Capítulo XI: Do fogo ao caos
Por Inês:
Meu coração ainda batia acelerado quando ajudei Cecília a sair da carruagem. Ela se apoiava em mim e sua respiração vinha em pequenos ofegos.
— Devagar — murmurei, passando meu braço ao redor de sua cintura para sustentá-la melhor. — Vamos subir com calma.
Dona Eulália seguia à frente, acendendo lamparinas pelo caminho, seu rosto estava marcado com uma preocupação profunda. A casa estava silenciosa e escura e as criadas já haviam se recolhido para dormir, como era esperado àquela hora da noite.
Guiei Cecília pelas escadas.
— Quase lá — encorajei, quando chegamos ao corredor do segundo andar. — Só mais alguns passos.
Finalmente alcançamos seu quarto. Dona Eulália abriu a porta rapidamente, entrando para acender as velas enquanto eu conduzia Cecília até a cama.
Ela se sentou na beirada do colchão com sua mão ainda agarrada ao meu braço.
— Vou buscar chá de ervas — Dona Eulália anunciou, já se dirigindo para a porta. — E os tônicos que o Dr. Silveira mandou. Inês, por favor, ajude-a a trocar de roupa. Não podemos deixá-la dormir com esse espartilho apertado e o vestido de baile. Ela precisa de roupas leves e confortáveis. E estar aquecida.
— Eu posso... — Cecília começou — ...posso me trocar sozinha...
— Tolice — Dona Eulália interrompeu. — As criadas estão dormindo, e eu preciso preparar o chá. Inês cuidará de você. Volto em instantes.
E saiu, fechando a porta atrás de si e deixando-nos sozinhas no quarto iluminado apenas pela luz suave das velas.
Olhei para Cecília, sentada na beirada da cama, com seus cabelos louros levemente desalinhados, os pentes de madrepérola soltos e seu rosto ainda corado.
— Está bem? — perguntei.
Ela assentiu, mas não me olhou nos olhos.
— Apenas... apenas cansada.
— Vou ajudá-la — disse, aproximando-me. — Se puder, levante-se um pouco. Preciso desabotoar as costas do vestido.
Ela obedeceu, ficando de pé e virando-se de costas para mim.
A extensão de seu vestido azul-celeste, com dezenas de pequenos botões de madrepérola correndo pela coluna.
Respirei fundo, erguendo as mãos.
Meus dedos tremiam levemente quando toquei o primeiro botão. Era pequeno e levou alguns segundos para liberá-lo. Depois o segundo. O terceiro.
A cada botão desfeito, mais do contorno de seu corpo era revelado. Primeiro apenas a nuca delicada, depois os ombros, depois as costas...
— Desculpe — murmurei quando meus dedos roçaram acidentalmente sua pele. — Não pretendia...
— Está tudo bem — ela sussurrou.
Continuei desabotoando os botões e forçando meus olhos a se concentrarem apenas nesta tarefa. Mas era impossível não notar. Impossível não ver.
A curva delicada de seus ombros. A linha elegante de sua coluna. As pequenas sardas douradas espalhadas por sua pele.
— Pronto — disse, recuando um passo quando o último botão foi liberado e dando-lhe espaço.
Ela segurou o vestido contra o peito antes que caísse, virou-se parcialmente para mim, seu rosto com uma expressão que eu não conseguia definir.
— O espartilho... — ela começou, hesitante. — Não consigo alcançar os laços sozinha.
Engoli em seco.
— Claro.
Aproximei-me novamente. Ela soltou o vestido, deixando-o escorregar até a cintura, revelando o espartilho de cetim branco amarrado nas costas.
Meus dedos encontraram os laços e comecei a puxá-los, afrouxando-os.
Com cada laço desfeito, ouvi-a suspirar suavemente de alívio. Sua respiração foi ficando mais profunda e mais fácil.
— Melhor? — perguntei.
— Muito — ela respondeu com um tom de voz rouco.
