Capitulo 14 - Confissões silenciosas
O anoitecer em Bastrop trouxe uma brisa rara, que carregava o aroma do feno seco e da terra fresca descansada. No rancho, o estresse do set de filmagens daquele dia parecia uma memória distante, dissipada pelo silêncio que Cassidy Thompson sabia cultivar como ninguém.
Desta vez, não houve linho francês ou cristais trazidos de Austin. Cassidy preparara o jantar na varanda dos fundos: uma mesa simples de madeira, velas de cera de abelha protegidas por lamparinas de vidro e o som rítmico dos grilos chilreando noite afora.
- Você foi brilhante hoje - disse Cassidy, servindo um vinho tinto encorpado que, embora Eleanor não soubesse, vinha de uma safra exclusiva que não chegava às prateleiras comuns. - Marcus ficou aterrorizado, mas a cena... a cena finalmente teve alma, você emprestou a sua a ela.
Eleanor, relaxada em uma cadeira de balanço, sorriu. A poeira do dia ainda insistia em marcar sua pele, mas ela nunca se sentira tão limpa.
- Eu só consegui fazer aquilo porque parei de olhar para o roteiro e comecei a olhar para este lugar - Eleanor confessou, seus olhos azuis encontrando os de Cassidy sob a luz bruxuleante. - Você me ensinou que as coisas aqui são como são, as pessoas não pedem desculpas. Eu só... sinto muito por ter tentado "consertar" sua vida com dinheiro. Eu realmente achava que você estava perdendo tudo.
Cassidy hesitou por um segundo, o peso da verdade pressionando e apertando sua garganta. Ela estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo os dedos de Eleanor.
- O que importa é que você se importou, Eleanor. Ninguém nunca tentou me salvar de nada antes. Geralmente, as pessoas só querem um pedaço do que eu tenho.
O clima era de uma intimidade mágica. A tensão que começara como insultos agora era um fio de seda que as unia. Naquela varanda, Eleanor Wilson não era a estrela, e Cassidy Thompson não era a magnata. Eram apenas duas mulheres sob a ampla vastidão do céu texano, cujas estrelas brilhavam intensamente.
Enquanto isso, em Austin, Julianne estava em pé na sacada de sua suíte, observando o reflexo das luzes da cidade no vidro temperado. O celular em sua mão vibrou. Era seu assessor particular.
- Julianne? Eu achei - a voz dele estava carregada de uma incredulidade profissional. - E é maior do que imaginávamos.
Julianne apertou o aparelho contra o ouvido, o coração acelerando.
- Vá direto ao ponto, Thomas.
- Cassidy Thompson não é apenas uma rancheira com uma holding e também... definitivamente não está em condições precárias, financeiramente. Ela é a sócia majoritária oculta da Thompson Global, o império de logística, satélites e infraestrutura que controla metade das rotas comerciais do Pacífico! Julianne, a mulher tem liquidez suficiente para comprar três estúdios de Hollywood amanhã e ainda sobraria troco para o cafezinho. O Rancho Double Cross é, para ela, o que um quebra cabeças é para uma criança: um passatempo.
Julianne soltou uma risada seca, que se transformou em um sorriso predatório.
- Então ela é uma das mulheres mais ricas e poderosas do país e está brincando de "pobre coitada" para a minha esposa? Ela está deixando a Eleanor sentir pena dela enquanto a seduz com esse teatrinho de campo ridículo?
- Pelo que entendi, ela vive em um isolamento quase total por escolha pessoal após um escândalo de traição há anos - explicou Thomas. - Soube também que há paparazzi rondando aquele rancho. Se houver algo entre as duas, como você acredita e isso vazar... Julianne, se isso sair, não vai ser apenas um escândalo de fofoca para revistas marrons. Vai ser uma bomba no mercado de ações. A magnata reclusa foi vista com uma estrela de cinema, isso pode inclusive ser um escândalo na carreira de Eleanor! Você sabe como são estas revistas de fofocas especializadas, criarão mil histórias, nenhuma necessariamente verdade.
Julianne desligou o telefone sem se despedir. Ela sentia o sabor da vitória. Ela não precisava mais de Eleanor; ela precisava do caos tsunâmico que essa verdade causaria.
