Uhum.
Amanda respirou fundo, organizando papéis que não precisavam ser organizados.
— Eu só não gosto de falta de profissionalismo.
Fernanda deu um passo mais próximo.
— Claro. Totalmente isso.
Amanda virou finalmente.
— E você também não ajudou.
— Eu?
— Sim. Ficando ali… parada.
Fernanda segurou o sorriso.
— Eu estava sendo educada.
— Você podia ter sido menos.
— Vou anotar pra próxima — respondeu, com um leve tom provocativo.
Silêncio.
Amanda sustentou o olhar, por meio segundo a mais do que o necessário.
— Não houve ciúmes — reforçou.
Fernanda inclinou levemente a cabeça.
— Tá bom.
Pausa.
— Mas foi divertido.
Amanda revirou os olhos e isso, por si só… já dizia mais do que qualquer resposta.
— Sua secretária parece... simpática — disse Fernanda.
Amanda nem levantou os olhos.
— Ela pede demissão em três segundos se tocar em você de novo.
Silêncio.
Fernanda sorriu.
— Então teve ciúmes.
Amanda:
— Não testa minha paciência.
Ela então caminhou até a mesa, pegou o envelope. O tom mudou e o ambiente também.
— Eu não te chamei aqui para esta ceninha.
Fernanda assentiu.
— Eu sei.
E foi aí que o caso voltou a ocupar o espaço. Amanda entregou o envelope para Fernanda que analisou.
— Eu não toquei na parte interna do papel.
Fernanda a encarou.
— Luvas?
Amanda deu um meio sorriso.
— Não sou a única que sabe preservar evidências.
— Era questão de tempo — disse Fernanda.
Amanda cruzou os braços.
— Então você já esperava isso?
— Sim.
— E não achou relevante me avisar?
Fernanda sustentou o olhar.
— Achei. Mas você não parecia o tipo de pessoa que recua com aviso.
Silêncio.
Amanda desviou o olhar por um segundo.
— É verdade, não recuo.
— Viu, eu sei.
Fernanda deu um passo à frente.
— E é exatamente por isso que isso aqui escala.
Amanda respirou fundo.
— Isso não é mais só sobre a empresa, né?
— Nunca foi só isso.
Pela primeira vez…
Amanda não conseguiu sustentar completamente a postura. Encostou-se em sua mesa, passou a mão pelo rosto e suspirou.
— Eu não tenho ideia de onde isso vai dar.
A voz não falhou, mas perdeu força. Fernanda, percebendo o estado emocional que Amanda se encontrava, se aproximou, desta vez mais devagar.
— Você não precisa ter agora. — Disse encostando a mão no ombro dela.
Amanda soltou um riso baixo.
— Engraçado… todo mundo sempre espera que eu tenha.
— Eu não. — Disse Fernanda.
Silêncio. Amanda levantou o olhar e, naquele instante, algo silencioso mudou entre elas. Não havia mais distância segura, muito menos os papéis de investigadora e viúva, suas defesas estavam no chão, era apenas duas pessoas expostas se encarando como se, pela primeira vez, realmente se vissem. Sem nenhum tipo de julgamento, estratégia ou máscara.
— Eu estou cansada, Fernanda — disse, e dessa vez não havia controle na voz. Havia uma verdade crua. Fernanda não respondeu de imediato. Se aproximou, não muito, só o suficiente.
— Eu sei…
Amanda balançou a cabeça devagar, os olhos ainda fixos nela.
— Não… você não sabe — murmurou, quase num pedido — Você não sabe como é viver anos tentando ser exatamente o que esperam de você… moldar cada gesto, cada palavra…
A respiração falhou por um segundo.
— E mesmo assim nunca ser suficiente.
Silêncio.
— Primeiro… a esposa perfeita — continuou, mais baixo — Sempre bonita, sempre discreta, sempre… conveniente.
Um sorriso triste apareceu.
— E agora… a viúva perfeita.
Os olhos marejaram, mas ela não desviou.
— Forte, elegante, controlada… enquanto tudo aqui dentro já desmoronou.
A mão dela pressionou levemente o próprio peito.
— Eu estou cansada de segurar tudo sozinha.
Dessa vez, Fernanda não tentou responder com lógica ou com perguntas, apenas ficou ali. Presente. Inteira.
E isso… foi o suficiente para quebrar o pouco que ainda sustentava Amanda.
A proximidade deixou de ser evitada, virou necessidade, Amanda respirou fundo. Um passo, depois outro. Até não haver mais espaço entre elas.
— Você faz isso parecer fácil… — sussurrou Amanda, com um fio de voz.
Fernanda quase sorriu.
— Não é.
— Então por que… — Amanda hesitou, tão perto agora — por que com você parece que… eu posso parar?
Fernanda a olhou como se estivesse escolhendo cada palavra.
— Porque eu não espero nada de você.
Pausa.
— Só que você seja você.
