Capitulo 21 - O Gosto Amargo
Se a mansão em Bel-Air era um momumento de silêncio para Eleanor, o Rancho Double Cross havia se transformado em um bunker de ressentimento. O escritório de Cassidy, antes um santuário de ordem e estratégia, agora cheirava a fumo e ao álcool forte do uísque Straight Bourbon que ela consumia direto da garrafa, sem o gelo que costumava suavizar a descida.
Cassidy estava sentada atrás da mesa de carvalho maciço, a mesma onde Eleanor descobrira seus diplomas. Mas agora, os títulos de Yale e o PhD pareciam piadas de mau gosto penduradas na parede. Na tela de três monitores diferentes, o caos que ela tanto tentara evitar desenrolava-se em tempo real.
- O valor das ações da Thompson Global oscila enquanto investidores questionam a estabilidade emocional da CEO reclusa - dizia uma manchete de um jornal financeiro.
- A farsa do rancho: Cassidy Thompson vivia vida dupla para seduzir estrela de cinema - gritava um tabloide sensacionalista.
Cassidy virou mais um gole, sentindo o líquido queimar a garganta. Ela nunca se importara com o dinheiro, mas odiava a perda de controle. A sua "Paz em Bastrop" fora leiloada por centavos em troca de alguns cliques de fotógrafos.
O som de batidas suaves na porta a fez rosnar.
- Eu disse que não queria ser incomodada, Martha!
- Não é a Martha, Cassidy - a voz de Marcus, o diretor, soou hesitante através da madeira. - A equipe de produção está terminando de carregar os caminhões. O set está oficialmente fechado. Eu... eu só queria me despedir. E pedir desculpas pelo circo que minha produção trouxe para as suas terras.
Cassidy levantou-se com um movimento brusco, abrindo a porta. Seus olhos estavam injetados, e a camisa de flanela, outrora impecável, estava amassada e aberta no peito.
- Você não trouxe apenas um circo, Marcus - ela sibilou, a voz rouca pelo álcool. - Você trouxe o mundo inteiro. Você trouxe o caos de Hollywood para o meu rancho. Quando permiti que gravasse aqui, foi pela amizade que nossas famílias tinham, mas agora, percebo que foi um enorme erro. E Eleanor...
- Ela não sabia, Cassidy - disse Marcus, com uma coragem que não tivera durante as filmagens. - Eleanor realmente acreditava que estava ajudando você. Ela saiu daqui destruída.
- Ela saiu daqui como sempre sai: para o conforto de uma mansão e para a proteção de uma assessoria de imprensa - Cassidy riu, um som seco e sem alegria. - Ela volta para a luz. Eu fico aqui, no escuro, limpando a lama e os rastros que vocês deixaram. Por favor, gostaria que me deixasse sozinha agora - A voz, um lamento baixo e seco.
Marcus assentiu em silêncio e retirou-se. Cassidy voltou para sua garrafa. Ela caminhou até a janela e olhou para o local onde o trailer de Eleanor estivera estacionado por semanas. Agora, restava apenas um retângulo de grama amassado e morto.
O telefone sobre a mesa vibrou. Era seu advogado chefe.
- Cassidy, os acionistas estão exigindo uma coletiva de imprensa em Austin. Se você não aparecer e der uma face à Thompson Global agora, eles vão forçar uma votação de confiança.
- Deixe que votem - ela respondeu, a voz carregada de uma amargura niilista. - Deixe que vendam a empresa. Deixe que Austin queime.
Ela desligou o aparelho e o arremessou contra a parede, vendo os estilhaços de vidro se misturarem à poeira. Cassidy Thompson, a mulher que podia comprar tudo, percebeu que a única coisa que realmente queria - a verdade nos olhos de Eleanor enquanto o sol nascia no Texas - era a única coisa que seus bilhões talvez jamais conseguiriam recuperar.
Ela serviu o último copo da garrafa. O silêncio do rancho, que antes era uma canção, agora era um grito ensurdecedor de solidão.
***
Mas Cassidy Thompson não era uma mulher de recuar; ela era uma mulher de contra-atacar com a precisão de um espadachim. O uísque, que antes servia para afogar a amargura, agora era apenas o combustível para a clareza fria que ela precisava. Se o mundo queria a "Imperatriz de Ferro reclusa", como vinha sendo chamada na imprensa, era exatamente isso que ele teria.
Ela viajou para Austin em um comboio de SUVs pretas que cortaram a interestadual como facas. No topo do arranha-céu da Thompson Global, diante de um conselho administrativo trêmulo, Cassidy não pediu desculpas. Ela ditou termos. Mas, enquanto os acionistas celebravam a subida das ações após sua aparição triunfal, Cassidy operava nas sombras do seu terminal privado.
Através de uma série de empresas de fachada e cláusulas de confidencialidade leoninas, ela estendeu sua mão invisível até Julianne, que acreditava estar no controle da narrativa, e que viu-se subitamente encurralada por uma oferta que não podia recusar: um acordo de divórcio que a tornaria confortavelmente rica, sob a condição de que ela desaparecesse da vida de Eleanor para sempre e assinasse um termo de silêncio absoluto sobre os meses passados no rancho. Cassidy comprou a liberdade de Eleanor sem que ela jamais soubesse quem pagara a conta.
*** O Reencontro - Dois Meses Depois
Passaram-se sessenta dias até que a poeira de Los Angeles e o barulho do divórcio finalmente assentassem. Eleanor Wilson estava sentada no terraço de sua mansão em Bel-Air, observando o pôr do sol sobre o Pacífico, quando o som de um motor potente ecoou pela garagem. Não era o rugido de uma Ferrari ou o silêncio de um Tesla; era o som pesado de uma Ford Ranger.
Quando Cassidy desceu do carro, ela não vestia o terno de corte impecável que usara em Houston. Estava de jeans e a mesma camisa de flanela, embora o olhar estivesse mais cansado, mais humano. Eleanor levantou-se, o coração batendo com uma violência que as telas de cinema nunca conseguiram captar.
- Enfim você veio - disse Eleanor, a voz falhando, o coração amolecido pela simples visão da outra mulher e a esperança nunca abandonada, que apesar do ressentimento e da mágoa, haveriam de se encontrar novamente.
- Eu precisei arrumar a casa antes de convidar você para entrar de novo - respondeu Cassidy, parando a poucos metros de distância.
Eleanor caminhou até ela, a desconfiança ainda lutando com o desejo.
- Por que, Cassidy? Por que a mentira? Por que me deixar acreditar que você era alguém que precisava de resgate enquanto governava um império, que definitivamente não precisa de ativos?
Cassidy suspirou, e pela primeira vez, a armadura da magnata caiu por completo.
- Porque eu queria saber se alguém no mundo poderia me amar sem saber o que eu podia comprar. Eu tive tudo, Eleanor, e perdi tudo para uma pessoa que amava apenas o meu extrato bancário e a vida que eu podia proporcionar. Eu fugi para Bastrop para ser apenas Cassidy. E quando vi você... eu tive medo. Medo de que, se eu dissesse quem eu era, você se tornasse apenas mais uma pessoa tentando me gerenciar.
Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço.
- Eu não escondi a minha fortuna para enganar você. Eu a escondi para me proteger. Mas acabei perdendo o que era mais real no processo.
Eleanor olhou para Cassidy, e o horizonte de Austin, com todo o seu veneno e suas luzes artificiais, pareceu finalmente ter ficado para trás. A verdade era dura e cheia de arestas, mas era a única coisa que importava agora e precisava ser dita.
Fim do capítulo
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