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Entre Votos e Silencios por anonimo2405

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Palavras: 7273
Acessos: 355   |  Postado em: 27/03/2026

Gravidez

Apartamento Verena e Silvia – Suíte Principal, 23h45

A penumbra do quarto era um santuário isolado do caos que engolia São Paulo. Apenas a luz morna do abajur de leitura cortava a escuridão, desenhando sombras suaves sobre os lençóis de algodão egípcio.

Verena estava recostada na cabeceira estofada, os óculos na mesa de cabeceira, os cabelos lisos e longos caindo soltos sobre os ombros. Sua respiração era lenta, ritmada, uma imitação perfeita de tranquilidade.

Aninhada em seus braços, Silvia repousava a cabeça em seu peito. O cheiro do hidratante caro de lavanda que a esposa usava antes de dormir preenchia o espaço entre elas, um aroma limpo, familiar e terrivelmente doméstico.

Com uma delicadeza ensaiada, Verena deslizava as pontas dos dedos pela barriga despida de Silvia. A pele clara da mulher exibia três pequenos hematomas amarelados perto do umbigo — as marcas visíveis das injeções diárias de hormônio para a estimulação do endométrio. Cada vez que o polegar de Verena roçava perto de uma daquelas marcas, uma pontada de culpa fria e aguda irradiava pelo seu próprio peito.

Silvia suspirou, um som trêmulo que quebrou o silêncio do quarto. Ela desenhou círculos invisíveis no tecido da blusa de pijama da esposa, a mente claramente distante do repouso.

— Doutora Beatriz me ligou no final da tarde. — Silvia murmurou, a voz baixa, carregada de uma apreensão que ela vinha tentando esconder desde o jantar. — Para confirmar o último ultrassom. Ela perguntou como estavam os meus níveis de estresse.

Verena parou o carinho na mesma hora. O tom da esposa era um alerta sutil. A deputada apoiou o queixo no topo da cabeça de Silvia, apertando o abraço.

— E o que você disse a ela, meu amor? — Sua voz saiu aveludada, grave, despida de qualquer traço da mulher ríspida que havia ameaçado metade do Centrão horas antes.

Silvia se ajeitou, erguendo o rosto para encontrar os olhos verdes da deputada. A vulnerabilidade no olhar da esposa era quase insuportável de se encarar.

— Eu disse que estava tudo bem. Mas... Verena, não está. — Silvia engoliu em seco, os olhos marejando levemente. Ela tocou o próprio ventre, logo acima de um dos hematomas. — Eu estou tomando essas injeções há duas semanas. Meu corpo está no limite. E toda vez que eu ligo a televisão, tem um jornalista falando que o seu mandato está por um fio. Que o Barros quer o seu sangue. Eu tenho medo de que essa confusão toda na Assembleia atrase a transferência do embrião. A clínica foi clara sobre o impacto do estresse no ciclo.

O ar nos pulmões de Verena pareceu se transformar em cimento.

Ali estava. O peso de uma vida construída sob medida. Silvia não pedia muito, mas apenas o cumprimento da promessa que havia feito no altar. Uma família blindada. E enquanto a esposa furava a própria pele todas as noites lutando por esse futuro, Verena arriscava tudo por uma adrenalina clandestina com uma adolescente e por um esquema de corrupção que poderia levá-la à cadeia.

O contraste entre a devoção da esposa e a própria podridão fez o estômago da deputada embrulhar. Mas não podia desmoronar. Não ali. Não agora. Verena esboçou um sorriso brando. Um sorriso perfeito, calculado para dissipar tempestades.

Levou a mão ao rosto de Silvia, o polegar acariciando a maçã do rosto da esposa com uma reverência que parecia absoluta.

— Silvia, escuta bem o que eu vou te dizer. — Verena baixou o tom para um sussurro firme e inabalável, os olhos verdes cravados nos da mulher. — A política é o meu trabalho. Aqueles urubus da Assembleia fazem barulho porque é a única coisa que sabem fazer. Mas nada, absolutamente nada que acontece daquela porta para fora, tem o poder de encostar na nossa família.

Silvia piscou, uma lágrima solitária escorrendo e molhando os dedos de Verena.

— Você promete? — A voz da advogada saiu fraca, infantilizada pelo medo de perder o sonho da maternidade. — Promete que esse escândalo não vai destruir o nosso ciclo?

— Eu prometo. — A mentira deslizou pela garganta de Verena com uma facilidade assustadora. Ela inclinou o rosto, selando os lábios na testa de Silvia num beijo demorado e protetor. — O Barros não vai encostar em mim. Na terça-feira, nós vamos juntas à clínica, vamos ver esse ultrassom, e nós vamos ter o nosso bebê. Fica em paz. Eu estou aqui. Eu sempre vou ser o seu porto seguro.

Silvia exalou um suspiro profundo de alívio, o corpo inteiro relaxando contra o abraço de Verena. A esposa fechou os olhos, acreditando com cada célula do seu corpo na invulnerabilidade da mulher que amava.

Verena continuou segurando-a, o olhar fixo e vazio na parede escura do quarto. A respiração de Silvia pesou, mergulhando no sono, mas a deputada permaneceu acordada. O porto seguro era, na verdade, um navio naufragando, e Verena sabia que era apenas uma questão de tempo até a água alcançar o convés e afogar as duas.

