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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 2336
Acessos: 372   |  Postado em: 02/05/2026

Capitulo 6

 

Amanda permaneceu na sala principal por mais tempo do que o necessário.

Sozinha ou quase.

O olhar de Fernanda ainda estava ali. Não como lembrança clara, mas como sensação. Direto. Incisivo. Incômodo.

Amanda cruzou os braços, como se pudesse reorganizar o próprio pensamento.

— Investigadora… — murmurou para si mesma, quase sem perceber.

Não era apenas a postura profissional. Era a forma como ela olhava. Como se não estivesse apenas ouvindo respostas, mas antecipando omissões e, ainda assim, havia algo que não se encaixava nessa leitura.

Algo menos técnico, mais… humano?

Amanda franziu levemente o cenho, incomodada consigo mesma.

— Irrelevante — sussurrou.

E decidiu não pensar mais nisso.

— Senhora… — a voz de Arminda quebrou o silêncio.

Amanda virou levemente o rosto.

— Sim?

Arminda se aproximou com passos contidos, mas havia algo diferente nela. Tensão.

Amanda percebeu.

— Eu queria falar com a senhora… antes que fosse tarde, não comentei nada com ninguém, mas...

— O que foi?

Arminda hesitou por um segundo — algo raro.

— Eu o ouvi.

Amanda ficou imóvel.

— Eduardo?

— Sim… no escritório. Antes de tudo acontecer.

O ar pareceu se ajustar ao redor delas.

— Ele estava falando com alguém — continuou Arminda, mais baixa agora. — Eu não consegui ver quem era… a porta estava fechada, mas não completamente.

Amanda estava apreensiva.

— E o que ele dizia?

Arminda respirou fundo.

— Algo sobre dados… um volume muito grande. Ele parecia irritado. Disse que… tinha saído do controle.

Silêncio.

Amanda absorveu a informação sem reação visível.

— Fora do controle como?

— Eu não sei… — respondeu Arminda, sincera. — Mas não era algo pequeno. Disse que aquilo podia “comprometer tudo”.

Amanda desviou o olhar por um instante. Aquilo não era o tipo de coisa que Eduardo admitia. Nunca.

— Você ouviu ou viu mais alguma coisa?

— Não. Alguém passou no corredor e eu saí.

Silêncio novamente.

Arminda deu um passo mais próximo.

— Senhora… isso não parece… normal.

Amanda voltou a encará-la.

— Nada aqui é normal, Arminda.

A governanta hesitou, claramente preocupada.

— A senhora precisa descansar. Tomar alguma coisa… nem que seja para dormir algumas horas.

Amanda manteve o olhar nela por um segundo a mais.

Depois assentiu levemente.

— Eu vou.

Arminda não parecia convencida, mas aceitou.

— Eu vou preparar algo para a senhora.

Amanda não respondeu.

Porque, naquele momento… sua mente já estava em outro lugar.

Dados fora de controle. Eduardo preocupado e agora… morto, nada parecia fazer sentido.

Mas o cansaço começava a cobrar o que ela vinha adiando. Não era apenas físico — era um desgaste mais profundo, acumulado, que nem o controle conseguia sustentar por muito mais tempo. Amanda acabou cedendo ao conselho de Arminda. Comeu algo leve, quase sem perceber o gosto, deixou a água do banho cair por tempo demais, como se pudesse lavar não o corpo, mas os últimos acontecimentos. Depois, tomou o remédio. Não pela esperança de esquecer, mas pela necessidade de interromper o fluxo constante de pensamentos. Talvez o sono viesse. Talvez não. Mas, por algumas horas, qualquer silêncio seria suficiente.

Dois dias se passaram e a Casa de Vidro já havia perdido o silêncio. Do lado de fora, jornalistas disputavam espaço, pareciam abutres encima de uma carcaça podre, perguntas eram lançadas como acusações:

— “A senhora acredita que seu marido foi assassinado?”
— “Há conflitos internos nas empresas?”
— “A senhora assume o controle do Grupo Bastos?”