Aquilo atingiu Amanda de um jeito que nenhuma outra coisa tinha conseguido e foi inevitável, ela acabou se rendendo ao sentimento que a estava corroendo por dentro. A respiração já não obedecia ao ritmo habitual — vinha mais curta, mais quente, carregada de algo que ela não conseguia mais nomear e ainda assim… sabia exatamente o que era. O beijo veio como consequência, não como decisão. Amanda se inclinou primeiro, devagar, como se desse tempo para o mundo inteiro impedir, mas felizmente ninguém impediu. Amanda sentiu o calor da pele de Fernanda antes mesmo do toque completo — a proximidade já suficiente para arrepiar cada centímetro exposto e quando seus lábios encontraram os de Fernanda, não houve hesitação e sim entrega. O beijo não era apressado, era profundo, carregado de tudo que ela vinha reprimindo há anos, de tudo que nunca teve permissão de sentir. As mãos de Amanda encontraram o tecido da roupa de Fernanda, como se precisasse ter certeza de que ela era real, era como se tentasse memorizar cada detalhe naquele instante e Fernanda respondeu na mesma intensidade, sua mão subiu firme pela lateral do corpo de Amanda, encontrando sua nuca, os dedos se fechando ali com uma pressão segura, guiando, aproximando, mantendo, sem pressa, mas também sem espaço para fuga.
Os corpos se encontraram de verdade, peito contra peito, respirações descompassadas se chocando. Amanda sentiu o próprio coração acelerar contra o de Fernanda, como se disputassem ritmo — ou tentassem se alinhar e, por um momento… pareceu que conseguiram.
O beijo se aprofundou, mais denso. As bocas se moviam com uma naturalidade quase perigosa, como se estivessem se reconhecendo ali, sem precisar aprender, sem precisar pensar. A respiração falhava entre um movimento e outro, obrigando pausas curtas — insuficientes — que só aumentavam a urgência de voltar. Amanda deixou escapar um gemido contra os lábios de Fernanda, involuntário. E aquilo quebrou o que ainda restava de controle entre elas. O toque se intensificou, mais firme e presente, era como se ambas precisassem ter certeza de que aquilo não desapareceria no segundo seguinte. A pele sensível reagia a cada aproximação, a cada variação de pressão, a cada centímetro reduzido entre elas. E já não havia praticamente nenhum. O mundo ao redor… se dissolveu, não existia mais chão, nem paredes, passado ou consequências. Existia somente o calor entre elas, o toque, a respiração compartilhada e aquela tensão elétrica que percorria o corpo inteiro sem pedir licença. E, ainda assim… mesmo no auge daquele instante, havia algo mais, algo que nenhuma das duas dizia, mas sentiam, como sentiam.
Por alguns segundos... nenhuma delas se moveu. A testa de Amanda ainda encostada na de Fernanda. As respirações tentando encontrar ritmo. A mão de Fernanda ainda firme em sua nuca.
Nenhuma das duas parecia pronta para soltar. Amanda fechou os olhos por um instante.
— Isso não estava nos meus planos... — murmurou, quase sem ar.
Fernanda deixou escapar um sorriso baixo.
— Nem nos meus.
Amanda soltou uma pequena risada, mais nervosa do que queria admitir. Deu um passo para trás, passando a mão pelo rosto, como se precisasse recuperar algum tipo de lógica.
Os olhos voltaram para Fernanda.
— Você sempre consegue deixar tudo... fora do lugar?
Fernanda inclinou levemente a cabeça, sustentando o olhar.
— Só quando vale a pena.
Aquilo fez Amanda sorrir de verdade, um sorriso pequeno, mas real, que fazia o coração de Fernanda bater ainda mais rápido, se é que isso era possível.
— Isso complica tudo… — murmurou.
— Muito — concordou Fernanda.
Pausa.
— Mas também… não parece errado.
Amanda a encarou.
E, por um segundo, pareceu considerar ficar ali, deixar acontecer e não voltar. Mas a realidade… voltou, ela sempre volta.
Amanda deu um passo para trás. Lento e doloroso, sua máscara não voltou completamente, mas o controle… sim.
Ela respirou fundo.
Mais de uma vez.
— Isso não muda nada — disse, quase como um escudo.
Fernanda a observou com calma.
Sem pressionar. Apenas… presente.
— Não — respondeu, suave.
Mas havia um leve traço de algo no olhar dela. Algo que dizia o contrário. Amanda desviou o olhar por um instante.
— A gente tem coisas mais importantes pra lidar no momento.
— Sim, nós temos. — Concordou Fernanda.
Silêncio. As duas sabiam, aquilo mudava tudo, mas nenhuma das duas estava pronta para sustentar essa verdade em voz alta, pelo menos ainda não.
No estacionamento subterrâneo da empresa, um carro permanecia parado havia tempo demais em uma vaga mais afastada.
Motor desligado.
Faróis apagados.
No interior apenas a luz discreta de um celular rompeu a escuridão por alguns segundos e uma mensagem foi digitada com precisão:
“Pacote entregue. Recebimento confirmado.”
Segundos depois...
Enviada.
A tela se apagou. O motor ligou suavemente e o carro desapareceu sem deixar qualquer rastro.
Fim do capítulo
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Gabi Reis Em: 03/05/2026 Autora da história
Simm guria, fico feliz que esteja gostando!
E pode se preparar... porque essas duas ainda têm muita confusão, química e alguns problemas pela frente.
Beijos e bom final de domingo