O espartilho finalmente se soltou completamente e ela o segurou contra o peito por um momento, então o deixou cair no chão junto com o vestido.
Ficou ali, de pé diante de mim, usando apenas a combinação fina de linho que cobria seu corpo da maneira mais inadequada possível.
Porque através daquele tecido transparente eu podia ver tudo.
Podia ver a linha de sua cintura estreita se alargando em seus quadris. Podia ver a curva de seus seios pequenos. Podia ver as sombras de seus mamilos através do tecido branco. Podia perceber que os bicos estavam rígidos e sobressaltando na camisa.
"Não olhe. Não olhe. Não..."
Mas olhei.
E ela sabia que eu estava olhando.
Vi o rubor subir por seu pescoço, se espalhar por seu colo. Percebi quando sua respiração acelerou novamente.
— A... a camisola — consegui dizer, forçando meus olhos a se desviarem para outro ponto. — Onde está?
— Na cômoda — ela indicou com um gesto. — Gaveta superior.
Caminhei até a cômoda e abri a gaveta, encontrando uma camisola de algodão branco. E ao lado, uma anágua mais grossa para proteger do frio.
Voltei até ela, mantendo meu olhar baixo e estendendo ambas as peças.
— Vista a camisola primeiro — instruí, virando-me de costas para dar-lhe privacidade.
Ouvi o sussurro de tecido se movendo. A combinação de linho sendo retirada. Pensei em sua pele nua contra o ar frio da noite.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, tentando não imaginar. Tentando não visualizar.
— Pode se virar — ela disse finalmente.
Virei-me e ali estava ela, usando a camisola branca que chegava até seus tornozelos. Seus cabelos louros caíam soltos sobre os ombros agora, sem os pentes que os prendiam. Ela parecia tão… vulnerável. E absolutamente linda.
— A anágua — estendi a peça mais grossa. — Para mantê-la aquecida. A noite está fria.
Mas ela balançou a cabeça, dando um passo para frente.
— Não preciso — disse.
— Cecília, sua tia disse para mantê-la aquecida...
— Não estou com frio — ela insistiu. — Na verdade... sinto meu corpo quente. Muito quente.
Nossos olhos se encontraram.
— Então... então é melhor deitar-se — consegui dizer, sentindo que minha voz saiu estranha. — Descansar.
Guiei-a até a cama. Ela se deitou, e eu puxei os cobertores sobre ela, ajeitando-os com cuidado desnecessário.
— Boa noite — disse, já me afastando.
— Inês…
Sua mão agarrou meu braço e um arrepio atravessou todo meu corpo.
Olhei para ela, para aqueles olhos azuis imensos me encarando.
— Obrigada — ela sussurrou. — Por cuidar de mim.
— Eu... — comecei, mas as palavras morreram em minha garganta.
Foi naquele momento que a porta se abriu e Dona Eulália entrou, carregando uma bandeja com a xícara de chá quente e os frascos de tônico.
— Aqui está — ela anunciou, aproximando-se da cama. — Beba isto devagar, Cecília. O chá tem valeriana e camomila, ajudará você a dormir.
Afastei-me rapidamente, criando uma distância segura e sentindo meu corpo inteiro incendiar com algo totalmente inapropriado.
— Vou... vou me retirar — murmurei. — Boa noite.
***
Na penumbra, alcancei meu próprio quarto e fechei a porta. Encostei-me nela por um momento, ainda sentindo meu corpo reagir.
Meus dedos formigavam. Meus olhos ainda viam aquelas curvas delicadas através do tecido fino. Meu corpo inteiro estava tenso de uma maneira intensa.
Eu sentia desejo.
Caminhei até o centro do quarto com passos rápidos. Comecei a me despir sozinha, lutando com os botões do vestido verde e com os laços do meu próprio espartilho.
Quando finalmente me livrei de todas as camadas de roupa e fiquei apenas com a combinação, senti.
A umidade entre minhas pernas.
