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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1913
Acessos: 400   |  Postado em: 02/05/2026

Capitulo 5

 

Fernanda não acreditava em coincidências, acreditava em padrões mal interpretados. Sentada no banco do motorista do seu carro, a poucos metros da Casa de Vidro, ela observava a estrutura translúcida refletindo o céu cinzento da manhã. Havia algo quase provocativo naquela arquitetura — como se tudo estivesse exposto… exceto o essencial.

E talvez não fosse apenas uma questão interna.

Casas como aquela não eram apenas palco de relações pessoais e empresariais. Eram vitrines. E vitrines atraem interesse — nem sempre visível, nem sempre convidado. Eduardo Bastos operava em um nível onde concorrência não era apenas disputa de mercado. Era vigilância, infiltração… antecipação.

Se alguém de fora tivesse interesse em silenciá-lo, aquela noite teria sido o cenário perfeito. Havia gente demais. Movimento demais. Controle de menos… ou controle demais, dependendo de quem estivesse conduzindo.

Fernanda não descartava essa possibilidade. Ainda não.

E havia algo mais.

Ao entrar na casa, mais cedo, um detalhe quase irrelevante chamou sua atenção — não o suficiente para interromper seu fluxo, mas o bastante para ser armazenado. Um dos funcionários do buffet, afastado dos demais, parado por tempo demais próximo à lateral da casa, em uma área onde não havia serviço sendo executado.

Não conversava. Não circulava. Só observava.

Quando percebeu a presença de Fernanda, desviou o olhar rápido demais. E, segundos depois, desapareceu no fluxo de pessoas como se nunca tivesse estado ali.

Poderia ser nervosismo, poderia ser irrelevante.

Ou poderia ser alguém que não pertencia àquele cenário tanto quanto fingia pertencer.

Fernanda não anotou, mas também não ignorou.

Porque, em casos como aquele… o erro nem sempre estava em quem estava dentro, às vezes, vinha de fora. E passava despercebido.

Por enquanto, era apenas uma possibilidade, uma linha solta, mas linhas soltas… costumavam levar a algum lugar.

Ou… a lugar nenhum.

Abriu o caderno. No centro da página, escreveu:
EDUARDO BASTOS — MORTE SUSPEITA

Abaixo, traçou três eixos:
CAUSA DA MORTE (A CONFIRMAR)
OPORTUNIDADE
MOTIVO

1. A Causa da Morte
O relatório preliminar do IML era inconclusivo. Sem sinais evidentes de violência física. Sem marcas de luta. Sem indícios claros, a olho nu, de um método imediato. Mas havia algo, segundo o médico legista, pequenos sinais fisiológicos — rigidez atípica, coloração irregular — sugeriam uma possível ação externa no organismo.

— “Pode ser intoxicação…, mas não posso afirmar sem exames laboratoriais.”

Fernanda sublinhou mentalmente.
Sem confirmação. Apenas hipótese. Isso mudava tudo. Sem causa definida, o caso ainda transitava entre morte natural, induzida… ou cuidadosamente mascarada.

Fernanda voltou ao método.

2. Os principais suspeitos

Elias Vargas da Silva — Advogado
Mais de dez anos ao lado de Eduardo. Especialista em estruturar juridicamente o que não podia falhar — ou aparecer. Discreto ao ponto de ser quase invisível, mas homens assim nunca eram neutros.

— “Cuidava do que não podia ser exposto.”

Fernanda anotou a frase.

Motivo? Possível. Advogados que sabem demais tornam-se riscos naturais, ou… executores eficientes.

Marcelo Fuentes — Diretor Financeiro
Se Elias blindava… Marcelo movimentava. Controlava cifras, fluxos, estruturas financeiras complexas. Era o tipo de profissional que conhecia não apenas os números — mas as intenções por trás deles. E isso era poder.

— “Sabia o suficiente para ser perigoso.”

A frase de Amanda ecoou novamente. Fernanda escreveu:
PERIGO = CONHECIMENTO + ACESSO

Se algo estivesse errado nas empresas de Eduardo… Marcelo saberia e talvez tivesse motivos para agir antes que fosse tarde.

Amanda Bastos

Fernanda hesitou, mas escreveu.

ESPOSA

Motivo? Sim. Casamento com sinais claros de controle. Perda de autonomia. Dependência construída ao longo do tempo. Mas Amanda não parecia impulsiva. E, se aquilo fosse um crime… não parecia obra de alguém que agiria por desespero. Ou parecia exatamente isso?

Fernanda fechou o caderno por um segundo. Essa linha ainda não estava clara em sua mente.

