Capitulo 18 - Rastros na poeira
A manhã seguinte trouxe uma trégua silenciosa. Eleanor, movida por uma curiosidade que agora misturava afeto e desconfiança, propôs que deixassem as cercas do rancho para trás. Ela queria ver Bastrop não através das janelas fumês de uma SUV de produção, mas pelos olhos de quem chamava aquela terra de lar.
Cassidy aceitou, embora houvesse uma tensão sutil em seus ombros. Ela não tirou o cavalo da baia; em vez disso, pegou as chaves de uma Ford Ranger antiga, coberta pela terra vermelha do Texas, piscando para Eleanor.
- Se quer conhecer a história, tem que estar disposta a sacudir um pouco os ossos - disse Cassidy, assumindo o volante.
A Ranger rugiu, percorrendo as estradas vicinais onde os pinheiros-de-loblolly, sobreviventes de grandes incêndios passados, erguiam-se como sentinelas carbonizadas e renascidas. Cassidy dirigia com uma mão só, apontando para as ruínas de antigas fazendas e contando histórias de colonos que haviam atravessado o Rio Colorado muito antes de o asfalto existir.
- Bastrop tem cicatrizes, Eleanor - explicou Cassidy, a voz competindo com o vento que entrava pelas janelas abertas. - As pessoas aqui não gostam de luzes brilhantes e coloridas em excesso. Elas gostam de fincar raízes profundas sobre o chão.
Ao entrarem no centro histórico de Bastrop, com suas fachadas de tijolos vermelhos e o charme de uma era de velho oeste que o tempo parecia ter esquecido, o clima mudou. O que era para ser um passeio antropológico tornou-se um lembrete brutal da realidade de Eleanor.
Elas desceram perto da Main Street para caminhar em direção ao antigo teatro. Eleanor, usando um chapéu de abas largas e óculos escuros, tentava se misturar, mas a aura de uma estrela de Hollywood é difícil de camuflar. Ao seu lado, Cassidy caminhava com sua postura de comando, uma combinação que, para olhos treinados, gritava "notícia".
O som foi quase imperceptível para Eleanor, mas Cassidy, com seus sentidos aguçados pela paranoia de anos, ouviu o clique metálico.
Do outro lado da rua, dois homens com lentes teleobjetivas estavam parcialmente escondidos atrás de uma caminhonete estacionada. Os flashes, mesmo sob o sol forte, eram como pequenas explosões de desastre.
Cassidy parou de imediato. O desconforto emanava dela como uma carga elétrica. Seus olhos se estreitaram e ela instintivamente deu um passo para trás, saindo do campo de visão imediato de Eleanor, como se a proximidade física fosse um crime sendo documentado.
- Cassidy? - Eleanor percebeu a mudança.
- Estão aqui - sibilou Cassidy, a mandíbula tão cerrada que as palavras mal saíam. - Eu previa isso Eleanor. Eles não param. Eles não respeitam nada.
- São apenas fotógrafos, Cassidy. Eu lido com isso todos os dias...
- Mas eu não! - rebateu a rancheira, o tom de voz subindo. O pânico de ter sua identidade de magnata ligada à vida pública de Eleanor brilhava em seus olhos. - Para você, isso é carreira. Para mim, é a destruição de tudo o que eu construí para me manter invisível.
Cassidy deu meia-volta, caminhando apressadamente de volta para a Ford Ranger. Ela não olhou para trás para ver se Eleanor a seguia. O desconforto não era apenas timidez; era o medo visceral de uma mulher que sabia que, uma vez que o rosto da Thompson Global fosse estampado nas revistas de fofoca, o refúgio em Bastrop deixaria de existir.
Eleanor entrou no carro segundos depois, batendo a porta. O silêncio dentro da cabine da Ranger agora era pesado e sufocante. A cidade histórica, que minutos antes parecia um cenário de paz, agora parecia uma vitrine de vidro pronta para ser estraçalhada.
- Sinto muito - sussurrou Eleanor, mas Cassidy já estava dando ré com violência, os pneus fritando no asfalto quente. O passeio acabara, e a ameaça de Austin parecia ter acabado de cruzar a ponte sobre o rio.
Fim do capítulo
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