Levei a mão para lá, quase por reflexo, tocando por cima do tecido.
Estava encharcada.
Retirei o resto da combinação também, ficando completamente nua, e me sentei na beirada da cama.
A noite estava fria, mas meu corpo ardia.
Deitei-me, puxando os cobertores até a cintura, deixando a brisa noturna que entrava pela janela entreaberta esfriar minha pele quente.
Fechei os olhos.
E imediatamente a vi.
Cecília em sua camisola branca, seus cabelos dourados soltos, seus olhos azuis me olhando daquele jeito...
Minha mão desceu pelo meu próprio corpo. Toquei meu seio, apertando-o levemente. Desci pela barriga. E finalmente alcancei meu centro úmido e pulsante.
"Não. Não deveria. Não posso..."
Mas meus dedos já estavam se movendo, acariciando, explorando.
Pensei nela. Nos seus lábios brilhando com mel. Nos seus seios pequenos e perfeitos através do tecido fino. Na maneira como ela me olhou quando disse que seu corpo estava quente.
Meus dedos se moveram mais rápido e mais firmes, encontrando o ponto que fazia meu corpo inteiro se contrair de prazer e querer mais fricção.
Imaginei tocar aqueles lábios. Imaginei traçar a linha de sua coluna com minha boca. Imaginei descobrir se sua pele era tão macia quanto parecia.
Aumentei a pressão, pensei nos bicos de seus seios arrepiados. Comecei a sentir o calor chegar em ondas cada vez mais intensas.
E então… Meu corpo arqueou e levei minha mão livre para a boca com intenção de abafar o gemido que ameaçava escapar. Ondas de espasmos percorreram todo meu corpo, partindo do meu centro quente e pulsante, e se espalhando até as pontas dos meus dedos.
Durou segundos.
Quando passou, fiquei deitada, tremendo e respirando pesadamente. Minha pele estava coberta de suor apesar do frio.
O que eu havia feito?
Toquei a mim mesma pensando em Cecília. Em uma moça inocente demais. Linda demais.
"Isto é errado. Profundamente e irremediavelmente errado."
Levantei-me bruscamente e caminhei até a bacia de água fria, lavando minhas mãos com força desnecessária.
Vesti uma camisola limpa com movimentos bruscos, deitei na cama e puxei os cobertores até o queixo, me forçando a fechar os olhos.
Mas o sono demorou a vir.
E quando finalmente veio, trouxe sonhos dos quais acordei suada e envergonhada.
***
Na manhã seguinte, acordei com a determinação de que aquilo não podia continuar.
Precisava me afastar de Cecília antes que algo terrível acontecesse. Antes que eu perdesse completamente o controle e fizesse algo que destruiria nossas vidas.
Desci para o desjejum e Dona Eulália já estava na sala de jantar, fazendo sua refeição.
— Bom dia, Inês — ela cumprimentou, sorrindo. — Dormiu bem?
— Razoavelmente — menti, sentando-me na minha cadeira habitual. — E Cecília? Como passou a noite?
— Mais cedo, subi com Rute para levar o desjejum ao quarto dela — Eulália explicou. — Achei melhor deixá-la descansar. A pobre menina teve um susto e tanto ontem.
Assenti.
"Isto é bom. Quanto menos eu a ver, melhor."
— Na verdade — Eulália continuou — Minha sobrinha aparentava estar muito bem. Estava até corada, imagina! E com apetite. Comeu todo o desjejum e ficou na cama sentada lendo.
— Corada? — repeti, em pergunta.
— Sim! — Dona Eulália sorriu amplamente. — Nas cartas, minha irmã Amélia sempre mencionava como Cecília ficava pálida. Excessivamente pálida. Se está corada, é um excelente sinal. O ar do campo realmente está fazendo maravilhas e acelerando sua recuperação.
Bebi meu chá em silêncio, processando aquela informação.
***
Almocei sozinha na cozinha e passei a tarde inteira na biblioteca, escondida entre as prateleiras, com um livro que mal conseguia ler porque minha mente insistia em voltar a assuntos indevidos.
