Capitulo 42
Bianca
A sala do ultrassom era silenciosa, iluminada por uma luz suave que deixava tudo mais calmo, quase íntimo. Lis me indicou a maca, e eu me deitei com cuidado, sentindo o coração acelerar aos poucos, apesar do peso já familiar da barriga.
- Pode relaxar - disse ela, com um sorriso tranquilo, enquanto preparava o aparelho. - Vai ser um momento especial.
Pietra se posicionou ao meu lado, segurando minha mão com delicadeza. Apertei seus dedos de leve, buscando naquela presença uma âncora para me manter firme.
Lis aplicou o gel frio sobre minha barriga já arredondada, e eu estremeci.
- Desculpa, é sempre gelado - comentou, rindo de leve.
Em seguida, encostou o transdutor e voltou os olhos para a tela. Por um instante, só o som baixo do aparelho preenchia o ambiente.
- Vamos ver...
Prendi a respiração sem perceber.
Então, de repente, ela sorriu.
- Aqui está.
Virei o rosto rapidamente para o monitor. Dessa vez, não eram apenas formas confusas em preto e branco - havia contornos mais definidos. Pequenos movimentos. Um perfil que parecia quase nítido.
E, ainda assim, algo dentro de mim reconheceu antes mesmo da razão.
Lis ajustou levemente o aparelho, deslizando o transdutor com cuidado.
- Olha aqui... - disse, apontando para a tela. - Dá pra ver direitinho o rostinho.
Aproximei os olhos, como se isso pudesse me fazer enxergar melhor. E então... eu vi. O contorno do nariz, a curvinha da testa, a boca pequena.
Minha respiração falhou.
- Meu Deus... - sussurrei, sem perceber.
Pietra apertou minha mão com mais força.
- Você tá vendo isso? - a voz dela saiu embargada, quase um riso contido. - É... é perfeito.
Antes que eu pudesse responder, um som preencheu a sala.
Rápido. Ritmado. Forte.
Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.
Meu peito se contraiu de uma vez, como se aquele som tivesse encontrado algo dentro de mim que eu nem sabia que estava esperando.
- Esse é o coração - explicou Lis, com suavidade. - Forte e saudável.
Levei a mão livre até o rosto, tentando conter a onda que subia sem aviso. Mas era inútil. As lágrimas vieram quentes, silenciosas.
Na tela, o bebê se mexeu.
Um movimento pequeno... depois outro, mais claro. Como se estivesse se espreguiçando, ou reagindo ao toque do aparelho.
- Você sentiu? - Lis perguntou.
E então eu senti.
Um leve empurrão por dentro. Familiar, mas agora... conectado à imagem diante de mim.
Soltei um riso entre lágrimas.
- Senti...
Pietra encostou a testa na minha, ainda segurando minha mão.
- Ele tá dizendo oi - ela murmurou, com um sorriso que eu podia sentir mesmo sem olhar.
Lis sorriu também, observando a tela.
- Querem saber o sex*?
O tempo pareceu desacelerar.
Meu coração disparou de novo, mas por um motivo completamente diferente. Olhei para Pietra, buscando uma resposta que, no fundo, eu já sabia.
Ela assentiu, os olhos brilhando.
Voltei o olhar para Lis.
- Queremos.
Lis fez mais um pequeno ajuste no aparelho, concentrada.
- Só um instante... ele está numa posição boa...
Segundos que pareceram longos demais.
Até que ela sorriu.
- Parabéns... vocês vão ter um bebê lindo.
Fez uma pausa breve, quase proposital.
- É uma menina.
O mundo parou.
Eu ri, chorando ao mesmo tempo, levando a mão à barriga como se pudesse alcançá-la.
- Uma menina...
Pietra não conseguiu segurar. Soltou um som entre riso e choro e me abraçou com cuidado, apoiando a testa na minha barriga por um instante.
- Oi, pequena... - sussurrou.
Na tela, como se respondesse, ela se mexeu de novo.
E, pela primeira vez, tudo pareceu real de um jeito que não dava mais pra negar.
Ela estava ali.
E já era impossível imaginar um mundo sem ela.
O som ainda ecoava dentro de mim.
Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.
Mesmo depois de sair da sala, mesmo enquanto eu caminhava pelo corredor com passos lentos, como se o mundo tivesse mudado de densidade, ele continuava ali - firme, insistente, vivo.
Pietra não soltava minha mão.
Nem eu queria que soltasse.
- Uma menina... - repeti, mais para sentir o peso das palavras do que para dizê-las.
Ela sorriu de um jeito diferente. Não era só felicidade. Era algo mais profundo, mais quieto... como quem já começou a amar antes mesmo de entender.
- A gente precisa de um nome - disse ela.
Do lado de fora, o ar parecia outro. Mais aberto. Mais claro. Entramos no carro sem pressa, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquele momento frágil e imenso ao mesmo tempo.
- Já pensou em algum? - ela perguntou, apoiando o braço na janela, me observando.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Nomes começaram a surgir, mas nenhum parecia suficiente. Nenhum parecia caber naquela sensação nova que ainda estava crescendo dentro de mim.
- Eu quero um nome que... - parei, procurando as palavras - ...que tenha calma. Mas também força.
