Capítulo XVII: Eu quero mais
Por Inês:
Estava sentada na beirada da cama com a carta de Leonor nas mãos quando a porta se abriu.
Não bateu. Apenas abriu.
Escondi o envelope debaixo do lençol num movimento que foi rápido, e levantei os olhos.
Cecília.
Ela estava parada no vão da porta com uma expressão ansiosa e determinada. Mas enquanto me olhava, vi aquela expressão mudar. Como uma nuvem que cobre o sol. A ansiedade permaneceu, mas ganhou uma característica mais sombria.
Seus olhos desceram para o lençol onde havia escondido o envelope.
— Vejo que ganhou uma qualidade mais obscura ainda, senhorita Cecília — ela disse, aproximando-se com passos lentos. — Agora esconde as correspondências trocadas com Bianca.
Levantei-me. Não gostava de ser olhada de cima, e menos ainda daquele jeito.
— E eu vejo que você perdeu sua refinada educação da capital — retruquei, mantendo a voz controlada. — Entrando em aposentos alheios sem bater.
Ela não recuou. Fechou a porta atrás de si e se virou novamente em minha direção.
— Sobre minha entrada — ela disse, encurtando ainda mais a distância entre nós —, me desculpo. Sei que não tenho esse direito.
— Ao menos não perdeu de todo sua compostura de dama, senhorita Cecília.
A encarei. Ela me encarou de volta.
— Suas confidências com a senhorita Bianca Rossi não me dizem respeito — ela disse, devagar, como quem escolhe cada palavra antes de proferi-la — a menos que esta seja uma intimidade que queira criar comigo. Algo de seu desejo e vontade compartilhar.
O silêncio. Ela esperava que eu dissesse algo sobre a carta. Eu sabia que esperava.
Mas as palavras subiram pela minha garganta e morreram ali, sem saída.
— O que faz aqui, Cecília? — perguntei, desviando o olhar.
Ela não respondeu de imediato. Caminhou até a janela, parou diante dela de costas para mim, e ficou ali por um momento olhando para o jardim.
— O livro — disse ela finalmente, sem se virar. — Quase nos colocou em apuros.
— Quase nos colocou em apuros? — repeti, e desta vez não consegui evitar o tom afiado. — Foi você quem por pouco quase nos denunciou, senhorita Cecília.
Ela se virou então. Havia algo próximo de um sorriso em seu rosto, mas contido, como quem decide não deixá-lo sair completamente.
— Nada ocorreu — disse ela.
— Por sorte — retruquei. — Não por mérito seu ou nosso. Aquilo me pegou completamente desprevenida. — Cruzei os braços. — E se o pior tivesse acontecido, se sua irmã tivesse insistido em pegar o livro ou folheado as páginas com aquela capa falsa... eu seria expulsa desta casa. Não você. Eu.
Cecília franziu o cenho.
— Tia Eulália não faria isso.
— Você subestima o que as pessoas fazem nesse tipo de situação, senhorita Cecília.
— E você subestima minha tia. — Ela deu um passo em minha direção. — Além disso, eu a impediria se tentasse.
Olhei para ela. Para a certeza tranquila com que havia dito aquilo. Como se fosse simples. Como se ela tivesse algum poder sobre qualquer coisa que acontecesse naquela casa, naquela vida, naquele mundo.
Não disse nada.
— O que veio fazer aqui, Cecília? — perguntei novamente, desta vez em um tom de voz mais baixo.
Ela respirou fundo.
— Vim falar sobre Alberto.
Senti meu semblante fechar antes que eu pudesse impedi-lo. Uma contração involuntária de raiva, que provavelmente ela viu.
— Os seus envolvimentos românticos não me dizem respeito — disse, com frieza.
Um sorriso pequeno e brevíssimo tocou os lábios dela. Ela o sufocou antes que se tornasse evidente, mas eu vi.