Amanda não respondeu.

Entrou no carro com postura impecável, óculos escuros, expressão neutra. Cada passo calculado, mas por dentro…

Instabilidade.

A morte de Eduardo não era apenas pessoal, era estrutural. Na sede da empresa, o ambiente era tenso. Executivos reunidos, conselheiros inquietos. O mercado… observando.

Amanda entrou na sala principal de reuniões sob olhares avaliativos. Alguns discretamente céticos. Outros abertamente desconfiados. Ela sabia exatamente o que estavam pensando. “A esposa.” “Figura decorativa.” “Sem preparo.”

E, em partes… não estavam totalmente errados. Ela nunca havia ocupado aquela cadeira. Nunca havia conduzido uma reunião daquele nível, mas estava ali agora.

E não havia alternativa.

Respirou fundo. Sentiu o peso do ambiente e decidiu sustentar.

— Bom dia a todos — começou, com a voz firme, ainda que medida. — Eu sei que este não é um cenário comum… e, para muitos aqui, talvez nem esperado.

Alguns olhares mudaram. Não de aceitação, mas de atenção.

— Diante dos últimos acontecimentos, precisamos manter a estabilidade — continuou. — Qualquer decisão precipitada agora pode comprometer contratos estratégicos e agravar ainda mais o cenário.

Um dos diretores se inclinou levemente para frente, aproveitando a abertura:

— Com todo respeito, Senhora Bastos… precisamos entender como ficará a estrutura societária.

Amanda já esperava por aquilo.

Pausa breve.

Suficiente para organizar o raciocínio.

Ela o interrompeu — sem agressividade, mas sem ceder espaço.

— Pela legislação e pelos termos vigentes, eu sou a herdeira direta das participações do Eduardo.

O silêncio que se seguiu foi mais denso. Olhares se cruzaram. Ela percebeu.

E continuou, agora com mais segurança do que quando entrou:

— Isso inclui, neste momento, o controle acionário, até que haja deliberação formal em conselho e conclusão do inventário.

A mensagem foi clara.

Mesmo que ainda estivesse aprendendo…

Ela não estava perdida.

E, definitivamente, não estava ali por acaso.

Amanda percorreu a mesa com o olhar, medindo cada reação antes de seguir.

— E justamente por isso — retomou, agora com um tom mais estratégico — eu preciso entender, com precisão, o que temos em mãos. Não só o que está formalizado…, mas o que de fato sustenta essa estrutura no dia a dia.

Ela apoiou as mãos na mesa, levemente inclinada à frente.

— Vou solicitar um levantamento completo. Dados operacionais, carteira de clientes, contratos ativos, fluxos financeiros, vínculos indiretos… tudo que nos dê clareza real sobre o funcionamento da empresa.

Alguns diretores trocaram olhares, mais tensos agora.

— Não se trata de desconfiança — acrescentou, com calma calculada

— Mas de responsabilidade. Eu não vou tomar decisões no escuro, nem sustentar práticas que eu ainda não compreendo totalmente.

Pausa breve.

— Considerem isso como um alinhamento interno… uma revisão estruturada. Precisamos saber exatamente onde estamos, para decidir com segurança onde vamos.

A mensagem foi absorvida de forma diferente por cada um na sala. Para alguns, parecia prudência. Para outros… um alerta. Ela então voltou ao ponto central, sem perder a firmeza:

— Até lá… as decisões passam por mim.

A mensagem foi clara. Não era apenas a esposa. Era, naquele momento, o centro de poder, mesmo que temporário, mesmo que indesejado por alguns.

Marcelo e Elias não gostaram nada de ver Amanda Bastos sentada na cadeira do presidente da empresa, para eles, o cargo deveria ser ocupado por um deles, tendo em vista o conhecimento e a aproximação que tinham com os negócios da empresa.

Encerrada a reunião Elias foi até sua sala, começou a revisar os documentos que colocavam Amanda como principal herdeira, tentando encontrar brechas na lei que o ajudasse a retira-la do poder.

