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Sob o peso do desejo por MalluBlues e

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Palavras: 5005
Acessos: 239   |  Postado em: 26/03/2026

Capítulo X: O baile

Por Cecília:

 

Desci as escadas com cuidado, segurando a saia de seda azul-celeste para não tropeçar. Mas minha mente estava longe da preocupação com degraus ou decoro. 

Estava inteiramente ocupada com o que acabara de acontecer no quarto de Inês.

Meu corpo reagia de maneiras que eu não conseguia controlar ou compreender. Havia um calor no baixo-ventre persistente e pulsante. Era algo interno, algo despertado pela nossa aproximação. Pelo toque do meu dedo nos lábios dela.

Parei no meio da escada, apoiando-me no corrimão.

Olhei para meu dedo indicador. Ainda brilhava levemente com a substância dourada.

Levei o dedo aos meus próprios lábios. Passei-o devagar pelo lábio inferior primeiro. Depois pelo superior. Sentindo a textura e o aroma adocicado.

E então, num impulso, coloquei meu dedo dentro da boca e o ch*pei.

O gosto parecia ainda mais doce. 

"Meu Deus. O que estou fazendo?"

Retirei o dedo rapidamente, como se tivesse me queimado. Meu coração batia descompassado. Senti rubor subir por meu pescoço e espalhar-se pelo rosto.

— Cecília? — a voz de tia Eulália veio do andar de baixo. — Querida, vamos! A carruagem está esperando!

— Já vou! — respondi.

Respirei fundo três vezes, tentando recuperar a compostura. Alisei a saia com minhas mãos que tremiam levemente. Coloquei meu par de luvas. Ajustei os pentes de madrepérola no cabelo e desci o restante da escada.

***

A carruagem esperava na entrada, iluminada pelas lamparinas da casa. Tia Eulália já estava instalada no banco acolchoado, ajeitando sua capa de veludo negro sobre o vestido de seda. Inês hesitava na porta, visivelmente desconfortável com toda a situação.

— Vamos, vamos — apressou tia Eulália. — A noite está fresca e não quero que peguem friagem.

Inês subiu na carruagem primeiro, sentando-se no banco da frente, de costas para os cavalos. Eu subi em seguida e, naturalmente, acomodei-me ao lado de tia Eulália.

O que significava que ficaria de frente para Inês durante todo o trajeto.

A carruagem partiu com um solavanco suave, e nos pusemos a caminho.

Tentei olhar pela janela. Admirar a paisagem noturna. O céu estava claro, repleto de estrelas.

Mas meus olhos, traidores, continuavam desviando para ela.

Inês estava sentada muito ereta, as mãos cruzadas no colo com uma tensão que fazia seus dedos ficarem brancos. Olhava determinadamente pela janela do seu lado, recusando-se a encontrar meu olhar.

Ela estava absolutamente linda. O vestido verde realçava a sua pele e as flores de laranjeira em seu cabelo eram delicadas e femininas. E seus lábios...

Seus lábios brilhavam levemente com aquele mel.

Senti aquele calor retornar ao baixo-ventre. Mais forte agora. Quase doloroso.

Isso nunca acontecera com Alberto. Nunca. Quando dançávamos, quando ele segurava minha mão, quando seus olhos castanhos gentis me olhavam com aquela afeição tão óbvia, eu sentia... o quê? Contentamento. Um afeto morno e apropriado.

Mas não isto.

Não este fogo que me queimava por dentro.

"Pare, Cecília. Para enquanto é tempo."

— Está nervosa, querida? — tia Eulália perguntou suavemente, cobrindo minha mão com a dela.

Pisquei, voltando à realidade.

— Um pouco — admiti, agradecida por ter uma desculpa para minha agitação. — Faz tempo que não vou a um baile.

— Será encantador — ela assegurou. — O Comendador sempre organiza eventos magníficos. E será bom para ti. Dançar, conversar, sentir-se jovem novamente.

Neste momento, percebi Inês finalmente olhar na minha direção. Nossos olhos se encontraram por um breve segundo.

Então ela desviou rapidamente, voltando a fixar a vista na janela.