Quando começou a entardecer, ouvi o som familiar dos cascos do cavalo do mensageiro.
As correspondências haviam chegado.
Me dirigi até o hall de entrada onde Dona Eulália já estava recebendo o pacote de cartas.
— Ah, perfeito! — ela exclamou. — Escrevi para Amélia ontem mesmo informando sobre a indisposição de Cecília no baile. E agora pela manhã adicionei que ela está muito melhor. — me disse, enquanto pegava as correspondências recém chegadas.
— Levará esta carta para a vila? — perguntou ao mensageiro, estendendo-lhe o envelope lacrado.
— Certamente, Senhora — ele respondeu, aceitando a carta e partindo.
Eulália começou a folhear o que recebeu. Um convite para um chá beneficente na vila. Uma carta de um primo distante.
E então passou a guardar as cartas em uma caixa destinada às correspondências. Dentre as cartas ali, um envelope específico capturou minha atenção.
Reconheci o lacre imediatamente. Vermelho e dourado, com o brasão da família Vasconcelos.
— Percebo que está trocando correspondências com o Comendador ultimamente — comentei, tentando manter meu tom casual.
Dona Eulália olhou para mim, hesitante.
— Sim... há alguns dias ele solicitou permissão para fazer uma visita.
— Uma visita? Quando?
— Solicitou que fosse amanhã à noite, na verdade — ela admitiu.
— E o que respondeu? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
— Bem... — Dona Eulália segurou firmemente a caixa — ...como Cecília acordou melhor disposta, não vi sentido em desmarcar. Logo, uma visita é apropriada. Seria descortês recusar, especialmente após termos saído tão precipitadamente do baile.
— Entendo — disse, mantendo minha expressão neutra apesar da sensação de desconforto crescente.
— Ele virá amanhã às sete horas — Eulália continuou. — Jantar formal. Já instrui Arminda a preparar algo especial. Você... você usará algo bonito, não usará? Talvez o vestido verde novamente?
— Por que importa o que eu uso? — retruquei, de maneira áspera.
— Porque você fica linda naquele vestido — Eulália respondeu. — E porque... bem, porque o Comendador é um homem importante, e convém causar boa impressão.
— Usarei o que julgar apropriado — disse secamente, virando-me para subir as escadas.
— Inês... — Eulália ainda tentou argumentar.
— Estarei no jantar amanhã às sete horas — respondi sem me virar.
***
Assim que o novo dia começou, decidi seguir horários alternados à rotina da casa. Descia para fazer minhas refeições quando sabia que Cecília provavelmente estaria em outro canto da casa. À tarde, ocupei-me do jardim, arrancando ervas daninhas. Qualquer tarefa servia, desde que mantivesse meus pensamentos ocupados e, sobretudo, que me poupasse de cruzar com a figura que tanto queria evitar pelos corredores.
À noite, quando finalmente subi para o quarto para me preparar para o jantar, abri o armário e me deparei com o vestido verde ali pendurado.
Me recusei a vesti-lo. Coloquei um dos cinza. Para o convidado da noite, seria mais do que apropriado.
Às sete horas em ponto, ouvi o som da carruagem do Comendador chegando.
Desci as escadas com passos lentos e vi que Cecília já estava na sala de estar com Eulália. Ela usava um vestido de cetim rosa-claro, simples e elegante. Seus cabelos estavam presos em tranças suaves. E estava, como Eulália havia dito, visivelmente corada e bem.
Nossos olhos se encontraram quando entrei na sala e eu logo desviei.
— Inês! — Eulália exclamou. — Que pontual. E o vestido… bem… a escolha não é do todo inconveniente.
Antes que pudesse responder, ouvimos a batida na porta.
***
Arminda e Rute serviram o jantar na sala de jantar formal, iluminada por lamparinas à gás e candelabros de prata com velas. A mesa estava posta com a porcelana fina e a prataria que Dona Eulália só usava em ocasiões especiais.