— Na verdade — ela disse — vim porque o livro me assustou.
Não era o que eu esperava ouvir. Fiquei parada.
— Me assustou e me confundiu — ela continuou, e havia algo sincero em sua voz. — E como foi você quem me deu o livro, só você pode resolver a confusão.
— A escolha partiu de você, senhorita Cecília — argumentei. — Eu tentei dissuadi-la, caso não se lembre.
— Lembro muito bem. — Ela deu outro passo, levando a mão ao próprio peito. — Mas sendo assim ou não sendo, o sentimento já está aqui. Instalado. E não sei o que fazer com ele.
Acompanhei o movimento da mão dela com os olhos
Havia uma distância de menos de um metro entre nós agora.
Meu coração havia decidido, em algum momento dos últimos trinta segundos, ignorar completamente minha autoridade sobre ele.
— Que sentimento? — perguntei, e a minha voz saiu rouca.
Ela me olhou por um longo momento.
— Talvez seja medo — disse finalmente. — Por não saber como é esse tipo de relação que o livro descreve. O que se faz. Como se faz. Se é algo que... — ela pausou, e vi uma leve cor subir em seu pescoço — ...que acontece de maneira natural ou se é preciso aprender.
Engoli em seco.
— Acontece de maneira natural — disse, sentindo um arrepio percorrer meu corpo. — Com carinhos. Com beijos. Tudo flui assim, quando há vontade entre as duas pessoas.
Cecília me olhou com aqueles olhos que eram demasiado grandes e demasiado azuis e que eu havia cometido o erro de estudar com atenção suficiente para já conhecê-los bem demais.
— Você parece entender como as coisas acontecem nesse tipo de intimidade — disse ela, devagar, mantendo o olhar preso ao meu. — Poderia me ajudar.
Senti o calor subir pelo meu pescoço.
— O que quer dizer com isso?
— Já tive danças — ela disse, com aquela voz que se insinuava, suave e próxima demais. — Toques de mãos. Mas nunca beijei ninguém. E não sei se é algo que sei fazer.
— Isso é algo completamente natural. Não requer instrução.
— Mesmo assim. — Ela não desviou os olhos dos meus. — Gostaria que me ensinasse.
O silêncio que caiu entre nós parecia ampliar tudo ao redor.
Dei um passo para trás.
— Não — disse.
— Inês...
— Saia do meu quarto, Cecília.
Ela abriu a boca. Fechou. Havia algo perigoso em seus olhos. Não era mágoa, mas uma intenção silenciosa e quente.
— Por favor — acrescentei, mais baixo. — Vá.
***
Ela hesitou por um momento, mas foi.
Fiquei parada no centro do quarto por um tempo, ouvindo seus passos se afastarem pelo corredor.
Então me sentei na cama, coloquei as mãos no rosto e fiquei assim por um tempo.
Dentro de mim havia um calor contínuo, aceso apenas pela memória dela. Do seu olhar. Da sua voz. Dos seus gestos.
***
As correspondências chegaram no fim da tarde, como sempre, trazidas pelo mensageiro que Rute foi encontrar ao portão. Fiquei no meu quarto e não desci. Não havia nada que eu esperasse receber, e o movimento da casa naquele horário, com Cecília provavelmente na antessala, Dona Eulália bordando, era um movimento que eu queria evitar.
Foi Rute quem me encontrou um tempo depois, trazendo o chá que eu havia pedido à Arminda mais cedo.
Ela entrou sem fazer barulho, pousou a bandeja com cuidado sobre a mesa ao meu lado e ficou ali um momento a mais do que o necessário, arrumando a xícara, ajeitando o pires, como quem ainda não terminou de decidir se vai ou fica.
— Seu chá, Senhorita Inês — ela disse, colocando o líquido quente na xícara.
— Agradeço, Rute.
— Com licença, Senhorita, se me permite uma observação — ela começou dizendo. — É que esta casa está ficando cada vez mais animada, não é mesmo? Parece que as visitas não cessam.