Pietra assentiu devagar.
- Como ela.
Sorri, sentindo algo aquecer no peito.
- Como ela.
Mais tarde, sem combinar muito, acabamos indo parar às margens do Rio São Francisco.
O sol começava a descer, pintando a água com tons dourados e laranjas que se moviam devagar, como se o próprio tempo tivesse decidido desacelerar junto com a gente.
Caminhamos lado a lado, em silêncio.
O som do rio... constante, profundo... quase como um outro tipo de batimento.
Instintivamente, levei a mão à barriga.
- E se for Aurora? - falei, de repente.
Pietra virou o rosto na minha direção.
- Aurora...por que não Luna? Lua em italiano. Já que você, linda dama, é italianíssima!
Os nomes ficaram entre nós por um instante, como se pedisse para ser sentido antes de ser aceito.
- Luna... - ela disse, sorrindo de leve. - Carrega a beleza e o encanto da lua.
Olhei para o horizonte.
Ela parou de andar.
- Luna- repetiu, dessa vez com mais certeza.
E então colocou a mão sobre a minha, sobre a barriga.
O vento passou leve, fazendo a superfície do rio ondular.
Por um segundo, tudo se alinhou - o som da água, o calor do toque, a presença pequena e inteira dentro de mim.
- Oi, Luna - sussurrei.
Como resposta, um movimento suave.
Quase um toque de dentro pra fora.
Fechei os olhos, deixando o momento me atravessar por completo.
Ali, às margens do Rio São Francisco, com o céu se despedindo do dia, eu entendi:
não era só um nome.
Era o começo de tudo.
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Pietra
Seguimos para um pequeno restaurante que parecia ter saído de um filme - daqueles bem aconchegantes, perfeitos para um jantar a dois... ou a três, no caso da barriga já entregando presença. A comida? Misericórdia... maravilhosa! Daquelas que fazem a gente fechar os olhos e até esquecer o próprio nome por uns segundos.
Dona Flor, a proprietária, veio nos receber com aquele sorriso largo e cheio de história. Já nos conhecíamos há anos, desde a minha adolescência, então a resenha veio fácil.
- Ô, Pietra, minha filha! Sumiu foi? Pensei que tinha me trocado por outro tempero, viu?
- É ruim, Dona Flor! Trocar a senhora? Só se eu tivesse doida! Seu tempero vicia mais que fofoca de vizinha. E ó... trouxe reforço hoje!
- Eita, reforço é? - ela olhou pra barriga e abriu ainda mais o sorriso - Oxente, mas já chegou chegando, foi? Nem avisou!
- Pois é, já vem com fome e opinião formada. - Brincou Pietra. - Essa bela gravida se chama Bianca.
- Seja muito bem-vinda, viu, minha filha. Lindo nome. - disse Dona Flor, olhando pra Bianca - Aqui a gente alimenta até tristeza... imagine essa fome aí!
- Muito obrigada - respondeu Bianca, rindo - Já estou sentindo que vou sair daqui rolando.
- Vai nada, vai sair foi querendo voltar amanhã! Bom, vou deixar vocês a vontade. E, Pietra, não suma não. Traga Bianca mais vezes.
Acenei sorrindo
E, à medida que a noite avançava, o tempo parecia desacelerar só para nós duas. As luzes suaves do restaurante desenhavam sombras delicadas nas paredes, e a conversa fluía mansa, como o próprio rio que havíamos deixado para trás - aquele que leva tudo devagar, mas cheio de história.
- Bianca... - comecei, deixando escapar um sorriso cheio de empolgação e um carinho quase inevitável. - Você se lembra de que já comentei sobre mim e Lorena? Aquela minha amiga, dona de uma grande construtora...
Fiz uma pequena pausa, como quem saboreia a própria ideia antes de revelá-la por completo.
- Estamos investindo no turismo aqui da região. Compramos um catamarã... e vamos transformá-lo no "Vapor do Vinho". Imagine só: passeios pelo Rio São Francisco, o pôr do sol refletindo nas águas do Lago de Sobradinho... e depois um tour pela fazenda, pela vinícola... com degustação de vinhos e espumantes.
Olhei para ela, já antecipando sua reação.
- E não para por aí. Vamos investir também em Petrolina, em um hotel... uma cidade linda, cheia de vida, logo ali em Pernambuco, separada de Juazeiro apenas por uma ponte. Qualquer dia desses eu levo você. Tenho certeza de que vai se apaixonar.
- Maravilhoso... - disse Bianca, com os olhos brilhando, como se já pudesse ver tudo aquilo diante dela.
Sorri, satisfeita com o efeito que a ideia causava.
- Lorena vai passar uns dias conosco na fazenda. Vem com Rana, a esposa, e as duas filhas. Yasmin, a mais velha... está na faculdade em Salvador. E está apaixonada - acrescentei, em tom leve - namora Letícia.
Continuamos a conversa em tom leve e agradável. Quando o jantar chegou ao fim, despedimo-nos de Dona Flors e seguimos para casa. Precisávamos descansar, pois, na manhã seguinte, minha italiana faria os exames e, depois, retornaríamos à fazenda.
Fim do capítulo
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