CAPÍTULO XXII
— Não temos mais muito tempo. A essa altura, em Ótice, já estão sabendo da prisão da rainha Luísa.
Maia manteve o olhar fixo na mesa. Sentada em sua cadeira no Conselho, cercada por Zahra, Gualter, Ramon e Martelo, que agora eram seus Conselheiros. Rino recusou uma cadeira, preferindo ficar na Guarda Real, pois — palavras dele: não havia nascido para sentar a bunda numa cadeira enquanto os homens de verdade lutavam. Alguns dos Conselheiros antigos também continuavam lá. Havia feito uma reformulação, mantido alguns que conhecia desde que nascera e tirado outros que entraram por meio de Milo, Oton e Luísa.
Olhou para o Comandante Magno que esperava alguma resposta. Em vez disso, fez outra pergunta:
— Quanto tempo até eles chegarem aqui?
— Já coloquei homens para trazer notícias de Ótice, Majestade. Mas acredito que em menos de cinco dias.
Fechou os olhos e permaneceu assim por segundos. Quando os abriu, todos a olhavam.
— Não tenho a intenção de começar uma guerra.
Um dos Conselheiros mais antigos pediu permissão para falar:
— Majestade, nosso exército é muito superior ao de Ótice. Não teríamos dificuldades.
Ela balançou a cabeça:
— Eu sei. Mas valeria a pena?
Zahra se indignou ao seu lado:
— Aquela mulher tentou te matar!
Maia suspirou e esfregou a testa:
— Também sei. Mas não quero que outros reinos me vejam como uma rainha belicosa. Não é isso que pretendo.
Assim que a reunião terminou e os homens saíram, Maia desabafou com Zahra:
— Não sei o que fazer.
— Você sabe o que eu penso. Se todos estiverem mortos, ninguém voltará para se vingar.
Maia a olhou, tamborilando os dedos na madeira da mesa:
— Matar outra rainha não é tão simples. Haverá retaliação de qualquer jeito.
Zahra recostou na cadeira:
— Então a liberte. Mas faça com que ela veja isso como uma benção, e não como um motivo para vingança.
Ficou mais um tempo calada. Outra coisa atravessava seus pensamentos o tempo inteiro:
— Está me incomodando manter Chiara como prisioneira.
A resposta de Zahra foi novamente rápida e rude:
— Ela também tentou te matar.
— Ela era minha amiga.
Zahra riu brevemente e perguntou num tom irônico:
— Era mesmo?
Maia se pôs de pé, tentando disfarçar o quanto a traição de Chiara a afetava:
— Eu sei que ficou evidente que ela também estava envolvida, mas… eu ainda não consigo acreditar totalmente…
Zahra permaneceu sentada, falando sem a mínima paciência:
— Maia, você não pode continuar tão ingênua. Todas essas pessoas merecem o que está acontecendo com elas.
Se virou disposta a argumentar:
— Mas Chiara é…
E Zahra a cortou antes que pudesse concluir a frase:
— O que é que você realmente tinha com essa moça?
Franziu a testa, sacudindo a cabeça como quem diz uma obviedade:
— Ela era minha amiga e criada pessoal. Já te disse.
Zahra também se levantou:
— Só isso? Esse apego todo… O jeito como ela te olha, quase te venerando…
Maia balançou a cabeça com mais veemência:
— Oh por favor… Não vai me dizer que você pensa…
Mas Zahra continuou:
— Por que não? Você mesma disse que ela se deita com a outra...
Soltando uma interjeição quase inaudível antes, falou:
— Você sabe que eu nunca tinha estado com ninguém antes de você… Só disse aquilo por já saber que Luísa se deita com mulheres… e por querer, de alguma forma, atingir Chiara.
— Talvez você tenha acertado.
Maia se aproximou dela:
— Por que diz isso? Sabe de alguma coisa?
Zahra a abraçou pela cintura e falou em seu ouvido:
— Passarinhos me contaram que sua amiga dormia todas as noites nos aposentos da rainha.
Afastou o rosto para olhá-la nos olhos:
— Isso não é verdade. Chiara não se deita com mulheres.
Zahra riu e mordiscou o lábio dela:
— Não? Assim como você não se deitava?
