Capitulo 12 - A correnteza do Rio
O som das águas do Rio Colorado era uma canção hipnótica, um murmúrio constante que abafava o resto do mundo. Sob a sombra dos álamos, o ar parecia mais denso, carregado com a eletricidade que restara da briga e a urgência da reconciliação.
Eleanor olhou para Cassidy, e a distância entre a "atriz" e a "mulher" colapsou. Ela não via mais a rancheira teimosa ou a ameaça ao seu ego; via um porto seguro que não exigia nada além de sua verdade.
- Eu não quero mais consertar nada, Cassidy - sussurrou Eleanor, dando o passo que faltava. - Eu só quero sentir.
Cassidy não respondeu com palavras. Ela envolveu a cintura de Eleanor com seus braços fortes, puxando-a para o seu corpo com uma possessividade que fez os joelhos da atriz fraquejarem. O beijo começou lento, exploratório, mas rapidamente incendiou-se com a fome de quem passara dias em um campo de batalha emocional.
As mãos de Cassidy, calejadas e quentes, deslizaram por baixo da blusa de Eleanor, encontrando a pele macia de suas costas. Eleanor soltou um gemido baixo, a cabeça pendendo para trás enquanto os lábios de Cassidy desciam para o seu pescoço. O mundo de Hollywood, as luzes do set e até a sombra de Julianne pareciam borrões insignificantes diante daquela realidade que ela sentia na pele.
Cassidy a conduziu suavemente para a relva alta e macia à beira do rio. Ali, protegidas pela encosta e pela vegetação baixa e densa, o clima de entrega era absoluto. Eleanor desabotoava a camisa de Cassidy com dedos trêmulos, sua respiração fundindo-se à dela. O desejo era uma força gravitacional, um retorno ao estado mais primitivo de ambas. A pele contra pele era um diálogo que os advogados e diretores jamais entenderiam.
No momento em que a paixão atingia o seu ponto de não retorno, um som seco e estranho cortou a harmonia da natureza.
Crack!
O estalo de um galho seco quebrando-se sob um peso humano. Não era o passo de um cavalo ou o movimento de um animal silvestre; era o som deliberado, mas desajeitado, de alguém tentando se mover em silêncio e falhando.
Cassidy congelou instantaneamente. Seus olhos, antes nublados pelo desejo, tornaram-se alertas e predatórios em um segundo. Ela se levantou em um movimento ágil, cobrindo o corpo de Eleanor de forma protetora enquanto examinava o matagal denso na parte superior da margem.
- Quem está aí? - a voz de Cassidy chicoteou o ar, fria e autoritária.
Um silêncio tenso se seguiu, interrompido apenas pelo som de folhas sendo agitadas rapidamente e o ritmo de passos pesados que se afastavam em disparada pela mata, em direção à estrada de serviço do rancho.
- Cassidy... - Eleanor levantou-se, ajeitando as roupas com as mãos trêmulas, o coração batendo na garganta. - Você acha que foi a Julianne?
Cassidy estreitou os olhos, observando o rastro de poeira que subia ao longe, onde um motor parecia ganhar vida.
- Não - murmurou Cassidy, a mandíbula cerrada. - Julianne não se esconderia no mato. Ela faria um espetáculo. Aquilo foi outra coisa. Alguém estava nos vigiando, Eleanor. E não era para admirar a vista.
A magia do rio havia sido quebrada por um intruso invisível. O clima antes sensualmente erótico substituído por uma paranoia gelada. No Texas, segredos eram protegidos a bala, e Cassidy sabia que, se alguém estava bisbilhotando sua vida privada, o jogo de esconde-esconde com a sua verdadeira identidade estava prestes a ficar muito mais perigoso.
- Precisamos voltar - disse Cassidy, ajudando Eleanor a montar. - O ar aqui acabou de ficar pesado demais.
***
A volta ao rancho foi silenciosa, mas carregada de uma eletricidade estática que nenhuma personagem já interpretada por Eleanor poderia descrever. O rastro de poeira deixado pelos cavalos parecia o único movimento em um mundo que, após o beijo no rio e o estalo do galho seco, tornara-se paranoico. Cassidy cavalgava com a mandíbula cerrada, os olhos castanhos - antes mel queimado - agora transformados em fendas de âmbar vigilante.
Assim que desmontaram perto das cocheiras, Eleanor tentou buscar o olhar de Cassidy, mas a rancheira já estava em modo de defesa, o corpo projetado para a frente como se esperasse um ataque.
- Entre no trailer, Eleanor. Agora - ordenou Cassidy, a voz um contralto seco que não admitia réplicas.
Eleanor não teve tempo de questionar. Ao abrir a porta de alumínio do seu trailer de luxo, o perfume floral caro de Julianne a atingiu como um bofete. Sua esposa estava sentada no sofá de couro branco, girando uma taça de cristal com um vinho que certamente não viera do estoque local.
- Que cena bucólica, El - Julianne começou, sem se levantar. Seus olhos percorreram as roupas sujas de terra de Eleanor e o cabelo desgrenhado pelo vento. - A grande Eleanor Wilson, reduzida a uma figurante de rancho. O que vocês estavam fazendo, andando a cavalo como amazonas perdidas? Foram ao rio? Lavando a alma ou perdendo o juízo?
- O que você ainda está fazendo aqui, Julianne? - Eleanor rebateu, sentindo a exaustão se transformar em uma fúria gélida. - Você disse que odiava este lugar. Disse que este lugar era um "buraco", sem cultura.
- Eu ia para Austin, como já te disse antes.- Julianne levantou-se, caminhando até Eleanor com a elegância predatória de Beverly Hills. - Mas a sua urgência em me despachar... E agora vejo que eu estava certa. Você está agindo como uma adolescente deslumbrada por essa... essa caseira de luxo.
- Não fale dela assim - Eleanor sibilou, a voz perigosamente baixa.
- Por que não? Porque ela te deu um pouco de atenção rústica enquanto eu estava ocupada mantendo a nossa vida social em pé? - Julianne riu, um som estridente que parecia deslocado naquele silêncio texano. - Acorde, Eleanor! Ela é uma ninguém, que deve estar com uma hipoteca ou muitas outras atrasadas e que está usando você só para se sentir importante. Você é a lenda. Ela é apenas a dona de um pasto moribundo.
- Você não sabe nada sobre ela. E sabe menos ainda sobre mim - Eleanor deu um passo à frente, invadindo o espaço de Julianne. - Você me vê como um troféu, um acessório para o seu Instagram. Cassidy me vê quando as luzes apagam e o gerador morre. Ela me vê sem o roteiro.
Julianne estancou, a mão tremendo levemente ao colocar a taça sobre a bancada. O golpe atingira o alvo.
- Se é assim que você se sente... se você prefere essa vida de poeira e mentiras a tudo o que construímos... - Julianne pegou sua bolsa de grife, os olhos brilhando com uma mistura de ódio e humilhação. - Então fique com ela. Fique com esse seu emocional barato. Eu vou para Austin. E desta vez, Eleanor, não espere que eu olhe para trás quando a poeira baixar.
A porta do trailer bateu com uma violência que fez Eleanor estremecer. Através da janela, ela viu Julianne marchar em direção ao seu conversível prateado, os saltos afundando na terra uma última vez antes de o motor rugir e o carro desaparecer na estrada de terra, deixando para trás apenas o silêncio e o cheiro residual de um perfume que Eleanor esperava nunca mais sentir.
Fim do capítulo
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