Capitulo 17 - O Eco nas Sombras
As gravações finais atingiram o seu ápice sob um céu que parecia pintado com tons de violeta e ouro. Marcus, o diretor, estava em estado de transe criativo; a mudança no roteiro sugerida por Eleanor injetara uma força crua na cena de encerramento. Eleanor, entregue ao papel, sentia que cada palavra dita diante da câmera era um expurgo de sua própria vida sob os holofotes. Quando o "Corta! Finalizamos!" finalmente ecoou pelo set, uma mistura de alívio e melancolia tomou conta da equipe.
Eleanor, ainda vestindo o figurino pesado e manchado pela poeira do Texas, caminhou em direção à casa principal. Ela precisava ver Cassidy antes que o sol se pusesse por completo. Ao se aproximar do escritório, cujas janelas estavam entreabertas para deixar a brisa entrar, ela parou abruptamente.
Lá dentro, a voz de Cassidy Thompson não era a da rancheira que falava sobre gado ou cercas. Era uma voz de comando, metálica e impiedosa.
- Eu não me importo com o fechamento do mercado em Tóquio, Dr. Antero - Cassidy dizia ao telefone, com uma voz tão cortante que fez o sangue de Eleanor gelar. - Se a fusão com a logística de satélites não for assinada até as oito da manhã, eu mesma retiro o aporte da Thompson Global. E avise ao conselho: se houver mais um vazamento sobre a minha localização, eu desmantelo a diretoria inteira antes do café da manhã.
Eleanor recuou um passo, a respiração presa na garganta. "Thompson Global". "Mercado em Tóquio". "Retirar o aporte". As peças do quebra-cabeça, que antes pareciam apenas estranhas, agora formavam uma imagem assustadora. Cassidy não era apenas uma mente brilhante escondida no campo; ela era o centro de um império que movia as engrenagens do mundo. A suspeita de que estava sendo mantida no escuro sobre a verdadeira identidade da mulher que amava transformou-se em um espinho em sua carne.
***
O jantar que se seguiu foi marcado por uma tensão invisível, mas palpável. Cassidy parecia relaxada, mas Eleanor a observava como se visse uma estranha usando a pele de sua amante. Elas comeram quase em silêncio, o som dos talheres contra a porcelana soando como batidas de um relógio de contagem regressiva.
- Você está distante, Eleanor - comentou Cassidy, servindo o vinho. - O fim das gravações costuma ser difícil para você?
Eleanor olhou para a mulher à sua frente. A camisa de flanela, o cabelo desalinhado... Tudo parecia uma fantasia perfeitamente construída.
- Eu estava apenas pensando em como as pessoas podem esconder universos inteiros atrás de uma cerca de madeira, Cassidy.
Cassidy paralisou por uma fração de segundo, o olhar mel estreitando-se levemente, mas logo relaxou.
- Às vezes, é necessário e imperativo esconder o que é precioso.
Apesar da suspeita crescente, a atração física entre elas era uma força gravitacional impossível de ignorar. Após o jantar, enquanto o vento soprava mais forte contra as paredes da casa velha, Cassidy conduziu Eleanor para o quarto.
Desta vez, o momento íntimo não foi marcado apenas pela ternura do despertar anterior, mas por uma urgência quase desesperada. Eleanor beijava Cassidy como se quisesse arrancar a verdade de seus lábios, buscando na pele a sinceridade que as palavras pareciam omitir. As mãos de Cassidy, fortes e seguras, percorriam o corpo de Eleanor com uma adoração que parecia real demais para ser uma mentira.
Entre os lençóis de algodão, sob a luz fraca de uma única vela, Eleanor entregou-se ao desejo, permitindo que as sensações físicas abafassem, por um momento, as vozes em sua cabeça. O toque de Cassidy era seu único norte no meio do caos de identidades. Naquele espaço sagrado, a "Atriz" e a "Magnata" desapareciam, restando apenas duas mulheres consumidas por uma paixão que florescera no lugar mais improvável.
Contudo, enquanto Cassidy dormia exausta após o encontro, Eleanor permanecia acordada, olhando para o teto. O calor do corpo de Cassidy ao seu lado não era suficiente para afastar o frio da desconfiança. Ela sabia que, em algum lugar entre Bastrop e Austin, a verdade estava prestes a explodir, e ela não tinha certeza se o que sentiam sobreviveria ao impacto.
A paz entretanto era agora um vidro de cristal delicado que começava a trincar, e Eleanor Wilson, a mulher que passara a vida fingindo ser outras tantas, agora temia ter se apaixonado pela maior atuação de todas.
Fim do capítulo
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