Capitulo 8 - O Teatro e as Sombras
A luz do amanhecer texano era implacável. No set, o movimento era frenético: cabos sendo esticados, refletores posicionados e uma equipe de limpeza tentando esconder os rastros da lama sob camadas de serragem seca. Eleanor Wilson estava sentada em sua cadeira, permitindo que a maquiadora cobrisse as olheiras e o leve rubor que o beijo de Cassidy deixara em seus lábios e rosto.
Ela sentia o olhar de Julianne antes mesmo de vê-la. A esposa estava encostada no trailer de figurino, segurando uma xícara de porcelana que trouxera de casa, observando Eleanor com uma suspeita que cortava o ar.
- Achei que você já estivesse a caminho de Austin, Julianne - disse Eleanor, sem abrir os olhos enquanto os pincéis trabalhavam. - Você deixou bem claro que este lugar era insuportável para os seus padrões.
Julianne caminhou até ela, o som de seus saltos sobre a serragem sendo o único ruído em meio ao burburinho técnico.
- Eu ia, Eleanor. Realmente ia - Julianne baixou a voz, inclinando-se para que apenas a atriz ouvisse. - Mas mudei de ideia no meio do caminho. Algo não cheira bem aqui, e não estou falando do gado. Você me mandou embora com uma urgência que nunca vi antes. E depois de passar a noite naquela... cabana rústica? Decidi que Austin pode esperar. Quero ver de perto que tipo de "método de atuação" você está desenvolvendo neste fim de mundo.
Eleanor abriu os olhos. O azul turquesa estava gélido. - Não seja ridícula, Julianne. Eu estava salvando a produção.
- Veremos - retrucou Julianne, com um sorriso de escárnio. - Vou ficar bem ali, atrás do monitor. Não quero perder um único take.
***
A cena do dia era um confronto dramático. Eleanor, no papel de uma pioneira endurecida pela perda, deveria confrontar o vilão da história sobre a posse da terra. Mas, enquanto Marcus gritava "Ação!", Eleanor não conseguia focar no ator à sua frente.
Seu olhar escapava, involuntariamente, para a crista da colina que flanqueava o set. Lá, montada em seu cavalo castanho, estava Cassidy Thompson.
A rancheira era uma silhueta escura contra o sol nascente. Ela não se aproximou, não acenou, nem pediu permissão. Apenas observava, imperturbável. De longe, Cassidy parecia uma guardiã silenciosa de sua própria terra, mas Eleanor sabia que aqueles olhos mel queimado estavam fixos nela, julgando a performance, lembrando-a da mulher que segurara uma novilha na lama poucas horas antes.
- Concentração, Eleanor! - gritou Marcus. - Você parece distraída! Onde está aquela fúria que você teve ontem?
Eleanor respirou fundo. Ela estava presa em um fogo cruzado. À sua direita, a vigilância tóxica e possessiva de Julianne, que analisava cada micro expressão sua, cada gesto em busca de uma traição. À sua frente, o simulacro de Hollywood. E ao longe, no horizonte, a realidade bruta e sedutora de Cassidy.
O conflito interno de Eleanor alimentou a cena de uma forma que nenhum diretor poderia ensinar. Ela entregou as falas com uma ferocidade que fez a equipe silenciar. Era uma mistura de raiva por Julianne e um desejo reprimido por Cassidy.
- Corta! Perfeito! - exclamou Marcus, extasiado.
Eleanor relaxou os ombros, mas seu olhar voltou imediatamente para a colina. O lugar estava vazio. Cassidy partira tão silenciosamente quanto chegara, deixando apenas o rastro de sua presença na mente de Eleanor.
Julianne aproximou-se, batendo palmas lentas e irônicas. - Bravo, Eleanor. Uma atuação impecável. Quase me convenceu de que você realmente odeia estar aqui. Mas me diga... - Julianne apontou para a colina vazia - ...quem era a plateia particular que você estava tentando impressionar lá em cima?
O jogo de máscaras estava ficando perigosamente transparente, todos já estavam percebendo.
Fim do capítulo
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