O resto do trajeto transcorreu em silêncio, quebrado apenas por comentários ocasionais de tia Eulália sobre conhecidos que esperava encontrar no baile.

***

A mansão do Comendador Vasconcelos era impossível de não notar mesmo à distância. Três andares de arquitetura imponente, pintada de branco creme. Cada janela brilhava com luz dourada, e mesmo de fora podíamos ouvir vozes e o som da música.

A entrada principal estava iluminada por dezenas de lamparinas à gás e a óleo penduradas em suportes de ferro. Velas grossas em castiçais de prata ladeavam a escadaria que levava ao salão.

Descemos da carruagem, tia Eulália primeiro, depois eu, e finalmente Inês, que hesitou visivelmente antes de aceitar a mão do cocheiro.

— Coragem — sussurrei para ela enquanto tia Eulália ajeitava a capa.

Inês me lançou um olhar e subimos a escadaria juntas. Tia Eulália no centro, eu em seu braço direito, Inês no esquerdo. A música ficava mais alta a cada degrau. Uma valsa animada executada por... pelo som, diria que pelo menos seis músicos. Talvez sete.

Entramos no salão.

E imediatamente todos os olhares se voltaram para nós.

Isso era normal, eu sabia. Sempre que alguém entrava num baile, havia aquela pausa natural enquanto os presentes avaliavam os recém-chegados. Duraria apenas alguns segundos antes que as conversas e danças retomassem.

Mas os segundos se estenderam.

As conversas não retomaram completamente. Em vez disso, transformaram-se em sussurros. Burburinhos que se espalhavam pelo salão como ondas.

E meus ouvidos, afiados demais para meu próprio bem, captaram fragmentos:

"...é ela..."

"...a Valença..."

"...nunca vem a estes eventos..."

"...não casou e vive solitária naquela fazenda..."

O nome de Inês. Repetido de boca em boca. Não o meu. Não o de tia Eulália. Apenas o dela.

Inês não estava sendo olhada porque era bonita. Ou porque seu vestido era elegante. Ou por qualquer razão normal.

Estava sendo olhada porque era a fofoca da vila. Porque sua mera presença ali representava um segredo que todos queriam conhecer.

Senti tia Eulália apertar levemente meu braço. Mantendo-nos juntas. Mantendo-nos firmes.

E virou-nos, a mim e a Inês, para encarar uma figura que se aproximava através da multidão que se abria.

Era um homem que aparentava ter aproximadamente sessenta anos, talvez até um pouco mais. Alto, embora não tanto quanto Inês. Usava um terno preto impecavelmente cortado, colete dourado, e uma corrente de relógio de ouro atravessando o peito. Seus cabelos eram grisalhos, penteados para trás com pomada que os fazia brilhar. Ostentava um bigode espesso.

Mas foram seus olhos que me incomodaram imediatamente.

Eram olhos inteligentes, sem dúvida. Mas havia neles também uma característica... predatória. Como se avaliasse cada pessoa como uma peça. Como potencial aliado ou inimigo. 

— Senhora Eulália! — exclamou ele com uma sonoridade que fez várias cabeças se virarem. — Senhorita Inês e Senhorita Cecília, é um prazer ter vossa companhia nesta noite.

Ele fez uma reverência elaborada, e continuou:

— Para esta jovem senhorita que não me conhece, permita-me apresentar-me... Sou o Comendador Pedro Vasconcelos. Seja muito bem-vinda à minha residência.

Fiz uma reverência adequada.

— É uma honra, Comendador. E agradeço imensamente o convite.

— A honra é inteiramente minha — ele respondeu, mas seus olhos já haviam se desviado de mim.

Estavam agora fixos em Inês.

E algo no modo como ele a olhava fez com que eu me sentisse desconfortável.

— Senhorita Inês Valença — a voz do Comendador saiu grave e carregada de uma familiaridade que me pareceu excessiva — jovem dama tão reclusa, não imagina o quão triste ficamos sem sua presença em nossos eventos sociais e o quão maravilhado estou com sua ilustre presença aqui nesta noite.

Inês enrijeceu visivelmente ao meu lado. 