[…]

As quarenta e oito horas seguintes foram um exercício brutal de sobrevivência em duas frentes distintas de São Paulo.

 

O silêncio do aparelho celular sobre o colchão fino era ensurdecedor. Valentina encarava a tela trincada, o polegar roçando a borda de plástico barato num tique nervoso e incessante. Na sala apertada, a voz do âncora do jornal do meio-dia ecoava pela porta entreaberta do quarto.

 

Cada menção ao sobrenome Castilho fazia o estômago da garota revirar. A única coisa que pensava, em looping, era o bipe agudo do Bluetooth e o nome brilhando naquele painel. A mudança repentina no tom de voz.

 

A polidez doméstica e o cuidado que a haviam reduzido a um fantasma inconveniente no banco do carona. Valentina puxou os joelhos contra o peito, cravando as unhas curtas nos próprios braços até a pele avermelhar, tentando substituir a dor aguda do abandono por qualquer outra sensação física.

 

Do outro lado da cidade, a gravidade parecia cobrar o triplo do peso. O gabinete na Assembleia Legislativa cheirava a café requentado e tensão pura. Verena triturava contratos e alinhava a base aliada com a frieza de um cirurgião. Sob o tampo de madeira de sua mesa, o celular pessoal repousava virado para baixo. O número estava ali, salvo sem disfarces. 

 

A abstinência queimava na base da nuca, uma vontade irracional de cruzar a cidade para ver a garota, mas o medo da Polícia Federal era uma âncora de gelo. Um rastro digital, um único erro de cálculo, e a prisão engoliria sua vida, seu mandato e todos ao seu redor. O instinto de sobrevivência venceu. O visor do aparelho permaneceu apagado pelas quarenta e oito horas seguintes.

Clínica Fertiliza, 07h50

Os pneus do Audi chiaram baixo contra o piso de epóxi da garagem subterrânea. Verena girou o volante com uma das mãos, os olhos verdes escaneando a penumbra até identificar as vagas demarcadas com cones laranjas, exclusivas para a diretoria médica. Era o acordo que havia feito. Nada de saguão principal, nada de recepcionistas com celulares na mão. O escândalo na Assembleia ainda fervia nos jornais matinais, e a última coisa que permitiria era que o rosto de Silvia estampasse uma capa de fofoca política.

Verena alinhou o carro na vaga e puxou o freio de mão eletrônico. O motor silenciou, cortando o zumbido do ar-condicionado e deixando o interior do veículo submerso em um silêncio pesado.

No banco do carona, Silvia era uma corda esticada ao limite. Uma mulher física e quimicamente exausta, abrindo e fechando o zíper da bolsa de couro pela terceira vez em menos de cinco minutos.

— A guia tá aqui... Os exames de sangue também — Silvia murmurou, mais para si mesma do que para Verena, a voz levemente trêmula. Ela largou a bolsa no colo e esfregou as mãos nas coxas, coberta por uma calça de alfaiataria clara. — Meu estômago tá revirando. Juro que eu não dormi duas horas seguidas essa noite.

Verena destravou o cinto de segurança.. O cabelo liso e escuro caía pesado sobre os ombros, e o rosto, livre de qualquer traço de maquiagem ou batom, era uma máscara de controle absoluto por trás da armação quadrada dos óculos.

Ela esticou o braço e cobriu as mãos agitadas da esposa com as suas. Os dedos de Silvia estavam gelados.

— Ei. Olha pra mim. — A voz de Verena saiu baixa, aterradora de tão calma, o tom perfeitamente calibrado para ancorar a ansiedade alheia.

Silvia ergueu o rosto. Os olhos claros estavam úmidos, um misto de pavor genuíno de que o procedimento desse errado e uma euforia contida que a fazia tremer. Ela virou a mão, entrelaçando os dedos finos nos de Verena, apertando-os com força.

— Vai dar certo, né? — Perguntou, um sorriso nervoso repuxando os cantos da boca. — Beatriz disse que o embrião sobreviveu bem ao descongelamento. Vamos sair daqui grávidas hoje.

— Nós vamos. — Verena sustentou o olhar, o polegar roçando a aliança de ouro na mão da esposa. — Respira fundo. O pior já passou. Agora é com eles.

Verena inclinou o corpo sobre o console central e deixou um beijo demorado na têmpora de Silvia. Era o gesto perfeito, no tempo perfeito. Mas, enquanto sentia o cheiro familiar do xampu da esposa, o estômago da deputada se contraiu num espasmo mudo. A facilidade com que mentia, com que encenava o papel de rocha inabalável enquanto sua própria estrutura moral estava em ruínas, a enojava.

Elas desceram. O ar da garagem era frio e cheirava a cimento úmido.

Verena travou o carro e guiou Silvia pela base das costas até a pesada porta corta-fogo de metal, destrancada previamente para elas. Assim que cruzaram a soleira, o ambiente mudou de forma brusca. O corredor de acesso restrito aos laboratórios era brutalmente iluminado por luzes brancas de LED, e o cheiro antisséptico de álcool e produtos de limpeza hospitalar invadiu as narinas das duas.

Silvia caminhava de braços dados com Verena, os passos apressados ecoando no piso de linóleo. A esposa falava sobre os horários das medicações pós-transferência, a mente trabalhando a mil por hora para não focar no medo das possíveis falhas. 

