Capítulo XVI: Entre Cem Cadeiras
Por Cecília:
A manhã trouxe o céu limpo e um ar fresco que entrava pela janela aberta. Por volta das oito horas, enquanto pensava em ir até a biblioteca tentar falar com Inês, ouvi o som inconfundível de uma carruagem aproximando-se pela estrada de terra.
Fui até a janela.
A carruagem grande de papai parou em frente à casa. E vi descendo dela, como aparições de um sonho, mamãe, papai, vovó Ofélia, Francisca e Henrique.
Minha família.
Não me lembro de ter decidido descer. Lembro apenas de passar pelo corredor, do barulho das minhas saias nas escadas, e de pensar, já na porta, que estava completamente fora de mim e que não me importava.
— Mamãe!
— Cecília!
Nos encontramos no meio do caminho, e o abraço foi tão forte que tirou o ar de ambas. Chorei. Ela também chorou. Senti a umidade das lágrimas dela contra minha bochecha e isso me fez chorar ainda mais
— Minha menina — ela sussurrava, suas mãos segurando meu rosto, afastando-me apenas o suficiente para me examinar com seus olhos ávidos. — Meu Deus, está tão corada! Tão saudável! Mal posso acreditar!
— Estou bem, mamãe — consegui dizer. — Estou tão bem. E senti tanta falta...
Minha voz quebrou. Deixei que quebrasse.
Papai nos alcançou com os olhos úmidos e a voz mais rouca do que o habitual.
— Minha filha. Que tristeza sua ausência provoca naquela casa. Não é a mesma sem você.
Deixei-me puxar para um abraço que cheirava a charuto e água de colônia. O cheiro mais familiar do mundo.
Vovó Ofélia chegou por último, movendo-se com a determinação de sempre e os olhos brilhando com lágrimas que ela se recusava a derramar completamente.
— Menina teimosa — disse. Mas a voz era puro afeto. — Me fazendo vir a esse fim de mundo.
— Perdão, vovó — sorri através das lágrimas, abraçando-a com cuidado. — Mas fico tão feliz que tenha vindo.
Francisca me abraçou em seguida, e pude sentir a curvatura nova de sua barriga entre nós.
— Graças a Deus — ela sussurrou fervorosamente contra meu cabelo. — Graças a Deus está bem. Tenho rezado tanto...
— Obrigada — murmurei de volta. — Por todas as orações.
Até Henrique, normalmente tão formal e reservado, me cumprimentou de maneira mais calorosa, com aquele desconforto masculino que ainda assim carregava carinho.
Tia Eulália havia saído também, e agora abraçava mamãe, as duas irmãs reunidas após anos de separação.
— Amélia! Antônio! Dona Ofélia! Que alegria imensa tê-los aqui!
— Eulália, muito obrigada por cuidar de nossa menina — papai disse com seriedade, apertando as mãos dela com força. — Não temos palavras para expressar nossa gratidão.
— Foi um prazer absoluto — tia Eulália assegurou, sorrindo. — Cecília tem sido uma companhia maravilhosa. A casa parece menos vazia com ela aqui.
— Rute! Maria! — tia Eulália chamou, virando-se para as criadas que haviam aparecido. — Mostrem aos nossos convidados seus quartos imediatamente. Eles precisam descansar da viagem.
***
Os dois dias que se seguiram foram os mais estranhos que passei naquela casa.
Havia alegria neles. Alegria por ver mamãe, ouvir a voz rouca da vovó Ofélia, sentir o cheiro familiar de Francisca e de perceber, com surpresa terna, a barriga que crescia sob suas saias. Havia conversas que se estendiam pela tarde, histórias da cidade, novidades sobre vizinhos e risos fáceis ao redor da mesa.
Mas havia também Inês.
Ou melhor: havia a ausência de Inês.
Ela estava ali. Aparecia nas refeições, atravessava os corredores com seus passos longos e decididos, respondia quando diretamente interpelada com aquela cortesia mínima que dominava tão bem. Mas havia algo nela que eu não reconhecia. Uma distância que não era a frieza habitual dos primeiros dias, nem o silêncio carregado dos ultimos. Era outra coisa. Como se ela houvesse se recolhido a algum lugar dentro de si mesma e onde eu simplesmente não conseguia alcançá-la.
Tentei, algumas vezes, encontrar um momento a sós com ela. Mas minha família, com a afetividade exagerada que lhes era característica, tornava isso quase impossível. Havia sempre alguém nos corredores, sempre uma conversa que me chamava de volta à sala, sempre vovó Ofélia me puxando pelo braço para sussurrar alguma observação afiada sobre o caráter desta ou daquela pessoa.
E Inês, percebi, aproveitava cada uma dessas interrupções para desaparecer.
Na tarde do segundo dia, sentada ao lado de Francisca enquanto ela bordava e comentava sobre a virtude da paciência na gestação, ocorreu-me um pensamento que me envergonhou assim que tomou forma.
Eu queria provocá-la.
