Capitulo 9 - O banquete
Julianne Wilson não era uma mulher de recuar; ela era uma mulher de emboscadas. Sob o pretexto de "elevar o moral da equipe" após o desastroso temporal, ela ordenou que seu assistente pessoal - que viera de Austin com suprimentos de luxo - organizasse um jantar sob as estrelas. O local escolhido foi o gramado em frente à casa principal, uma afronta direta ao território de Cassidy.
O objetivo de Julianne era cristalino: colocar a "rancheira" em seu devido lugar, expondo a abissal diferença de classe entre a aristocracia de Hollywood e a vida rural.
- Eleanor, querida, convidei nossa anfitriã, a Srta. Thompson - disse Julianne, ajustando um colar de pérolas que custava mais do que todos os cavalos do cercado. - Pobre mulher, deve ser raro para ela ver uma mesa posta com linho francês e cristal. É o mínimo que podemos fazer, já que estamos praticamente sustentando este rancho com o aluguel do set.
Eleanor sentiu um aperto no estômago. Ela ainda via Cassidy Thompson através das lentes da necessidade. Imaginava que o orgulho de Cassidy devia estar em frangalhos por aceitar aquela caridade mascarada de jantar.
A mesa era um insulto de opulência no meio da terra batida. Marcus, o diretor, sentou-se à cabeceira, visivelmente desconfortável. Ele era o único que, durante a assinatura dos contratos sigilosos, tivera acesso às contas da Thompson Global. Ele sabia que o vinho de mil dólares que Julianne servia era o que Cassidy costumava usar apenas para cozinhar em suas coberturas em Nova York.
Cassidy chegou por último. Ela não se vestiu para a ocasião; usava calças escuras e uma camisa de botões simples, mas a postura era de uma rainha visitando uma província distante.
- Que bom que veio, Cassidy! - Julianne exclamou, com uma falsa doçura. - Estávamos comentando como deve ser difícil manter um lugar tão... vasto... sem os subsídios do governo. Espero que aprecie o foie gras. Imaginei que sua dieta fosse baseada em coisas mais... rústicas.
Cassidy sentou-se, cruzando as pernas com elegância. Ela olhou para o prato e depois para Julianne, um meio sorriso brincando em seus lábios.
- A rusticidade tem suas vantagens, Sra. Wilson. Ela nos ensina a distinguir o que é substância do que é apenas... brilho barato.
Marcus limpou a garganta, nervoso.
- Na verdade, Julianne, você ficaria surpresa se soubesse que a Srta. Thompson...
Cassidy lançou um olhar para o diretor. Foi um movimento sutil, mas carregado de uma autoridade tão gélida que Marcus engoliu o restante da frase. Ela colocou o dedo sobre os lábios por um milésimo de segundo. Um comando silencioso: Não ouse estragar o meu divertimento.
Eleanor, sentada à frente de Cassidy, captou a troca de olhares. O estranhamento foi imediato. Por que o diretor, um homem que não se calava por nada, parecia ter medo de uma rancheira "falida"? Por que Cassidy Thompson parecia estar se divertindo com as humilhações de Julianne, em vez de se sentir ofendida?
- Marcus? - Eleanor interveio, os olhos fixos em Cassidy. - O que você ia dizer sobre a Srta. Thompson?
- Eu... eu ia dizer que ela tem uma gestão de terras muito... eficiente - gaguejou o diretor, desviando o olhar para o vinho.
Julianne, alheia à tensão implícita e cerrada, continuou o ataque.
- Eleanor me contou que vocês resgataram uma vaca na lama ontem. Que pitoresco! Deve ser exaustivo ter que fazer o trabalho braçal por não poder contratar mais peões. Se precisar de um adiantamento sobre a próxima semana de filmagens para pagar as dívidas do rancho, não hesite em pedir, querida.
Eleanor sentiu uma onda de pena por Cassidy, que se misturava a uma irritação crescente com a esposa.
- Julianne, já chega.
- Por que, Eleanor? - Cassidy interrompeu, a voz suave como veludo e perigosa como uma lâmina. Ela tomou um gole do vinho de Julianne e fez uma careta quase imperceptível. - Eu acho fascinante a preocupação da Sra. Wilson. É raro ver alguém tão empenhado em gastar o dinheiro dos outros. Mas me diga, Julianne... o que você faria se descobrisse que nem tudo o que reluz neste rancho é poeira?
Julianne riu, uma risada estridente.
- Eu diria que você tem uma imaginação fértil, Srta. Thompson. Mas imaginação não paga hipotecas.
Eleanor observava Cassidy. A rancheira não parecia uma mulher acuada pelas dívidas. Pelo contrário, ela olhava para Julianne como um predador observa uma presa que pensa estar no controle. O estranhamento de Eleanor cresceu. Havia uma peça do quebra-cabeça que não se encaixava. Cassidy Thompson não era quem dizia ser, e o beijo da noite anterior, na lama, agora parecia ter sido dado em uma mulher muito mais poderosa e complexa do que qualquer "atriz premiada" poderia supor.
O jantar continuou sob uma camada de gelo fino. Julianne acreditava que estava humilhando uma pobre coitada; Eleanor acreditava que estava protegendo uma amante vulnerável; e Cassidy Thompson, em seu silêncio soberano, apenas aguardava o momento certo para deixar que o mundo de ambas desmoronasse sob o peso da verdade.
Fim do capítulo
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