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  • Capítulo XII: O peso das incertezas

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Sob o peso do desejo por MalluBlues e

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Palavras: 3667
Acessos: 235   |  Postado em: 31/03/2026

Capítulo XII: O peso das incertezas

Por Cecília:

 

Deitada em minha cama, observava o teto do quarto enquanto a culpa me consumia.

Fingi. Menti. Usei minha doença como arma de manipulação.

E para quê?

Para impedir que Inês dançasse com o Comendador. Para evitar que conversasse com Bianca Rossi. E para mantê-la perto de mim por um motivo que eu nem sabia qual era.

Ciúme. Um ciúme completamente inapropriado e descabido.

"Que tipo de pessoa faz isso?" perguntei-me, virando de lado e abraçando o travesseiro.

Fechei os olhos, mas imediatamente meus pensamentos voltaram ao que tanto me atormentava.

O jeito como Inês me olhou quando ajudou a me despir. Seus olhos escuros percorrendo meu corpo através do tecido fino da combinação. A maneira como sua respiração ficou irregular. Como seus dedos tremeram ao tocar minha pele.

E a maneira como meu próprio corpo reagiu àquele olhar e toques.

Senti novamente aquele calor se espalhar pelo meu baixo-ventre. Aquela sensação estranha e intensa.

Minha mão desceu involuntariamente, tocando meu próprio corpo através da camisola. Meus dedos roçaram o ponto entre minhas pernas que pulsava com aquele calor estranho.

"Não. Não posso."

Retirei minha mão bruscamente, sentando-me na cama com o coração disparado.

O que estava acontecendo comigo?

Pensar em Inês daquele jeito. Querer que ela me tocasse mais. Querer... querer coisas que eu nem sabia como nomear, mas que meu corpo parecia entender tão bem.

Era pecado. Tinha que ser.

Mas se era pecado, por que meu corpo ardia assim? Por que cada vez que fechava os olhos via aqueles olhos escuros me observando? Via aquelas mãos e imaginava...

"Pare."

Levantei-me da cama, caminhando até a bacia de água fria e lavando o rosto.

Voltei para a cama e ao deitar, me forcei a fechar os olhos.

"Durma, Cecília. Apenas durma. Amanhã tudo ficará mais claro."

***

Na manhã seguinte, acordei bem disposta e com a determinação de descer para fazer a primeira refeição do dia com minha tia e Inês.

Mas quando comecei a me arrumar, tia Eulália e Rute entraram no quarto trazendo a bandeja do desjejum.

— Bom dia, querida — tia Eulália disse com sorriso caloroso. — Achei melhor você permanecer no quarto hoje. Depois do susto de ontem à noite, é prudente um dia completo de repouso.

— Mas tia, estou me sentindo perfeitamente bem — protestei.

— E se sentirá melhor ainda se descansar adequadamente — ela retrucou, fazendo sinal para que Rute depositasse a bandeja na mesinha ao lado da cama. — Pão fresco, bolo de laranja, geleia de goiaba, queijo, chá. Coma tudo e descanse. Pode ler, bordar, o que quiser. Mas hoje você fica no quarto.

— Tia...

— Sem discussões — ela disse firmemente, mas com gentileza. — É para seu próprio bem.

E saiu, fechando a porta atrás de si.

Fiquei ali, olhando para a porta fechada, sentindo uma mistura de frustração e... justiça.

Porque, no fundo, sabia que merecia isso.

Merecia ficar confinada. Merecia esse castigo autoimposto por ter mentido. Por ter manipulado a situação. Por ter usado minha saúde de forma tão calculada e egoísta.

"É o que mereço," pensei amargamente, sentando-me na cama e pegando a xícara de chá. "Um dia inteiro sozinha com meus pensamentos culpados."

Passei bordando e lendo, ou tentando ler. As palavras embaçavam na página e minha mente constantemente voltava para pensamentos sobre Inês.

Onde ela estava? O que estaria fazendo? 