Inês havia se tornado uma estátua viva desde que minha família chegara. E eu, sentindo aquela ausência como uma pressão no peito, comecei a pensar maneiras de provocar nela alguma reação. Qualquer reação. Que fosse raiva, irritação, aquele sorriso amargo que ela às vezes não conseguia esconder a tempo. Qualquer coisa que me dissesse que ela ainda estava ali, que ainda me via.
Envergonhei-me do pensamento. Não o descartei.
Então, naquela noite, quando a conversa virou para Alberto, disse em voz alta algo para provocar alguma reação. Não sei se era verdade. Sei que funcionou.
Quando Inês levantou-se e saiu, minha vontade era ir atrás dela, mas não podia.
E a conversa continuou. Especulações sobre quando Alberto faria uma visita formal. Comentários sobre o quanto a família dele era respeitável. Sobre como era raro encontrar jovens com caráter tão sólido. Cada palavra caía sobre mim como pedra pequena. E pedras pequenas, juntas, pesam demais.
Eu havia provocado exatamente o que queria. Inês foi embora. E agora me tocava ficar ali, sentada, ouvindo falar de Alberto, enquanto o único pensamento que conseguia ter era nos olhos dela.
***
Foi na manhã de despedida que o livro quase me arruinou.
Francisca, pediu para ver meu quarto antes de partir. Subimos juntas, e ela entrou tocando as cortinas, admirando a vista pela janela, examinando os móveis com expressão satisfeita.
Então seus olhos pousaram na mesinha de cabeceira.
No livro que eu deixara ali.
O livro com a capa falsa.
Meu coração parou completamente. O sangue gelou em minhas veias.
— Oh! — ela exclamou, pegando-o com cuidado, como se fosse relíquia sagrada. — Cecília, que surpresa maravilhosa! Não sabia que estava fazendo leituras espirituais!
Não consegui falar. Minha garganta estava completamente fechada.
— Estava tão preocupada que seus hábitos religiosos se perdessem durante esta estadia — Francisca continuou, pressionando o livro contra o peito com expressão de beata. — Mas ver isto... — ela olhou para o falso título na capa com lágrimas nos olhos — ...isso traz tanto consolo ao meu coração!
— Eu... sim... — consegui dizer finalmente. — A leitura tem me feito... bem. Muito bem.
— Posso pegar emprestado? — ela perguntou com entusiasmo. — Já o li há anos, mas sendo ele sua leitura atual, gostaria muito de relê-lo. Seria maravilhoso discutirmos as passagens juntas nas cartas!
— Na verdade — disse rapidamente, estendendo a mão — ainda não terminei. E tenho feito anotações pessoais nas margens. Reflexões, sabe. Preferiria que ficasse aqui por enquanto. São... muito pessoais.
— Oh, claro! — ela devolveu o livro com cuidado excessivo. — Que belo hábito, fazer anotações durante a leitura espiritual. Realmente, Cecília, estou tão orgulhosa de ver sua maturidade espiritual crescendo desta maneira. Mamãe ficará tão feliz quando eu contar!
Se ela soubesse. Se tivesse a menor ideia do que eu realmente estava lendo, teria não apenas um ataque, mas me trancaria num convento até o fim dos meus dias.
Coloquei o livro de volta na mesinha com as mãos que me tremiam.
***
Tia Eulália havia mandado servir o desjejum de despedida na sala de jantar grande.
Ela sentou-se na cabeceira. Mamãe e papai de um lado; vovó Ofélia ao lado deles, com a postura ainda ereta apesar da idade. Francisca e Henrique do outro, ela com a mão indo ocasionalmente à barriga naquele gesto protetor e inconsciente.
E eu fiquei entre Francisca e o lugar que Inês costumava ocupar. O lugar que ainda estava vazio.
Arminda e as empregadas trouxeram as bandejas. Tia Eulália havia claramente ordenado que se superassem. Pão fresco, compotas, queijos, frios e chás perfumados. Estávamos todos instalados quando ouvi passos no corredor.
Inês.
Meu coração acelerou.
Ela entrou na sala silenciosamente, usando outro vestido cinza. Seu cabelo estava preso. Mas quando seus olhos encontraram os meus, antes dela desviar rapidamente, vi que ainda havia aquela estranheza neles.
Cumprimentou com a mínima cortesia necessária. Uma breve inclinação de cabeça, um murmúrio baixo. Sentou-se no lugar designado, ao meu lado.
Tão perto que podia sentir o calor de seu corpo. Tão longe que parecia haver mais de cem cadeiras entre nós.
— Amélia — tia Eulália começou animadamente quando todos estavam servidos — imagino sua tranquilidade em ver Cecília tão plenamente recuperada. Olhe para ela! Corada, saudável, com brilho nos olhos! É um verdadeiro milagre! Não precisa mais se preocupar e ter dúvidas em deixá-la por aqui.
— É mesmo — mamãe concordou. — Mal posso acreditar na transformação. Quando partiu, estava tão pálida, tão fraca... E agora...
— O interior tem feito maravilhas — tia Eulália disse com satisfação evidente. — O ar puro, a tranquilidade, a ausência daquela umidade terrível da cidade. Mesmo após aquele pequeno incidente no baile...