— O Comendador é muito gentil — ela respondeu, com sua voz seca e ríspida.

Mas ele não captou. Ou captou e escolheu ignorar.

— Gentil? Não, não, minha cara senhorita! É apenas a verdade mais pura! — Ele deu um passo mais perto, invadindo o espaço pessoal de Inês. — Uma jovem de sua beleza e educação deveria ser vista com muito mais frequência. É um desperdício lamentável mantê-la escondida naquela fazenda como se fosse... bem... — ele riu — ...como se fosse algum tesouro que precisa ser guardado em cofre!

— A fazenda me agrada — Inês respondeu, dando um passo discreto para trás. — Aprecio a tranquilidade.

— Tranquilidade! — ele exclamou. — Ah, minha querida senhorita, tranquilidade é para pessoas velhas! A juventude deve brilhar! Deve ser vista e admirada!

Ele pegou a mão de Inês, que ela não havia oferecido, e a levou aos lábios num beija-mão que se prolongou por tempo desnecessário.

Vi o rosto de Inês fechar-se completamente. Seus olhos escuros tornaram-se opacos, sem expressão.

— Seu vestido é absolutamente encantador — o Comendador continuava, ainda segurando a mão dela. — Verde lhe cai magnificamente. Realça a cor de seus olhos de uma maneira... — ele pausou, seus próprios olhos percorrendo Inês de cima a baixo de um modo que fez meu estômago revirar — ...de uma maneira absolutamente notável.

— Comendador — tia Eulália interveio, sua voz mantendo a cortesia mas com uma nota de firmeza — é muito amável de sua parte receber-nos esta noite. A decoração está simplesmente magnífica.

Mas ele mal a ouviu, seus olhos ainda estavam fixos em Inês.

— Veja, Senhora Eulália, como tinha razão quando lhe dizia que sua protegida era uma rosa escondida entre espinhos!

Inês estava pálida agora. Seus lábios estavam comprimidos numa linha fina, e vi sua mão livre se fechar em punho discretamente nas dobras de sua saia.

Ela claramente queria fugir. 

E o Comendador não percebia nada. Ou pior, percebia e não se importava.

— Comendador — eu disse, ouvindo minha própria voz soar mais alta que pretendia — perdoe minha interrupção, mas estou absolutamente fascinada pela orquestra. Seria possível que eu, tia Eulália e Inês nos aproximassemos um pouco para admirar melhor os músicos e observar os casais dançando?

Ele piscou, finalmente soltando a mão de Inês e desviando sua atenção para mim.

— Oh! Naturalmente, naturalmente! — ele disse, gesticulando amplamente. — Claro, deixo-as livres para apreciar o salão como desejarem.

Respirei aliviada, já preparada para guiar Inês para longe, quando ele acrescentou:

— Mas não sem antes garantir ao menos uma dança com a Senhorita Inês. — Ele voltou-se para tia Eulália com um sorriso. — Se a Senhora Eulália assim me permitir, é claro.

Tia Eulália olhou para Inês. E Inês olhou de volta.

A troca de olhares entre elas, apesar de breve, foi intensa. Vi algo se passar entre as duas. Uma pergunta silenciosa de tia Eulália e uma resposta resignada de Inês.

Por fim, tia Eulália disse:

— Acredito que uma dança é tolerável e que Inês não se oporá, não é mesmo?

Havia súplica naquela pergunta. Súplica para que Inês não causasse cena. Não recusasse abertamente. Não transformasse cortesia social em insulto que poderia gerar repercussões.

Inês respirou fundo. 

— Uma única dança — ela disse finalmente.

O sorriso do Comendador alargou-se.

— Perfeito! Absolutamente perfeito! Então reservarei uma dança. Agora, apreciem o salão, admirem a festa! — E com uma última reverência exagerada, ele se afastou para cumprimentar outros convidados.

Assim que ele estava fora do alcance da voz, senti o aperto no meu peito aumentar. Olhei para Inês e vi que ela estava tremendo levemente.

— Está bem? — perguntei.

— Perfeitamente — ela respondeu.

Tia Eulália suspirou.