Atônita demais, não conseguiu fazer nada além de arregalar os olhos. Seria verdade? Chiara e Luísa? Desde quando? Desde que vivia naquele castelo, antes de tentarem matá-la? Dormiam juntas, riam dela, enquanto armavam todo o plano? Nunca tinha percebido nada. Chiara nunca pareceu… O quê? Uma mulher que se deitava com outra? E ela, Maia, se parecia?
Se afastou de Zahra e caminhou até a janela.
— Ei… qual é o problema? Ficou com ciúmes?
Não se virou ao responder:
— Não.
Só o fez depois, quando voltou a pensar como rainha e não como mulher:
— Terei que libertar Luísa, mas sob muitas condições. Chiara vai continuar como prisioneira.
Quando parou em frente à cela das mulheres mais uma vez, Maia as observou por alguns segundos. Estava apenas com Zahra, sem nenhum guarda, por isso puderam chegar sem serem notadas. Cada uma das prisioneiras estava em um canto. Encolhidas, sujas e despenteadas. Luísa em nada lembrava a rainha que era, parecia uma pedinte. Quando notaram sua presença, Olga e Chiara ficaram de pé. Luísa não se mexeu.
Maia empostou a voz:
— Oton e Milo estão mortos.
Olhou para Olga:
— Você irá embora ainda hoje. Vá para o mais longe que puder. Não quero te ver nunca mais.
Fez uma pausa e chamou a única mulher que ainda não a olhava:
— Luísa.
Ela levantou apenas os olhos.
— Você enviará uma mensagem para Ótice… dizendo o quão benevolente e misericordiosa eu estou sendo em te libertar. E que não quer nenhum tipo de retaliação. Todos os acordos serão desfeitos. As terras da divisa voltarão a pertencer à Diamantora. E você e seus guardas nunca mais pisarão aqui. Se tentar qualquer tipo de vingança, eu destruo Ótice. Todos vocês. Sem pena.
Luísa, enfim, se levantou e se aproximou dela:
— Certo… Majestade. Mas eu tenho uma condição.
Maia riu:
— Sua situação não é favorável a condições.
— Uma única condição e acabamos logo com isso. Do jeito que você está propondo.
Maia a olhou em silêncio. Perguntou muito mais por curiosidade, nada inclinada a aceitar:
— E qual seria?
Ela falou imediatamente:
— Martín e Chiara também serão libertados e irão comigo para Ótice.
O rosto de Maia se tensionou. Então era verdade que Luísa e Chiara estavam juntas… Já que a rainha fazia tanta questão…
O ódio por ter descoberto mais uma forma pela qual tinha sido enganada a tomou:
— Chiara fica como minha prisioneira.
Luísa foi firme:
— Então me mate aqui mesmo e comece uma guerra com meu reino.
Chiara as interrompeu:
— Eu vou ficar aqui.
As duas mulheres a olharam, mas só Luísa falou:
— Não vou deixar que ela te mantenha como prisioneira.
Maia observou a cumplicidade, a doçura no olhar e na voz de Luísa. E reconheceu. Entendeu. Viu.
Chiara se aproximou dela e disse com a voz suave e íntima:
— Por favor, não dificulte as coisas. Maia está te dando o perdão. Vá embora e nunca mais volte.
Luísa estendeu a mão e tocou o cotovelo de Chiara:
— Jamais te deixaria sozinha aqui. Venha comigo, você vai ter a melhor vida possível em Ótice, eu prometo…
Querendo interromper aquilo, Maia bateu palmas:
— Lindo. Comovente. Mas preciso lembrá-las de que quem decide sou eu.
Luísa se afastou da grade e voltou a se sentar no canto da cela:
— Meus termos estão ditos.
Encarando Chiara, Maia perguntou sem nenhum tipo de carinho, pelo contrário, foi rude:
— Você quer ir com ela?
A criada hesitou por segundos — que não passaram despercebidos por Maia — antes de dizer:
— Meu lugar é em Diamantora. Mesmo que seja no calabouço.
Aproximando-se, Maia a olhou dentro dos olhos, querendo que Chiara visse e sentisse todo seu rancor:
— Não adianta fazer esse papel de vítima. Não acredito mais nessa sua encenação de boa moça.
A expressão da outra foi de quem tinha levado uma bofetada:
— Acha mesmo que fingi ser sua amiga por todos esses anos?