Verena apenas caminhava ao seu lado, assentindo em silêncio, a postura inabalável servindo de escudo para as duas. Mas, por trás dos óculos, os olhos verdes da deputada estavam opacos. O corpo de Verena estava naquele corredor estéril, prestes a ver o filho ser gerado, mas sua mente era uma cela escura e sem janelas, da qual ela não fazia a menor ideia de como escapar.

Clínica Fertiliza, 08h00

O lounge privativo da clínica exalava um luxo silencioso, projetado milimetricamente para desacelerar corações ansiosos. O piso de porcelanato polido foi substituído por um carpete espesso que abafava qualquer som de passos. Painéis de madeira freijó aqueciam as paredes, e um difusor sutil liberava um aroma de chá branco no ar-condicionado gelado, camuflando o cheiro estéril de hospital que ficara no corredor de serviço.

Silvia estava sentada na beirada de uma poltrona de veludo creme. A postura delicada da advogada estava rígida, e a perna direita balançava num ritmo frenético, o salto do sapato batendo contra o chão de forma quase imperceptível.

Em seu colo, um tablet exibia o termo de consentimento final para o descongelamento e transferência do embrião. Era a última barreira burocrática antes da materialização de seu sonho.

— Eu já li esse parágrafo três vezes e não consegui absorver uma palavra. — Silvia murmurou, a voz fina e ofegante, passando a ponta do dedo na tela sem sair do lugar. Ela ergueu os olhos marejados. — Minha cabeça está girando.

Verena, sentada na poltrona ao lado, inclinou o corpo para frente. Os olhos verdes escanearam a tela com a mesma rapidez com que analisavam projetos de lei na Assembleia.

Sem dizer uma palavra, Verena pousou a mão esquerda — nua de qualquer esmalte ou anel, exceto pela aliança de ouro — sobre o joelho de Silvia, parando o tremor da perna da esposa com um toque firme e aterradoramente seguro.

— É o padrão de responsabilidade técnica do laboratório, meu amor — Verena explicou, o tom grave, despido de pressa. Ela deslizou a tela do tablet até o final. — Apenas atesta que o material genético é nosso e autoriza a inserção. Pode assinar.

Silvia soltou o ar pelos dentes, os ombros relaxando uma fração de centímetro sob o toque da esposa. Ela pegou a caneta digital com os dedos trêmulos e rabiscou a assinatura na tela luminosa.

A porta de correr de vidro fosco deslizou suavemente. Uma enfermeira chefe, vestindo um pijama cirúrgico azul-marinho impecável e segurando uma prancheta prateada, entrou no lounge com um sorriso polido e treinado.

— Bom dia, dona Silvia. — A enfermeira acenou levemente com a cabeça, o tom de voz baixo, respeitando a exclusividade do ambiente. — A Doutora Beatriz já finalizou a revisão do ultrassom e está no centro cirúrgico aguardando vocês. Ela mesma fará a transferência hoje, auxiliada pelo nosso embriologista chefe. O embrião está perfeito.

Silvia prendeu a respiração. A palavra perfeito reverberou no ambiente, transformando a tensão em uma onda de pura euforia, fazendo-a largar o tablet na mesa de centro e levar as duas mãos ao rosto, tentando conter a vontade repentina de chorar ali mesmo.

Verena recolheu o tablet e levantou-se. A postura ereta e a expressão blindada esconderam o espasmo frio que lhe atingiu a boca do estômago. Ela estendeu a mão para ajudar Silvia a se erguer da poltrona.

Seus lábios, secos e sem qualquer vestígio de batom, curvaram-se num sorriso brando para a enfermeira, a encenação de uma mãe prestes a realizar o maior sonho de sua vida. Mas, enquanto os dedos trêmulos e quentes de Silvia se entrelaçavam nos seus, a mulher de gelo sentiu o peso da própria farsa ameaçar esmagar seus ossos. Caminhar para dentro daquele centro cirúrgico parecia muito mais com cruzar os portões do purgatório do que presenciar um milagre.

— Nós estamos prontas — Verena sentenciou, a voz ecoando pelo lounge com uma firmeza irretocável, puxando a esposa para o início do fim.

Clínica Fertiliza, 08h15

A enfermeira chefe não as conduziu direto para a sala de cirurgia, mas sim para uma suíte de repouso pré-operatório no fim do corredor. O quarto privativo parecia um quarto de hotel de luxo, exceto pela maca articulada no centro e pelos armários de fórmica branca.

Sobre os lençóis impecáveis, dois kits embalados a vácuo as aguardavam.

— Dona Silvia, a senhora pode usar o banheiro para se trocar. Fique apenas com a peça íntima de baixo e vista o avental com a abertura para a frente — a enfermeira orientou, entregando também uma garrafa de água mineral de quinhentos mililitros. — A Doutora Beatriz pediu para a senhora terminar de beber essa garrafa agora. Precisamos da bexiga bem cheia para o ultrassom abdominal focar perfeitamente no útero.

Silvia pegou a garrafa com as duas mãos, soltando um suspiro longo que era metade nervosismo e metade exasperação.

— Eu já bebi um litro no carro, vou acabar explodindo antes dela encostar em mim. — Murmurou, forçando um sorriso tenso, antes de desaparecer atrás da porta do banheiro.

No quarto, a enfermeira virou-se para Verena, estendendo o segundo kit de plástico transparente.

