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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1791
Acessos: 457   |  Postado em: 02/05/2026

Capitulo 4

 

Fernanda Vasconcellos não passava despercebida. Não porque tentasse chamar atenção — pelo contrário. Havia nela uma economia de gestos, uma precisão quase cirúrgica na forma de se mover e observar, que naturalmente deslocava o ambiente ao seu redor.

Alta, postura firme, 31 anos, corpo atlético moldado mais pela exigência da profissão do que por vaidade. Não era excessivamente musculosa, mas havia força evidente na forma como ocupava o espaço — como alguém que sabia exatamente o que fazer em situações de pressão, adorava esportes de artes marciais e estava sempre praticando no clube de tiros, ela dizia que era por causa da profissão, mas o fato é que ela adorava isso tudo. Os cabelos loiros, presos em um coque baixo e prático, deixavam à mostra o rosto de traços definidos. Os olhos verdes, intensos, tinham algo de incômodo: não apenas viam — analisavam, desmontavam, reconstruíam. Era o tipo de olhar que fazia as pessoas falarem mais do que pretendiam. E esconder menos do que acreditavam.

Ao entrar na Casa de Vidro, o dia começava a raiar, Fernanda fez o que sempre fazia. Não perguntou nada. Observou.
A disposição dos móveis. A incidência de luz. Pequenos detalhes fora de lugar. Marcas quase invisíveis no chão polido. O tipo de silêncio que se instalava quando alguém estava sendo observado sem perceber.

Havia também o cheiro.

Não mais o perfume sofisticado da noite anterior, nem o álcool leve que ainda pairava no ar. Era algo mais sutil, quase apagado, mas presente. Um resquício deslocado, que não pertencia àquele ambiente controlado. Fernanda não comentou. Apenas registrou.

Ao fundo, dois peritos conversavam em voz baixa, interrompendo a fala assim que perceberam sua presença. Um deles evitou contato visual por tempo demais. O outro segurava uma luva descartável ainda nas mãos, como se tivesse sido interrompido no meio de algo que não deveria esperar.

Fernanda não gostava de interrupções.

Seus olhos passaram rapidamente pelo corredor que levava ao escritório. A porta, agora totalmente aberta, já não guardava o mesmo impacto da madrugada — mas algo ali ainda não encaixava. Não era o corpo. Não era o copo no chão. Era… a ausência de desordem.

Controlado demais.

Para alguém como Eduardo Bastos, aquilo fazia sentido. Para uma morte… nem tanto.

Ela deu alguns passos lentos em direção ao corredor, sem entrar completamente no ambiente. O olhar percorreu o chão, a mesa, os objetos. Os cacos do  copo de uísque ainda estava ali, mas o líquido… não estava onde deveria. Pouco resíduo. Pouca dispersão.

Como se tivesse sido derramado de forma mais contida do que o impacto sugeria.

Ou… em outro momento.

Seus olhos subiram até a mesa. O posicionamento dos objetos permanecia quase impecável. Um notebook fechado. Um celular alinhado ao lado direito. Nenhum sinal de luta. Nenhuma tentativa de reação.

Mas Eduardo foi encontrado com expressão de surpresa e surpresa não combina com ordem. Algo ali não havia acontecido como parecia.

Ela voltou a atenção para Amanda.

Porque, se havia algo fora do lugar naquela casa… talvez não estivesse nos objetos.

Sentada no mesmo lugar da noite anterior, como se o tempo tivesse decidido respeitar sua posição estava Amanda Bastos. Mas havia algo diferente. Mais alerta. Mais consciente. Como se esperasse por algo, que ainda não conseguia definir e então os olhos das duas se encontraram e não se desviaram imediatamente. Foi sutil. Mas não leve. Um reconhecimento silencioso — não de quem já se conhecia, mas de quem, sem explicação lógica, sentia que aquele encontro não seria passageiro.

Algo pequeno se moveu dentro de Amanda. Rápido. Quase como um sobressalto contido… como asas batendo por um segundo no lugar errado. Ela não reagiu, mas sentiu.

