Capitulo 41
Pietra
O resto da manhã passou arrastado. Andreia até tentou trabalhar, mas era nítido que a cabeça dela estava em outro lugar. Ficava olhando pra tela do computador sem realmente fazer nada, como se estivesse só ocupando o corpo enquanto o coração resolvia outra coisa.
Lá pro meio do dia, o celular dela vibrou.
Ela nem precisou olhar duas vezes pra saber quem era.
- É ela... - murmurou, quase num sussurro.
- Você vai atender? - perguntei, já imaginando a resposta.
Andreia ficou alguns segundos parada, encarando o telefone vibrando na mesa. Quando finalmente pegou, a mão dela tremia de leve.
- Eu preciso resolver isso...
Ela levantou e saiu pra um canto mais reservado do escritório. Mesmo distante, dava pra ver a tensão no corpo dela.
A conversa não foi longa.
No começo, falava baixo, tentando se controlar. Depois, começou a gesticular, claramente irritada. Em um momento, passou a mão no cabelo, respirou fundo... e então ficou em silêncio, só ouvindo.
Foi aí que algo mudou.
Os ombros dela caíram. O olhar perdeu aquela expectativa - como se, finalmente, ela tivesse entendido tudo.
Quando voltou pra mesa, não trouxe o celular na mão. Só o vazio.
- E aí...? - perguntei com cuidado.
Ela puxou a cadeira e sentou devagar.
- Acabou.
A palavra saiu simples... mas pesada.
- Ela disse que não tá pronta. Que não quer criar problema com a mãe agora... - Andreia soltou um riso sem humor. - E que, talvez, seja melhor a gente "dar um tempo".
Balancei a cabeça, já sabendo o que aquilo significava.
- "Dar um tempo"... - repeti.
- É... - ela olhou pra mesa, os olhos marejados agora sem disfarce. - Mas eu não quero tempo. Eu queria escolha... e ela não me escolheu.
Aquilo ficou no ar.
Cru, direto... do jeito que só a verdade consegue ser.
Fiquei sem saber o que dizer por um momento. Qualquer coisa parecia pequena demais.
Então só aproximei a cadeira e encostei de leve no braço dela.
- Dói agora... mas passa. E um dia você vai olhar pra isso e agradecer por não ter ficado onde não te valorizavam.
Andreia deixou escapar uma lágrima, mas dessa vez não tentou esconder.
- Eu só queria que tivesse sido diferente...
- Eu sei.
Ela respirou fundo, como quem tenta se recompor aos poucos.
- Acho que o pior não é nem terminar... - disse, enxugando o rosto. - É perceber que eu estava sozinha nisso faz tempo e não queria admitir.
Assenti em silêncio.
Porque, no fundo, a gente sempre sabe.
Só demora pra aceitar.
Depois de alguns minutos, ela abriu um sorriso pequeno, ainda triste, mas mais firme.
- Obrigada por estar aqui, viu?
- Sempre.
E, pela primeira vez desde que cheguei, ela fechou o tal documento... como se finalmente tivesse decidido que algumas coisas não valiam mais a pena segurar
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Bianca
Logo após o almoço, Pietra e eu pegamos o helicóptero rumo a Juazeiro, onde fica a clínica da prima dela. A viagem foi daquelas rápidas e tranquilas, quase sem dar tempo de pensar em muita coisa.
Assim que chegamos, fomos recebidas pela atendente, que nos guiou até o consultório. Lá dentro, a médica já nos esperava, sentada atrás da mesa, com um sorriso acolhedor no rosto.
- Até que enfim, dona Pietra! - disse ela, com um tom leve e bem-humorado. - Estava ansiosa para conhecer a Bianca e finalmente fazer os exames.
Pietra riu, balançando a cabeça, e disse:
- Bom, deixa eu fazer as apresentações então. Lis, esta é a Bianca - uma legítima italiana. E, Bianca, esta figura aqui é a doutora Lis, minha querida prima.
Lis contornou a mesa e veio até mim, me envolvendo em um abraço carinhoso.
- Muito prazer em te conhecer - disse, com um sorriso acolhedor. - Fico feliz que você tenha vindo. A partir de agora, vou acompanhar sua gravidez e também cuidar do seu parto.
Senti um alívio imediato ao ouvir aquelas palavras. O jeito tranquilo de Lis tinha algo reconfortante, como se, de repente, tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
- Então você está em boas mãos - Pietra disse, cruzando os braços com um sorriso satisfeito. - Sempre esteve, na verdade.
Lis riu baixo e se afastou um pouco, voltando à postura profissional, mas sem perder a doçura no olhar.
- Vamos começar? Quero saber de tudo - disse ela, puxando uma ficha e pegando uma caneta. - Como você tem se sentido, Bianca?
Sentei-me à frente da mesa, ainda absorvendo aquele ambiente novo, mas estranhamente acolhedor.
- Um pouco cansada... com dores nas costas, um pouco de azia. - admiti, soltando um suspiro leve. - Ainda estou tentando entender tudo isso.
Lis assentiu, como se já esperasse aquela resposta.
- É mais comum do que você imagina. E você não precisa passar por isso sozinha, certo?
Olhei de relance para Pietra, que me devolveu um olhar firme, daqueles que dizem "estou aqui" sem precisar de palavras.
- Certo - respondi, sentindo um pequeno sorriso surgir.
- Ótimo - disse Lis, animada. - Então vamos cuidar de você e desse bebê direitinho.
Ela se levantou e fez um gesto em direção à sala ao lado.
- Venha, vou começar com alguns exames.
Troquei um olhar rápido com Pietra antes de me levantar. No meio de tantas incertezas, pela primeira vez desde que tudo começou, senti que talvez as coisas pudessem dar certo.
E, de alguma forma, aquilo já era um começo.
Voltamos para a sala, sentei- me ao lado de Pietra. À nossa frente, a doutora Lis organizava alguns papéis enquanto começava a explicar, com calma, os exames que eu precisaria fazer.
- Vou pedir um conjunto completo de exames pra gente acompanhar direitinho a sua gravidez - disse ela, com naturalidade. - Hemograma completo, TTGO, exame de urina com urocultura, sorologias... além do ultrassom morfológico e o do colo uterino.
Ela levantou os olhos para mim, atenta.
- Alguma dúvida?
Balancei a cabeça, ainda assimilando tudo.
- Não, doutora.
- Ótimo - respondeu, anotando mais algumas coisas.
Pietra se inclinou levemente na cadeira, já assumindo o controle da situação como sempre.
- Então vamos ficar aqui em Juazeiro hoje, pra amanhã cedo você fazer os exames.
Lis concordou com um leve aceno.
- Isso, Pietra. Vamos fazer tudo aqui na clínica mesmo, pra facilitar. E o ultrassom morfológico... - ela fez uma pequena pausa, sorrindo - esse a gente pode fazer agora.
Senti um friozinho percorrer o corpo, uma mistura de ansiedade e curiosidade.
- Agora? - perguntei, quase sem perceber.
- Agora - confirmou Lis, já se levantando. - Assim a gente já dá uma espiadinha nesse bebê.
Olhei para Pietra, que sorriu de um jeito cúmplice, como se dissesse que aquele era um momento especial - e realmente era.
Respirei fundo e me levantei, seguindo Lis até a sala ao lado, com o coração batendo um pouco mais rápido... pronta para ver o pequeno milagre que crescia dentro de mim.
Fim do capítulo
Para compensar o tempo que fiquei sem postar!
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Merida Em: 29/03/2026 Autora da história
Será?rsrsrs