CAPÍTULO XXIV
Maia precisou apertar os olhos para reconhecer a senhora parada em sua frente. Mirtes parecia ter envelhecido dez anos. O corpo estava em uma magreza extrema, mais curvado que o habitual. Os cabelos haviam raleado consideravelmente e ela se apoiava em uma bengala desgastada.
— Olá, criança…
Magno se adiantou com a voz grave:
— Senhora, esta é Maia Alina Benesi I, rainha de Diamantora, trate-a por Vossa Majestade.
Maia manteve os olhos na velha mulher enquanto se aproximava dela:
— Mirtes?
A senhora sorriu um sorriso que agora era quase completamente desdentado:
— Foi uma honra abrigar uma rainha em minha casa. Se tivesse me contado, eu teria sido ainda mais hospitaleira…. Majestade.
Maia manteve a polidez, apesar de se lembrar com asco de tudo que presenciou naquela casa:
— Como posso ajudá-la?
Mirtes manteve o sorriso que Maia conhecia. A falsa calmaria e gentileza. A encenação de uma pobre mulher velha e humilde.
— Como pode ver, eu estou nos meus dias finais…
Falava como se estivesse contando uma bela história:
— Estou doente. Não tenho muito mais tempo sobre esta terra.
Maia a olhava cética. Só tinha concordado em recebê-la por insistência de Fantina, que havia argumentado: “Eu também não tenho boas recordações de Mirtes, mas é inegável que devo ao menos este favor. Assim vou me sentir desobrigada com ela”.
Maia sabia o que ela tinha vindo procurar ali, por isso foi categórica:
— Quanto você quer?
Ao contrário do que esperava, ela não se deu ao trabalho de parecer ofendida com a pergunta:
— Apenas uma recompensa… já que você…
Olhou para o Comandante, que deu um passo à frente, e se corrigiu:
— Digo, já que Vossa Majestade comeu de minha comida, bebeu de minha bebida e dormiu sob o meu teto sem me dar nada em troca…
Querendo acabar logo com aquilo, Maia se virou para Zahra que acompanhava tudo ao seu lado em silêncio:
— Dê uma boa quantia de moedas para essa senhora. Alimentos e bebidas.
Depois se voltou para Mirtes:
— E assim ficamos em igualdade.
Mas Mirtes ainda não tinha se dado por satisfeita:
— Peço que Vossa Majestade pense nas meninas… quando eu faltar… elas estarão sozinhas neste mundo.
Maia não ficou comovida como ela imaginava:
— A senhora receberá uma boa quantia. Pense com inteligência em como usá-la. Isso é tudo que terá de mim.
Com um sinal de cabeça indicou para Magno que aquela conversa tinha terminado. Ele mandou que um dos guardas acompanhasse Mirtes para fora do salão. Quando a mulher saiu, Maia ordenou:
— Se ela voltar em algum momento, não irei mais recebê-la.
Apertando o ponto entre as sobrancelhas, perguntou:
— O que mais para hoje?
Zahra colocou um livro velho sobre a mesa:
— Os impostos.
Maia concordou com a cabeça. A reclamação de Lordes, aldeões, mercadores e comerciantes. Os impostos assustadoramente altos que Oton tinha estipulado. Ou melhor, Luísa ou Milo. Oton não teria pensado naquilo. Estava ocupado demais com mulheres e bebidas.
— Quero que volte a ser como era antes. Nos termos estipulados pelo meu pai.
*****
Os dias se passaram abstratos para Maia. Era como se fossem rápidos e lentos ao mesmo tempo.
Para Chiara foram torturantes. Tomada pelos ciúmes que precisava engolir cada vez que via Zahra ao lado de Maia. E afundada em melancolia sempre que pensava em Luísa. Se questionou incontáveis vezes se havia feito a melhor escolha. Se realmente conseguiria fazer com que Maia acreditasse nela. Difícil, já que praticamente nem se viam mais.
— Chiara…
Não acreditou que estava ouvindo aquela voz falando seu nome. De costas, demorou alguns segundos para se virar. Com medo de que tivesse sido apenas uma alucinação. Mas ela estava lá.
Se encararam por alguns segundos, até Chiara fazer a reverência:
— Majestade.
Maia não soube o que dizer a princípio. Tinha ido procurar Chiara em um impulso. Queria vê-la. Conversar com ela. Tinha tanta vontade de contar tudo que havia passado fora do castelo. Recuperar a melhor amiga… mas como? Depois do que ela havia feito… a traição…
— Por quê?
Soltou a pergunta como se Chiara estivesse acompanhando seus pensamentos. Obviamente ela não entendeu:
— Perdão, Majestade?
Maia deu alguns passos e ficou mais perto dela. Precisava ver seus olhos:
— Por quê? O que foi que eu fiz para você ter aceitado ajudar Oton e Luísa?