O menu era elaborado: sopa de abóbora com gengibre para começar, seguida de leitão assado com ervas aromáticas, batatas ao murro, legumes salteados na manteiga, e para finalizar, pudim de leite com calda de caramelo.
O Comendador elogiou a entrada de maneira efusiva, mas seus olhos permaneciam mais frequentemente em mim do que na comida e isso me causava certa repugnância.
— Senhorita Inês — ele disse durante o prato principal — devo confessar que fiquei absolutamente encantado ao vê-la no baile. Há quanto tempo não a via em sociedade? Dois anos? Três?
— Quatro — respondi secamente, sem erguer os olhos do meu prato.
— Quatro anos! — ele exclamou. — Que desperdício lamentável. Uma jovem de sua beleza escondida nesta fazenda...
— Não me escondo — interrompi, finalmente olhando diretamente para ele. — Escolho minha companhia com cuidado. Há uma diferença.
Ele piscou, claramente surpreso pela rispidez, mas rapidamente recuperou seu sorriso inoportuno.
— Ah, sim, compreendo perfeitamente! Esta é uma virtude admirável. Mas ainda assim, como lhe disse antes, permita-me dizer novamente que mesmo não usando hoje a cor que tanto lhe favorece, ainda sim… está formidável. Absolutamente notável.— ele continuou, inclinando-se levemente em minha direção. — Se fosse minha esposa, insistiria que usasse apenas a cor verde. Verde em todos os tons. Esmeralda, jade, musgo... tudo que realçasse ainda mais sua beleza natural.
— Mas não sou sua esposa — rebati. — Portanto, acredito que um homem da sua posição tem outras preocupações mais relevantes do que minhas preferências de vestuário.
Dona Eulália engasgou-se levemente com o vinho. Cecília, ao meu lado, ficou com seus olhos arregalados.
O Comendador, porém, apenas riu, com aquele som irritante.
— Espírito forte e bom humor! Admiro isso em uma mulher. Mostra caráter. Minha falecida esposa também tinha certo… temperamento.
— Lamento sua perda, Comendador — Dona Eulália interveio rapidamente, lançando-me um olhar de advertência. — Sei que enviuvou há... quanto tempo mesmo?
— Cinco anos — ele respondeu. — Maria da Glória era uma boa mulher. Cumpriu seus deveres de esposa com dedicação. Deu-me dois filhos homens saudáveis, embora agora ambos tenham partido para a capital. Um homem em minha posição, sozinho naquela grande casa... — ele fez uma pausa — ...bem, começa a sentir certa... solidão.
— A solidão pode ser preferível a certas companhias — comentei, levando um pedaço de batata à boca.
— Cecília — Dona Eulália disse, com sua voz saindo um pouco aguda demais — como está se sentindo hoje? Muito melhor, espero?
— Sim, tia — Cecília respondeu. — Completamente recuperada.
— Que alegria ouvir isso! — o Comendador exclamou. — Os ares desta fazenda realmente são curativos. E certamente os cuidados adequados fazem maravilhas. — Seus olhos voltaram para mim. — A Senhorita Inês deve ter sido uma enfermeira dedicada.
— Se engana. Não sou enfermeira, Comendador — retruquei. — Apenas ajudei no que foi necessário.
— Modéstia! Outra virtude admirável — ele sorriu. — Uma mulher que sabe cuidar, que é educada, que tem espírito mas também sabe quando ser... dócil. Qualidades raras, especialmente em tempos modernos onde as jovens estão cada vez mais... independentes.
— Ora, a independência de pensamento é sinal de uma educação adequada — disse.
— Naturalmente, naturalmente! — ele concordou, embora seus olhos começassem a mostrar uma leve irritação. — As mulheres são essa criatura essencial e fundamental da vida. Criadas por Deus para os homens. Digo que há apenas certo... equilíbrio que deve ser mantido.
