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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1803
Acessos: 501   |  Postado em: 02/05/2026

Capitulo 3

Amanda Bastos permanecia sem chorar e a ausência de lágrimas não era frieza — era controle. Na sua posição, ela precisava demonstrar segurança e domínio, eram muitos lobos rondando-a naquela noite. Sentada na sala principal da Casa de Vidro, ela mantinha a coluna ereta, as mãos repousadas com precisão sobre o colo, como se cada gesto fosse medido, ensaiado… ou aprendido à força. O vestido preto que usava delineava seu corpo com elegância: não era excessivamente justo, mas acompanhava suas formas de maneira natural, valorizando curvas bem distribuídas, firmes, reais — longe da fragilidade artificial que muitos esperavam de uma “esposa de milionário”. Havia força ali e por muitas vezes isso incomodava.

Seus traços denunciavam a origem gaúcha sem esforço. 29 anos, pele clara marcada por um leve tom dourado, como quem já passou mais tempo ao ar livre do que em ambientes climatizados. Os cabelos castanhos, densos, caíam em ondas controladas sobre os ombros. Os olhos — de um castanho profundo — tinham algo de inquieto, ainda que ela os mantivesse disciplinados. Mas era no olhar que residia o perigo, Amanda observava mais do que demonstrava, sempre foi assim.

Havia nela uma beleza que não obedecia a padrões óbvios. Não era simétrica o suficiente para ser previsível, nem delicada o bastante para ser facilmente enquadrada. Seu rosto carregava traços marcantes — o maxilar levemente definido, o nariz reto com uma pequena imperfeição quase imperceptível, que quebrava qualquer tentativa de torná-la “comum”. Seus lábios não eram finos nem exagerados, mas tinham presença, principalmente quando permaneciam em silêncio — como agora. Era uma beleza que se impunha aos poucos, que não pedia aprovação, apenas existia… e isso desconcertava.

Seu corpo, embora elegante, não seguia a rigidez das vitrines que frequentava. Havia curvas reais, sustentadas por uma postura que não era apenas física, mas construída ao longo de anos de resistência silenciosa. Seus ombros carregavam mais do que o tecido caro do vestido — carregavam história, decisões difíceis, renúncias que ninguém ali naquela sala seria capaz de dimensionar. E, ainda assim, não havia rigidez amarga em sua presença. Existia contenção, mas não endurecimento. Porque Amanda, apesar de tudo, não havia perdido algo essencial: a capacidade de perceber o outro.
Mesmo ali, no centro de um cenário que a colocava como suspeita, como peça de um jogo maior, havia nela um senso de humanidade que não combinava com o ambiente. Ela notava os olhares desconfortáveis dos funcionários, o nervosismo mal disfarçado de alguns convidados, o peso silencioso que pairava sobre a casa. E isso não passava despercebido — apenas não era exposto.

Sua mente, por outro lado, não parava.
Analisava. Revisitava. Cruzava detalhes. Como fazia com dados, fazia com pessoas. Cada gesto daquela noite parecia armazenado, catalogado, aguardando o momento de fazer sentido. Amanda não reagia de forma impulsiva — ela processava. E isso a tornava mais perigosa do que qualquer reação explosiva poderia sugerir.

Ela sabia onde estava. Sabia com quem estava lidando.
E, mais importante… começava a perceber que, pela primeira vez em muito tempo, não estava mais sob o controle de Eduardo.

Havia algo quase imperceptível nisso. Uma mudança sutil, mas significativa. Como se o ar ao redor estivesse diferente. Como se, na ausência dele, algo tivesse sido liberado — não de forma libertadora, mas instável. Insegura.

Amanda não se via como vítima. Nunca se viu, mas também não ignorava o fato de que, durante anos, havia sido moldada para ocupar um espaço que nunca foi totalmente seu.