Levantei os olhos para encontrá-la.
— Do que está falando?
— Ah. — Ela ajeitou o guardanapo da bandeja. — É que a Senhorita Cecília recebeu correspondência hoje. E pensei que seria prudente também avisar a senhorita Inês.
— Avisar o quê, Rute?
— Que vem mais visita. — Ela me olhou de lado, como se estivesse medindo minha reação. — Um tal de senhor Alberto Guimarães. Da capital. Parece que escreveu anunciando que virá ver a Senhorita Cecília em breve. Deve chegar nos próximos dias, pelo que entendi.
Fiquei olhando para ela.
— Entendido — disse.
Rute assentiu, fez aquela pequena reverência que antecedia sempre sua saída, e desapareceu pelo corredor.
Fiquei imóvel por um momento, ouvindo o som dos meus próprios pensamentos se organizarem numa direção que eu não queria que tomassem.
Alberto Guimarães.
O homem de quem a família de Cecília havia falado com aquele entusiasmo de quem reconhece um futuro bem encaminhado quando o vê. O homem que lhe escrevia cartas. Que visitava sua família. E que agora vinha até aqui, a esta fazenda no interior, percorrendo estradas ruins que ninguém percorre por acaso.
Porque havia algo que o chamava.
Alguém que o chamava.
Nunca beijei ninguém. Ela me disse.
Havia uma raiva crescendo em mim. Raiva de Alberto Guimarães, que não havia feito nada além de existir e escrever cartas. Raiva de mim mesma, por sentir raiva de algo a que não tinha direito nenhum. Raiva da situação inteira. Do teatro absurdo em que eu havia entrado sem saber que estava entrando, em que cada cena avançava inevitavelmente para um final que eu já conhecia e no qual eu não me encaixava.
Levantei a xícara.
O chá estava frio.
***
Naquela noite não jantei.
Fiquei no quarto até que os sons da refeição cessaram. E só então desci, atravessando o corredor em direção à antessala.
Mas elas ainda estavam lá. Dona Eulália na sua poltrona habitual, com aquele xale de lã nos ombros que usava quando as noites começavam a esfriar, segurando uma pequeníssima taça de licor de laranja que Arminda preparava uma vez por mês com as frutas do pomar. Cecília sentada ao lado, com um livro fechado no colo.
Ambas ergueram os olhos quando entrei.
— Inês! — Dona Eulália disse com entusiasmo. — Que surpresa boa. Perdeu o jantar, mas Arminda guardou seu prato. Quer que eu mande buscar?
— Não, obrigada. — Sentei-me na cadeira mais próxima da janela. — Não estou com fome.
— Então sente-se conosco. — Ela ergueu a garrafa. — Um pouco de licor? Fiz Arminda preparar com as laranjas mais maduras deste ano. Ficou com um sabor extraordinário.
— Sim — concordei. — Agradeço.
Ela serviu. Passei a taça entre os dedos, sentindo o vidro. Olhei para Cecília.
Ela me encarava de volta.
Havia uma energia naqueles olhos azuis que fazia meu corpo inteiro vibrar. Eu sentia que a conhecia bem o suficiente para lê-la. E supunha que ela me conhecia bem o suficiente para saber que eu a havia lido.
— Pensei no que você me pediu mais cedo, senhorita Cecilia — disse, com uma voz calma.
Cecília ficou absolutamente imóvel.
Dona Eulália ergueu os olhos com curiosidade, inclinando levemente a cabeça.
— Sobre o quê, se posso perguntar?
— Uma leitura — disse. — Cecília tem tido dificuldade com certa passagem de um livro. Ofereci-me para ajudá-la a compreender melhor.
Dona Eulália fez aquela expressão de satisfação que aparecia sempre que acreditava que Cecília e eu havíamos encontrado algum assunto comum.