Chiara deixou no chão o balde que segurava. Era a chance que tanto queria. Precisava aproveitá-la:
— Eu jamais participei de nada. Eu juro, Maia… pela memória de minha mãe… juro pela minha própria vida… nunca fiz nem faria nada contra você…
Maia recuou e encostou-se na parede. Cruzou os braços na frente do corpo como se a barreira física pudesse proteger também seus sentimentos:
— Por que me levou até o bosque, então? Justo naquele dia.
Chiara se aproximou com dois passos:
— Eu só queria te tirar um pouco dos aposentos. Você estava tão… triste… Me deixou tão preocupada. Nunca imaginei o que estava por vir… nunca imaginei que eles pudessem…
Maia a interrompeu:
— Não quero que fale deles. Quero que fale de você. Você era minha amiga… foi tão fácil assim? Se juntar a Luísa…
Ela balançou a cabeça repetidamente:
— Eu não me juntei a ninguém. Eu juro. Fiquei desesperada quando Estefan… quando Oton te levou… Eu procurei Luísa sim, mas para que ela me ajudasse a te encontrar. Não sabia que ela também estava envolvida.
Maia olhou para cima e mexeu o pescoço devagar, tentando aliviar o incômodo nos músculos. Só então voltou a olhá-la:
— Vocês estavam juntas? Enquanto eu ainda estava aqui?
— Não! Eu juro que não. Foi só depois que…
Chiara interrompeu a frase. Havia falado demais. Não se sentia à vontade para ter aquela conversa com Maia. Não queria ter que admitir que se deitou com Luísa várias vezes. E que, apesar de tudo, não se sentia arrependida.
— Depois que o quê?
Baixou o olhar, sem conseguir encarar Maia. Ela insistiu:
— Depois que o que, Chiara? Vamos, estou te ouvindo…
Quando voltou a olhá-la, resolveu falar tudo. Poderia não ter outra chance:
— Depois que declararam sua morte. Luísa se aproximou de mim. E eu estava… frágil, perdida. Foi aos poucos…
A voz foi ficando cada vez mais fraca:
— Eu não consegui resistir.
Limpou a garganta para continuar:
— Ela jurou que não sabia sobre o plano de Milo e Oton. Ela disse que não imaginava que fossem tentar te matar.
Maia quase riu:
— E você acreditou porque era conveniente para você, não é? Assim poderia ficar com ela, sem culpa.
Chiara estendeu o braço e tocou o rosto de Maia:
— Se eu soubesse que você estava viva, viajaria por todo o reino, iria para onde fosse preciso para te achar.
Sentiu as defesas dela baixarem um pouco e aproveitou:
— Por favor, Maia. Olhe para mim, sou eu, Chiara. Sua melhor amiga. Eu nunca te faria mal. Eu daria a minha vida por você.
Viu nos olhos dela o instante em que a desarmou completamente. Mas foram apenas segundos, antes do olhar de Maia voltar a endurecer. Então ela se aprumou e disse, antes de se virar e sair:
— Volte ao trabalho.
*****
Estática. Paralisada. Atônita. Demorou muitos segundos até conseguir falar:
— Embora?
Zahra falou calmamente:
— Nossa vida é na estrada, Maia. Rino não suporta mais passar os dias no ócio…
A surpresa não permitia que completasse o raciocínio:
— Mas eu pensei que…
Zahra se levantou da cadeira e se aproximou dela. Pegou a mão de Maia na sua:
— Que essa era a vida que nós sonhávamos? Não é…
A mente de Maia tentava buscar soluções:
— O que… está faltando? Do que vocês precisam?
Zahra sorriu ligeiramente:
— Precisamos voltar para nossa rotina. Precisamos de liberdade. De emoção…
— Mas… vocês são livres aqui! Podem sair e entrar no castelo quando bem entenderem…
Zahra a abraçou pela cintura:
— Eu sei. Mas não é a mesma coisa. Estamos aqui por benevolência sua…
Maia franziu a testa e a contestou imediatamente:
— Não! Se não fosse por vocês eu não teria sequer conseguido o trono de volta.
O que era a mais absoluta verdade. Não se sentia fazendo favores para nenhum deles. Se fosse falar em dívida, era ela quem devia sua própria vida ao grupo.
— Veja bem… nós sabemos que você nos vê como amigos. Nós sabemos tudo que passamos juntos durante o tempo em que você viveu com a gente. Mas essa não é a nossa essência. Não é assim que vivemos. Nós somos livres.
Os olhos de Maia já estavam marejados. A voz embargada:
— O que eu vou fazer sem vocês? Não me deixem sozinha aqui…
Zahra enxugou a lágrima que caiu do rosto dela:
— Nós vamos voltar sempre que possível. Eu prometo.