Ela não havia nascido naquele mundo de poder e dinheiro. Muito antes da Casa de Vidro, antes dos jantares silenciosamente estratégicos e das roupas escolhidas por estilistas, Amanda era apenas mais uma jovem do interior do Rio Grande do Sul. Filha de uma família de classe de baixa renda, cresceu em uma cidade onde as pessoas ainda se cumprimentavam pelo nome e onde ambição demais era vista com certa desconfiança. Seu pai faleceu ainda quando Amanda era criança, vítima de um acidente na fábrica de sapatos onde trabalhava. Amanda era filha única, sua mãe Vera, uma senhora batalhadora, fazia faxina em residências para sustentar a filha e manter a casa. Amanda desde cedo, destacou-se, não pela beleza — que viria a ser notada depois —, mas pela inteligência. Em seu primeiro emprego, como auxiliar de escritório, começou a ter contato com planilhas e rotinas administrativas, tinha facilidade com números, padrões, lógica. Enquanto outros viam tabelas, ela via histórias escondidas nos dados.

Com muito esforço terminou o ensino médio, fez faculdade, o curso de Ciências de Dados na Faculdade Federal do estado, claro, não teria como pagar uma faculdade particular. Trabalhava meio turno no escritório e estudava no outro e assim conseguiu finalizar seu estudo e conquistar um novo emprego, como analista de dados em uma empresa de Marketing da capital.

O desempenho nesta empresa, fez Amanda tentar uma pós-graduação e foi isso que a levou para São Paulo. Uma oportunidade que poucos ao seu redor realmente compreendiam. Na cidade grande, Amanda aprendeu rápido. Adaptou-se ao ritmo, à frieza, à competitividade. Não perdeu sua essência — apenas a tornou mais silenciosa.

Foi durante um estágio em uma das empresas de Eduardo Bastos que seus caminhos se cruzaram. Na época, ela era apenas mais um nome em uma equipe de análise de dados. Dedicada, precisa, discreta. Fazia seu trabalho sem chamar atenção — o que, paradoxalmente, acabou chamando.

Eduardo notou primeiro o desempenho. Depois… o resto.

— Quem é ela? — perguntou, certa vez, para um de seus gerentes durante uma reunião.

— Amanda. Estagiária — respondeu ele, sem dar importância.

Eduardo não disse nada na hora. Mas passou a observar.

Amanda não era como os outros. Não tentava impressionar. Não se vendia. Não buscava aprovação. Havia uma autonomia silenciosa na forma como trabalhava — algo raro em um ambiente onde todos, de alguma forma, orbitavam em torno dele. E Eduardo… não gostava de coisas que não orbitavam ao seu redor.

O primeiro convite veio de forma quase casual.

— Gostaria de jantar comigo? — disse ele, em seu escritório, como quem propõe uma reunião.

Amanda recusou de forma educada, mas firme. A diferença de quinze anos de idade entre eles, somada ao fato de ele ser seu chefe — apesar de toda a estabilidade e influência que ele tinha — era suficiente para ela entender que cruzar aquela linha não fazia sentido.

O segundo convite foi mais elaborado. O terceiro, mais insistente. Eduardo não estava acostumado a ser negado — e isso, mais do que o interesse inicial, passou a motivá-lo.

Amanda, por sua vez, não se deixava impressionar pelo dinheiro ou pela posição. O que a intrigava — e, eventualmente, a fez reconsiderar — foi a versão que Eduardo começou a apresentar. Um homem paciente, atencioso, surpreendentemente… acessível ou, ao menos, convincente o suficiente para parecer.

Quando finalmente aceitou sair com ele, Amanda estabeleceu limites claros — algo que poucos ousavam fazer com Eduardo Bastos. E, por um tempo, ele respeitou. Os encontros eram discretos. Conversas longas. Ele a escutava — ou fingia escutar muito bem. Falava sobre negócios, mas também sobre dificuldades, sobre a solidão que o sucesso trazia. Era um discurso cuidadosamente construído e funcionou. Amanda não se apaixonou de imediato, mas se aproximou, criou confiança.