E, o que a incomodava mais… não era apenas a falta de clareza.

Era Amanda.

A imagem dela voltou com uma precisão irritante. Sentada, imóvel, como se o caos ao redor não fosse suficiente para deslocá-la. Não era só bonita — isso seria fácil de descartar. Havia algo mais difícil de categorizar. Uma presença que não pedia atenção, mas a capturava mesmo assim.

— Foco — murmurou para si mesma, passando a mão pelo rosto.

Aquilo era ridículo.

Já havia interrogado pessoas muito mais complexas, muito mais perigosas. E nenhuma delas tinha feito sua linha de raciocínio desviar por segundos inteiros.

Segundos demais.

— Ótimo — completou, com um leve humor ácido — além de um possível homicídio sofisticado… agora temos também distrações esteticamente inconvenientes.

Endireitou-se no banco. Amanda não era uma distração, era uma variável e variáveis… eram analisadas, não admiradas.

O telefone vibrou. Mensagem da perícia. Fernanda abriu imediatamente.

“Objeto localizado no escritório. Não identificado na varredura inicial.”

Anexo, uma imagem.

Um pequeno dispositivo metálico, fixado discretamente na parte inferior da mesa de Eduardo, quase invisível.

Outro arquivo chegou em seguida.

“Equipamento de gravação. Parte dos dados comprometida. Trechos recuperáveis.”

Fernanda inclinou-se no banco. Isso quer dizer que Eduardo gravava o próprio ambiente. Não por hábito, mas por necessidade.

Ou desconfiança.

Uma hora depois, já em sua sala na delegacia, montou uma espécie de central improvisada da investigação, a tela à sua frente exibia um trecho das imagens externas da casa que haviam conseguido com a equipe de segurança.

Frame congelado.
Horário no canto inferior e a imagem de um homem.

Mesmo ponto. Mesma postura.

— Reproduz — disse Fernanda.

Paulinho ajustou.

O vídeo rodou.

O homem não observava a casa ele esperava.

Uma van surgiu no enquadramento lateral. Logotipo parcialmente visível. Horário compatível com a operação do buffet.

O homem se aproximou. Recebeu uma pequena caixa. Assinou. Voltou.

Simples, limpo e explicável.

— Conferimos — disse Paulinho. — Terceirizado. Substituindo outro. Entrega atrasada.

Fernanda permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Observando de novo, o desconforto, a rigidez. O erro de quem tenta não errar.

— Ele não estava fora do lugar — disse, por fim. — Só não sabia como parecer que estava no lugar certo.

Paulinho deu um meio sorriso.

— Acontece.

Fernanda fechou o vídeo.

— Descarta — disse, direta.

— Total?

— Mantém registro. Mas não é linha ativa.

Uma pausa.

— Não foi ele.

Silêncio breve.

Fernanda apoiou o cotovelo na mesa, o olhar distante por um instante.

— Quando a hipótese encaixa fácil demais… — murmurou — geralmente é porque está resolvendo a pergunta errada.

Paulinho soltou um leve riso.

— Ou porque alguém quer que a gente olhe pro lado errado.

Fernanda não respondeu, mas também não discordou.

Voltou ao caderno.

Reorganizou os pontos:

HIPÓTESE 1: Morte natural encoberta por circunstâncias suspeitas
HIPÓTESE 2: Intervenção externa (substância ou indução)
HIPÓTESE 3: Crime planejado com motivação empresarial
HIPÓTESE 4: Crime com motivação pessoal
HIPÓTESE 5: Interferência externa não identificada (baixa probabilidade)

E, abaixo:

GRAVAÇÃO = POSSÍVEL RUPTURA DO CASO

Se Eduardo registrava conversas…
Ele esperava algo ou alguém.

Agora havia uma direção, ainda não era a resposta, mas era o suficiente para começar a desmontar versões.

Minutos depois, ainda na sala da investigação, o pequeno dispositivo metálico já estava conectado ao sistema da perícia digital. Paulinho ajustava os últimos parâmetros enquanto a barra de carregamento terminava de processar os arquivos parcialmente recuperados do escritório de Eduardo.

— Conseguimos salvar parte do conteúdo — disse ele, sem tirar os olhos da tela. — O resto está corrompido.

Fernanda se aproximou em silêncio, deixou a caneca de café na mesa, cruzou os braços, o olhar fixo no monitor.

Minutos depois, ainda na sala da investigação, o pequeno dispositivo metálico já estava conectado ao sistema da perícia digital. Paulinho digitava com a concentração de quem claramente queria parecer mais técnico do que realmente era.