— Dona Verena, para acompanhar o procedimento, vou pedir que a senhora coloque o propé sobre os sapatos, o capote por cima da roupa e a touca, por favor. O ambiente lá dentro é estéril.

Verena assentiu em silêncio. A enfermeira a deixou sozinha para se paramentar.

A deputada rompeu o lacre de plástico. O barulho do material descartável rasgando pareceu alto demais no silêncio do quarto. Ela calçou as sapatilhas azuis de TNT sobre os sapatos de couro escuro. Em seguida, desdobrou o capote cirúrgico. Vestir aquilo por cima do suéter de tricot azul-marinho e da calça de alfaiataria a fez se sentir subitamente vulnerável, despida da armadura estética que a protegia do mundo.

Mas a pior parte foi a touca. Verena puxou os cabelos lisos e longos para trás, prendendo-os num coque baixo e apertado, e cobriu a cabeça com o elástico azul.

Sem o peso do cabelo moldando o rosto, seus óculos tornaram-se a única barreira entre os olhos verdes exaustos e o resto do mundo. Ela se olhou no espelho fixado na porta do armário. A imagem refletida não era a de uma parlamentar temida do estado de São Paulo, mas sim de uma mulher encurralada, prestes a assistir à materialização de uma mentira da qual não podia mais fugir.

O trinco do banheiro estalou.

Silvia saiu caminhando a passos curtos e rígidos. O avental de tecido claro amarrava na cintura, e ela também usava uma touca azul que escondia os fios claros. Ela abraçava a própria barriga, a expressão contorcida num misto de ansiedade pura e o desconforto físico de uma bexiga no limite.

— Se a Beatriz demorar mais cinco minutos, o nosso filho vai ser transferido num alagamento. — Silvia brincou, a voz saindo esganiçada, os olhos claros arregalados buscando os da esposa.

Verena travou o maxilar, engolindo a seco a bile que se acumulou na garganta ao ouvir as palavras "nosso filho". Com um controle corporal ensaiado até a exaustão, ela caminhou até Silvia. O farfalhar do capote descartável denunciava cada movimento seu.

— Vai ser rápido. Vem, senta aqui na beirada da maca. — Verena pediu, o tom de voz grave e protetor, aterrissando as duas mãos nos ombros tensos da arquiteta. — Respira fundo. Eu tô aqui com você.

Silvia obedeceu, sentando-se com cuidado extremo, as pernas balançando levemente, enquanto Verena permanecia de pé à sua frente, as mãos longas repousando sobre os joelhos da esposa. Ali, no silêncio daquele quarto de preparação, a respiração ofegante da advogada era o único som que antecedia o momento sem volta.

A porta do quarto se abriu num clique seco.

— Tudo pronto por aqui? — A voz da enfermeira soou da soleira. — A Doutora Beatriz já está aguardando vocês no centro cirúrgico. Podemos ir?

Clínica Fertiliza, 08h25

Antes que pudessem dar o primeiro passo para fora do quarto de repouso, a enfermeira estendeu uma caixa de acrílico.

— Meninas, só faltam as máscaras. — Ela instruiu, o tom amigável e rotineiro.

Silvia pegou a sua com as mãos trêmulas, enlaçando os elásticos atrás das orelhas. O tecido azul cobriu metade do seu rosto, mas não conseguiu esconder a contração muscular do sorriso enorme que repuxava seus olhos claros.

Verena puxou uma máscara da caixa. Ao ajustar o clipe de metal sobre o dorso do nariz, o ar quente de sua própria respiração subiu, embaçando levemente a parte inferior das lentes. A sensação de claustrofobia foi imediata. Entre a touca apertada, o capote sintético e a máscara no rosto, a mulher que ditava as regras havia sido reduzida a uma figura anônima e engaiolada.

A enfermeira abriu a porta e as guiou pelo corredor curto.

A porta de correr do centro cirúrgico deslizou com um chiado suave. O ambiente interno era consideravelmente mais frio, projetado para manter a estabilidade dos equipamentos. A luz principal estava apagada, substituída pelo brilho azulado do grande monitor de ultrassom e por um foco de luz cirúrgica direcionado para a extremidade inferior da maca ginecológica. O cheiro de clorexidina pairava no ar purificado.

No centro da sala, a Doutora Beatriz já as aguardava. A médica vestia o pijama cirúrgico verde-água, touca e máscara, mas a expressão acolhedora era evidente pelo vinco nos cantos dos olhos.

— Bom dia futuras mamães. — Beatriz cumprimentou, a voz mansa e segura reverberando na acústica da sala. Ela apontou para a maca no centro do ambiente, forrada com um papel descartável branco. — Podem entrar. O laboratório já liberou o nosso menino. Ele sobreviveu perfeitamente ao descongelamento.

Silvia soltou um ruído abafado pela máscara, um misto de riso e choro, apertando os dedos de Verena com uma força desesperada.

— Vem, Silvia, pode subir com cuidado. — Beatriz orientou, batendo levemente no estofado da maca. — Senta bem na beiradinha. O papel escorrega um pouco. Pode apoiar as pernas nas perneiras e deixar o quadril escorregar bem para a ponta.

Silvia obedeceu, os movimentos rígidos pelo nervosismo e pelo desconforto físico crônico. Assim que se deitou e apoiou as pernas, a enfermeira cobriu seu quadril com um campo cirúrgico estéril de tecido verde, deixando exposto apenas o necessário para a médica trabalhar.

