Capitulo 15 - O Peso sobre o Ar
O jantar na varanda dos fundos havia transcendido o simples paladar e a expectativa de ambas. O vinho tinto, denso e escuro como o sangue que brota da terra, parecia ter dissolvido as últimas barreiras de chumbo entre as duas. Sob o manto daquele céu texano sobre o rancho, a Via Láctea toda brilhante, que não conhecia a poluição luminosa das grandes cidades, as vozes de Eleanor e Cassidy caíram para sussurros, competindo apenas com o estalar das brasas e o farfalhar das folhas dos álamos lá fora, pela brisa leve que soprava.
Quando a última taça foi deixada de lado, o silêncio que se seguiu não era desconfortável; era de uma expectativa latente entre ambas. Cassidy levantou-se primeiro, estendendo a mão para Eleanor. O toque, firme e calejado, contrastava com a suavidade da pele da atriz, criando uma fricção que subiu pelo braço de Eleanor como um rastilho de pólvora.
- A casa é velha, os rangidos da madeira fazem parte do cotidiano - murmurou Cassidy, puxando-a para perto até que as respirações se confundissem -, mas as paredes aqui guardam bem os segredos, acredite.
Elas subiram a escada de madeira maciça, onde cada degrau parecia contar uma década de isolamento que estava prestes a ser rompida. No quarto de Cassidy, o ambiente era despojado de qualquer luxo ostensivo, mas transbordava uma feminilidade rústica e acolhedora. A cama era larga, com lençóis de algodão pesado que cheiravam a sol e lavanda silvestre.
Ali, Eleanor Wilson finalmente despiu-se da "Lenda". Não houve coreografia de câmera ou busca pelo melhor ângulo. Entre os braços de Cassidy, ela descobriu que a força da rancheira era, na verdade, um porto seguro. O encontro foi urgente, marcado por uma fome de anos de repressão, mas também foi descoberto: as mãos de Cassidy mapeando as cicatrizes emocionais de Eleanor, e os lábios de Eleanor silenciando as defesas de Cassidy. O clímax não foi apenas físico; foi a rendição de duas fortalezas que, por uma noite, decidiram depor as armas.
A manhã seguinte não chegou com o alarde dos despertadores ou a histeria dos assistentes de produção. Ela chegou filtrada pelas persianas de madeira, em longos feixes de poeira dourada que dançavam no ar, sobre o assoalho.
Eleanor despertou primeiro, mas não abriu os olhos de imediato. Ela se permitiu flutuar naquele estado de semiconsciência, sentindo o peso reconfortante do braço de Cassidy sobre sua cintura. O lençol, agora desalinhado, era como um mapa de campo de uma batalha vencida. O ar estava fresco, carregado com o cheiro de café que vinha de algum lugar da casa e o aroma persistente de pele e intimidade.
Ela virou-se lentamente, sentindo os músculos protestarem de uma forma deliciosa. Cassidy ainda dormia, o rosto desarmado pelo sono, as sobrancelhas antes severas agora relaxadas. Sem o chapéu e a armadura de flanela, a magnata oculta parecia apenas uma mulher que encontrara, enfim, um motivo para não acordar cedo, como em todos os outros dias.
- Eu sei que você está me observando, Wilson - a voz de Cassidy surgiu rouca, profunda pelo sono, sem que ela abrisse os olhos. Um sorriso preguiçoso curvou o canto de seus lábios.
- Eu estava apenas conferindo se você era real ou um efeito colateral do vinho de ontem - sussurrou Eleanor, aproximando-se e roçando o nariz no pescoço de Cassidy, onde o pulso dela batia calmo e forte.
Cassidy abriu os olhos, e o tom de mel neles estava mais claro com a luz da manhã. Ela puxou Eleanor para cima de si, prendendo-a em um abraço lento e possessivo.
- Se for um sonho, é um bem caro - brincou Cassidy, as mãos subindo pelas costas nuas de Eleanor com uma lentidão torturante. - O set pode esperar hoje, não pode? Deixe que o Marcus arranque os cabelos. A luz desse deserto é bonita demais para ser gasta com trabalho agora.
Eleanor riu baixo, escondendo o rosto na curva do ombro de Cassidy. Por um momento, a ameaça que pairava sombria em Austin, o plano de Julianne e a identidade desconhecida daquela mulher não importavam. O tempo ali era medido por batimentos cardíacos e pela forma como a luz de mel da manhã as envolvia, retardando o inevitável retorno ao mundo exterior, real e que podia ser bem cruel.
Mas por hora, era um despertar sensual e sagrado, a última bolha de paz antes que sobre a vida de ambas começasse a refletir as chamas do escândalo que já cruzava as fronteiras do condado.
***
O aroma de café fresco e pão de milho assado na hora começou a serpentear pelos corredores da casa principal, ancorando Eleanor e Cassidy de volta à realidade. Na cozinha de pé-direito alto e com grandes janelas que davam para o deserto, Martha, uma mulher de mãos fortes e olhar maternal que trabalhava no rancho há décadas, já havia posto a mesa. O som das louças de cerâmica sendo organizadas era o único metrônomo daquela manhã lenta e preguiçosa.
