Olá queridas! Vou adiantar o capítulo desta semana (geralmente posto aos sábados), devido ao feriado. Espero que gostem deste 3 capítulo!
Abraços!
Lady Texiana
Capitulo 3 - O Furacão de Jalisco
A noite no Arizona não trazia refresco, apenas um silêncio pesado, interrompido pelo som seco e estridente dos grilos. Addison estava debruçada sobre o laptop no escritório, os olhos azuis ardendo sob a luz da tela. Agora que ela já havia mapeado a sangria: 22% de discrepância nos insumos e um rastro de dinheiro que sumia em Phoenix, tinha meios para agir.
Enquanto isso, nos fundos do estábulo de treinamento, Caleb Riggs buscava o conforto agora amargo nos braços de Lola, uma dançarina da boate Red Dust que ele mantinha por perto para aliviar as tensões e, ocasionalmente, servir de mensageira.
- Aquela mulher... ela mexe em tudo, Lola - Caleb rosnou, o cheiro de tabaco barato impregnando o ar abafado. - Ela acha que aqueles números na tela daquele computador que ela está sempre com o nariz enfiado, dizem a verdade. Ela não sabe que aqui a verdade é o que eu digo que é, que é o que tem que ser.
Lola, ajustando o vestido justo, soltou uma risada anasalada. - Ela é só uma dondoca brincando de fazendeira, Caleb. O que ela pode fazer contra você? O velho confia em você de olhos fechados.
- Ela está chegando perto demais da conta de Phoenix - ele bateu com o punho na madeira da baia. - Preciso que você vá até a cidade amanhã. Pegue os recibos originais com o fornecedor e dê um jeito de "sumir" com eles. Se ela não tiver o papel, não pode nos acusar de nada.
Caleb não entendia de códigos ou algoritmos, mas entendia de como fazer medo e de como ocultar provas. O plano era simples: se Addison não pudesse provar a fraude fisicamente, ele a faria parecer louca e obsessiva diante de um Adam Scott convalescente.
***
Na manhã seguinte, a rotina do rancho, compassada e calma é abalada, a calmaria se estilhaçando como vidro delicado em mil pedaços. Addison estava no pátio, com a camisa preta de linho e o chapéu de abas largas, dando ordens a um peão sobre a manutenção do trator, quando uma caminhonete, imponente e brilhante, rasgou a poeira da estrada e freou bruscamente diante da casa principal.
A porta se abriu. Itzel Mendoza desceu com a elegância de uma pantera. Ela usava trajes de montaria mexicanos impecáveis, adornados com detalhes em prata, e trazia no olhar o fogo de quem comanda impérios de agave e tequila.
O coração de Addison parou, errático, dividindo-se entre o pânico e a saudade súbita da amada.
- Itzel? O que... o que você está fazendo aqui? - Addison se aproximou rapidamente, tentando manter a voz baixa, enquanto os peões paravam para olhar.
- O Arizona é muito seco, Addison - Itzel disse, a voz aveludada e perigosa, enquanto retirava os óculos escuros. - Vim trazer um pouco de vida para este deserto. E para ver se você ainda lembra como é o gosto da verdade... e de mim, é claro.
Caleb, que saía do celeiro, estancou. Ele mediu Itzel de cima a baixo, seus olhos escuros e calculistas captando imediatamente a eletricidade estranha e fluída entre as duas.
- Outra visita da cidade, Addison? - Caleb perguntou, aproximando-se com aquele sorriso debochado que fazia Addison querer gritar. - O rancho Scott agora é um hotel para gente fina?
Itzel não esperou Addison responder. Ela deu um passo à frente, ficando cara a cara com o capataz.
- Eu não sou uma visita, senhor... Riggs, presumo? Sou Itzel Mendoza. O solo que piso, costumo reivindicar para mim - disse, o recado claro para Addison.
- Itzel é uma... fornecedora. De Jalisco - Addison interveio, sentindo o suor frio escorrer. - Ela veio tratar da exportação de alguns animais para o México.
- Curioso - Caleb cuspiu no chão. - O patrão nunca mencionou negócios com o México e eu nunca negociei com ninguém de lá. Vai ver é mais uma para trocar figurinhas em salões de beleza com o dinheiro do marido.
- Cuidado com a língua, Caleb - Addison sibilou, os olhos azuis faiscando. - Leve as malas da Sra. Mendoza para o quarto de hóspedes. Agora.
Caleb hesitou, o maxilar travado. Ele olhou para Itzel, depois para Addison, e soltou uma risada seca. - Como quiser, princesa. Mas cuidado... hóspedes demais costumam atrair perguntas demais. E o velho Adam não está com o coração bom para surpresas.