Abri a boca para responder algo que soaria certamente inapropriado, mas Dona Eulália, derrubou "acidentalmente" seu copo de vinho.
— Oh, céus! Que desastrada! — ela exclamou, levantando-se rapidamente enquanto Arminda corria para limpar. — Perdoem-me, estou tão distraída hoje...
A confusão proporcionou o efeito desejado. Distração suficiente para que o momento passasse.
Quando finalmente Rute começou a retirar os pratos da sobremesa, o Comendador limpou a boca com o guardanapo e voltou-se para Dona Eulália.
— Senhora Eulália — disse ele, com a voz adquirindo um tom mais sério — poderia me conceder alguns minutos de conversa privada? Há um assunto de certa importância que gostaria de discutir convosco.
— Naturalmente, Comendador. Podemos usar o gabinete. — Ela se levantou, indicando o caminho. — Meninas, por favor, esperem na sala de estar. Não demoraremos.
E assim saíram e da sala de jantar ouvimos o som da porta do gabinete fechando-se atrás deles.
Cecília e eu ficamos sozinhas, com apenas os rápidos movimentos de Arminda e Rute retirando os últimos pratos.
— Ele quer pedir sua mão — Cecília disse sussurrando. — É óbvio. Por isso quis falar a sós com a tia Eulália.
Olhei para ela, surpresa pela franqueza.
— Não sabe disso.
— Sei — ela insistiu, seus olhos azuis estavam fixos nos meus. — Vi como ele olhava para você. Como falava sobre você ser esposa dele. Ele veio aqui com essa intenção.
— E se veio? — retruquei, sentindo uma raiva crescer dentro de mim. Raiva direcionada não a ela, mas à situação como um todo. — O que isso muda?
Ela abriu a boca, depois a fechou. Vi várias expressões atravessarem seu rosto.
— Você... você aceitaria? — ela finalmente perguntou.
Antes que eu pudesse responder, ouvimos novamente passos no corredor.
***
O Comendador saiu primeiro, sorrindo amplamente satisfeito.
— Senhoritas — ele cumprimentou, fazendo uma reverência elaborada. — Foi uma noite encantadora. Mas já é tarde, e não quero abusar mais da hospitalidade desta casa. Senhora Eulália, Senhorita Cecília, Senhorita Inês — ele pausou, seus olhos demorando-se em mim — ...até muito breve. Muito breve mesmo.
A ênfase nas últimas palavras não deixou dúvidas sobre suas intenções
E com isso, partiu.
Assim que a porta da frente fechou, Dona Eulália voltou-se para nós.
— Creio que podemos nos retirar por esta noite — disse ela. — Cecília, querida, você ainda precisa de descanso. Vá para seu quarto. Inês... — ela me olhou diretamente — ...preciso falar contigo. No gabinete. Agora.
Cecília me lançou um último olhar preocupado antes de subir as escadas lentamente.
Segui Dona Eulália até o gabinete. Ela fechou a porta atrás de nós, gesticulou para que eu me sentasse, e então ficou ali, de pé, com as mãos entrelaçadas, escolhendo suas palavras cuidadosamente.
— O Comendador Vasconcelos — ela começou — solicitou permissão para te cortejar com pretensão de pedir sua mão em casamento.
— Não — disse imediatamente.
— Inês...
— Não — repeti, mais firme. — Não serei cortejada por ele. E certamente não me casarei com ele.
Dona Eulália suspirou profundamente, sentando-se na cadeira atrás da escrivaninha.
— Por favor. Precisamos conversar sobre isso racionalmente.
— Não há nada para conversar. Minha resposta é não.
— Sua resposta não pode ser não — ela disse. — Não sem ao menos considerar a situação realista em que se encontra.
— E que situação é essa? — desafiei.
— Inês — ela inclinou-se para frente, com suas mãos entrelaçadas sobre a mesa — você é uma mulher de vinte e oito anos sem família conhecida. Sem nome. Sem dote significativo. O Comendador é viúvo, respeitável e rico. Ele conhece suas... circunstâncias... e não se importa.