— Bia, se você apertar a minha barriga com esse ultrassom, eu juro que alago a sua sala. — Silvia avisou, a voz ofegante e anasalada pela máscara, os punhos cerrados ao lado do corpo.

Beatriz soltou uma risada baixa, calçando o segundo par de luvas estéreis.

— Prometo que a Camila vai encostar o transdutor com a mão mais leve do mundo. Fica tranquila. — A doutora ergueu o olhar para a deputada, que permanecia em pé, rígida e silenciosa perto da porta. — Verena, puxa aquele mocho ali pra perto da cabeceira. Pode sentar bem do lado dela.

Verena piscou, o transe sendo quebrado pelo som do próprio nome. Ela assentiu em silêncio.

O rodízio do mocho metálico rangeu baixinho quando Verena o arrastou para o lado esquerdo da maca, onde se sentou. A altura do banco a deixou exatamente no nível do rosto da esposa. Verena inclinou o tronco para frente, os joelhos quase encostando na lateral da cama, e escorregou as duas mãos por baixo do campo cirúrgico para encontrar os dedos frios e tensos de Silvia.

— Eu tô aqui. — Verena murmurou, a voz grave abafada pelo tecido da máscara, os olhos verdes focados exclusivamente nas pupilas dilatadas da esposa.

Silvia virou o rosto no travesseiro, os cabelos claros contidos pela touca. Ela apertou as mãos de Verena como se fossem a única coisa a prendendo no chão. O som de seus batimentos cardíacos pareciam ecoar pela sala inteira, misturando-se ao barulho metálico dos instrumentos que Beatriz organizava na bandeja ao fundo. O palco estava montado. O tempo, a partir daquele instante, deixou de existir.

A enfermeira aproximou-se pelo lado direito da maca, segurando um frasco plástico.

— Vai ser bem gelado, Silvia. — Avisou, a voz suave, antes de despejar uma quantidade generosa de gel transparente logo abaixo do umbigo da advogada.

Silvia contraiu os ombros instintivamente. Um gemido curto e abafado pela máscara escapou quando Camila pressionou o transdutor de ultrassom contra a pele. Com a bexiga no limite absoluto, qualquer toque parecia uma agressão, mas a tela do monitor de LED ganhou vida no mesmo instante, revelando a anatomia interna em tons granulados de cinza e preto.

— Bexiga excelente, útero perfeitamente posicionado. — Beatriz avaliou. Sentada no mocho, ela ajustou o foco do refletor cirúrgico. — Vou colocar o espéculo agora, Silvia. É só uma pressão incômoda. Solta o peso das pernas.

O som metálico e seco do instrumento se abrindo quebrou o silêncio da sala. Silvia fechou os olhos com força.

Verena apertou os dedos da esposa, o polegar desenhando círculos contínuos na pele fria da mão de Silvia, mantendo a âncora física firme. O capote descartável de Verena farfalhava a cada pequena inclinação do seu corpo, e a respiração pesada sob a máscara cirúrgica embaçava levemente a borda inferior das lentes de seus óculos.

Um bipe eletrônico soou vindo da sala anexa. A pequena janela de vidro translúcido que separava o centro cirúrgico do laboratório foi aberta. O embriologista chefe, paramentado e usando luvas de látex, estendeu um cateter longo, fino e incrivelmente flexível, conectado a uma seringa.

— Dois embriões descongelados e expandidos. Classificação 5AA. Estão impecáveis, Beatriz. — A voz do homem ecoou com clareza pelo alto-falante.

— Ouviram isso? — Beatriz sorriu por baixo da máscara, pegando o cateter com uma precisão cirúrgica impecável. — Dois. O laboratório fez um trabalho brilhante. As chances de sucesso são altíssimas.

Silvia puxou o ar com tanta força que o som rasgou o ambiente. Ela virou o pescoço em um solavanco, os olhos claros e úmidos cravados no monitor luminoso. As unhas afundaram na palma da mão de Verena.

Beatriz guiou o cateter ultrafino através do colo do útero. Na tela do ultrassom, uma linha esbranquiçada e tênue começou a avançar lentamente pela mancha escura.

— Olhem para o monitor. — A médica instruiu, a voz caindo para um registro mais reverente e contido. — Estão vendo a ponta do cateter no centro? Vou liberar agora.

Verena fixou o olhar na tela.

Na imagem granulada, um minúsculo clarão branco piscou. Uma pequena gota brilhante, quase imperceptível para quem não soubesse o que procurar, acomodou-se no fundo do útero de Silvia. Eram dois embriões depositados em uma fração de segundo.

Era o ápice da ciência. E o início irreversível do futuro.

Silvia desabou em um choro silencioso. As lágrimas escorreram quentes em direção às orelhas, molhando as bordas da touca cirúrgica. A tensão de semanas de injeções de progesterona, de hematomas e de insônia derreteu de uma vez só, deixando apenas a exaustão e o alívio. Ela virou o rosto molhado para a esposa.

— Eles estão lá... — Sussurrou, a voz frágil e absolutamente devota.

O coração de Verena bateu contra as costelas com a força de um tiro. O ar frio da sala pareceu sumir de repente. Ela se inclinou sobre a maca, ignorando o barulho plástico do capote, e encostou a própria testa na de Silvia. O cheiro de álcool do ambiente misturou-se ao calor das lágrimas da esposa.