— Que maravilhoso! — disse ela. — Vocês duas e seus livros. É tão bom ver isso.
Cecília não disse nada. Mas eu vi o momento em que ela compreendeu completamente o que eu havia feito, trazendo aquilo para ali, para a frente de Eulália. Vi a surpresa, e depois algo que se pareceu perigosamente com excitação.
Ficamos as três em silêncio por um momento, bebendo o licor. Cecília e eu trocávamos, com frequência, olhares carregados de significado. A noite lá fora ainda não havia se fechado por completo, e as lamparinas da antessala desenhavam um círculo de luz dourada ao nosso redor.
— Estou cansada — anunciou Dona Eulália finalmente, pousando a taça com aquele suspiro que precedia sempre sua retirada para a noite. — Estas pernas velhas já estão pedindo a cama. — Ela se levantou com cuidado, ajeitando o xale. — Boa noite, minhas queridas. Não fiquem acordadas até tarde.
— Boa noite, tia — disse Cecília.
— Boa noite, senhora — disse eu.
Dona Eulália atravessou o corredor em direção ao seu quarto no andar de baixo. Ouvimos seus passos lentos e regulares afastando-se até sumirem completamente.
O silêncio que ficou era diferente do de antes.
Levantei-me. Cecília levantou-se também.
***
Subimos a escada juntas.
Não era algo que tivéssemos planejado. Apenas aconteceu com aquela inevitabilidade que algumas coisas têm quando se deixa de resistir. Minha respiração estava entrecortada de uma maneira que não tinha nada a ver com o licor ou com o esforço de subir degraus.
Trocamos mais olhares enquanto subíamos. Rápidos, laterais, do tipo que se faz quando não se quer ser apanhado olhando mas tampouco se consegue parar.
No topo da escada, o corredor se estendia na penumbra à nossa frente. O quarto dela ficava à esquerda. O meu, mais adiante.
Parei.
— Vou acompanhá-la até seu quarto — disse, sem olhar para ela. — Para ajudar com o que me pediu mais cedo.
Houve um silêncio.
Ela não respondeu imediatamente. Ouvi-a respirar ao meu lado. Senti sua hesitação.
— Tem certeza que é isso que você quer? — perguntei, voltando-me para encará-la.
O corredor estava escuro entre nós, com apenas a luz tênue que subia da antessala lá embaixo. Vi o rosto dela naquela meia-luz. A linha do queixo, os olhos que não desviavam dos meus, o leve tremor que percorreu sua boca antes que ela a controlasse.
Ela confirmou com a cabeça. Apenas isso. Sem palavras.
Caminhamos até a porta do quarto dela.
***
A escuridão total ainda não havia chegado. Havia aquela luz indefinida do fim do entardecer que torna tudo levemente irreal, e dentro do quarto de Cecília as velas e lamparinas já estavam acesas, lançando uma luz âmbar e oscilante sobre as paredes, sobre os móveis e sobre ela.
Ela estava usando um vestido de algodão cor de creme com botões pequenos no corpete, simples, sem adornos, e seus cabelos louros estavam parcialmente soltos, alguns fios escapando das tranças que ela havia feito mais cedo. A luz das velas fazia aqueles fios brilharem como se fossem feitos de outra coisa que não cabelo.
Fechei a porta atrás de mim.
Ela estava parada no centro do quarto com os dedos entrelaçados levemente e os olhos em mim.
— Você está nervosa — observei.
— Sim — ela admitiu, com uma honestidade que me abalou.
Caminhei até a cômoda e fiquei parada ali por um momento, dando-lhe tempo. Dando-me tempo.
— Antes — ela disse subitamente, movendo-se apressadamente até a mesinha de cabeceira — deixa eu... — ela abriu o pequeno compartimento na lateral e retirou aquela caixinha de prata que eu reconheci imediatamente.
O mel.