De volta ao rancho, o jantar terminara. Cassidy e Eleanor estavam próximas, quase fundidas sob a sombra da varanda. Cassidy inclinou-se, roçando os lábios nos de Eleanor com uma ternura que contrastava com a força bruta que demonstrara no set.
- Fique aqui esta noite - sussurrou Cassidy. - Sem trailers. Sem roteiros, sem personagens. Apenas esta noite, nossa noite...
Eleanor assentiu, entregando-se ao beijo, sem saber que em Austin, sua esposa já segurava o fósforo aceso. A "verdade" sobre Cassidy estava prestes a ser revelada da pior forma possível: como uma arma de destruição em massa nas mãos de Julianne, transformando o jantar romântico no último momento de paz antes da tempestade que se assomava sobre o rancho, um furacão vindo de Austin.
***
O horizonte vindo de Austin erguia-se como uma barreira ameaçadora de vidro e concreto contra a suavidade rústica, bucólica de Bastrop. Para Julianne, as luzes da capital eram um farol de sanidade e poder; para Eleanor, contudo, a cidade começava a se desenhar como a verdadeira ameaça à paz que encontrara entre os carvalhos e a poeira do Rancho Double Cross. Austin neste momento não era apenas uma metrópole; era o centro de onde emanavam as ondas de choque que poderiam reduzir a cinzas o que ela e Cassidy estavam construindo. Enquanto Bastrop era o silêncio e a verdade nua da terra, Austin era o ruído, a fofoca corporativa e o palco onde Julianne Wilson preparava sua retaliação.
No bar do hotel, cercada pelo tilintar de gelo e pelo murmúrio de negócios executivos de alto escalão, Julianne observava o brilho artificial da cidade. Ela sabia que, para derrotar a conexão entre Eleanor e a rancheira, não bastariam insinuações. Eleanor era uma mulher de fatos concretos, uma alma forjada na disciplina dos sets de filmagens e roteiros e cronogramas eram sua vida; ela não se movia por boatos.
- Eleanor só acredita no que pode tocar, ver e sentir, Thomas - murmurou Julianne ao telefone, a voz fria como o mármore da bancada. - Se eu disser que a Thompson é uma bilionária brincando de camponesa, ela rirá de mim. Eu preciso das provas. E preciso que essas provas venham com o selo de um escândalo que ela não possa ignorar.
Julianne sabia exatamente onde Eleanor era mais vulnerável: sua discrição. Eleanor Wilson sempre fora uma fortaleza de privacidade, uma atriz que deixava sua vida íntima trancada a sete chaves, tendo aberto as portas apenas quando o casamento com Julianne foi oficializado, sob um controle de imagem rigoroso. A ideia de ter sua intimidade exposta de forma crua - e ligada a uma figura de poder sombrio como a magnata da Thompson Global - era o pesadelo que Eleanor sempre evitara.
O plano de Julianne começou a tomar forma quando ela finalmente conseguiu o contato direto com o editor da Glossy Rivers, a revista que detinha as fotos do paparazzi.
- Eu não quero apenas as fotos do rio - disse Julianne ao editor, seus olhos fixos no vazio do horizonte urbano. - Eu quero a narrativa completa. Quero que vocês revelem a identidade de Cassidy Thompson como a dona do império que financia metade desta cidade, e quero que sugiram que Eleanor está sendo usada como uma fachada glamourosa para limpar a imagem de uma mulher que vive nas sombras.
O plano era diabólico em sua simplicidade: ao expor a fortuna de Cassidy, Julianne faria com que o "amor" de Eleanor parecesse uma trans*ção comercial ou, pior, uma manipulação grosseira de uma bilionária entediada da vida. Ela sabia que Eleanor, ao se ver no centro de um circo midiático que odiava, e sentindo-se enganada pela omissão de Cassidy, romperia o vínculo por puro instinto de sobrevivência, ou ao menos ela esperava que assim fosse.
- Se Eleanor Wilson quer viver um drama de época - Julianne sorriu, bebendo o último gole de seu Martini -, vou dar a ela a tragédia moderna que ela tanto teme. Esse escândalo vai engolir essa rancheira, e eu estarei aqui para recolher os cacos da reputação dela.
Da cidade grande, com seus sensores e segredos, Julianne estava agora armada contra o rancho. O horizonte de Austin não era mais apenas uma paisagem; era o prelúdio da destruição da paz de Eleanor e de Cassidy.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]