— Conseguimos recuperar parte dos arquivos — disse, inclinado sobre o teclado. — O resto o criminoso, o universo ou a tecnologia resolveram sabotar.

Fernanda aproximou-se, cruzando os braços.

— Em algum momento você pretende parar de narrar a própria incompetência?

Paulinho levou a mão ao peito, ofendido de mentira.

— Fernanda... eu prefiro “profissional criativo sob pressão”.

Ela ignorou.

— Quanto temos?

Paulinho deu dois cliques e a barra de processamento terminou de carregar.

— Não muito, mas pode ajudar.

Paulinho girou a cadeira de lado, apoiando um cotovelo na mesa.

— Então... doutora futura delegada... já posso começar a praticar continência ou ainda está cedo?

Fernanda continuou de pé, braços cruzados, os olhos fixos na barra de carregamento.

— Continua ridículo.

Paulinho sorriu.

— Isso não respondeu.

Fernanda soltou um quase sorriso, discreto demais para qualquer um notar, menos Paulinho.

— Pronto. Já valeu meu dia. Consegui arrancar uma microexpressão humana de você.

— Passei em todas as etapas. Prova objetiva, discursiva, oral... exame médico, psicológico...

Paulinho levantou a mão.

— E o tal teste físico que você quase me matou treinando junto?

Fernanda finalmente desviou o olhar para ele.

— Passei também.

— Milagre. Eu ainda sinto minhas pernas daquele dia.

— Porque você resolveu competir comigo.

— Eu achei que amizade incluía incentivo, não humilhação pública.

Pela primeira vez em horas, Fernanda deixou um sorriso discreto escapar.

— Agora só falta a investigação social.

Paulinho percebeu que, apesar do tom controlado, havia algo diferente ali.

— Ansiosa?

Fernanda olhou de volta para a tela. Dessa vez, não negou.

— Um pouco.

Paulinho assentiu, mais sério por um instante.

— Você já fez a parte difícil.

Fernanda inclinou levemente a cabeça.

— Ainda não. Depois vem o curso de formação.

Uma pausa.

— E é exatamente por isso que eu quero encerrar esse caso logo.

Paulinho observou a parceira por um segundo antes de sorrir de lado.

— Entendi. Então não é justiça...

Fernanda arqueou uma sobrancelha.

— Não.

Paulinho apontou para a tela.

— É ansiedade com planejamento estratégico e leves traços de obsessão.

— Você fala demais.

— E você trabalha demais. É por isso que funcionamos.

Naquele instante, a barra de carregamento alcançou cem por cento.

Paulinho se virou para o monitor.

— Dá play antes que eu estrague esse momento.

— Aí está minha parceira.

Paulinho clicou em reproduzir.

O cursor avançava lentamente na linha do áudio recuperado.
Chiado. Interferência. Fragmentos de vozes.

Paulinho aumentou o volume.

— Ainda tem muita coisa corrompida.

Fernanda não respondeu. Seu olhar permaneceu fixo na tela, cada músculo do corpo em estado de atenção.

Por alguns segundos, apenas estática.

Então, a voz de Eduardo surgiu. Mais baixa. Mais tensa do que em qualquer registro público que Fernanda havia visto.

— Isso não pode sair daqui.

O áudio falhou por um segundo.

Depois, outra voz.

Feminina.

Baixa. Controlada.

E imediatamente reconhecível.

Amanda.

Fernanda sentiu a mandíbula travar antes mesmo de perceber.

No arquivo, Amanda respirou fundo antes de falar.

— Eu não quero mais viver desse jeito, Eduardo.

Silêncio.

Nem Paulinho se moveu.

Então a voz dela voltou, agora mais firme.

— Você me controla, mente... e ainda espera que eu sorria na frente das pessoas?

Uma respiração pesada tomou o ambiente.

Eduardo.

— Cuidado com o que você fala.

O áudio chiou violentamente.

Falhou.

E morreu.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Fernanda continuou olhando para a tela apagada, como se o arquivo pudesse devolver mais alguma coisa, mas não precisava, aquilo já era suficiente.

Amanda Bastos acabava de deixar de ser apenas uma possibilidade.

Agora tinha motivo.

E, pela primeira vez desde que entrou na Casa de Vidro, Fernanda percebeu que talvez seu maior problema não fosse descobrir quem matou Eduardo Bastos.

Talvez fosse descobrir... se Amanda estava pedindo ajuda.

Ou avisando que já não precisava dela.

 

Fim do capítulo


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