Maia também viu e sentiu todo ressentimento no tom de voz dela, mas não recuou:
— Todos esses anos eu não sei, mas nos últimos, com certeza.
Se sentindo ultrajada, Chiara se despiu de formalidades. Falando com a amiga e não com a rainha, externou tudo que vinha guardando durante aqueles dias:
— Você acha que para mim foi fácil? Que fiquei aqui neste castelo feliz? Eu achei que tinha te perdido. Você, Maia! A pessoa mais importante da minha vida.
Se encararam em silêncio. As respirações alteradas. Maia tentando entender o que exatamente aquelas palavras significavam. Chiara se sentindo ofendida pela falta de confiança dela, como se fossem completas desconhecidas, e não melhores amigas que cresceram juntas.
— Pois saiba que seu luto não foi em vão. Eu morri. Aquela Maia não existe mais. Vocês realmente a mataram naquele rio.
Virou-se para Zahra e disse, deixando claro que qualquer vínculo que um dia compartilhou com Chiara não existia mais:
— Quero que busque uma pessoa para mim… Preciso de uma nova criada pessoal.
*****
— Você precisa aceitar… e ir embora.
Luísa olhou para Chiara e se aproximou dela devagar, querendo aproveitar a atenção que ela lhe dispensava. Estavam agora sozinhas na cela, Olga já tinha sido levada:
— Não vou te deixar aqui, não sei o que Maia pode fazer com você.
Chiara desviou o olhar ao falar:
— Ela não vai fazer nada contra mim.
Disse, mesmo sem saber se realmente acreditava naquilo. Maia parecia outra pessoa, rude, violenta, ríspida, quase selvática. Tanto na fala quanto nos modos. As roupas foram trocadas de vestidos e espartilhos por calças como as dos homens. Se vestia assim como a mulher que veio com ela… Mulher que não agradou Chiara. Tinha um semblante que carregava um certo pedantismo desagradável aos seus olhos. A mulher parecia se colocar no mesmo patamar que Maia e, para Chiara, aquilo era inadmissível.
— Como você tem tanta certeza? Viu como ela te tratou?
Sim, tinha visto. Mas apesar de tudo aquilo, acreditava que a amiga que pensou ter perdido ainda estava dentro da rainha que retornou.
— Eu sei que ela não conseguiria. Maia é minha amiga.
Luísa se afastou enquanto falava:
— Maia não é mais a mesma. Você precisa começar a se preocupar.
Mas Chiara se apegou à única esperança que tinha:
— Ela vai acreditar em mim.
*****
Dois dias se passaram sem que voltasse ao calabouço. Quase enlouqueceu de tanto pensar. Se sentiu uma tola, inadequada, não merecedora do trono.
— O que o meu pai faria?
Só percebeu que pensou em voz alta quando Gualter respondeu:
— Seu pai está morto.
Se virou para ele no momento em que o amigo completou:
— A pergunta é: o que você quer fazer?
Desabou na cadeira, bufando:
— E isso importa? O que eu quero?
Gualter encheu duas taças de bebida e estendeu uma para Maia que aceitou e virou o líquido na garganta de uma só vez.
— Para que serve ser uma rainha se não pode fazer o que deseja?
Ela limpou a boca com o antebraço antes de responder:
— Tenho que pensar no reino como um todo… A vida dessas pessoas depende de mim. Começar uma guerra com Ótice vai impacta-los de alguma forma, por mais que não seja uma guerra difícil… E se Luísa conseguir aliados? Se outros reinos ficarem contra nós? Ótice faz divisa com Prios, o reino que fornece a maior parte do nosso trigo…
Gualter, que bebia bem mais devagar, deu mais um gole antes de falar:
— Eu entendo, garotinha…
Um meio sorriso apareceu nos lábios de Maia, os ombros relaxaram um pouco ao ouvir a forma carinhosa com que Gualter a tratava. Nem mesmo depois que ela retomou o trono ele se dirigiu a ela de outra maneira.
Pensou um instante se não teria sido melhor continuar como uma integrante de um grupo de ladrões, livre pelas ruas, sem que tivesse tanta responsabilidade nas mãos.
O complemento da frase dele a trouxe de volta para a realidade:
— Mas não há escolha sem renúncia.
*****
— Seus homens cercaram o castelo.