— Incidente? — papai interrompeu imediatamente, franzindo o cenho. — Que incidente? Cecília não mencionou nada.
— Oh, ela não mencionou, mas eu comentei com Amélia brevemente em uma correspondência. Foi apenas uma pequena crise respiratória — tia Eulália apressou-se a explicar, fazendo gestos tranquilizadores com as mãos. — Nada sério, asseguro-lhes! E sua recuperação foi notavelmente rápida! No dia seguinte já estava bem novamente, como se nada tivesse acontecido.
— Graças a Deus — Francisca disse fervorosamente, fazendo o sinal da cruz discretamente. Então, como se uma ideia maravilhosa a tivesse atingido, seus olhos se iluminaram. — E falando em graças divinas, parto tão tão feliz ao ver um livro espiritual no quarto de Cecília!
Ouvi um som estranho vindo de Inês ao meu lado. Olhei de relance e e vi que ela havia levado a xícara de chá aos lábios no momento errado. Estava quase se afogando, tossindo discretamente atrás do guardanapo, seus olhos arregalados.
— Livro? — mamãe perguntou, curiosa, inclinando-se ligeiramente para frente. — Que livro, querida?
— Sim! — Francisca continuou com entusiasmo. — Um texto profundamente edificante e religioso! Estava tão preocupada, tão angustiada mesmo, que os hábitos espirituais de Cecília pudessem se perder aqui, longe da nossa orientação. Mas ver aquele livro na mesinha dela... bem, trouxe tanto consolo ao meu coração! Tanta paz!
— A leitura tem me feito muito bem — consegui dizer, mantendo minha voz absurdamente calma apesar do horror que sentia. Disse isso olhando diretamente para Inês, encontrando seus olhos e vi neles choque, horror, e algo que poderia ser humor. — Tenho até pensado em ler o livro novamente quando terminar. É tão... profundo. Tão revelador.
— E onde encontrou leitura tão edificante? — mamãe perguntou com aprovação maternal.
— Na biblioteca de tia Eulália — respondi, ainda olhando para Inês, que foi incapaz de desviar o olhar. — E por recomendação de Inês. Ela tem um conhecimento extraordinário de literatura. Absolutamente extraordinário.
Francisca voltou-se para Inês com expressão de encantamento puro, como se tivesse descoberto uma santa viva.
— Que maravilhoso! Senhorita Inês, deve ter uma alma verdadeiramente devota para fazer tais recomendações espirituais. Que bênção ter alguém assim guiando as leituras de Cecília!
Inês abriu a boca. Fechou. Abriu novamente. Seus dedos apertaram o garfo com força e finalmente ela conseguiu articular:
— Eu... tento apenas... compartilhar o que acredito ser... apropriado.
A palavra “apropriado” saiu carregada de tanta ironia que quase ri alto. Tive que morder o lábio para conter.
— Inês conhece cada livro em nossa biblioteca — tia Eulália acrescentou com orgulho. — É extraordinariamente bem lida. Estudou em um dos melhores internatos da capital, com as Irmãs da Caridade. Recebeu educação que rivalizaria com a de qualquer jovem de família mais privilegiada.
— Que admirável — papai comentou, servindo-se de mais biscoitos.
A conversa derivou para outros assuntos após isso. A viagem de volta, as laranjas que tia Eulália havia mandado separar, a qualidade das estalagens do caminho. A gravidez de Francisca e o enjoo da manhã.
***
Nossa despedida foi mais breve que a chegada, como costumam ser as despedidas quando todos já estão com os olhos voltados para o caminho.
Mamãe me apertou por um longo tempo, sussurrando recomendações e promessas de cartas frequentes. Papai me abraçou com aquele desconforto afetivo que era a sua maneira de dizer que sentia minha falta mais do que conseguia expressar. Vovó Ofélia me segurou pelo queixo, examinou meu rosto com seus olhos aguçados e murmurou apenas:
— Volta para nós curada de verdade, menina. De tudo.
Não entendi completamente o que ela quis dizer.
Fiquei na varanda enquanto as carruagens se afastavam pela estrada, levantando uma nuvem de poeira dourada que o sol da manhã atravessava em diagonal. Fiquei ali até que o som dos cascos sumiu completamente e só restou o barulho usual da fazenda. Os pássaros, o vento nas laranjeiras, algum trabalhador distante.
Então me virei.
Tia Eulália já havia entrado, e as criadas se moviam pela casa retomando a rotina normal. O corredor estava vazio.
E em algum lugar naquela casa estava Inês, com seus segredos que eu ainda não conhecia completamente, com a carta e as conversas com Bianca Rossi, com aquela decisão que precisava tomar e que eu não podia tomar por ela, mas que me afligia como se fosse minha.
Precisava conversar com ela.
Não sabia exatamente o que diria. Não sabia se ela me deixaria falar ou se fecharia a porta antes que eu chegasse perto o suficiente. Mas a alternativa era ficar parada naquela varanda indefinidamente, olhando para uma estrada vazia, e isso simplesmente não me parecia uma opção.
Entrei na casa e fui procurá-la.
Fim do capítulo
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