***

No dia seguinte, finalmente recebi permissão para sair do quarto.

Desci para o desjejum com certa ansiedade, esperando encontrar Inês na sala de jantar.

Mas ela não estava lá.

— Bom dia, querida — tia Eulália cumprimentou. — Dormiu bem?

— Sim, tia — respondi, olhando ao redor. — E... e Inês?

— Oh, ela desjejuou cedo e saiu para caminhar — tia Eulália disse casualmente. 

Assenti, tentando esconder minha decepção.

Durante o almoço, Inês também não apareceu.

— Disse que ficará no quarto e depois vai para o jardim — tia Eulália explicou. — É um daqueles dias em que ela prefere que ninguém a importune, sobrinha.

Tia Eulália ficou em silêncio por um breve momento, depois soltou:

— Ah, querida Cecília… devo lhe avisar que o Comendador virá jantar conosco hoje à noite.

Meu estômago se contraiu e quase derrubei minha xícara.

— Esta noite? Novamente veremos ele?

— Sim — ela disse. — Ele foi muito gentil em nos convidar para o baile da outra noite e demonstrou preocupação com sua saúde. Seria descortês não retribuir a cortesia.

Mas eu sabia que não era só isso. Via no modo como ela evitava meu olhar. Tia Eulália estava estranha. Inês estava fugindo.

E o Comendador não vinha a esta casa por minha causa.

Vinha por Inês.

***

O jantar foi uma verdadeira tortura.

Desde o primeiro momento, o Comendador dominou completamente a conversa, falando incessantemente sobre suas propriedades e negócios. Seus olhos permaneciam fixos em Inês de uma maneira que me fazia sentir náusea.

Cada comentário que fazia sobre ela… sobre sua beleza, sobre como seria uma esposa perfeita, sobre como deveria usar apenas vestidos verdes… me deixava ainda mais desconfortável. 

E quando ele disse "se fosse minha esposa", senti uma raiva ardente crescer dentro de mim.

Inês permaneceu tensa durante toda a refeição, respondendo com rispidez em algumas situações, mas mantendo-se principalmente em silêncio.

Quando o jantar terminou, ele pediu para falar a sós com tia Eulália no gabinete e ficou tudo ainda mais claro. 

Ele não estava apenas interessado em Inês. Ele queria casar com ela.

O Comendador foi embora, tia Eulália me mandou subir para o quarto e Inês foi intimada para uma conversa reservada. 

Simplesmente, não conseguia acreditar naquilo. Como tia Eulália era capaz de cogitar que uma moça jovem e bela como Inês pudesse se casar com aquele sujeito velho e asqueroso. Ele me causava calafrios. Olhava para Inês não como pessoa, mas como objeto.

Inês não podia aceitar se casar com ele.

Não podia.

 

***

Dormi a pior noite de todas desde que chegara à casa de tia Eulália. E acordei com um único pensamento: falar com Inês. 

Mas Inês estava me evitando. Passou o dia inteiro fora de casa. Nos breves momentos em que estava dentro, ficava trancada em seu quarto ou na biblioteca.

Precisava saber o que havia ocorrido ontem à noite. Não podia simplesmente perguntar a tia Eulália. Então, tentei conversar com Arminda, mas ela apenas sorria e dizia que a Senhorita Inês estava bem.

Sabia que com Arminda não conseguiria informações.

Mas com Rute...

Rute tinha a língua mais solta do que minha avó Ofélia.

Usei a situação perfeita. Quando Rute veio ao meu quarto trazer roupas de cama limpas, aproveitei a deixa.

— Rute, poderia dar uma olhada neste vestido? — pedi, mostrando-lhe a manga. — Tem alguns fios soltos aqui.

— Claro, patroa Cecília — ela respondeu, pegando o vestido e examinando-o. — É um conserto simples. Tenho uma agulha aqui e faço em alguns minutos.

Sentei-me na beirada da cama enquanto ela começava a trabalhar.