A mesma mistura que ela havia usado aquela noite antes do baile. Que havia passado nos meus lábios.
Ela abriu a caixinha, mergulhou o dedo indicador na substância dourada e então ergueu os olhos para mim com uma expressão que era simultaneamente pergunta e afirmação.
Estendi a mão.
— Dá para mim — disse.
Ela piscou.
— Você também passará? — perguntou.
— Você passará em mim — disse, me aproximando e encurtando a distância entre nós. — E eu passarei em você.
O silêncio durou apenas um segundo, mas foi o tipo de segundo que se sente na pele.
Ela me entregou a caixinha.
Peguei-a. Mergulhei o dedo. Olhei para ela.
— Aproxima-se mais — disse suavemente.
Ela se aproximou. Um passo, depois outro. Estava à minha frente agora.
Tão perto que eu podia ver o movimento do pulso em seu pescoço, aquela linha roxa delicada.
Tão perto que eu podia sentir sua respiração quente em meu rosto.
Ergui a mão lentamente.
Meu dedo tocou seu lábio inferior.
Ouvi a respiração dela prender-se.
Tracei o contorno devagar, como se estivesse aprendendo a forma daquilo, como se houvesse urgência em memorizá-lo antes que algo nos interrompesse. A substância era morna e pegajosa e ela ficou absolutamente quente sob meu toque. Cecília estava com os olhos fechados e as pestanas lançando sombras nas maçãs do rosto.
— Agora o de cima — sussurrei. Cecília continuou sem abrir os olhos.
Passei o dedo pelo lábio superior com a mesma lentidão, sentindo o ar entre nós se tornar mais denso. Quando terminei, deixei-o repousar sobre o lábio inferior dela, e a boca de Cecília se abriu em resposta, como se já me esperasse. O calor úmido do interior de sua boca acolheu a ponta do meu dedo, num gesto que não era mais de hesitação. A língua dela se moveu devagar em direção ao meu dedo, deliberada, envolvendo-o com precisão. Uma contração baixo frente me atingiu em cheio.
Ela abriu os olhos.
Tirei devagar meu dedo de sua boca.
A distância entre nós parecia ainda menor. Eu podia sentir o calor que emanava dela . Aquele perfume de flor de laranjeira que usava e que me fazia sentir coisas que não deviam ser sentidas ali, naquele quarto, naquela hora.
— Agora eu passo em você — ela disse, e sua voz saiu baixa e rouca.
Peguei a caixinha novamente. Ela mergulhou o dedo com um movimento que já não era mais contido como antes.. Havia algo diferente naquele gesto agora.
Ela ergueu a mão lentamente em direção à minha boca.
— Posso? — perguntou.
— Pode — disse.
Seu dedo tocou meu lábio inferior e eu senti o calor se espalhar do ponto de contato para todos os outros lugares do meu corpo simultaneamente. Ela traçou o contorno com aquela atenção concentrada.
— O de cima — murmurei.
Ela obedeceu.
Quando terminou, pousou o dedo no centro dos meus lábios e eu não hesitei. Abocanhei-o, sugando-o suavemente, sentindo o gosto doce. Cecília não se afastou. Ficamos encarando uma à outra. Ela abriu a boca e eu podia sentir sua respiração descompassada e quente.
Nossos rostos estavam a uma respiração de distância. Eu podia ver o que a luz das velas revelava: as pequenas sardas douradas no nariz dela, a leve dilatação de suas pupilas naquela luz âmbar, a umidade em seus lábios.
— Inês — ela disse, retirando o dedo delicadamente da minha boca.
— Cecília — respondi.
Minha mão encontrou seu rosto. Meus dedos pousaram na curva de seu queixo com leveza. A pele dele era tão macia que eu quis fechar os olhos. Ela inclinou levemente a cabeça em direção a minha mão e fechou os olhos, cedendo ao toque. Aquele gesto simples percorreu-me inteira.