Quando Caleb se afastou, Itzel virou-se para Addison, os olhos escuros brilhando de impaciência.
- Esse é o cão sarnento que te assusta, Addison? Para mim é só um animal nojento que cheira a traição, cobiça e inveja.
- Ele é perigoso, Itzel. E meu pai está lá dentro - Addison segurou o braço da amante. - Você não pode simplesmente chegar assim e agir como se fôssemos...
- Como se fôssemos o que somos? - Itzel a cortou. - Enquanto você se esconde atrás daquele notebook, dos seus negócios e de um casamento de fachada com um homezinho medíocre que nem sabe o que é trabalho duro no campo, eu estou aqui, na sua frente. Vamos bebê. Me mostre o nosso quarto - disse, dando ênfase ao "nosso quarto".
Addison olhou para a varanda. Por um segundo, viu a cortina do quarto de Adam se mover.
***
A noite caiu sobre o Scott Legacy com uma densidade sufocante, carregada pelo cheiro de poeira e pela eletricidade estática que precedia aquelas tempestades de areia dos desertos. Addison estava no andar superior, conferindo a medicação de Adam, cujo estado de saúde ainda exigia cuidados constantes após o infarto.
No andar de baixo, o escritório estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelo brilho intermitente do laptop de última geração que Addison deixara sobre a mesa de carvalho. Caleb Riggs, movido pelo ódio de ser confrontado e pelo medo de que a "filha pródiga" expusesse seus desvios, entrou no cômodo com a furtividade de um coiote. Seus dedos rudes, acostumados ao laço e ao fumo de corda, estenderam-se para fechar o aparelho. Seu plano era simples: se não pudesse apagar os dados que ele achava que ela tinha visto, ele levaria o hardware e culparia algum peão desmazelado ou simularia um furto.
- Procurando no lugar errado o seu juízo, caubói? - A voz de Itzel Mendoza cortou o silêncio como um chicote de couro.
Caleb sobressaltou-se, girando o corpo e encontrando Itzel encostada no batente da porta. Ela não vestia mais os trajes de viagem; usava uma camisa de seda escura que parecia absorver a pouca luz do recinto. Em uma das mãos, segurava uma garrafa de sua própria tequila, o cristal brilhando perigosamente.
- Saia daqui, mexicana - Caleb rosnou, recuperando a postura agressiva e tentando esconder o laptop atrás do corpo. - Isso é assunto do rancho. Assunto de homem. Você é só uma intrometida que está procurando confusão e que se procurar demais, vai achar, garanto.
Itzel soltou uma risada seca, dando um passo lento para dentro do escritório. - "Assunto de homem"? Você fede a medo e a tabaco barato, Riggs. Eu vi como você olha para esse computador. Você não entende de nada disso. Quer o que aqui? Roubar?
- Você não sabe do que está falando! - Caleb avançou, a estatura bruta tentando intimidar a mulher à sua frente. - A Addison é uma patricinha que casou por dinheiro e agora quer brincar de auditora. Ela não sabe nada da terra. E você... você é só uma maldita intrometida, uma xereta que apareceu do nada.
- Você não sabe nada sobre mim, seu imbecil - Itzel rebateu, a voz baixando para um tom letal. - Se encostar um dedo naquele computador de novo, eu garanto que você não terá mãos para segurar uma rédea nunca mais
A tensão física entre os dois era quase palpável. Caleb, insultado em sua masculinidade rústica, deu um passo agressivo, mas parou abruptamente quando o som de passos firmes ecoou no corredor. Addison entrou no escritório, o olhar azul-gelo saltando de Itzel para Caleb, captando a cena instantaneamente.
- Caleb? O que você faz no meu escritório a esta hora? - Addison perguntou, a voz cortante como aço.
- O seu "brinquedo" estava apitando, Addison - ele mentiu, soltando o laptop sobre a mesa com um baque surdo. - Vim ver se não era um curto-circuito. Mas parece que sua amiga aqui gosta de latir alto demais para uma estrangeira.
Itzel abriu a garrafa de tequila, o aroma intenso inundando a sala. - Eu não lato, Addison. Eu mordo. E esse sujeito estava tentando roubar seu notebook. Por que você ainda mantém esse bandido por perto? Diga a ele quem manda aqui de verdade.
Addison sentiu o suor frio. Itzel não conhecia meias palavras e sua impaciência ameaçava derrubar a farsa do casamento com Briam e a discrição sobre o sucesso empresarial que ela tentava esconder.
- Caleb, saia agora - Addison ordenou, ignorando a provocação de Itzel para evitar um desastre maior. - Amanhã cedo quero o relatório das vacinas e das compras na minha mesa. Sem desculpas. Sem "erros" de contabilidade.