— Nossa — comecei casualmente — hoje esta casa está em um silêncio maior do que antes, não é, Rute?

Ela ergueu os olhos do vestido.

— Também pudera, Senhorita Cecília... também pudera...

— Por que diz isso? — fingi inocência. — Aconteceu algo depois do jantar de ontem, não é mesmo? Bem vi tia Eulália chamar Inês para o gabinete...

Rute mordeu o lábio, claramente dividida entre discrição e fofoca.

— Olha... — ela começou — não quero que pense que sou de fazer fofoca.

— Não pensaria isso jamais — assegurei-lhe.

— É que ontem as duas praticamente gritavam no gabinete — Rute confessou em voz baixa. — Principalmente a Senhorita Inês. A Senhorita Cecília não ouviu porque já estava no andar de cima, mas a conversa das duas foi séria. Muito séria.

Meu coração acelerou.

— Mas você sabe do que se tratava?

Rute inclinou-se mais perto, como se estivéssemos compartilhando um grande segredo.

— Ih, patroinha... acho que até na vila o boato já corre e todos sabem do que se trata. O Comendador quer casar com a Senhorita Inês.

— Mas ele é muito velho para ela — retruquei, sem conseguir esconder a indignação em minha voz.

Rute me olhou com surpresa.

— Mas senhorita Cecília, é a melhor coisa para a vida dessa infeliz! O homem é rico, respeitado. Velhice nunca foi defeito num marido. Meu próprio pai era vinte anos mais velho que minha mãe, e tiveram um bom casamento.

— Não é essa questão, Rute — disse, sentindo o nervosismo tomar conta. — Velhice não é defeito, mas está claro que Inês não o ama.

Rute deu de ombros, voltando sua atenção para o vestido.

— E esse não vai ser o primeiro, nem o último casamento sem amor no mundo, patroa. A maioria dos casamentos é assim. Com o tempo, as mulheres acostumam.

As palavras de Rute eram realistas, mas me causavam horror.

— Então... — engoli em seco — ...então você acha que ela aceitará a proposta?

Rute pausou em seu trabalho, considerando.

— É o melhor para ela — disse. — E a Senhorita Inês é uma moça estudada e inteligente. Então sabe disso. Pode não gostar, mas sabe o que é prudente.

Fiquei em silêncio, processando aquela informação.

— Pronto — Rute disse, dobrando o vestido cuidadosamente. — Está arrumado. É este vestido, patroa? Preciso arrumar mais alguma coisa?

— Sim, esse mesmo — respondi, apontando para o vestido azul-celeste. — Peço que arrume a manga... tem alguns fios soltos.

— Já arrumei, patroa — Rute riu.

— Ah, sim, claro. Obrigada, Rute.

Ela fez uma pequena reverência e saiu.

Fiquei ali sentada, olhando para o vestido azul-celeste.

Inês não pode se casar com ele. Isso seria absurdo. Horrível. Errado.

***

Na manhã do dia seguinte, o mensageiro trouxe novas correspondências.

Tia Eulália as distribuiu como sempre, folheando-as rapidamente.

— Cecília! — ela chamou. — Tem duas cartas para você!

Me levantei apressadamente e peguei os envelopes.

O primeiro era da mamãe. Reconheci sua caligrafia imediatamente. Abri com cuidado.

"Minha querida filha,

Escrevo para informá-la que seu pai e eu planejamos visitá-la em breve. Sua avó Ofélia, Francisca e Henrique também irão. Sua tia Eulália mencionou seu mal estar e ficamos preocupadíssimos. Alberto nos fez outra visita e não parava de perguntar por você. Mencionou que também pretende visitá-la. Ele parece ansioso. Acredito que ele cumprirá com a visita e se assim for, esteja sempre acompanhada de alguém enquanto conversarem. Demais orientações, passarei pessoalmente.

Esperamos chegar dentro de alguns dias. 

Cuide-se bem, meu amor.

Com todo carinho, Mamãe"

Minha família toda estava preocupada e a caminho. Tudo por causa da minha mentira.