— Eu vi, meu amor. Eu vi. — Verena respondeu, o timbre grave falhando de maneira quase imperceptível.

Enquanto os lábios secos de Verena se escondiam atrás do tecido azul da máscara, o peso da vida dupla alcançou sua massa crítica. Ela estava segurando a mão da mãe de seus filhos no exato segundo da concepção. O projeto da família Castilho acabara de se materializar. 

E, no entanto, a abstinência irracional pelo cheiro, pela voz trêmula e pelo toque inexperiente de uma garota do Ipiranga ainda queimava como ácido em suas veias. O contraste entre a pureza daquela sala e a sujeira de sua mente a rasgava ao meio, mas sua expressão permanecia a de uma rocha inquebrável.

Clínica Fertiliza, 08h50

A maca articulada foi ajustada para um ângulo de trinta graus. O encosto macio acomodou as costas de Silvia de volta na suíte de repouso pré-operatório, mas a advogada não relaxou um único músculo.

Estava deitada com a rigidez de uma estátua de gesso. As duas mãos repousavam espalmadas sobre o próprio baixo ventre, como se o simples peso dos seus dedos pudesse blindar o que havia acabado de ser colocado lá dentro. Os olhos claros piscaram em direção à porta quando Beatriz entrou, agora sem a touca, sem a máscara e com o jaleco branco impecável sobre a roupa privativa.

— O pior já passou, Silvia. Pode respirar — Beatriz sorriu, puxando uma cadeira estofada para perto da cabeceira. — Você vai ficar em repouso absoluto aqui na clínica por mais vinte minutos, apenas por protocolo e para a sua pressão estabilizar. Depois, estão liberadas.

Verena já havia se livrado do capote de plástico, da máscara e da touca azul. Estava encostada no batente da janela do quarto, os braços cruzados sobre o peito e as lentes dos óculos refletindo a luz da manhã. A postura era atenta e protetora, mas a distância física que mantinha da cama era a única concessão que seu corpo exigia para suportar o peso daquela sala.

— Bia... e se eu precisar ir ao banheiro? — Silvia perguntou, a voz num sussurro tenso, o pescoço duro para não mover o tronco. — Eles não vão descer?

Beatriz soltou uma risada contida, o tipo de risada de quem ouvia aquela mesma pergunta todos os dias.

— É fisicamente impossível os embriões caírem, Silvia. O útero é uma cavidade virtual, ele abraça o material como se fosse um sanduíche bem apertado. Você pode levantar, andar, ir ao banheiro. Vida normal.

Silvia engoliu em seco, claramente não convencida. As mãos continuavam grudadas na barriga.

— Vida normal com ressalvas, claro — A médica continuou, adotando um tom levemente mais sério, olhando de Silvia para Verena. — Nada de atividade física de impacto. Não pegue peso, evite subir muitos lances de escada hoje e não faça movimentos bruscos. Relações sexuais estão suspensas até o resultado do exame de sangue. E o mais importante: a medicação. A progesterona é o que vai segurar essa gravidez. O Beta HCG está marcado para daqui a dez dias.

— Os dois vão ficar, Bia. Eu sinto. — Silvia declarou de repente. Não foi uma pergunta, foi uma constatação carregada de uma certeza visceral e febril. Ela virou o rosto milimetricamente para o lado, buscando a esposa do outro lado do quarto. — Nossos dois filhos.

O silêncio que se seguiu pareceu espesso o suficiente para ser cortado com uma faca.

Verena descruzou os braços devagar, empurrando o corpo para longe da janela. Cada passo que deu em direção à cama exigiu um esforço homérico para esconder a fratura exposta que era a sua consciência. Ela parou ao lado de Silvia e deslizou a mão esquerda sobre o cabelo da advogada, o ouro da aliança capturando a luz fria do quarto.

— Fica tranquila, meu amor. — Verena murmurou, a voz grave e perfeitamente controlada, despida de qualquer hesitação visível. Os olhos verdes sustentaram o olhar da esposa. — Nós vamos seguir tudo à risca. Você não precisa se preocupar com nada além de descansar. Eu cuido de todo o resto.

Silvia exalou pela boca, os ombros magros cedendo uma fração de centímetro sob o toque firme de Verena. Ela fechou os olhos, entregando-se completamente àquela falsa segurança.

Enquanto Beatriz anotava as últimas prescrições no prontuário digital e Silvia mergulhava em seu próprio universo de esperança estática, Verena continuou acariciando o cabelo da esposa. O reflexo das três na tela escura da televisão desligada no canto do quarto mostrava a imagem irrepreensível de uma família em seu momento mais sublime. 

Ninguém ali poderia escutar o zumbido ensurdecedor na cabeça da deputada, nem perceber que, sob o tricot elegante, seu coração batia num ritmo acelerado de pânico — pela chegada cada vez mais próxima da maternidade, e por uma menina que, há dias, não recebia uma única palavra sua.

Apartamento Verena e Silvia, 10h05

O trajeto da clínica até os Jardins, que numa manhã comum levaria no máximo vinte minutos, demorou quase cinquenta.

O Audi A4 rastejou pelas avenidas beirando a velocidade mínima permitida pela CET. A cada valeta mal sinalizada, a cada frenagem brusca de motoboy no corredor, Silvia prendia a respiração no banco do carona, as mãos espalmadas sobre o baixo ventre. Verena teve que engolir as buzinas impacientes dos carros atrás dela, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante revestido, o maxilar travado para não demonstrar o menor sinal de irritação que pudesse abalar o nervosismo já caótico da esposa.