Quando ambas se sentaram, Eleanor ainda trazia o frescor do banho e uma das camisas de linho de Cassidy, cujas mangas ela insistia em dobrar. Cassidy, por sua vez, parecia carregar o peso de um segredo que a luz do dia tornava mais difícil de sustentar.
- Martha faz o melhor café do condado - disse Cassidy, servindo Eleanor enquanto a empregada se retirava discretamente, sentindo que o ar entre as duas não solicitava audiência.
Eleanor envolveu a xícara quente com as mãos, observando o vapor subir.
- É estranho - começou ela, a voz ainda rouca. - No meu mundo, especialmente quando estou gravando, o café da manhã é uma função logística. Alguém coloca um suco verde na minha mão enquanto três pessoas retocam minha maquiagem e um agente grita cronogramas no meu ouvido. Estar aqui... com esse silêncio... me faz perceber que eu não sou dona do meu tempo desde os meus dois anos de idade.
Cassidy ergueu as sobrancelhas, pausando o gesto de passar manteiga no pão.
- Dois anos?
- Sim. Comecei em comerciais sobre produtos infantis antes mesmo de formar memórias e sons claros. Minha infância foi toda medida em testes de elenco, sempre ofuscada pelas luzes dos estúdio. Eu aprendi a sorrir para a câmera antes de aprender a soletrar o alfabeto, a dizer o que sentia. A indústria cinematográfica não é um emprego, Cassidy. É uma criatura que te devora de dentro para fora. Você se torna um patrimônio público. Cada erro, cada ruga, cada suspiro é analisado por milhões de pessoas que acham que te possuem, que querem ter intimidade com você e que não se importam se você está ferida, ou triste, ou mesmo feliz. Querem sempre um pedaço seu, é cansativo.
Eleanor olhou para o horizonte através da janela da cozinha, onde o set de filmagens começava a ganhar vida ao longe.
- Manter a vida privada longe dos holofotes é um trabalho em tempo integral e, honestamente, uma batalha perdida. Julianne foi a minha tentativa de ter algo "real", de assumir quem eu era após décadas de armários e assessores de imagem me dizendo com quem eu deveria ser vista, como deveria ser vista. Mas o casamento faliu porque, no fim, ela se apaixonou pela "Lenda", e não pela mulher que odeia festas e só quer um pouco de paz e silêncio. Eu troquei um tipo de holofote por outro.
Cassidy ouvia com uma intensidade quase dolorosa. Ela via a exaustão nos olhos de Eleanor e sentia a ironia da situação.
- Eu entendo o peso de ser observada - disse Cassidy, a voz baixa. - Mas por razões diferentes. O meu isolamento neste rancho não é apenas gosto pela terra, Eleanor. É uma fuga. Há fantasmas aqui que eu enterrei sob cada hectare dessa propriedade.
Ela fez uma pausa, os dedos traçando distraídos a borda da mesa.
- Há anos, eu deixei alguém entrar. Alguém que eu achei que amava a terra, esta terra, tanto quanto eu. Mas me enganei. Ela me traiu da forma mais pública e sórdida possível, com minha amiga de infância. A traição não destrói apenas a confiança, ela destrói o seu senso de segurança. Por isso eu criei esses muros, essas cercas por todos os lados, me isolando de tudo e de todos.
- Então somos duas fugitivas - Eleanor sorriu tristemente, tocando a mão de Cassidy sobre a mesa. - Eu fugindo da fama e você fugindo das pessoas.
- O caso é que os problemas sempre encontram um jeito de entrar pelas frestas - Cassidy murmurou, pensando no estranho do rio e na sombra de Julianne em Austin. - Você viveu a vida inteira sob o olhar do mundo, sendo moldada por ele. Eu passei a vida inteira fugindo desse olhar, moldando o mundo às escondidas. Mas aqui, nesta mesa, eu sinto que nenhuma dessas versões importa.
Eleanor apertou a mão dela.
- Se o mundo descobrisse quem somos de verdade... o que sobraria para nós?
Cassidy olhou para Eleanor com uma gravidade que fez o tempo parar.
- Sobraria o que temos agora. Mas o mundo é voraz, Eleanor. Ele não aceita que algo seja apenas nosso, insiste em tomar tudo.
O café da manhã prosseguiu entre confissões e o conforto do entendimento mútuo, mas a melancolia pairava no ar. Ambas sabiam que as dificuldades de manter a discrição estavam prestes a atingir um ponto de ruptura. Enquanto Eleanor lamentava o casamento que fora apenas uma vitrine para a vida de Julianne, fútil e vazia, Cassidy temia o momento em que a sua fortuna oculta deixaria de ser um escudo para se tornar a arma que Julianne usaria para separá-las. A paz ali em Bastrop era um tesouro frágil, ela sabia, e o horizonte ali já começava a escurecer com a promessa de uma exposição que nenhuma das duas estava pronta para enfrentar.
Fim do capítulo
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