Mas não era só isso.

Ele fez uma ligação curta, objetiva.

— Precisamos acelerar isso — disse, sem se identificar. — Antes que ela tenha acesso ao que não deve.

Do outro lado, silêncio breve.

— Não. Ainda não. Mas vai acontecer.

Desligou.

Já Marcelo seguiu um caminho diferente.

Mais direto.

Mais arriscado.

— Se ela começar esse levantamento… — disse para um dos diretores mais próximos — metade dessa estrutura vem abaixo.

— E o que você sugere?

Marcelo apoiou as mãos na mesa.

— Que ela não chegue até lá.

Silêncio.

— Do ponto de vista operacional — continuou, com frieza — podemos questionar a capacidade dela. Pressionar o conselho. Criar instabilidade.

— E se não funcionar?

Marcelo sustentou o olhar.

— Sempre funciona.

Mas, no fundo… ele não parecia tão certo quanto queria demonstrar.

Porque Amanda não estava reagindo como esperavam.

E isso… era um problema.

 

Mas o verdadeiro teste para Amanda não estava ali, estava no velório que seria realizado no outro dia.

O ambiente era controlado, elegante, artificial. Perfeito demais para um momento de morte. Amanda recebia cumprimentos com precisão quase mecânica. Cada gesto medido, cada palavra no tom exato. A formalidade. Os cumprimentos vazios. Os olhares que misturavam respeito, curiosidade e cálculo. Amanda manteve-se firme, elegante e intocável. Como sempre foi esperado. Até o momento em que ficou sozinha, diante do caixão observou o rosto de Eduardo, sereno demais. Era como se ainda estivesse no controle.

— Você sempre achou que previa tudo… — murmurou.

Uma pausa.

— Dessa vez, não.

Não havia lágrimas, somente o peso de suas obrigações e algo mais profundo que começava a emergir... Agora ele não estava mais ali para conter o caos.

Até que eles se aproximaram.

Elias Vargas da Silva e Marcelo Fuentes.

Lado a lado, como sempre estiveram.

— Amanda — disse Elias, com um leve aceno de cabeça. — Meus sentimentos. —  Formal, limpo e vazio.

— Elias — respondeu ela, no mesmo tom.

Marcelo foi menos contido.

— Uma perda… difícil de dimensionar — disse, observando-a com atenção excessiva.

Amanda sustentou o olhar.

— Imagino que, para você, especialmente.

Uma pausa, sutil, mas afiada.

Marcelo esboçou um sorriso breve.

— Todos nós perdemos muito.

Elias interveio, com suavidade calculada:

— O momento exige cautela. As empresas… precisam de estabilidade.

 Amanda inclinou levemente a cabeça.

— Fique tranquilo. Eu tenho plena consciência disso.

— Claro — respondeu ele — Só esperamos que as decisões sigam… critérios técnicos.

Agora não havia mais sutileza. Amanda deu um pequeno passo à frente.

— E seguirão. Desde que os interesses envolvidos também sejam… transparentes.

Silêncio. Por um segundo, as máscaras quase falharam. Marcelo quebrou primeiro:

— Eduardo confiava muito em nós.

Amanda respondeu sem hesitar:

— Eu sei exatamente em quem ele confiava.

O olhar de Elias endureceu por um instante, quase imperceptível, mas não para Fernanda, que observava à distância.

Sem interferir, sem se anunciar, sua dinâmica era clara, não era apenas um velório, era um campo de disputa.

E Amanda… não estava recuando.

Aquilo acabou confirmando algo para ela. Amanda não era passiva e nunca deve ter sido.

Minutos depois, Amanda se afastou para um corredor lateral. Fernanda hesitou por um breve instante, não entendia completamente o que a puxava naquela direção, mas acabou indo.

Encontrou Amanda apoiada levemente contra a parede.

Por um segundo… apenas observou. A postura ainda era firme, mas o cansaço… não.

— Está tudo bem? — perguntou Fernanda, em tom mais baixo.