Quando a fechadura da porta de madeira maciça finalmente destravou com um bipe discreto, o silêncio do apartamento as abraçou como um refúgio. Verena empurrou a porta e estendeu a mão, esperando a esposa passar.

Silvia caminhou para dentro da sala de estar com passos minúsculos, os ombros encolhidos, como se o piso de taco de madeira nobre estivesse coberto de cristais quebrados. Era quase cômico — se não fosse trágico — ver a brilhante advogada, sócia-fundadora do próprio escritório no coração financeiro do Centro, movendo-se com uma fragilidade paralisante. A mulher que costumava cruzar os corredores do fórum com uma postura de chumbo estava há uma semana em sua autodeclarada "licença pré-maternidade", apavorada com a ideia de que um passo mais largo pudesse desalojar os embriões.

— Vem. Senta aqui devagar. — Verena instruiu, a voz grave e aveludada, guiando a esposa pela cintura até o espaçoso sofá de linho claro. — Quer que eu pegue uma almofada para as suas costas?

— Não, o encosto tá ótimo. Só me ajuda a deitar as pernas... isso. — Silvia suspirou, reclinando o tronco milimetricamente contra o estofado, como se estivesse desarmando uma bomba. Ela fechou os olhos claros, exausta. — Amor, me traz uma garrafa d'água? Eu preciso tomar aquele ácido fólico da manhã e a Bia disse que a hidratação tem que dobrar a partir de hoje.

— Claro. Não sai daí.

Verena tirou os óculos rosto, deixando-os sobre a mesa de centro de vidro, e caminhou em direção à cozinha gourmet.

O som dos próprios sapatos contra o piso de taco parecia o único ruído no mundo. O apartamento exalava uma perfeição estéril. Tudo estava no seu devido lugar. A esposa estava salva, aninhada no sofá, os filhos finalmente a caminho. Era a materialização do projeto de vida irretocável da família Castilho.

Verena abriu a geladeira de inox e pegou uma garrafa de água mineral. O frio do recipiente contrastou com a temperatura do seu corpo. Ela fechou a porta e, por dois longos segundos, ficou parada no meio da cozinha, encarando o próprio reflexo distorcido no vidro escuro do forno elétrico.

A exaustão de sustentar aquela mentira despencou sobre os seus ombros de uma vez só, fazendo-a fechar os olhos e apertar a ponta do nariz com o polegar e o indicador. A família estava crescendo, mas o silêncio que esmagava o seu peito não vinha da sala de estar. Vinha do outro lado da cidade. 

Verena engoliu a seco, banindo o pensamento para o fundo da mente com uma brutalidade violenta. Ela desrosqueou a tampa da garrafa e voltou para a sala, o rosto recomposto na máscara inabalável de porto seguro.

Silvia abriu os olhos quando a esposa se aproximou, estendendo a mão para pegar a água. O sorriso que a advogada abriu era a coisa mais pura do mundo.

— Obrigada, meu anjo. — Silvia murmurou, tomando o comprimido. Ela devolveu a garrafa para Verena e puxou a mão da deputada, beijando os dedos longos antes de acomodá-los sobre a própria barriga ainda lisa. — Agora somos nós quatro. Para sempre.

Casa da Família Moraes  – Cozinha, 20h15

O cheiro de alho refogado e feijão fresco preenchia a cozinha apertada, mascarando o cheiro de umidade que vinha da parede. A lâmpada fluorescente no teto zumbia baixinho, lançando uma luz quente sobre a mesa de fórmica gasta onde a família terminava o jantar.

O silêncio era denso, pontuado apenas pelo som dos talheres batendo nos pratos de Duralex.

Carlos limpou a boca com as costas da mão. O homem usava a mesma camisa polo desbotada do trabalho, os ombros largos curvados pelo cansaço de quem carregava o peso das contas do mês nas costas. Ele trocou um olhar longo e significativo com a esposa do outro lado da mesa. Não era um olhar de desespero, mas de uma cumplicidade forjada na dificuldade. Ele assentiu de leve.

Ana Paula não desviou os olhos. A mulher forte e contida, que raramente demonstrava fraqueza, engoliu em seco. Ela se levantou, limpou as mãos no pano de prato úmido com mais força do que o necessário e caminhou até a bolsa de couro sintético pendurada na maçaneta da porta. As mãos tremiam levemente ao puxar um envelope pardo do SUS, de dentro da bolsa. Voltou para a mesa e sentou-se, o olhar fixo no plástico que cobria a toalha rendada.

— Meninas, esperem um pouquinho. Não levantem ainda — Pediu. A voz era mansa, carregada de um afeto prático de quem cuidava de tudo. Ela esticou as mãos calejadas sobre a mesa, tocando os dedos de Isadora e, em seguida, repousando a palma quente sobre o pulso de Valentina.

Isadora, sentada ao lado a irmã, parou de balançar as pernas sob a mesa. A garota estreitou os olhos escuros, observando a movimentação incomum com uma curiosidade afiada.

— Que clima de velório é esse? — A caçula disparou, sem meias palavras, alternando o olhar entre o pai e a mãe. — Vocês vão se separar?