Abri a segunda carta com as mãos trêmulas. Era de Alberto.

"Querida Cecília,

Soube por sua mãe que está se recuperando maravilhosamente. Não imagina a alegria que isso me traz. Me informaram que em breve estará com os seus. Fiquei aliviado em saber. Imagino o quão solitário deve ser ficar nessa casa.

Após a visita de sua família, aviso que uma próxima se aproxima: a minha. 

Conto os dias até poder vê-la novamente. Há algo importante que preciso lhe dizer.  

Até breve. Com afeição sincera, Alberto"

— Boas notícias, querida? — tia Eulália perguntou, percebendo minha inquietação.

— Meus pais virão me visitar — respondi. — Em alguns dias. E trarão vovó Ofélia, Francisca e Henrique.

— Oh! — tia Eulália sorriu amplamente. — Que maravilhoso! Será encantador tê-los aqui.

Assenti, fingindo empolgação.

— Há mais correspondências? — perguntei.

— Sim, e curiosamente… há uma para Inês — tia Eulália disse, pegando um envelope com lacre vermelho a azul. — De Bianca Rossi, pelo que vejo.

Senti algo desagradável crescer dentro de mim ao ouvir aquele nome.

— Posso entregá-la? — ofereci rapidamente, estendendo a mão. — Vi Inês indo para a biblioteca há pouco e estava pensando em pegar um livro mesmo.

Tia Eulália me olhou com certa surpresa, mas sorriu.

— Que gentil da sua parte, querida. Sim, claro. — Ela me entregou o envelope. — Aproveite e tente fazer com que ela saia um pouco. Essa menina tem passado tempo demais sozinha.

— Tentarei — respondi, pegando a carta.

"Por que Bianca está escrevendo para ela? O que ela quer?

Parei diante da porta da biblioteca, respirando fundo para tentar acalmar meus nervos.

Bati levemente.

— Entre — a voz de Inês veio de dentro, distante e fria.

Abri a porta.

Inês estava sentada junto à janela com um livro aberto em seu colo, mas seus olhos não estavam nas páginas. Estavam fixos em algum ponto distante.

Quando me viu ali, a expressão em seu rosto demonstrou desagrado.

— Senhorita Cecília — disse ela de maneira séria. — O que faz aqui? Por acaso, precisa de mais algum livro?

— Na verdade... — fechei a porta atrás de mim — ...vim trazer isto para você.

Mostrei-lhe o envelope com o lacre vermelho e azul.

Seus olhos se arregalaram levemente demonstrando surpresa.

— É de Bianca Rossi — expliquei, aproximando-me devagar. — Chegou com as correspondências de hoje.

Ela não estendeu a mão para pegá-lo. 

— Pode deixar na mesinha — disse, gesticulando para o móvel ao seu lado.

Mas não deixei. Me aproximei de onde ela estava e segurei o envelope com mais força em minhas mãos.

— Parece que vocês se tornaram... próximas — comentei, tentando manter minha voz neutra. — No baile conversaram e agora já trocam até cartas.

— Conversamos brevemente — Inês respondeu. — Nada além de cortesia social.

— Cortesia social não costuma resultar em cartas— retruquei antes que pudesse me conter.

Seus olhos finalmente encontraram os meus.

— Do que isso se trata exatamente, Cecília?

— E-eu... nã-não... — gaguejei as palavras. — Apenas achei... incomum.

Então, respirei fundo para me acalmar novamente e decidi ser honesta. 

— Sei sobre a proposta do Comendador — disse com a voz tremendo. — Sei que ele quer se casar com você. E sei que tia Eulália está te pressionando a aceitar.

O rosto de Inês se fechou imediatamente.

— Como... — ela começou, com sua voz saindo baixa — ...como sabe disso?

— Fiz perguntas — admiti. — Conversei com Rute. 

— Então está bisbilhotando minha vida — ela disse, e havia uma raiva crescendo em sua voz. — Interrogando as empregadas sobre mim?