E isso já foi demais.

Fernanda, por outro lado, sustentou o olhar por tempo suficiente para perceber… e, no instante seguinte, desejar não ter percebido. Havia uma estranha quietude no meio do caos. Como se, por um segundo, o barulho ao redor tivesse diminuído… e restasse apenas aquele ponto fixo entre elas. Desconfortável. E, ao mesmo tempo… inexplicavelmente seguro.

O tipo de sensação que não combina com aquele cenário, muito menos com aquele momento.

E talvez por isso mesmo… impossível de ignorar. Estava difícil quebrar o contato, como se, ao desviar, algo se perdesse antes mesmo de ser entendido, mas Fernanda precisava.

Organizou o pensamento à força, endireitou a postura e vestiu a razão como quem fecha uma porta por dentro.

Deu um passo à frente.

— Investigadora Fernanda Vasconcellos. — A voz saiu firme.

Mas, por dentro… ainda havia um leve descompasso. Como se algo tivesse saído do lugar. E ainda não tivesse voltado completamente.

Amanda inclinou levemente a cabeça.

— Amanda Bastos. Imagino que já saiba.

— Gosto de confirmar pessoalmente.

Um breve silêncio se instalou. Não desconfortável — apenas… carregado.

— A casa tem câmeras? — perguntou Fernanda, antes mesmo de iniciar formalmente o interrogatório.

Amanda não se surpreendeu com a pergunta.

— Tem.

— Todas funcionando?

Uma pausa mínima. Quase imperceptível.

— Sempre estiveram.

Fernanda sustentou o olhar por um segundo a mais.

"Estiveram" não era o mesmo que "estão". Ela não corrigiu. Ainda.

Do outro lado da sala, o investigador Paulinho trocava algumas palavras com o delegado Dias, mas a postura dos dois indicava algo além de uma conversa operacional. Havia tensão ali — uma urgência contida.

— O horário da morte ainda está sendo fechado — murmurou Paulinho, baixo, mas audível o suficiente. — Mas tem coisa que não bate.

— Nunca bate quando envolve gente assim — respondeu Dias, seco. — A diferença é que, dessa vez… alguém tentou organizar demais.

Fernanda captou a troca sem virar o rosto.

Organizar demais. Fazia sentido.

Se o cenário havia sido ajustado… então o erro não estaria no excesso de caos, mas na falta dele.

E, nesse tipo de situação… o controle deixava rastros.

Ela voltou o olhar para Amanda, porque, naquele momento… Amanda Bastos era a variável mais interessante da equação.

Fernanda puxou uma cadeira à frente dela, sem pedir permissão.

— Vamos conversar um pouco mais senhora Bastos.

Amanda assentiu.

O interrogatório não começou de forma convencional. Fernanda não abriu um bloco de notas. Não fez perguntas diretas de imediato. Ela apenas… observou.

— A senhora dormiu? — perguntou, por fim.

Amanda ergueu uma sobrancelha.

— Essa é uma pergunta relevante para um homicídio?

— Pessoas reagem de formas diferentes ao luto — respondeu Fernanda. — Algumas dormem. Outras… pensam demais.

Amanda sustentou o olhar.

— E o que a senhora prefere?

— Prefiro respostas honestas.

Uma pausa.

— Então não — disse Amanda. — Não dormi.

Fernanda assentiu levemente.

— A senhora parece muito… controlada.

— E isso é um problema?

— Depende. — Inclinou-se um pouco à frente — Controle pode ser força… ou cálculo.

Amanda não recuou.

— E qual dos dois você está tentando provar?

Um leve, quase imperceptível sorriso surgiu nos lábios de Fernanda.

— Ainda não decidi.

Fernanda mudou o eixo da conversa.

— Me fale sobre os convidados.

Amanda cruzou as pernas, ajustando-se na cadeira.

— Empresários, investidores… e dois diretores e amigos próximos do Eduardo.

— Elias Vargas da Silva — disse Fernanda, sem olhar para nenhum papel. — Advogado, isso?