— Sei que não é agradável, querida — ela disse a Inês — mas é apenas uma dança. E o Comendador... é o anfitrião. Bem, ele tem boas intenções, mesmo quando é... excessivo.

— Boas intenções — Inês repetiu com amargura.

— Meninas, vou buscar ponche e preciso cumprimentar algumas velhas conhecidas que já estão me acenando. Fiquem aqui e apreciem a música. Volto em instantes — tia Eulália disse, afastando-se.

E nos deixou sozinhas em um canto do salão.

O silêncio de Inês era pesado e tentei amenizar o clima:

— Vejo que há poucos cavalheiros para tantas damas — observei, olhando ao redor do salão onde, de fato, havia um desequilíbrio notável entre os sex*s.

— A vila é pequena — Inês respondeu, sua voz ainda estava tensa. — E a maioria dos homens jovens parte para a capital em busca de oportunidades. Sobram os velhos, os casados, e alguns poucos desafortunados presos aqui por outras circunstâncias.

Estava prestes a responder quando percebi a movimentação de duas figuras se aproximando de nós. O Comendador vinha à frente, guiando um jovem rapaz e uma mulher.

O rapaz aparentava ter por volta de vinte e dois ou vinte e três anos. Era de estatura média, com cabelos castanhos-escuros ondulados que caíam levemente sobre a testa. Seus olhos eram de um castanho-claro incomum, quase mel. Usava um terno azul-marinho bem cortado, colete de seda creme, e gravata. 

A mulher ao seu lado era claramente sua irmã, pois a semelhança entre eles era nítida. Aparentava ter por volta de trinta anos, talvez um ou dois a mais ou a menos. Era alta, quase da altura de Inês. Seus cabelos eram de um castanho mais escuro, quase negro, presos em arranjo elegante. Os olhos eram do mesmo tom mel-claro. Usava um vestido de seda vinho. Era bela e elegante, inegavelmente. 

— Senhorita Cecília, Senhorita Inês — o Comendador anunciou com entusiasmo — permitam-me apresentar-lhes dois dos nossos mais ilustres visitantes! Acabaram de chegar à região há algumas semanas. — Ele gesticulou para o par. — Estes são Luca e Bianca Rossi, irmãos vindos da França. Luca, Bianca, estas são a Senhorita Cecília Monteiro Cavalcante, sobrinha da Senhora Eulália e do meu falecido amigo Coronel Bernardino de Almeida Castanheira, e a Senhorita Inês Valença.

Luca fez uma reverência elegante.

— É um prazer conhecê-las — disse, com leve sotaque.

Bianca inclinou a cabeça numa reverência mais discreta, mas seus olhos já nos avaliavam com interesse evidente.

— O prazer é nosso — respondi, fazendo reverência.

— A Senhorita Cecília — o Comendador continuou — está se recuperando no campo, nos ares saudáveis da fazenda da Senhora Eulália. E a Senhorita Inês é... bem... — ele riu daquele jeito irritante — ...é nosso tesouro local que vive escondido, como já mencionei!

Vi Inês se enrijecer novamente, mas antes que pudesse dizer algo cortante, Luca interveio:

— Senhorita Cecília — ele disse, voltando-se para mim com sorriso cordial — me faria a honra de dançar a próxima quadrilha comigo?

Pisquei, surpresa pela rapidez do convite.

— Eu... sim, seria um prazer — respondi. Não seria de bom tom recusar a dança. Não em frente ao anfitrião.

E vi, de canto de olho, a expressão de Inês fechar. 

O Comendador, voltou-se imediatamente para Inês:

— E já que a próxima é uma quadrilha, Senhorita Inês, poderíamos antecipar a dança prometida.

Inês abriu a boca, e pela expressão em seu rosto, estava prestes a recusar de uma maneira que seria impossível contornar educadamente.

Bianca, que observara toda a interação, atravessou a conversa suavemente:

— Oh, Comendador — disse ela, com um sorriso — aguarde a próxima. Isto lhe peço como favor pessoal, pois caso contrário, ficarei sem a companhia de meu irmão durante esta dança, e seria uma pena desperdiçar a oportunidade de conversar com a Senhorita Inês, de quem tanto tenho ouvido falar desde que chegamos à vila.