— Tenho medo — ela admitiu, tão baixo que quase não ouvi.
— Eu também — disse.
Ela piscou, surpresa, abrindo os olhos. Como se não esperasse aquilo de mim.
Meu polegar roçou o canto de sua boca. Ela fechou os olhos novamente.
Aproximei-me.
O primeiro contato foi apenas um roçar. Meus lábios contra os dela. Quentes e levemente pegajosos de mel.
Depois me inclinei um pouco mais. Uma mão deslizou até a nuca e a trouxe para mais perto, enquanto a outra encontrou sua cintura.
Entreabri a boca. Esperei. Cecília correspondeu e abriu a boca, encaixando seus lábios aos meus e movimentando-os ao meu ritmo.
O beijo aprofundou-se com uma lentidão que era torturante. Puxei-a mais para perto e pude sentir suas mãos vindo de encontro ao meu corpo, tocando minhas costas. Coloquei a língua devagar na sua boca, explorando com uma calma e encontrando a dela. Cecília emitiu um gemido baixo. Suguei sua língua com uma pressão suave e ela respondeu levando a língua à minha boca com uma ousadia nova.
Levei minha mão aos seus cabelos. Enrolei os dedos na raiz, num movimento que era metade carinho e metade controle, e guiei seu corpo até a parede. Ela deixou. Seu corpo inteiro deixou, amolecendo contra mim.
A respiração de ambas estava irregular e ofegante.
Quando as costas de Cecília encontraram a parede, nossos lábios se separaram apenas o suficiente para não se tocarem. O calor ainda passava de uma boca para a outra no espaço entre nós. Eu podia sentir o peito dela subindo e descendo contra o meu. Ela ficou com os olhos fechados por um momento a mais, como se precisasse terminar alguma coisa por dentro antes de voltar.
Então os abriu.
Me olhou. Os olhos escuros, as pupilas largas, o lábio levemente inchado onde minha boca havia estado.
— É assim? — ela perguntou, e a voz saiu diferente da de antes. Mais pausada. Rouca.
Havia algo naquela pergunta que me fez querer rir e chorar ao mesmo tempo, e como não podia fazer nenhum dos dois, apenas assenti.
— É assim — disse, sentindo o hálito quente de sua boca.
Ela ficou me olhando com aquela expressão que eu ainda não tinha palavras para nomear. Não era mais inocência. Cecília estava me seduzindo.
— Eu quero mais — disse, e sorriu contra a minha boca antes de me beijar de novo — dessa vez sem a lentidão do começo, dessa vez sabendo o que estava fazendo.
E eu percebi, com uma clareza que era ao mesmo tempo iluminação e catástrofe, que estava irremediavelmente perdida.
Fim do capítulo
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rebarlow
Em: 16/04/2026
Ola autora! Que felicidade senti em ver as postagens desses ultimos capitulos :) Achei que voce se ausentaria por mais tempo e me entristeci. Maravilhoso que voce tenha retornado tao brevemente. Vou concordar com a RGasiely, està impecavel tudo. O desenrolar da historia é cativante, uma leitura que nao da vontade de parar e causa ansiedade pelos proximos rsrs. Obrigado por compartilhar seu talento conosco!
Esse proximidade das meninas no final do capitulo, foi de uma sensibilidade tamanha, torcendo muito pelas duas por que posso imaginar as dificuldades que as esperam! Ate logo ;)
RGrasiely
Em: 10/04/2026
Gostaria de começar dizendo que, sem dúvida, compraria um livro seu. Sua escrita é cativante em cada palavra, e a história é simplesmente maravilhosa.
Em um capítulo anterior, você mencionou não ter gostado de alguns pontos, mas ouso discordar, a narrativa está impecável desde a primeira linha até aqui. Há uma sensibilidade e um talento na sua escrita que tornam a leitura envolvente e instigante. História
Estou ansiosa pelos próximos capítulos.
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