Capítulo XV: O lacre
Por Inês
A chegada da família de Cecília transformou a casa num caos.
Chegaram na manhã seguinte à visita dos Rossi. Com eles vieram vozes, passos, bandejas subindo e descendo escadas, Arminda supervisionando as empregadas num estado de agitação permanente. A quietude que eu tanto prezava foi destruída em questão de horas.
Quando ouvi as carruagens naquela manhã, meu primeiro instinto foi me trancar no quarto e não sair até que todos partissem.
Mas Dona Eulália tinha outros planos.
Ela apareceu à minha porta antes mesmo que eu pudesse girar a fechadura. Entrou sem bater, fechando a porta atrás de si com aquela suavidade firme que lhe era característica.
— Inês — disse. — Vim apenas pedir uma coisa.
Abri a boca. Ela ergueu a mão.
— Não vim discutir. Nem buscar respostas sobre o pedido do Comendador. Sei que ainda está processando tudo. Vim apenas pedir que compareça às refeições. Não precisa ser sociável além do básico. Mas apareça. Por mim.
Olhei para ela por um longo momento. Ela raramente me pedia favores. E este era simples.
— Está bem — concordei. — Comparecerei.
Ela respirou aliviada e saiu sem dizer mais nada.
E assim, naqueles dois dias em que a família de Cecília permaneceu na casa, tornei-me uma sombra. Conhecia cada corredor, cada escada secundária, cada canto onde podia me esconder quando ouvia vozes se aproximando. A imensidão da casa, que sempre fora minha prisão, tornou-se meu refúgio.
ecília e eu mal nos cruzávamos. Quando isso acontecia, ela sempre estava acompanhada por alguém de sua família. Trocávamos um aceno, o tipo de gesto que se faz com estranhos, e cada uma seguia seu caminho.
Me diverti, em raras ocasiões, com os comentários de Dona Ofélia, a avó de Cecília, uma mulher de língua afiada e paciência mínima para qualquer coisa que cheirasse à falsidade. Suas observações sobre moda ridícula, sobre comportamentos sociais absurdos, sobre vizinhos que não mereciam o ar que respiravam, eram os únicos momentos nas refeições em que eu quase sorria.
Achava que estava preparada para aqueles dias. Para as conversas polidas sobre nada, os sorrisos forçados, as horas fingindo que não estava completamente fora de lugar.
Não estava preparada para ouvir sobre Alberto.
***
O nome caiu no meio do jantar com a casualidade de quem comenta o tempo.
— Ah, Cecília, quase esqueci! Alberto Guimarães nos visitou antes de partirmos — disse a senhora Amélia com um sorriso largo.
Meu garfo parou no prato.
— Alberto? — Cecília repetiu, e sua voz saiu levemente mais aguda. — Ele foi até nossa casa?
— Sim! Que rapaz encantador. Tão educado, tão atencioso. Perguntou muito sobre você — sobre sua saúde, seus progressos, quando voltaria à cidade. Parece muito impaciente para vê-la novamente.
— Impaciente é pouco — interveio Dona Ofélia com seu tom seco, mordendo um pedaço de pão. — O rapaz mencionava Cecília a cada três frases. “Como está Cecília? Quando Cecília voltará? Cecília gostaria disso, Cecília apreciaria aquilo.” Pensei que fosse ele o doente, incapaz de pronunciar qualquer palavra que não fosse o nome da minha neta.
Risadas percorreram a mesa. Amélia, Francisca, até Dona Eulália sorriu com aprovação.
Meu olhar estava parado no prato.
— Também estou ansiosa pela visita dele — ouvi a voz de Cecília dizer. — Alberto sempre foi muito gentil comigo.
Levantei os olhos. Ela falava com uma expressão suave e por um momento nossos olhares se cruzaram. Ela não desviou imediatamente, como costumava fazer. Ficou me encarando.
Fui eu que desviei.
— Isso nos agrada muito — disse o pai dela. — O juiz Guimarães mencionou recentemente que tem grande apreço pela relação que está se desenvolvendo.
— Não devemos apressar nada, papai — interveio Francisca. — Deus, em Sua divina Providência, mostrará o caminho. Tudo no tempo Dele.
— Naturalmente — a senhora Amélia concordou. — Mas não há mal em estar... esperançosa.
A conversa continuou. Especulações veladas sobre casamento, comentários sobre a família Guimarães, sobre como Alberto seria um partido excelente.
Fiz um movimento controlado. Dobrei o guardanapo. Pousei-o à mesa.
— Com licença — disse, com uma voz perfeitamente educada. — Preciso me retirar.
Esperei o aceno de Dona Eulália e saí com passos longos.
Não olhei para Cecília ao passar.