Luísa continuou de pé, apoiada na parede da cela, ouvindo Maia.
— Posso mandar matar todos eles agora mesmo.
Luísa apenas deu de ombros:
— Não há nada que eu possa fazer neste momento.
Maia cruzou os braços e apertou os olhos:
— Que grande rainha você é. Não se importa com ninguém além de você mesma.
Aprumando o corpo, Luísa respondeu rápido, mas calculadamente, pois sabia que a atingiria:
— Ninguém reclamou enquanto eu era a rainha de Diamantora.
Maia colou a testa contra as grades, precisando se segurar para não gritar:
— Você pode até ter sentado naquele trono… mas você não é, nunca foi e nunca será rainha de Diamantora.
Respirou algumas vezes para se acalmar:
— Ao contrário de você, eu consigo pensar além do meu próprio bem-estar. Mas não faça eu me arrepender.
Depois se virou para Chiara, que acompanhava tudo em silêncio:
— Vou te dar o poder da escolha: se quiser ir com ela, não vou me opor. Mas nunca mais pisará neste reino de novo. Se ficar, continua com a criadagem, em alguma função que lhe será designada… talvez alimentando os animais… ou limpando as latrinas…
Uma pontada de arrependimento incomodou Maia assim que fechou a boca. Sabia muito bem que aquele tipo serviço era desconfortável — ela mesma passou dias limpando as latrinas na casa de Mirtes — mas era mais digno do que aquele que o grupo fazia pelas ruas.
Chiara não vacilou. Manteve os olhos nos delas quando respondeu:
— Eu vou ficar.
*****
Luísa manteve a cabeça erguida durante todo o trajeto do calabouço até os portões do castelo. Não permitiram que ela se trocasse, nem sequer se limpasse. Estava suja, desalinhada e com certeza com um odor nada agradável. As mãos ficaram amarradas numa corda que Maia puxava pela outra ponta, montada em seu cavalo. Luísa ia no chão, caminhando na velocidade que ela imprimia.
Assim que o grande portão foi baixado, Maia olhou para Luísa. Ela entendeu e gritou para as centenas de guardas do lado de fora:
— Abaixem as armas.
O comandante dela ergueu a mão e todas as armas foram baixadas.
— A rainha Maia em um ato de misericórdia…
Olhou para Maia mais uma vez, sentindo-se extremamente humilhada, mas não tinha outra alternativa naquele momento:
— Me concedeu seu perdão e irá me libertar. Quero que todos retornem para Ótice. Somente o Comandante tem permissão para ficar e me acompanhar.
O homem pareceu ficar em dúvida por alguns segundos. Depois puxou as rédeas do cavalo e se virou para os guardas, ordenando que todos dessem meia volta. Quando o amontoado de homens se afastou o suficiente, Maia disse:
— Alguns dos meus guardas estão na fronteira. Você e Martín serão libertados assim que seus homens a cruzarem.
Ela jogou a corda para o comandante Magno que montava outro cavalo ao seu lado.
— Ficarão aqui até que chegue a hora.
Deu o comando e o cavalo galopou de volta para o castelo. O portão se fechou assim que Maia o atravessou.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 17/04/2026
Uhuuuuuu tô feliz Luisa teve o que merecia, ou merecia um pouco mais....RS
Agora Chiara tão linda e sincera não merece o que está passando....estou torcendo que Maia descubra que ela é inocente ou que acredite na sua inocência...
Mais um capítulo maravilhoso
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Neissdany
Em: 16/04/2026
Uauuu isso tá muito bom, 1x por semana é pouco hahaha... mas ao mesmo tempo o suficiente para não terminar tão rápido. Gosto muito da Maia com a Zahra... mas estou com a Chiara também... e não odeio a Luiza hahaha... e agora.. elas poderia formar um trisal ou quadrisal né hahahaha resolveria todos os problemas... brincadeiras a parte, sua escrita é ótima.
AlphaCancri
Em: 23/04/2026
Autora da história
Será que elas conseguem se entender a esse ponto? Hahahah
Obrigada pelo seu comentário e por estar acompanhando a história :)
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AlphaCancri Em: 23/04/2026 Autora da história
Será que em algum momento Maia vai conseguir voltar a confiar nela? Vamos ver hahah
Obrigada! Fico feliz que esteja acompanhando :))