Meses depois que Amanda foi para São Paulo, Vera, a mãe de Amanda recebeu o diagnóstico de câncer no pâncreas, em estágio avançado, o fim para ela veio rápido, um dia Amanda vivia o sonho de trabalhar em uma mega empresa, ter um namorado bonito e atencioso e no outro dia, sua mãe, sua única família, morria, deixando uma dor no coração de Amanda, algo que ela não esperasse que fosse acontecer novamente tão cedo. Foram dias de sofrimento, muito abalada, Amanda só tinha o ombro de Eduardo para chorar e ele soube aproveitar o momento frágil de Amanda e enredá-la em suas artimanhas. E, quando percebeu, ela já estava envolvida em uma dinâmica que se movia mais rápido do que ela gostaria de admitir.

O casamento veio como uma consequência lógica — pelo menos na narrativa de Eduardo. Segurança e estabilidade, uma vida sem preocupações. Para alguém que havia lutado tanto para chegar até ali, a proposta parecia, à primeira vista, uma recompensa. E Amanda aceitou, não por ingenuidade, mas por acreditar que ainda poderia manter algo de si mesma dentro daquela estrutura.

Ela estava errada.

Com o tempo, as sutilezas começaram a mudar, as decisões passaram a ser “sugeridas”, depois, direcionadas. Por fim, esperadas.

— Você não precisa trabalhar — disse ele, em um tom que parecia cuidado. — Isso é desnecessário agora.

Amanda hesitou.

— Eu gosto do que faço, me deixa envolvida com algum propósito.

— Eu sei — respondeu Eduardo, aproximando-se com um sorriso controlado. — Mas você pode gostar de outras coisas.

A frase ficou no ar e, pouco a pouco, Amanda foi cedendo.

Com o passar dos meses, a mudança em Eduardo não veio como ruptura, mas como um deslocamento silencioso — quase imperceptível no início, inevitável depois. O que antes era cuidado passou a carregar intenção. Ele começou a incluir Amanda em compromissos com uma frequência que não abria espaço para recusa: jantares longos, encontros formais, eventos onde sua presença parecia menos desejada do que necessária.

— É importante — dizia ele, sem insistir, mas também sem permitir alternativa.

Amanda passou a perceber que havia um papel a ser cumprido.
Em público, Eduardo mantinha a mesma postura segura, atenta, construindo ao redor deles uma imagem sem falhas. Ao lado dele, ela sorria, respondia, ocupava o espaço esperado. Mas, longe dos olhares, algo se retraía. As conversas foram perdendo profundidade, substituídas por trocas breves, práticas, como se qualquer tentativa de aproximação encontrasse uma barreira invisível.

Não houve discussões marcantes. Apenas um esvaziamento gradual.

Os gestos diminuíram primeiro. Depois, o toque tornou-se raro. Até que a ausência deixou de ser percebida como falta e passou a ser apenas… rotina.

Em algum momento — Amanda não soube dizer exatamente quando — eles deixaram de dividir o mesmo quarto. Não foi uma decisão anunciada, nem discutida. Apenas aconteceu, como tantas outras coisas que já não eram mais questionadas. A distância física consolidou aquilo que já se insinuava há tempos: não havia mais intimidade, nem desejo, nem esforço para manter qualquer dos dois.

Restava uma convivência silenciosa, sustentada por aparência e por um entendimento tácito de que algo havia terminado sem nunca ter sido, de fato, encerrado.

E, ainda assim, Eduardo seguia exigindo sua presença — como se, para o mundo, nada pudesse escapar do lugar que ele havia definido.

De volta à sala da Casa de Vidro, Amanda permanecia imóvel, analisando os fatos. Os convidados já tinham ido embora, o IML estava recolhido o corpo de Eduardo e aquela sensação de que havia muito mais para ser descoberto, não saia da cabeça dela.

Fim do capítulo


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