— Bem... se é um favor pessoal... — ele disse finalmente, sorrindo para Bianca com galanteria exagerada — então naturalmente aguardarei. Uma dama tão encantadora quanto a senhorita não pode ser recusada!

E com isso, afastou-se para falar com outros convidados, deixando nós quatro ali.

A orquestra começou os primeiros acordes da quadrilha.

Luca ofereceu-me o braço.

— Senhorita?

Aceitei, lançando um último olhar para Inês, que permanecia rígida ao lado de Bianca.

Enquanto Luca me conduzia ao salão de dança, vi pela lateral que Bianca já havia iniciado conversa com Inês, inclinando-se ligeiramente para falar algo que fez Inês piscar com surpresa.

***

A quadrilha era animada, exigindo concentração nos passos e formações. Luca era dançarino competente e guiava-me através das sequências com facilidade.

— Está se recuperando bem? — ele perguntou durante uma das aproximações.

— Muito bem, obrigada — respondi. — O ar do campo tem feito maravilhas.

— Minha irmã também teve problemas respiratórios quando mais jovem — ele comentou. — Ela também passou uma temporada no interior da Itália. 

— Itália? Pensei ter ouvido que eram da França. E a temporada no interior funcionou?

— Nascemos na Itália e lá passamos uma feliz parte de nossas vidas até mudarmos para a França. E sim, o interior melhorou sua saúde — ele sorriu. — Ela é forte como um touro agora, embora não aprecie a comparação.

Ri, apesar da sensação de tensão que ainda carregava.

Meus olhos continuavam desviando para onde Inês permanecia com Bianca. Elas conversavam, ou melhor, Bianca conversava e Inês ouvia com aquela expressão fechada.

A quadrilha exigia que mudássemos de parceiros periodicamente. Durante um dos giros, encontrei-me momentaneamente perto de outro cavalheiro que dançava com sua parceira, e através deles pude ver melhor Inês e Bianca.

Bianca estava sorrindo, gesticulando levemente enquanto falava. Inês... Inês parecia menos rígida, apreciando a conversa. 

Quando retornei a Luca para a formação final, ele seguiu meu olhar.

— Minha irmã tem facilidade para fazer as pessoas se sentirem confortáveis — comentou. — É um dom raro.

— Sim — concordei. — Parece ser.

A música terminou, e Luca me reconduziu ao canto do salão, para onde tia Eulália também retornava, trazendo consigo dois copos de ponche.

— Tia Eulália — eu disse, aceitando um dos copos que ela me oferecia — estes são Luca e Bianca Rossi. Foram-nos apresentados pelo Comendador.

Luca e Bianca fizeram reverências apropriadas.

— Senhora — Luca cumprimentou — é um prazer.

Tia Eulália os examinou.

— Rossi — ela disse pensativa. — Não são da região, não é mesmo?

— Não, senhora — Bianca respondeu. — Somos da Itália, mas nos mudamos para a França para conclusão de nossos estudos.

— Para a França. — tia Eulália repetiu, suas sobrancelhas se erguendo. — Conclusão dos estudos… os dois?

— Sim, os dois — Bianca confirmou com tranquilidade.

— E é casada, Bianca? — tia Eulália perguntou com aquela franqueza que apenas senhoras de sua geração e posição podiam exercer. — Devo supor que não, já que está em companhia de seu irmão.

— Supôs de maneira correta, Senhora — Bianca respondeu, sem demonstrar ofensa. — Não sou casada.

Foi então que Inês, que permanecera silenciosa desde nosso retorno, falou:

— E o que estudou, senhorita Bianca?

Havia interesse em sua voz. O primeiro interesse real que eu ouvira dela durante toda a noite.

Bianca voltou-se para ela com um sorriso.

— Ciências Jurídicas — respondeu.

Tia Eulália praticamente engasgou-se com o ponche.

— E você estudou o que, Luca? — perguntei rapidamente, tentando suavizar o momento.

— Ainda estudo, Senhorita. Medicina — ele respondeu com simplicidade.

— Saímos da Itália com a intenção de concluir nossos estudos — Bianca acrescentou. — As universidades francesas são mais... abertas a certas situações.