Caleb ajeitou o chapéu puído, lançando um olhar de serpente que alternava entre Addison e Itzel. Mas ele notou algo naquela troca de olhares - uma intimidade que ia além de uma parceria de negócios ou de uma amizade de mulheres de maridos ricos, algo que começou a martelar no seu cérebro, como uma bigorna.
- Como quiser, patroa - ele disse a palavra com um veneno escorrendo pelos lábios. - Mas cuidado com quem você coloca dentro de casa. As vezes pode ser uma cascavel.
Quando ele saiu, o silêncio que ficou era carregado de novos perigos, novas sensações provocadas pelo ambiente fechado e pela saudade de ambas.
- Você quase pôs tudo a perder, Itzel - Addison sussurrou, fechando a porta.
- O que estamos perdendo, Addison, é a nossa dignidade escondendo quem somos de um rato como aquele.
***
Assim que a porta se fechou e o som dos passos pesados de Caleb se desvaneceu no corredor, a rigidez nos ombros de Addison cedeu. O silêncio do escritório, antes carregado de uma violência iminente, tornou-se denso com uma energia diferente, alimentada pelo aroma amadeirado da tequila e pelo calor que emanava de Itzel.
- Você não consegue evitar, não é? - sussurrou Addison, encostando a testa na porta fechada por um breve segundo antes de se virar. - Ele já desconfia de tudo. Agora, ele olha para nós e vê algo que ainda não compreende. Mas quanto tempo levará até a ficha cair?
Itzel não respondeu com palavras. Ela deixou a garrafa de cristal sobre a mesa de carvalho, ao lado do laptop que fora o pivô do conflito, e caminhou em direção a Addison com a fluidez de uma predadora que finalmente encontrou a presa que que buscava. Quando suas mãos tocaram a cintura de Addison, o contraste entre a seda da camisa de Itzel e o brim grosso do jeans de trabalho de Addison pareceu eletrizar o ar.
- Deixe que ele olhe - Itzel murmurou contra o pescoço de Addison, sua voz perdendo o tom letal para assumir uma rouquidão possessiva. - Deixe que ele queime na própria ignorância. Eu não atravessei a fronteira para isso, muito menos para deixar que um capataz de quinta categoria mexa com minha mulher. Eu estou aqui agora Addison. E seja o que for que estiver acontecendo, resolveremos juntas, como sempre foi.
Addison sentiu a resistência desmoronar sob o toque familiar. A saudade, que vinha sendo mascarada por planilhas, auditorias e pela preocupação constante com o pai, emergiu como uma onda incontrolável. Ela entrelaçou os dedos nos cabelos escuros de Itzel, puxando-a para um beijo que carregava toda a urgência dos dias de silêncio e das mensagens não respondidas.
Naquele pequeno refúgio iluminado apenas pela luz azul do monitor, e do abajur fraco, Addison deixou os problemas em segundo plano, eles deixaram de existir por alguns instantes. Não havia engenheira, não havia a grande empresária e o reino de agave; apenas duas mulheres cujos gênios opostos se encontravam em um incêndio de paixão que a areia do deserto do Arizona jamais conseguiria apagar.
- Senti sua falta - admitiu Addison entre beijos, a voz falha. - Mas Itzel... aqui é realmente perigoso. Se meu pai souber, o coração dele não aguenta a verdade.
Itzel afastou-se apenas o suficiente para encarar os olhos azuis de Addison, sua expressão suavizada pela penumbra, mas ainda firme.
- Ele vai ter que aguentar, Addison. Ou você vai passar o resto da vida sendo a sombra de um homem que nem sequer sabe o que você faz quando as luzes se apagam? - Itzel pegou o copo, oferecendo um gole da tequila pura a Addison. - Beba. Você precisa de fogo no sangue para enfrentar o que vem amanhã.
Addison aceitou, o líquido queimando sua garganta e reforçando sua determinação. Ela sabia que a trégua ora experimentada era apenas temporária e que a presença de Itzel era o estopim de uma explosão inevitável. Mas, naquela noite, sob o céu estrelado do Arizona, ela escolheu focar apenas no calor da mulher que era sua única verdade em um mundo de mentiras.
***
A porta do escritório estava trancada, e o único som era o estalo baixo das vigas de madeira. Addison serviu mais uma dose da tequila envelhecida, o líquido dourado refletindo a luz âmbar do abajur sobre a mesa de carvalho. Itzel não estava mais sentada na cadeira de couro; ela caminhava lentamente pelo recinto, os dedos deslizando pelos lombos dos livros antigos e pelas fotografias de cavalos premiados.