— Conhece minhas circunstâncias — repeti lentamente. — Quer dizer que ele sabe de tudo? Sabe que sou a bastarda do seu falecido Coronel Bernardino?
— Ele nunca mencionou explicitamente — Eulália disse, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas desconfia. Conhece o testamento de Bernardino. Sabe que ele deixou uma quantia para você. E homens como o Comendador... bem, eles somam dois e dois.
— Que conveniente. E ele vê nisso uma vantagem, suponho. Uma esposa sem família exigente para interferir.
— Vê nisso uma oportunidade — Dona Eulália corrigiu. — E você deveria ver também. Inês, seja realista. Não haverá outras propostas. O que Bernardino deixou para você é muito pouco para constituir um dote vantajoso para atrair outros pretendentes. E é pouco demais para viver com qualquer dignidade se escolher permanecer solteira.
— Posso ficar aqui — argumentei. — Nesta fazenda. Como sempre fiz.
O silêncio que se seguiu foi longo e pesado.
— Não — Eulália disse finalmente, com sua voz suave mas implacável. — Não pode.
— Como assim não posso? — uma sensação de pânico começou a se formar em meu peito. — Vivo aqui há doze anos...
— Como minha protegida — ela interrompeu. — Por minha caridade. Mas Inês... eu não sou eterna. Estou com sessenta e dois anos. As dores nas pernas pioram a cada inverno. E quando eu partir... — ela pausou — ...a fazenda não será sua. Homens a tomarão. É assim que a lei deles funciona.
— O quê está dizendo? — perguntei atônita.
— A fazenda é minha — ela explicou. — É a única coisa que Bernardino me deixou. Todo o resto… os negócios, as propriedades na cidade… o banco embargou. Mas a fazenda, esta terra onde vivemos juntas, ele deixou para mim. A cada ano que passa, a coleção de joias que herdei da minha família diminui para pagar os impostos dessa terra, para pagar os empregados… Ah, Inês… dou-me ao luxo de comprar linhas de bordado com o que ganhamos da venda das laranjas, você bem sabe. Mas, quando eu morrer, essa fazenda e suas laranjas passarão ao banco. Não a você.
Senti o chão desaparecer sob meus pés.
— Então... então eu não tenho nada — sussurrei. — Absolutamente nada.
— Tem a quantia que Bernardino deixou — Eulália disse. — Está guardada. É suficiente para viver modestamente por alguns anos, se for extremamente cuidadosa. Mas depois... — ela deixou a frase inacabada.
— Depois eu ficarei na miséria — completei por ela.
— Ou poderá ser a Senhora Vasconcelos — Eulália disse suavemente. — Esposa de um dos homens mais ricos e influentes da região. Com sua própria casa, seus próprios criados, posição na sociedade e segurança para o resto de sua vida.
— Segurança — repeti a palavra que me soava tão amarga.
— Quando se é mulher sem família? Sim — Dona Eulália respondeu com brutal honestidade. — Especialmente quando todos na cidade fazem burburinho sobre quem você é, de onde veio, quem são seus pais. Perguntas sem respostas, Inês, levam ao pior infortúnio que uma mulher pode ter. Levam a fofocas. A especulações. A reputação destruída.
— Minha reputação já está destruída — argumentei. — Todos nesta vila sabem que sou bastarda.
— Suspeitam — ela corrigiu. — Mas sem uma confirmação, sem escândalo explícito, ainda há certa ambiguidade. O Comendador lhe oferece um caminho para transformar essa ambiguidade em respeitabilidade, Inês. Como sua esposa, ninguém ousará falar abertamente sobre seu passado.
— Porque ele terá comprado o silêncio de todos e o meu também — disse amargamente. — E minha obediência. E meu corpo. Tudo em troca de um nome respeitável.