— Você entendo, rapaz — tia Eulália disse, recompondo-se. — A medicina é profissão nobre e necessária. Mas para uma dama... — ela pausou delicadamente — ...deve ter sido um tanto escandaloso.

— Em partes, senhora — Bianca respondeu com sorriso que sugeria que ouvira essa observação muitas outras vezes antes. — Tive protetores que me auxiliaram durante o processo. Pessoas que compreendiam que o conhecimento não deveria ser limitado por uma questão de gênero.

Inês olhava para Bianca com algo que nunca vira antes em seu rosto. Interesse.

— Bom… é diferente — tia Eulália comentou, claramente ainda processando a informação — Olhem o salão! Visto que faltam homens neste baile, acredito que seja seu dever, Senhor Luca, tirar uma das damas para dançar.

Luca olhou diretamente para Inês, abrindo a boca como se fosse convidá-la.

Mas percebendo a expressão sisuda que se formou instantaneamente em seu rosto, rapidamente reajustou:

— Irmã — ele disse, voltando-se para Bianca com sorriso entendido — me faria a honra?

Bianca aceitou seu braço com graça.

— Sempre, fratello.

Quando se afastaram, tia Eulália voltou-se para nós.

— Ora — disse ela — uma mulher que concluiu estudos… onde já se viu. Mas já que estamos falando de dançar... Inês, por que não faz companhia a Cecília nessa valsa? Sei pelas cartas de minha irmã que minha sobrinha adora dançar, e seria uma pena deixá-la aqui parada.

— Ora... — Inês começou, claramente procurando desculpa.

Mas tia Eulália não lhe deu chance:

— Vamos! Não seja tímida! Se preferir posso chamar o Comendador para tirar Cecília para dançar ou então para fazer com que cumpra com a dança prometida. Olhem o salão, várias outras moças estão dançando juntas. 

E antes que qualquer uma de nós pudesse protestar adequadamente, tia Eulália praticamente nos empurrou em direção ao salão enquanto a orquestra começava uma valsa suave.

***

Encontramo-nos no centro do salão, outros casais também formados por damas iniciando a dança ao nosso redor, e por um momento nenhuma de nós se moveu.

— Não precisa — Inês disse rigidamente. — Se não quer...

— Eu quero — as palavras saíram antes que pudesse pensar.

Inês me olhou, surpresa.

— Eu... — ela hesitou, então suspirou. — Não sei liderar.

— Então eu lidero — respondi, estendendo a mão.

Ela olhou para minha mão como se fosse algo perigoso. Então, lentamente, a aceitou.

Sua mão era maior que a minha e mesmo com as luvas, podia senti-lá surpreendentemente delicada ao toque. Coloquei minha outra mão em sua cintura, e ela, hesitante, colocou a dela em meu ombro.

Estávamos mais próximas do que havíamos estado desde aquele momento no quarto.

Comecei a nos guiar através dos passos da valsa. Inês seguia com rigidez inicial, mas gradualmente relaxava, permitindo que o ritmo da música a conduzisse.

— Vejo que simpatizou com Bianca Rossi — comentei, mantendo minha voz baixa.

— E por que diz isso? — ela perguntou e seus olhos finalmente encontraram os meus.

— Por fazer-lhe perguntas — respondi. — Logo você, tão alheia a qualquer troca social...

— Não sou alheia — ela protestou. — Sou seletiva.

— Então ela passou na seleção?

Inês hesitou, e algo parecido com um sorriso tocou seus lábios.

— Ela estudou Direito — disse simplesmente. — Nunca havia conhecido uma mulher que havia estudado tanto e eu... — ela parou abruptamente.

— E você o quê? — pressionei gentilmente sua cintura.

— Nada — ela desviou o olhar. — Esqueça.

Dançamos em silêncio por alguns compassos. Senti irritação ao perceber a admiração de Inês por alguém que ela acabara de conhecer. 

— Quando Luca me convidou para dançar — comecei, escolhendo as palavras com cuidado — vi algo em seu rosto.

Seus olhos se voltaram para os meus.

— Viu o quê?