— Estava preocupada! — me defendi. — Você estava evitando a todos. Passando dias inteiros fora de casa. E quando está aqui, se tranca nesta biblioteca ou em seu quarto. O que eu deveria fazer? Simplesmente ignorar?

Inês levantou-se bruscamente e o livro caiu de seu colo ao chão.

— Sim! — ela praticamente gritou. — Era exatamente isso que deveria fazer! Deveria me ignorar! Deveria parar de... de... — ela gesticulou, procurando palavras — ...de se preocupar comigo dessa maneira!

— Pois saiba que não posso — respondi, também levantando minha voz. — Não consigo simplesmente ignorá-la quando sei que está sofrendo!

— E o que você pensa que sabe sobre mim? — ela desafiou, dando um passo em minha direção. — Acha que pode me salvar, Cecília? Acha que uma menina de dezenove anos que mal conhece o mundo pode resolver algo que nem mesmo eu consigo?

— Talvez sim — disse, erguendo meu queixo. — Na verdade... tive muito tempo para pensar e me surgiu uma ideia.

Ela riu de maneira irônica.

— Uma ideia. Claro. Conte-me então, que ideia brilhante teve.

Respirei fundo, juntando coragem.

— Você estudou em um internato de freiras, não é?

A mudança em sua expressão foi imediata. A raiva foi substituída por choque absoluto.

— Como... — sua voz falhou. — Como sabe disso?

— Ouvi a tia Eulália mencionar — menti. — E se você usar isso? Se disser que tem vocação religiosa? Que deseja retornar à vida com as freiras?

— Você... — Inês começou, com sua voz saindo estranhamente calma — ...está sugerindo que eu minta. Que use a religião como desculpa para recusar o Comendador.

— Não seria mentir completamente — argumentei. — Você realmente estudou com freiras. E... e talvez… talvez uma parte sua realmente queria aquela vida novamente. A paz. A tranquilidade. Seria um pouco parecido com a fazenda.

Ela me olhou por um longo momento, e então, surpreendentemente, deu alguns passos para trás e se sentou pesadamente na poltrona.

— Você não entende nada — disse ela, colocando a mão no rosto. — Nada mesmo.

— Então me explique — pedi, me aproximando e me sentando no chão diante dela. — Me ajude a compreender.

Seus olhos escuros me estudaram intensamente.

— Se descobriu sobre o internato, deve desconfiar de mais coisas, não é mesmo? — ela perguntou. — E seja honesta desta vez. O que mais sabe ou acha que sabe sobre mim?

Engoli em seco.

— Sei... imagino… Eu acho… Eu acho que você não tem família — confessei em voz baixa, sentindo vergonha em expor aquela informação. — Sei que você cresceu longe daqui e que tia Eulália te trouxe para esta fazenda quando você tinha dezesseis anos e logo após ela ficar viúva… talvez ela quisesse uma companhia. Mas também já ouvi cochichos sobre o Coronel Bernardino entre meus pais. De que havia tido uma filha fora do casamento. E imaginei que…

— Os empregados e sua família tem a língua muito solta e você percepções bastante aguçadas — Inês disse amargamente, me interrompendo.

— Não culpe só eles — respondi. — Eu... eu fiz muitas perguntas. Procurei informações. Queria entender por que você é tão... — pausei, procurando a palavra certa — ...tão solitária.

— E agora que sabe — ela disse — acha que pode me salvar com uma mentira sobre vocação religiosa?

— Não é uma mentira se houver um pouco de verdade nela — insisti. — Você poderia realmente considerar essa vida. Seria livre. Independente. Não precisaria se casar com o Comendador ou com qualquer outro homem que não quisesse.

Inês fechou os olhos, respirando profundamente.

— É uma ideia descabida — disse finalmente. — Completamente descabida.

— Por quê?