— Elias cuidava de tudo que Eduardo não queria que fosse… exposto.

— Como o quê?

Amanda hesitou por um segundo.

— Contratos sensíveis. Aquisições agressivas. Blindagem jurídica.

Fernanda anotou mentalmente.

— E Marcelo Fuentes?

— Diretor financeiro. — respondeu Amanda — Amigo íntimo. Confidente.

— Confiável?

Amanda soltou um leve riso, sem humor.

— Para o Eduardo… sim.

— E para você?

Silêncio.

— Eu nunca confiei em homens que sabem demais sobre dinheiro dos outros.

Fernanda inclinou levemente a cabeça, interessada.

— E ele sabia demais?

— Sabia o suficiente para ser perigoso.

A investigadora mudou novamente o foco.

— E você, Amanda?

A mudança para o “você” não passou despercebida, tampouco foi corrigida.

— O que tem eu? — respondeu, com naturalidade calculada.

— Interior do Rio Grande do Sul. Pós-graduação. Viagem para São Paulo. Estagiária de dados. — Enumerou Fernanda — Você abriu mão de tudo isso por ele?

— Parece que fez seu dever de casa investigadora, mas não foi tão simples como parece.

— Nunca é — disse Fernanda, em tom neutro. — Mas ainda assim… foi uma escolha.

Amanda a encarou, agora com mais intensidade.

— Você sempre transforma tudo em decisão binária?

— Só quando alguém tenta simplificar demais.

Um silêncio se instalou, denso.

— Você sente falta? — perguntou Fernanda.

— Do quê?

— De quem você era antes dele.

A pergunta não veio como ataque, veio como precisão.

Amanda demorou a responder. E, quando respondeu, sua voz era mais baixa.

— Eu não esqueci quem eu era.

Os olhos de Fernanda sustentaram os dela.

— Não foi isso que eu perguntei.

O ar entre as duas mudou.

Algo sutil e perigoso. Como se a investigação tivesse ultrapassado uma linha invisível — e nenhuma das duas estivesse interessada em recuar. Amanda se inclinou levemente à frente.

— E você, investigadora… sempre se envolve tanto assim com suas suspeitas?

Fernanda não desviou.

— Só com as interessantes.

— E eu sou interessante?

A resposta veio sem hesitação.

— Muito.

Silêncio. Um daqueles silêncios que não pedem palavras. Fernanda se levantou lentamente.

— Por enquanto, a senhora permanece como principal suspeita.

Amanda também se levantou e com audácia pergunta.

— E isso te incomoda? —  Agora, estavam próximas demais. Fernanda sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário e respondeu com um meio sorriso.

— Me motiva.

Amanda inclinou levemente o rosto, quase um desafio.

— Cuidado, investigadora.

— Com o quê?

— Com o que você pode descobrir… — disse, em tom baixo — ou com o que pode acabar sentindo no processo.

Fernanda deu um passo para trás, mas não quebrou o contato visual.

— Eu não misturo as coisas.

Amanda esboçou um leve sorriso.

— Todo mundo acha isso… até misturar.

Silêncio.
—  Eu preciso ir. —  Diz Fernanda
—  Até mais investigadora.

Fernanda assente e já estava na porta quando parou por um segundo.

 

— Paulinho vive dizendo que eu me envolvo demais com meus casos.

Amanda cruzou os braços.

— E ele está certo?

Fernanda inclinou levemente a cabeça, um sorriso quase imperceptível surgindo.

— Ainda não sei… mas acho que acabei de encontrar um problema que vai dar trabalho investigar.

 

Virou-se e saiu.

Amanda ficou imóvel por alguns segundos.

 

Pela primeira vez naquela manhã… ela esqueceu do corpo no andar de cima.

Quando Fernanda deixou a sala, uma coisa estava clara para ela:

Amanda Bastos não era apenas uma suspeita. Era um quebra-cabeça. E, talvez… o tipo de problema que não deveria ser resolvido rápido demais.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Primeira interação das nossas protagonistas, o que acharam?


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