— Não sei ao certo — admiti. — Mas seus olhos... mudaram. Escureceram.

— A iluminação do salão é irregular — ela respondeu.

— Não foi a iluminação — insisti. — Foi algo mais. Como se... como se não gostasse de me ver dançando com ele.

Ela não respondeu por um longo momento. Apenas continuou dançando e seus olhos se fixaram em algum ponto além do meu ombro.

— E se não gostasse? — ela finalmente perguntou, com sua voz tão baixa que mal a ouvi. — O que isso mudaria para a senhorita?

Meu coração disparou.

— Eu... não sei — confessei. — Mas preciso entender porque você me confunde tanto.

Seus olhos se arregalaram levemente.

— Eu te confundo?

— Completamente — respirei fundo. — Sinto-me estranha quando estou perto de você. De uma maneira.... 

— Cecília...

— Estou lendo aquele livro que me deu — continuei e as palavras foram saindo de maneira apressada. — E há passagens... sobre a protagonista fazendo e sentindo coisas que não deveria fazer ou sentir. Por pessoas que não deveria... e quando leio, penso... — pausei, corando — ...penso em coisas que não sei nomear.

— Que tipo de coisas? — ela perguntou, e seu tom voz havia ficado mais rouco.

— Não sei como descrever — admiti, sentindo meu rosto queimar um pouco mais. — Apenas que meu corpo reage de maneiras estranhas. Há um calor... — engoli em seco — ...e uma vontade de... De me tocar...

— Pare — ela interrompeu. — Por favor.

Olhei para ela e vi que seu rosto estava corado também. Sua respiração estava irregular e seus olhos escuros brilhavam.

— Embaraço você — percebi subitamente, vendo o rubor subir por seu pescoço. — Desculpe, eu não queria...

— Não é que me embaraça — ela disse rapidamente. — Apenas... não deveria dizer essas coisas. Não para mim. Não aqui.

— Por que não?

— Porque é perigoso — ela sussurrou. — Porque você é inocente e não entende o que está dizendo. O que está sentindo.

— Então me explique — pedi. — Me ajude a entender.

Ela me olhou de maneira intensa.

— Não posso — disse simplesmente. — Porque se explicar, corromperei sua inocência e tudo mudará. E algumas coisas são melhor deixadas assim… puras e... inexplicadas.

A música estava chegando ao fim, os últimos compassos ecoando pelo salão. Ao nosso redor, outros casais começavam a se separar.

— Inês... — comecei, mas não sabia ao certo o que dizer.

— Não — ela interrompeu. 

E então a música terminou, e fomos forçadas a nos separar, fazendo reverências educadas como todos os outros casais ao redor.

Antes que pudéssemos retornar ao canto do salão onde tia Eulália esperava, a voz do Comendador cortou através do burburinho:

— Senhorita Inês! — ele chamou, aproximando-se com aquele sorriso largo. — Acredito que esta próxima dança é minha!

Vi o corpo de Inês ficar tenso novamente.

E antes que ela pudesse responder, Bianca Rossi surgiu ao nosso lado, sorrindo gentilmente.

— Perdoe minha ousadia, Comendador — ela disse com sua voz educada — mas a Senhorita Inês acabou de voltar de uma valsa e esperava poder roubá-la para uma conversa. Tão raramente encontro companhia feminina tão culta e interessante.

O rosto do Comendador franziu-se levemente, dividido entre a galanteria de não recusar uma dama e seu desejo óbvio de dançar com Inês.

— Bem, eu... — ele começou.

Foi naquele momento que senti. Aquela pressão familiar no peito. Aquela dificuldade em respirar que conhecia tão bem.

Mas desta vez era diferente.

Desta vez não era real.

Ou... era apenas parcialmente real. Porque sim, o salão estava abafado. Sim, eu havia dançado. Sim, havia razões plausíveis para sentir falta de ar.

Mas a verdade, a verdade vergonhosa e pecaminosa que admiti apenas para mim mesma naquele instante, era que eu estava fingindo.

Estava exagerando aquela dificuldade respiratória levemente real em algo muito mais dramático.