- Este lugar cheira a mofo e a decisões tomadas apenas por homens, Addie - Itzel sussurrou, virando-se para a amada. Seus olhos brilhavam com uma mistura de saudade e impaciência.
Addison aproximou-se, entregando o copo. Seus dedos se tocaram, e a eletricidade foi instantânea, um contraste violento com a frieza das discussões dos dias anteriores. - É o santuário dele. Eu me sinto uma intrusa aqui, mesmo sendo a herdeira.
Itzel deixou o copo sobre a mesa e envolveu a cintura de Addison com um braço firme, puxando-a para perto. O cheiro de Itzel - uma mistura de perfume caro e a liberdade dos campos de agave - invadiu os sentidos de Addison. - Você não é uma intrusa. Você é a dona disso tudo, só ainda não percebeu. Senti sua falta. De verdade.
O beijo que se seguiu foi urgente, carregado da frustração de meses de distância e da adrenalina de estarem em território proibido. Addison pressionou Itzel contra a borda da pesada mesa de carvalho, as mãos perdidas nos cabelos escuros da outra. Por alguns segundos, o rancho, as dívidas e Caleb deixaram de existir.
Um baque surdo vindo do corredor as fez congelar.
Tum... tum...
O som rítmico de uma bengala e o chiado de um cilindro de oxigênio portátil ecoaram na escada de madeira. Addison afastou-se bruscamente, ajeitando a camisa com as mãos trêmulas, enquanto Itzel limpava o batom borrado com o polegar, mantendo um olhar desafiador para a porta.
A maçaneta girou. Como estava trancada, seguiu-se uma batida impaciente. - Addison? Eu sei que você está aí. Com quem você está falando a essa hora?
Addison respirou fundo, sinalizou para Itzel se afastar para as sombras do fundo da sala e destrancou a porta. Adam Scott estava parado ali, pálido, apoiado pesadamente na bengala, o cateter de oxigênio parecendo uma amarra em seu rosto envelhecido. Seus olhos varreram o quarto e pararam em Itzel.
O rosto do velho se contraiu em uma máscara de desdém. - Trouxe uma estranha para o escritório, Addison? O que ela faz aqui e o que foi aquela cena no pátio, hoje mais cedo?
- Pai, o senhor não deveria ter descido...
- Boa noite para o senhor também, Sr. Scott - cortou Itzel, a voz carregada de uma cortesia ácida. - Vejo que a teimosia continua sendo o remédio que o senhor mais gosta.
- Então Addie? O que ela faz aqui? - Adam ignorou Itzel completamente, voltando-se para a filha. - Já não basta ter que aguentar gente de fora por anos nas nossas feiras, , agora tenho que tê-los dentro da minha casa, bebendo meu uísque?
- É tequila, pai. E Itzel é minha convidada - Addison interveio, colocando-se entre os dois. A animosidade no ar era palpável, como se duas tempestades elétricas estivessem prestes a colidir. - O senhor deveria estar na cama. O médico foi claro sobre o esforço de descer as escadas.
- Eu não preciso de médicos e não preciso de estranhos ditando as regras no meu escritório - Adam tossiu, um som seco que sacudiu seu corpo frágil.
Addison viu a fragilidade sob a arrogância e sentiu a costumeira pontada de culpa. Ela segurou o braço do pai com firmeza, mas com cuidado. - Vamos. Eu vou te levar para cima. Itzel, por favor, termine sua bebida. Eu já volto.
O caminho até o andar superior foi lento e silencioso. Adam exalava um ressentimento que preenchia o corredor. Quando Addison o ajudou a se sentar na beira da cama, ele segurou o pulso dela com uma força surpreendente para o seu estado. - Tome cuidado, Addison. Essa mulher... ela não é como nós. Ela tem olhos de quem quer destruir o mundo, não de quem quer construir algo. Não deixe que ela te distraia do que realmente importa: um herdeiro e o Legacy.
- O Legacy precisa de modernidade, pai. E eu preciso de parceiros em quem confio. Além disso, só está falando isso porque ela é mulher - ela respondeu de forma evasiva, cobrindo-o com a colcha. - Quanto ao herdeiro, veremos, talvez um dia. Durma agora.
Addison saiu do quarto e fechou a porta, encostando a testa na madeira fria. O desejo de voltar para o escritório e se perder nos braços de Itzel lutava contra a exaustão e o peso das expectativas do pai.
Ela caminhou pelo corredor, mas em vez de descer, seguiu para o seu próprio quarto. Sabia que, naquela noite, o "flagrante" evitado era apenas um aviso: a farsa que mantinha para o pai e a verdade que vivia com Itzel não poderiam ocupar a mesma casa e o mesmo espaço por muito mais tempo.
Fim do capítulo
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