Capitulo 20 - O Estilhaçar do Vidro
O pátio do Rancho Double Cross tornou-se um palco de desolação. O som da porta do carro batendo ainda ecoava alto quando Eleanor avançou contra Cassidy. A fúria da atriz não era apenas pelo segredo, mas pela sensação de ter sido uma peça de teatro em uma vida que ela acreditava ser real.
- Você me deixou sentir pena! - Eleanor gritou, as lágrimas de raiva marcando a poeira acumulada em seu rosto. - Eu olhei para este lugar e vi uma mulher lutando para manter o seu legado, e tudo o que eu estava vendo era um capricho de uma bilionária entediada? Você é pior que a Julianne, Cassidy. Ela, pelo menos, nunca fingiu ser nada além de uma parasita. Mas você... você me deu esperança de que existia algo puro fora de Hollywood.
- Eleanor, escute... - Cassidy tentou segurar seu braço, mas o olhar de desprezo da atriz a fez recuar.
- Não me toque! - Eleanor sentenciou. - Você não é a rancheira que eu amei. Você é apenas mais uma em um escritório em um prédio alto demais. Fique com os seus bilhões e com a sua solidão. Você merece cada hectare desse isolamento.
Sem olhar para trás, Eleanor caminhou até o trailer de produção, exigindo que seu motorista particular a levasse para Austin imediatamente. Ela não levaria nada além da roupa do corpo e da raiva que queimava em seu peito. O Double Cross, que fora seu santuário, agora parecia um cenário de papelão sendo desmontado após o fim das filmagens.
A viagem para Austin foi um borrão de asfalto e neblina mental. Quando Eleanor entrou na sua suíte da cobertura do hotel 05 estrelas, Julianne estava sentada com a elegância de uma viúva negra, bebendo champanhe enquanto observava o caos que criara nas redes sociais.
- Ora, se não é a nossa heroína trágica - ironizou Julianne, levantando a taça.
Eleanor não deu tempo para o deboche. Ela caminhou até a mesa e jogou o tablet de Julianne no chão com um estalo seco.
- Acabou, Julianne. De verdade desta vez. - A voz de Eleanor era um sussurro letal. - Você queria me destruir usando a mentira da Cassidy, mas a única coisa que você conseguiu foi me mostrar que eu não quero passar mais nenhum segundo respirando o mesmo ar que você. Eu quero o divórcio. Amanhã. Meus advogados não vão negociar; eles vão ditar os termos.
Julianne levantou-se, o rosto desfigurado pela surpresa.
- Você vai me deixar por causa daquela mentirosa? Você não tem nada sem mim, Eleanor! Eu sou a sua imagem!
- Você é a minha algema - rebateu Eleanor, dando as costas e caminhando para a saída. - Fique com a cobertura. Fique com as fotos. Eu estou indo embora.
Ao sair pelo saguão do hotel, o pesadelo de Eleanor se materializou. A entrada estava cercada. Dezenas de paparazzi, alertados pela "localização vazada" que Julianne providenciara discretamente, avançaram com flashes cegantes.
- Eleanor! É verdade que você foi enganada pela magnata da Thompson Global?
- Wilson, como é ser a terceira ponta de um triângulo de bilhões?
Os flashes disparavam como metralhadoras. No topo da escadaria, Julianne apareceu, fingindo uma expressão de choque e tristeza para as câmeras, colocando a mão no ombro de Eleanor como se tentasse "protegê-la" - uma imagem perfeita para os tabloides: a esposa traída sendo generosa com a atriz humilhada.
- Saiam da frente! - Eleanor gritou, empurrando o cerco com uma força que nunca soube que possuía. Ela entrou no carro sob uma chuva de insultos e perguntas invasivas, vendo pelo vidro a silhueta vitoriosa de Julianne no topo das escadas.
***
O Silêncio de Bel-Air
O voo fretado para a Califórnia foi o mais longo de sua vida. Quando os portões de ferro de sua mansão em Bel-Air se fecharam atrás dela, o silêncio da propriedade de dez milhões de dólares soou como uma tumba.
Eleanor entrou na sua sala de estar, onde seus dois Oscars brilhavam na prateleira, frios e indiferentes. Ela caminhou até a janela que dava para as luzes de Los Angeles, mas seus olhos não viam a cidade. Ela via a lama do Texas. Sentia o cheiro do café de Martha. Ouvia o som do Rio Colorado.
Ela estava de volta ao topo do mundo, cercada pelo luxo que definira sua vida desde os dois anos de idade. Mas, ao olhar para suas mãos, Eleanor Wilson percebeu que a poeira de Bastrop ainda estava sob suas unhas. Ela estava em casa, mas, pela primeira vez na vida, sentia-se completamente sem teto. A paz fora comprada com o preço da solidão, e aquele rancho em Bastrop era agora uma ferida aberta em sua memória.
Fim do capítulo
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Joanna
Em: 17/04/2026
Se nós reles mortais sofremos por relações onde a confiança é quebrada ou nem mesmo contruída, imagine entre pessoas onde o poder está envolvido.
Abr
Lady Texiana
Em: 21/04/2026
Autora da história
Respondi anteontem ao seu comentário, mas por algum motivo ele não apareceu aqui. De qualquer forma, agradeço por ter acompanhado esta história e pelo comentário. Você definiu muito bem o ponto central do enredo, pois quando o "ter" se torna bem maior que o "ser", a confiança realmente fica prejudicada. Entretanto, no fim, as feridas delas são as mesmas que as nossas, apenas amplificadas devido as circunstâncias... Abraços!
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