Capitulo 13 - A poeira do Set
O hotel em Austin era um monumento de vidro e aço que parecia insultar a rusticidade de Bastrop. Julianne Wilson jogou as chaves do conversível para o manobrista e subiu para a cobertura sem olhar para trás. O silêncio da suíte, interrompido apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado central, era o bálsamo que ela precisava para limpar o "cheiro de mato" do corpo.
Mas Julianne não era mulher de lamber feridas no escuro. Ela abriu o laptop, os dedos longos e impecáveis tamborilando sobre a mesa de carvalho.
- Arthur? - ela atendeu o telefone, mas não era o advogado de Eleanor. Era seu próprio contato em uma firma de auditoria de risco em Miami. - Preciso que você cave mais fundo no nome Cassidy Thompson. Sim, o Rancho Double Cross onde estão sendo gravadas as cenas do novo projeto de Eleanor. Eleanor acha que ela está à beira da falência, mas eu vi algo nos olhos daquela mulher que não condiz com uma conta bancária vazia.
- Julianne, esse nome está blindado - a voz do outro lado soou hesitante. - Tentei cruzar os registros de propriedade. O rancho pertence a uma holding chamada Lone Star, que por sua vez pertence a um fundo fiduciário em Delaware. É um labirinto.
- Todo labirinto tem uma saída e um fio que pode guia-lo, meu querido. Ache-o. Procure por conexões com a Thompson Global. Vi um detalhe num documento que Marcus estava manuseando no set... algo sobre logística de satélites. Rancheiros não lançam satélites.
Julianne desligou, olhando para as luzes de Austin lá embaixo. Ela sentia que estava prestes a puxar o tapete sob os pés de Eleanor, e a sensação era inebriante. Se Cassidy Thompson era uma fraude, Julianne seria a primeira a expor a farsa. E se fosse poderosa demais, Julianne encontraria uma forma de transformar esse poder em um escândalo que Eleanor jamais perdoaria.
***
Enquanto isso, a quilômetros dali o Rancho Double Cross fervia sob um sol impiedoso, mas por razões diferentes. O retorno de Julianne para a cidade trouxera um alívio temporário para Eleanor, mas a pressão do trabalho agora ocupava todo o espaço.
- Não, Marcus! Isso ai está errado! - a voz de Eleanor Wilson ecoou pelo pasto, paralisando a equipe de som e os operadores de câmera.
Ela estava no meio de uma cena crucial. O figurino de época, um vestido pesado de algodão e espartilho, estava coberto pela poeira que o vento do Texas insistia em soprar.
- O que foi agora, Eleanor? - Marcus suspirou, esfregando as têmporas. - A luz está caindo, precisamos deste take.
- A personagem não recuaria aqui - Eleanor apontou para o roteiro com um gesto ríspido. - O texto diz que ela pede desculpas pela invasão das terras. Mas depois de tudo o que eu vi aqui... depois de entender o que é lutar por cada palmo deste chão, essa fala soa como covardia. Ela não pediria desculpas. Ela exigiria respeito.
- Eleanor, o roteiro foi aprovado pelo estúdio há meses - argumentou o diretor, aproximando-se. - É uma heroína vulnerável.
- Vulnerabilidade não é fraqueza, Marcus! - Eleanor rebateu, e por um segundo, seus olhos buscaram instintivamente a varanda da casa principal, onde Cassidy costumava observar. - Eu vivi a vulnerabilidade real na noite da tempestade. Eu vi o que é a força bruta sob pressão. Se queremos que este filme seja honesto, precisamos mudar esse diálogo. Ela tem que enfrentar o vilão com a mesma fúria de quem não tem nada a perder.
A equipe trocou olhares nervosos. Mudar o roteiro no meio da filmagem era um pesadelo logístico e financeiro.
- Você está sendo difícil, Eleanor - resmungou Marcus.
- Estou sendo honesta com a personagem. Ou mudamos isso, ou a cena não terá verdade. E se não houver verdade, Marcus, estamos apenas desperdiçando filme e o tempo de todos neste sol.
Longe dali, encostada no batente da porta do celeiro, Cassidy Thompson observava a discussão. Ela estava com um chapéu de abas largas, os braços cruzados sobre o peito. Um pequeno sorriso de canto apareceu em seu rosto. Ela reconhecia aquela centelha nos olhos de Eleanor. A "Lenda de Hollywood" estava finalmente deixando de atuar e começando a sentir o peso da terra.
Cassidy sabia que a paz duraria pouco. O desconhecido no rio era apenas a calmaria antes do tsunami, mas ver Eleanor lutar por sua integridade artística, inspirada pela vida no rancho, deu a Cassidy uma satisfação que nenhum bilhão em conta poderia comprar.
- Deixe ela mudar, Marcus! - Cassidy gritou da varanda, a voz firme atravessando o set. - Ela tem razão. Aqui neste lugar, ninguém pede desculpas por defender o que é seu.
Marcus olhou de uma para a outra, rendido. Eleanor sorriu para Cassidy - um sorriso cúmplice, secreto e perigoso. O trabalho continuou, mas o roteiro da vida de ambas já havia mudado permanentemente.
Fim do capítulo
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