Mas ouvi, quando já estava quase no corredor, o som de sua cadeira se movendo. Como se ela tivesse feito o gesto de se levantar e então se contido.
Não parei.
***
Naquela noite, deitada no escuro do meu quarto, fiquei olhando para o teto.
Tentei identificar o que estava sentindo. Inveja. Talvez, em parte. Mas não era só isso. Havia algo que não cabia onde eu tentava colocá-lo. Algo que ficava no lugar errado não importava como eu arrumasse.
Cecília tinha um futuro. Um homem jovem, educado e de boa família. Uma vida respeitável se desenhava para ela com aquela clareza específica que pertence às pessoas que sempre souberam onde estão e para onde vão.
E eu tinha o Comendador.
Fechei os olhos.
Eu tinha o Comendador.
Ou tinha a carta.
A carta que Bianca me entregara dois dias antes, ainda enterrada na gaveta mais funda da minha cômoda, sob camadas de roupas que eu raramente usava. Ainda com o lacre intacto.
Não conseguia abri-la.
Ler significaria tornar tudo real. Significaria ter de decidir. Significaria confrontar o fato de que havia uma escolha. E que escolhas, descobrira aos vinte e oito anos, podiam ser mais assustadoras do que a ausência delas.
Fechei os olhos.
Pensei no que Bianca me dissera na biblioteca, com aquela voz direta, desconcertante e, a contragosto, respeitável.
***
Dois dias antes.
Fizera um gesto para que Bianca se sentasse na poltrona em frente à minha. Ela aceitou com graça, ajeitando as saias de seu vestido azul com movimentos precisos.
— Senhorita Bianca — comecei, decidindo ser direta. — Estou intrigada com o que mencionou na carta.
Ela me estudou por um momento.
— Antes de mais nada — disse — me chame apenas de Bianca. Dispensemos as formalidades. — Ela respirou fundo. — Precisa saber que vim a esta vila exclusivamente a trabalho, mas fiquei abalada com o que vi desde que cheguei. Ninguém deveria receber proposta de casamento de alguém com o caráter daquele senhor.
Franzi o cenho.
— Ora. Mas foi ele quem nos apresentou no baile. Acreditava que o tinha em certa conta.
— Pois se enganou — ela disse sem rodeios. — Fiz o pedido de apresentação a todos que estavam no salão. Luca o fez por mim, já que mulheres têm pouca voz num lugar como este. Precisava conhecê-la.
— Ainda não entendo, mas peço que continue.
Ela respirou fundo.
— Tentarei contar tudo agora, de maneira direta. Fui contratada por uma cliente para encontrar uma pessoa. Estava procurando por esta pessoa há dois anos.
Olhei para ela sem compreender.
— Não entendo o que isso tem a ver comigo.
— Tem tudo a ver, Inês — disse suavemente. — Porque esta pessoa é você. E quem me contratou foi a senhora Leonor Portela de Alcântara.
O nome não significou nada para mim.
Bianca observou meu rosto, procurando reconhecimento. Quando não encontrou, suspirou, e prosseguiu com cuidado.
— A senhora Leonor era muito jovem quando se envolveu com um homem casado. Quando engravidou, o pai dela a confinou em uma fazenda até que desse à luz. Depois, pegou a bebê recém-nascida e a colocou em um internato.
Meu corpo inteiro gelou.
— O que está insinuando? — consegui sussurrar.
— Não vim fazer insinuações. Vim contar a história que me trouxe a esta vila. — Ela não desviou o olhar. — O pai da criança era o Coronel Bernardino de Almeida Castanheira. A mãe, Leonor, havia sido obrigada a casar logo após o parto. Passou anos procurando pela filha. Sem sucesso, até me contratar. Iniciei as buscas de forma metódica. Demorou anos. Mas finalmente uma irmã num convento confirmou que uma menina chamada Inês Valença havia sido acolhida por uma viúva após a morte do benfeitor que custeava sua permanência no internato. Quando soube quem era o benfeitor, tudo tornou-se claro.
Senti lágrimas se formarem nos meus olhos. Afastei-as com raiva.
— E então? — disse, forçando a voz a sair firme.
— Então vim para a vila — Bianca continuou. — Trouxe Luca comigo, pois muitos lugares não entregam informações ou documentos às mulheres. Precisava de um homem para abrir certas portas. Investigamos. Confirmei os fatos. E então aconteceu o baile, e vi nele a oportunidade de te conhecer.
Bianca fez uma pausa.
— Esta é a história, Inês. A sua história.
Levantei-me bruscamente.
— Você me trouxe mais sofrimento — acusei, com a voz rouca. — Essa mulher que me abandonou...
— Ela não teve escolha.
— Todos temos escolha! — Não consegui me conter. — Ela escolheu se deitar com um homem casado. Escolheu me abandonar num internato. Escolheu viver sua vida enquanto eu...