— Porque os conventos também cobram dotes, Cecília — ela explicou, abrindo os olhos. — E o que tenho guardado não é suficiente para uma vida religiosa confortável. Seria aceita apenas como irmã leiga, fazendo trabalhos braçais e sofrendo penitências pelo resto de minha vida. 

— Mas se você ao menos tentasse encontrar um que... 

— Seria uma vida tediosa e eles não me aceitariam — Inês interrompeu. — E essa ideia vinda de você… mentir sobre algo tão sagrado para a sociedade... — ela falou de maneira irônica e balançou a cabeça — seria adicionar mais um pecado à lista já longa que carrego.

Senti meus olhos começarem a lacrimejar.

— Então... então é isso. Você vai aceitar? Vai se casar com ele?

Ela não respondeu imediatamente. Apenas olhou para suas próprias mãos, entrelaçadas no colo.

— Eu não tenho um futuro, Cecília — disse finalmente. — Não tenho aqui. Não tenho em lugar algum. A única coisa que tenho é a escolha entre diferentes tipos de miséria. E talvez... talvez ser a Senhora Vasconcelos seja a opção menos miserável de todas.

— Não — sussurrei, as lágrimas agora escorriam pelo meu rosto. — Não diga isso. Por favor.

Inês se levantou e eu também. Ela olhou diretamente nos meus olhos. De tão perto que estávamos, pude ver que também havia lágrimas nos dela, embora não estivessem caindo.

— Por que isso importa tanto para você, menina tola? — perguntou suavemente. — Por que se importa tanto com o que acontece comigo?

Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Como poderia explicar? Como poderia dizer que a ideia de vê-la nos braços do Comendador me fazia sentir uma dor que era física? Que pensar nele tocando-a, me enchia de uma raiva, nojo e desespero que eu nunca havia sentido antes?

Como poderia admitir sentimentos que eu mesma não compreendia completamente?

— Eu... — comecei, mas minha voz falhou.

Foi então que olhei para baixo e notei que ainda segurava a carta de Bianca. Inês também notou.

— Vai me entregar a carta? — ela perguntou.

Hesitei, meus dedos apertaram ainda mais o papel.

— Afinal, o que ela quer com você? — as palavras saíram antes que pudesse contê-las. — Bianca. Por que está escrevendo para você?

— Sinceramente, eu não sei. — ela disse e suspirou.

Houve um momento de silêncio entre nós. Uma troca de olhares profunda. 

Inês se inclinou para frente, e de repente estávamos muito mais próximas. Tão próximas que eu até podia ver as pequenas manchas douradas em seus olhos, que de perto já não pareciam tão escuros. Podia sentir seu hálito quente em meu rosto.

— Cecília... — ela sussurrou de um jeito que fez meu corpo inteiro tremer. — Você não deveria... não deveria estar aqui.

— Por que não? — perguntei, também sussurrando.

— Porque eu não sou boa companhia para você — ela respondeu. — Porque eu nasci desgraçada e tudo que toco, corrompo. E porque você é pura e inocente e eu... eu sou...

— Você é o quê? — desafiei, sentindo meu coração bater forte.

Seus olhos desceram para meus lábios. Ficaram ali por um momento.

Então, ela bruscamente se afastou.

— A carta — disse com a voz tensa, estendendo a mão. — Por favor.

Levantei meu braço e com a mão trêmula, entreguei-lhe o envelope.

Ela o pegou e nossos dedos tocaram brevemente.

— Precisa ir — ela disse. — Por favor, Cecília. Vá.

— Inês...

— Vá! — ela praticamente ordenou, virando-se de costas para mim.

Me dirigi à porta com as pernas trêmulas.

Antes de sair, olhei para trás uma última vez.

Inês estava parada junto à janela com o envelope de Bianca em suas mãos.

"O que está acontecendo comigo? O que estou sentindo?"

Eu não tinha respostas.

Apenas sabia que a ideia de Inês casando-se com o Comendador me destruía por dentro.

E precisava encontrar uma maneira de impedir isso.

Fim do capítulo


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