"Perdoe-me, Senhor," pensei, levando a mão ao peito e deixando minha respiração ficar visivelmente trabalhosa. "Perdoe-me por usar minha doença assim. Mas não posso... não posso deixá-la dançar com o Comendador. Não posso vê-la nos braços dele. E por algum motivo também não posso deixá-la conversar com Bianca. Por favor, não me castigue por esta mentira pequena e terrível."

— Cecília? — a voz de Inês cortou meus pensamentos. — Cecília, está bem?

Deixei minha respiração sair em pequenos ofegos.

— Eu... — consegui dizer, fazendo minha voz soar fraca. — Desculpe... o ar... está tão abafado...

Imediatamente Inês estava ao meu lado, suas mãos em meu cotovelo e cintura me sustentando.

— Sente-se — ela ordenou, guiando-me para uma cadeira próxima. — Respire devagar.

Tia Eulália materializou-se instantaneamente, com seu rosto pálido de preocupação.

— Oh, minha querida! 

Bianca e Luca também se aproximaram rapidamente.

— Pode examinar? — Bianca perguntou a Luca.

— Não, irmã. Ainda não tenho formação concluída. Seria irresponsável de minha parte.

— Precisamos levá-la para casa — tia Eulália decidiu, já gesticulando para um criado. — Imediatamente. Que chamem nossa carruagem!

— Talvez... talvez seja o melhor — consegui dizer, mantendo minha voz fraca, odiando-me por cada palavra fingida mas incapaz de parar agora.

Olhei para Inês e vi que ela estava preocupada. Seu rosto estava pálido e suas mãos tremiam levemente onde me seguravam.

— A carruagem está sendo preparada, Senhora Eulália — anunciou um criado.

O Comendador aproximou-se, sua expressão uma mistura de preocupação e desapontamento mal disfarçado por perder sua dança com Inês.

— Que pena, que pena imensa — ele murmurou. — Mas naturalmente a saúde da jovem senhorita vem em primeiro lugar. Por favor, façam boa viagem e que ela se recupere prontamente.

Bianca tocou gentilmente meu ombro.

— Cuide-se bem, Senhorita Cecília. E se precisar de qualquer assistência, envie-nos recado. Meu irmão e eu estaremos à disposição.

— É muito gentil — tia Eulália agradeceu por mim.

E então estávamos saindo, Inês me sustentando de um lado, tia Eulália do outro, atravessando o salão sob os olhares curiosos dos convidados.

A noite fresca me atingiu quando saímos, e confessei internamente que ela ajudou. O ar estava realmente mais fácil de respirar do lado de fora.

A carruagem esperava, e subimos com cuidado. Tia Eulália entrou primeiro, depois eu, e finalmente Inês.

— Cecília — tia Eulália disse gentilmente — descanse e deite-se no banco. Coloque a cabeça no colo de Inês. Será mais confortável para a viagem.

— Tia, não é necessário... — comecei.

— É sim — ela insistiu. — Inês, você não se importa, não é?

— Claro que não — Inês respondeu rapidamente e sua voz estava carregada de preocupação.

Obedeci, deitando-me no banco acolchoado e posicionando minha cabeça no colo de Inês. O vestido de seda verde era macio sob minha face. Podia sentir o calor de suas coxas através do tecido.

A carruagem partiu com um solavanco suave.

Inês hesitou por um momento, então, com ternura surpreendente, começou a passar os dedos por meu cabelo, afastando alguns fios soltos de meu rosto.

— Respire devagar — ela sussurrou. — Estamos indo para casa.

Fechei os olhos, sentindo aquele toque gentil, ouvindo sua voz suave.

Me sentia mal, pois estava usando minha doença como desculpa. Estava mentindo para minha tia e Inês. 

Estava me comportando exatamente como as personagens ciumentas e possessivas dos romances que mamãe tanto desaprovava.

Mas… enquanto sentia os dedos dela traçando caminhos suaves em meu cabelo, enquanto o perfume de flor de laranjeira que ela usava envolvia meus sentidos, enquanto o calor de seu corpo aquecia o meu, não consegui me arrepender completamente. Não ali. Não agora.

Fim do capítulo


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