Minha voz sumiu.
Bianca esperou.
O silêncio durou um momento.
— Não vim defender a senhora Leonor. Quando te encontrei, meu trabalho estava tecnicamente concluído. Poderia ter partido após o baile. Mas não fui. Não após ouvir de três ou quatro fofoqueiros desta vila que o Comendador iria te salvar com um bom casamento.
Ela abriu a bolsa e retirou um envelope.
— Escrevi a Leonor e ela escreveu uma carta. Para você.
Estendeu o envelope. Olhei para ele com repulsa.
— Ela pode e quer te ajudar, Inês.
Peguei o envelope com mãos que tremiam. Tentei focar nas palavras, mas tudo embaçou.
— Não consigo ler agora — admiti. — Meus olhos...
— Não precisa me responder hoje — Bianca disse, levantando-se. Tocou brevemente meu ombro. — Pense. Fui orientada a permanecer nesta vila até sua decisão. Mas você queria outro destino. E este lhe foi entregue.
***
De volta ao presente, no escuro do meu quarto, abri os olhos.
O envelope estava na gaveta.
Levantei-me devagar. Peguei a lamparina apagada da minha mesa e abri uma fresta da porta do quarto. O corredor estava vazio, com apenas uma lamparina ainda acesa na parede do fundo.
Inclinei a minha sobre ela até que a chama passou de uma para a outra. Voltei para o quarto e fechei a porta atrás de mim.
A luz amarela se espalhou, pequena e suficiente.
Caminhei até a cômoda. Abri a gaveta e tirei a carta de baixo das roupas. O lacre estava intacto.
Sentei na beira da cama, a lamparina posta no mesa ao meu lado, e fiquei ali por um momento, apenas segurando o papel.
Então quebrei o lacre.
A letra era irregular. Desconhecida.
Comecei a ler.
Estimada Inês Valença,
Inês. Que nome lindo tens.
Não sei como começar esta carta. Comecei de muitas maneiras e rasurei todas. Então decidi escrever da única forma que consigo. Como alguém que não tem direito a nada, mas que precisa tentar mesmo assim.
Quando soube que estava esperando você, eu tinha apenas dezessete anos. Era ingênua, apaixonada, e acreditava em promessas que nunca deveriam ter sido feitas. Seu pai prometeu que deixaria a esposa. Que fugiríamos juntos.
Todas mentiras.
Quando meu pai descobriu a gravidez, fui enviada para uma fazenda distante. Durante meses vivi como prisioneira, esperando por você.
Quando você nasceu... quando segurei você nos braços pela primeira vez...
Perdoe-me. Mesmo agora, as lágrimas mancham este papel e preciso parar e recomeçar.
Você era perfeita. Pequena, com aqueles olhos enormes me olhando. E eu soube, naquele momento, que a amaria para sempre.
Mas meu pai chegou no dia seguinte e arrancou você de meus braços enquanto eu gritava.
Tentei lutar. Juro que tentei. Mas era uma menina de dezessete anos.
Passei anos procurando você. Quando finalmente consegui um rastro, Bernardino manteve o segredo até sua morte. Foi apenas depois, ao contratar a Senhorita Rossi, que soube onde estava.
Você tem todo direito de rasgar esta carta e nunca querer me ver.
Mas precisa saber que nunca parei de pensar em você. Todos os dias acordei me perguntando onde estava, se estava bem, se era feliz.
E agora sei onde está. E sei da situação em que se encontra.
Não se case com ele. Por favor.
Venha para mim. Tenho uma casa na capital. Sou viúva. Você seria bem-vinda. A Senhorita Rossi tem instruções para ajudá-la, caso aceite.
Sei que não mereço sua confiança. Mas estou pedindo mesmo assim.
Com todo amor que uma mãe pode ter, Leonor
Terminei de ler com o rosto molhado.
A carta ficou um momento entre meus dedos antes de escorregar até o chão.
Fiquei olhando para ela ali, no tapete, sem vontade de apanhá-la e sem vontade de deixá-la.
Tinha uma saída. Uma escolha. Um futuro que não envolvia o Comendador.
Mas aceitar aquela saída significaria deixar esta casa. Deixar Dona Eulália. Deixar tudo que, por mais imperfeito que fosse, eu conhecia.
Também significaria deixar Cecília.
Mesmo sabendo que não tinha direito algum sobre ela. Mesmo sabendo que ela tinha Alberto e um futuro esperando. Mesmo sabendo que esses sentimentos confusos que me invadiam quando ela estava perto não deveriam existir.
Mas existiam.
E agora eu tinha que decidir o que fazer com isso. Com ela. Com esta carta. Com tudo.
Fim do capítulo
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