Sentia como se um buraco estivesse se abrindo sob seus pés. Perdida, abandonada, como ficaria sem os amigos?
— Fique comigo. Por favor.
Zahra acariciou o rosto dela por alguns segundos. Demorou para falar:
— Talvez Gualter fique. Mas não se preocupe… cuidamos para que você esteja cercada apenas de pessoas leais.
O choro de Maia aumentou a ponto do corpo sacudir involuntariamente. Zahra a abraçou com força contra seu peito e falou para dar certeza as duas:
— Você vai ficar bem.
*****
— Precisa de alguma coisa?
Chiara não teve dúvidas de que a encontraria ali. O bosque era o lugar preferido de Maia em todo o reino. Era seu refúgio, para onde ia em momentos como aquele. Lembrava-se de ter a encontrado chorando debaixo de uma árvore quando a mãe faleceu.
— Eu estou bem.
Devagar se aproximou e sentou ao lado de Maia. Ficaram as duas olhando para o horizonte, em silêncio. Só bem depois Chiara perguntou:
— Você a ama?
Maia continuou sem olhá-la ao responder:
— Ela salvou minha vida de várias formas.
A resposta vaga fez com que não perguntasse mais nada. O silêncio voltou a pairar sobre elas, mas foi curto, pois Maia devolveu a pergunta:
— E você?
A olhou sem saber exatamente de quem ela estava falando.
Ainda olhando o horizonte, Maia completou:
— Ama Luísa?
Buscou dentro de si a resposta e a única que encontrou foi:
— Depende da sua definição de amor.
Maia pensou em falar muitas coisas, questionar, tentar entender, mas no instante de hesitação, Chiara apoiou a cabeça em seu ombro. O contato a desarmou, fazendo com que desistisse de verbalizar qualquer coisa naquele momento.
Ficaram daquele jeito por muito tempo. Maia tentando aplacar o aperto no peito que sentiu mais cedo, quando — depois de alguns dias de terem dito que iriam embora — o grupo realmente a deixou. Com exceção de Gualter. O mais velho de todos eles, que agora era o Braço da Rainha.
Maia sorriu ao se lembrar da justificativa dele para permanecer no reino:
— Estou velho… E alguém precisa cuidar de você…
Chiara finalmente se mexeu, tirando a cabeça do ombro de Maia. As duas se olharam como há muito tempo não faziam. Sem barreiras, sem acusações, sem culpas. Parecendo voltar ao tempo em que eram duas adolescentes ingênuas.
Ela sorriu fazendo com que um pequeno sorriso também brotasse nos lábios de Maia. Se uma das duas iria dizer alguma coisa, jamais saberiam, pois um guarda as interrompeu se aproximando:
— Majestade, sua presença está sendo solicitada no Conselho.
— Tão perto assim?
O Comandante Magno tinha um semblante preocupado:
— Sim, Majestade. Estão avançando mais rápido do que prevíamos.
Gualter questionou:
— Já temos dimensão de quantos são?
Magno olhou para a mesa ao responder:
— Não temos o número exato, mas… muitos milhares. Estão incorporando prisioneiros… a quantidade só aumenta.
Um dos Conselheiros pediu a palavra:
— Eu e o Comandante conversamos antes desta reunião… e queremos propor de mandar alguns dos nossos homens ao encontro desses bárbaros. Não podemos ficar de braços cruzados enquanto eles se aproximam cada vez mais.
Maia olhou para Magno:
— É a melhor opção?
Depois que ele confirmou, ela sentenciou:
— Então façam isso.
Quando chegou ao seu aposento, Fantina a aguardava:
— Banho?
Se jogou na cama e só depois respondeu:
— Daqui a pouco.
A criada voltou a dobrar as roupas que tinha nas mãos:
— Sua amiga lhe trouxe flores.
Maia sentou-se na cama, com o cenho franzido:
— Quem?
A outra apontou para o lindo arranjo em cima da escrivaninha:
— Chiara… É esse o nome dela, não é?
Depois que Fantina deixou o aposento, Maia se pegou parada, com o olhar fixo na parede em sua frente. A memória buscando detalhes, momentos com Chiara… e as peças foram se encaixando devagar… Falas, toques, olhares… Naquela época não havia notado. Mas agora era outra pessoa. Tudo que viu, fez, viveu… fazia com que pudesse enxergar com mais clareza e menos inocência.
A mente trabalhou, de repente criou cenas que nunca existiram, mas que, ao se formarem em sua cabeça, despertaram sensações reais que arrepiaram a pele…
Se levantou um pouco perdida e procurou Gualter. Precisava pensar em outra coisa. Ainda não estava preparada para se aprofundar naquela questão.
Fim do capítulo
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