Amanda abriu os olhos, e por um instante, a máscara não estava lá.

— Você sempre aparece nos momentos mais convenientes?

A resposta veio automática, mas sem defesa real.

Fernanda se aproximou um pouco mais.

— Ou nos momentos em que ninguém mais percebe.

Silêncio.

Amanda desviou o olhar… e dessa vez não foi estratégia.

— Eu estou cansada — disse, baixo.

— Eu não queria nada disso — continuou Amanda. — Nem essa vida… nem isso agora.

A voz falhou levemente no final, quase imperceptível.

Fernanda sustentou o momento sem invadir, sem analisar. O que, para ela… já era uma quebra de padrão.

Fernanda falou, por fim:

— Então não sustenta sozinha.

Amanda soltou um leve riso, sem humor.

— Você fala como se isso fosse uma opção.

Fernanda inclinou levemente a cabeça.

— Às vezes é. Só não é confortável.

Os olhos de Amanda voltaram para ela.

Mais suaves.

Menos defensivos.

— Você sempre fala assim com as mulheres que está investigando?

Fernanda segurou o olhar.

— Só com as que eu ainda não entendi.

Uma pausa.

Amanda quase sorriu.

Quase.

— Isso é… reconfortante ou preocupante?

— Ainda não decidi.

Silêncio.

Mas agora… diferente, mais leve.

Por um instante… não havia investigação, nem suspeitas, apenas presença.

E então… acabou.

Amanda respirou fundo, endireitou a postura, ajustou o vestido e quando voltou a olhar para Fernanda, a máscara estava de volta. Impecável.

— Eu devo voltar para o velório — disse, agora controlada novamente.

Fernanda apenas assentiu.

Amanda deu um leve passo para trás e saiu, caminhou pelo corredor com a mesma postura impecável, mantendo o ritmo controlado até ter certeza de que estava sozinha.

Virou na primeira porta à esquerda e entrou no antigo lavabo social.

Fechou a porta e só então o ar pareceu faltar.

Apoiou as duas mãos na bancada de mármore e respirou fundo, uma vez... depois outra.

Seu reflexo no espelho continuava perfeito. Cabelo alinhado. Maquiagem intacta. Aparência inabalável.

Mas suas mãos...

Tremiam.

Amanda fechou os olhos por um segundo mais longo do que deveria. A voz de Fernanda ainda estava ali.

"Então não sustenta sozinha."

Aquilo a atingiu de um jeito irritantemente honesto, porque fazia anos que ninguém dizia algo assim para ela.

E fazia ainda mais tempo que ela não se permitia querer ouvir.

Amanda engoliu em seco, abriu a torneira e deixou a água correr sobre os pulsos. Não para se recompor, mas para ter certeza de que ainda estava no controle.

Pela primeira vez desde o início do caso, Fernanda não estava pensando apenas na investigação.

E isso… definitivamente complicava tudo.

Fernanda permaneceu parada por alguns segundos depois que Amanda desapareceu no corredor.
Aquilo não era normal.

Paulinho surgiu ao lado dela segurando dois copos de café e um sorriso que parecia inconvenientemente satisfeito.

— Se eu perguntar se você estava interrogando... eu ainda consigo fingir que acredito?

Fernanda pegou um dos copos sem olhar para ele.

— Você fala demais Paulinho.

Paulinho deu de ombros.

— E você encara demais.

Antes que ela respondesse, o telefone dela vibrou.

Mensagem da perícia.

“Nova análise do escritório concluída. Impressões digitais no dispositivo não pertencem a Eduardo Bastos.”

O olhar de Fernanda endureceu imediatamente.

Paulinho percebeu a mudança.

— Me diz que isso é bom.

Fernanda guardou o celular no bolso, já voltando ao modo investigadora.

— Não.

Uma pausa.

— Isso significa que alguém sabia exatamente onde gravar.

E, pela primeira vez naquela noite...

Fernanda teve certeza de que Eduardo Bastos não era a única pessoa sendo observada.

 

Fim do capítulo


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