— A escolha errada de Bernardino — Dona Eulália disse, com sua voz carregada de uma mágoa antiga — reverberou em ambas nossas vidas. Eu tive que viver com a humilhação de saber que meu marido teve uma amante e gerou uma filha ilegítima. Você teve que viver sem pai, sem nome, sem lugar no mundo. Ambas pagamos pelos pecados dele.
— E agora você quer que eu continue pagando — acusei. — Casando com um homem que não amo e que não respeito.
— Quero que você sobreviva — ela corrigiu, e havia algumas lágrimas em seus olhos agora. — Deus não me abençoou com filhos, Inês. Você é a criatura mais próxima da figura de um filho que eu tive em minha vida. Se Bernardino tivessse te trazido ainda bebê… eu… eu o teria perdoado. Você seria minha filha. Mas não podemos voltar no tempo e quero que você tenha uma vida que não dependa da caridade alheia. Que não termine em pobreza e degradação. Inês, eu sei... sei que não é justo. Sei que não é o que sonhou para sua vida. Mas o mundo não é justo com mulheres. E precisamos fazer o melhor com as opções que temos.
Levantei-me bruscamente.
— A senhora fala de sonhos, mas não me dei ao luxo de sonhar nunca — disse, minha voz tremendo de raiva e medo. — Lhe afirmo, dona Eulália, não serei vendida como gado em troca de segurança. Não me casarei com ele.
— Inês...
— Não! — gritei. — Prefiro a pobreza. Prefiro a miséria. Prefiro morrer sozinha e sem nome do que passar o resto de minha vida sendo tocada por aquele homem!
O silêncio após meu grito foi absoluto.
— E então o que fará? — ela perguntou com a voz baixa.
Eu não tinha uma resposta a dar.
— Pelo menos... — Eulália continuou, hesitante — ...pelo menos permita que ele a corteie. Que faça visitas adequadas. Que se conheçam melhor. Você não precisa decidir agora. Mas não feche essa porta completamente. Não sem considerar cuidadosamente as consequências.
— As consequências…. — repeti mecanicamente.
— Sim — ela se levantou, aproximando-se de mim. — Pense bem, Inês. Pense com a cabeça, não apenas com o coração. E me dê uma resposta. Uma resposta racional.
Não respondi. Apenas me virei e saí do gabinete, subindo as escadas com passos pesados.
Passei pela porta do quarto de Cecília. Estava fechada, mas com uma luz ainda visível por baixo da porta.
Quis parar. Quis bater. Quis entrar e... e o quê? Contar tudo? Buscar conforto? Admitir que estava aterrorizada? Admitir que eu era uma bastarda sem futuro e que minha vida estava desgraçada?
Não parei.
Entrei em meu próprio quarto e fechei a porta com força.
E ali me permiti desmoronar.
Sentei-me na beirada da cama, sentindo o peso de tudo me esmagar.
A náusea veio rápida. Mal consegui alcançar a bacia antes de vomitar.
Quando meu estômago finalmente se esvaziou, fiquei ali ajoelhada, tremendo e limpando a boca.
E soube que Eulália estava certa sobre uma coisa.
Eu precisava decidir o rumo da minha vida e meu futuro na fazenda não era uma opção.
Fim do capítulo
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rebarlow
Em: 27/03/2026
Confesso que esperei meio expectante por esses capitulos rsrs. Ines incendiada, foi intenso, a mais nova sabe seduzir naturalmente rsrs. Cecilia nao podia ter sido melhor em fingir mau estar para sair da situaçao desconfortavel no baile, arrasou!
Estou preocupada com Ines, o que ela decidira sobre seu futuro?
MalluBlues
Em: 31/03/2026
Autora da história
A Cecília salvou Inês... hahaha Então... a decisão de Inês ficará para os próximos capítulos. Fico muito muito feliz em saber que está gostando.
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MalluBlues Em: 31/03/2026 Autora da história
A Cecília salvou Inês... hahaha Então... a decisão de Inês ficará para os próximos capítulos. Fico muito muito feliz em saber que está gostando.