Capitulo 16 - Códigos na Parede
O set de filmagens havia se tornado um organismo vivo, sintético e frenético. As cenas finais do drama de época exigiam o máximo de cada departamento; o prazo estava se esgotando e a luz do Texas, embora magnífica, era impiedosa, não esperava por ninguém. Eleanor Wilson movia-se entre os refletores e as câmeras com uma autoridade renovada. O cansaço de décadas de carreira parecia ter sido substituído por uma clareza cortante, um reflexo direto das horas passadas no silêncio da casa principal.
- Marcus, a transição para o plano aberto precisa ser mais lenta - Eleanor instruía, cercada por seu assistente de direção e a diretora de fotografia. - Quero que o público sinta a imensidão da terra antes de focar no meu rosto. A terra é o verdadeiro protagonista aqui.
A equipe, que antes a via como uma estrela distante e exigente, agora observava uma mulher que parecia ter absorvido a essência do Rancho Double Cross. Ela não estava apenas interpretando; ela estava orbitando o espaço, tomando-o como seu.
Após uma sequência exaustiva de tomadas, Eleanor aproveitou o intervalo técnico para buscar um refúgio que se tornara seu lugar favorito: o escritório de Cassidy.
Ao entrar, encontrou Cassidy mergulhada em documentos, a luz de um candelabro antigo iluminando o perfil austero da rancheira. O ambiente cheirava a couro velho e papel. Eleanor caminhou até a estante, onde seus olhos foram atraídos por uma série de diplomas emoldurados, quase escondidos em um canto sombreado, longe da ostentação.
- Yale Law School? - Eleanor leu em voz alta, a curiosidade filtrando-se em sua voz, aproveitando a ocasião para confrontá-la sobre o que já havia visto da primeira vez. Ela se virou para Cassidy, que ergueu os olhos dos papéis, um pouco desconfortável. - E um PhD em Economia Política? Cassidy, por que você nunca mencionou que tem uma formação acadêmica que faria qualquer juiz da Suprema Corte agir com cautela?
Cassidy deu de ombros, fechando uma pasta com um estalo seco.
- Diplomas são apenas papéis timbrados, Eleanor. Eles não ajudam a cuidar de um bezerro, a menos que fosse de veterinária, ou a prever uma seca ou ainda a arar a terra e plantar os pastos necessários para manter o gado vivo no inverno.
- Não seja modesta. Isso é mais do que "apenas papéis". É uma armadura - Eleanor aproximou-se da mesa, apoiando as mãos na madeira escura. - Uma advogada formada em Yale e uma doutora em economia escondida em um rancho aqui em Bastrop... Isso explica muita coisa. Explica como você silenciou o diretor e como lida com os contratos. Mas me faz perguntar: por que o Direito? E por que o PhD em específico?
Cassidy suspirou, recostando-se na cadeira. O olhar de mel parecia viajar para um passado que ela raramente visitava.
- Eu queria entender as regras do jogo para saber como quebrá-las sem ser pega... Brincadeira, claro. - acrescentou com um pequeno sorriso. - No mundo de onde eu vim, o conhecimento é a única arma que realmente te possibilita sobreviver e atirar de volta no sistema que tenta te engolir. O PhD foi para entender os fluxos de poder; o Direito foi para aprender a construir os muros ao meu redor, que me protegem da predação.
- Muros que você construiu muito bem - observou Eleanor, com um meio sorriso. - É fascinante. Eu passei a vida estudando comportamentos humanos para fingir ser outra pessoa. Você estudou os sistemas humanos para poder deixar de ser quem o mundo esperava que você fosse.
- Talvez - Cassidy levantou-se e caminhou até Eleanor, parando a poucos centímetros dela. - Mas a diferença é que você usa a sua arte para revelar algumas verdades. Eu usei os meus diplomas para esconder as minhas, quase todas elas, para ser sincera.
Eleanor sentiu a gravidade daquelas palavras. A formação de Cassidy não era apenas um currículo; era a explicação de sua autonomia feroz. Enquanto Eleanor lutava contra a indústria que a criara, Cassidy tinha as ferramentas intelectuais para simplesmente ignorar qualquer indústria que tentasse comprá-la.
- Você é a mulher mais perigosa que eu já conheci, Cassidy Thompson - sussurrou Eleanor, a admiração brilhando em seus olhos azuis.
- E você é a única que se deu ao trabalho de olhar para o que estava na parede, de olhar ao seu redor - respondeu Cassidy, segurando o rosto de Eleanor com uma suavidade que que pretendia suavizar as verdades não ditas sobre sua vida e toda a sua formação acadêmica.
O momento foi interrompido pelo rádio de Eleanor, que chiou com a voz de Marcus chamando-a de volta para o "mundo real" do set. Mas a revelação no escritório mudara o peso da balança. Eleanor percebeu que a mulher que ela se apaixonara não era apenas uma força bruta da natureza, mas uma mente brilhante que escolhera o isolamento como sua última forma de liberdade. E em Austin, Julianne estava prestes a descobrir que estava tentando derrubar uma mulher que conhecia os jogos de poder muito melhor do que ela jamais poderia imaginar.
Fim do capítulo
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