Capitulo 10 - Sob o véu, a suspeita
O tilintar dos talheres de prata contra a porcelana fina parecia o único som capaz de preencher o abismo que se abria à mesa. Julianne, percebendo que seus ataques verbais não estavam surtindo o efeito de humilhação esperado, decidiu elevar o tom, atacando a própria viabilidade do estilo de vida de Cassidy Thompson.
- É admirável, realmente - disse Julianne, limpando os lábios com o guardanapo de linho. - A forma como vocês, pessoas do campo, romantizam a escassez. Mas sejamos realistas: Eleanor, este rancho é um buraco negro financeiro. Sem o nosso aporte, a Srta. Thompson estaria leiloando os próprios tratores no mês que vem.
Eleanor, que passara o jantar observando a calma imperturbável de Cassidy, sentiu uma onda de proteção que a surpreendeu.
- Já chega, Julianne - Eleanor interrompeu, a voz firme e cortante. - Você não tem ideia do que está falando. Cassidy administra este lugar com uma competência que eu raramente vi em executivos de grandes estúdios. O valor de um legado não se mede apenas por planilhas que você, em sua bolha de Bel-Air, consiga entender.
Julianne empalideceu, a fúria faiscando em seus olhos. Ser repreendida publicamente pela esposa, e em defesa de uma "rancheira", era a última humilhação que aceitaria.
- Oh, entendo - Julianne levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando com um som estridente. - Agora você é a porta-voz do Texas? Pois fique aqui com sua "competência" e o cheiro de terra. Eu não vim aqui para ser insultada em troca de caridade.
Sem esperar resposta, Julianne girou nos calcanhares e marchou em direção ao trailer de luxo, seus saltos batendo com violência contra o solo seco, deixando para trás um silêncio carregado de eletricidade.
Cassidy Thompson apenas tomou um último gole de vinho, olhando para Eleanor com um brilho indecifrável.
- Você não precisava ter feito isso, Eleanor. Mas agradeço a intenção.
O Confronto nas Sombras
Pouco depois de Cassidy se retirar para a casa principal, Eleanor avistou Marcus guardando alguns roteiros perto do caminhão de iluminação. Ela caminhou até ele com a determinação de quem está prestes a desmascarar uma cena mal escrita.
- Marcus, precisamos conversar. Agora - Eleanor exigiu, puxando-o para longe do alcance da equipe.
- Eleanor, eu estou exausto, a luz de amanhã é...
- Esqueça a luz. Quero saber o que você ia dizer à mesa. Você teve acesso às contas do rancho para o contrato. Cassidy Thompson está realmente em dificuldades? - Eleanor fixou seus olhos azuis nos dele, buscando qualquer sinal de mentira. - Por que você pareceu tão... intimidado quando ela te olhou?
Marcus hesitou, o olhar fugidio. Ele se lembrou da cláusula de confidencialidade quase draconiana da Thompson Global e do olhar de Cassidy que prometia o fim de sua carreira se abrisse a boca.
- Escute, Eleanor... contratos são coisas complicadas - Marcus desconversou, limpando o suor da testa. - A Srta. Thompson é uma mulher... singular. Ela protege a privacidade dela com unhas e dentes.
- Isso não responde à minha pergunta, Marcus.
O diretor suspirou, decidindo seguir a linha que Cassidy parecia querer manter: a da subestimação.
- Olha, o negócio com ranchos e animais é volátil. Um temporal como o de ontem causa prejuízos que levam anos para recuperar. Talvez... - ele fez uma pausa dramática - ...talvez haja algum desconforto financeiro, sim. Talvez o aluguel do set tenha vindo em uma hora muito oportuna. Às vezes, as pessoas mantêm a pose para não perder o valor de mercado, você sabe como é.
Eleanor sentiu o coração apertar. A confirmação de Marcus - mesmo que vaga - alimentou sua crença de que Cassidy era uma mulher orgulhosa lutando contra a ruína.
- Entendo - murmurou Eleanor.
- Se eu fosse você, não tocaria no assunto - sugeriu Marcus, afastando-se apressadamente. - Pessoas como ela preferem afundar com o navio a admitir que precisam de um bote salva-vidas.
Eleanor ficou sozinha sob as estrelas, olhando para as luzes da casa principal. O estranhamento continuava lá, uma pulsação no fundo de sua mente. Cassidy Thompson era um enigma: uma mulher que beijava como uma rainha, trabalhava na lama como uma veterana e, aparentemente, escondia uma falência iminente com um sorriso de ferro.
O que Eleanor não sabia era que o "desconforto" que Marcus sugerira era apenas o desconforto de ter dinheiro demais para uma vida tão simples - e que a verdadeira atuação naquela noite não estava acontecendo na frente das câmeras.
Fim do capítulo
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