— Deus me livre, Isadora. Vira essa boca pra lá. — Carlos interveio, a voz grossa soando firme, mas os cantos dos olhos se enrugaram num sorriso contido. — Não é nada de ruim. É coisa boa.

 

Ana Paula suspirou, um sorriso brando e emocionado iluminando os olhos castanhos, tão parecidos com os de Valentina.

— Deus achou que a nossa casa tava muito quieta, Isa — Ana Paula começou, a voz embargando de leve, mas cheia de uma doçura maternal inabalável. Ela colocou o papel impresso em preto e branco no centro da mesa. — Eu fui no postinho hoje à tarde fazer o ultrassom que o médico pediu. E… a família vai crescer, filhas. A mamãe tá esperando um neném.

O silêncio caiu sobre a cozinha, denso e absoluto.

Isa piscou, os olhos cravados na mancha cinza do papel barato, o cérebro processando a informação até a boca se abrir num "O" perfeito.

— Você tá grávida?! — A menina gritou, meio em choque, meio empolgada, debruçando-se sobre a mesa. — Mentira! Um neném? Mas onde ele vai dormir? Vai caber no nosso quarto, Val?

Carlos pigarreou, cruzando os braços grossos sobre o peito. A rigidez tradicional do patriarca estava ali, inabalável, mas a preocupação financeira cavava rugas profundas ao redor dos seus olhos.

— Não se preocupa com isso filha. — O homem cortou o falatório da caçula, a voz grossa assumindo o controle prático da casa. — A gente sempre dá um jeito. Não vai faltar nada pra ninguém.

Valentina não respondeu. A garota estava petrificada.

Os olhos castanhos estavam cravados na mancha cinza impressa naquele papel vagabundo do SUS. A palavra neném bateu contra seus tímpanos com a força de uma marreta. O estômago revirou num salto violento.

Ali estavam seus pais, cansados, simples, comemorando um "presente de Deus" com um pedaço de papel, prontos para apertar ainda mais a vida para criar uma criança com "bênção".

Enquanto isso, sentia o peso de um segredo sujo e proibido queimar suas entranhas. O beijo com Verena parecia uma loucura patética, um delírio do qual ela nunca faria parte. A cozinha apertada, com cheiro de alho e umidade, era a única prisão real que ela conhecia. Ver a mãe sorrindo, grávida e pura, ao lado do pai, só fazia-a se sentir ainda mais culpada, isolada e monstruosa por desejar uma mulher casada e poderosa. Ela não pertencia àquele momento de alegria deles. Ela não pertencia a lugar nenhum.

Ana Paula apertou o pulso da primogênita de leve, a intuição afiada notando a ausência da adolescente na conversa. Valentina estava pálida como cera, os olhos castanhos arregalados, fixos na toalha de plástico da mesa.

— Valen? — A voz da mãe baixou um tom, o sorriso dando lugar a uma preocupação silenciosa. — Que foi  filha? Você não gostou da notícia?

O nó na garganta de Valentina era áspero como vidro moído. Ela precisava respirar. Precisava fugir daquela cozinha antes de começar a chorar na frente das duas pessoas que ela mais amava, e que jamais poderiam saber o real motivo da sua ruína.

Ela forçou os músculos do rosto com uma determinação desesperada, erguendo o queixo com aquela intensidade teimosa e imatura.

— Não... nossa, não é isso, mãe. É lindo. Parabéns — Valentina murmurou. As palavras saíram trêmulas, mas ela forçou a ponta dos lábios a se erguerem num sorriso frágil e perfeitamente encenado, enquanto puxava o braço devagar e empurrava a cadeira para trás.

Casa da Família Moraes – Quarto da Valentina, 20h35

O choro tinha durado pouco, mas o suficiente para deixar os olhos de Valentina ardendo. Sentada sobre as pernas no colchão fino, ela limpou o rosto com as costas da mão, puxando o ar pela boca. O barulho da televisão e a voz fina de Isadora ainda vinham da sala, o que significava que o quarto estava seguro por mais alguns minutos.

Valentina pegou o celular. O coração deu o tropeço de sempre ao iluminar o visor, a esperança idiota e automática de ver o nome de Verena, mas a tela só mostrava as notificações de grupos da escola.

Ela engoliu a seco, abriu o contato da melhor amiga e apertou o ícone de chamada de áudio.

Carol atendeu no segundo toque. O barulho de uma novela soava alto no fundo da ligação.

— Fala meu amorzinho. — Carol atendeu, a voz mastigando o que parecia ser uma maçã. 

— Carol, eu tenho uma coisa pra te contar. — Valentina sussurrou, a voz ainda anasalada pelo choro recente, encostando a testa na parede fria do quarto.

O barulho da maçã parou na mesma hora.

— Ai Valen, tô até com medo. Me diz que você não foi ver a Verena de novo. Vazou alguma foto de vocês?! Valen, pelo amor de Deus, eu não tenho roupa pra depor na Polícia Federal!

— O quê? Não, idiota! Esquece a Verena um minuto. — Valentina bufou, fechando os olhos com força, querendo que aquele nome parasse de doer tanto. Ela baixou ainda mais o tom de voz, cobrindo o microfone com a mão. — É aqui em casa. Minha mãe... ela tá grávida.

Houve um segundo de silêncio absoluto do outro lado da linha. E então, Carol soltou um grito esganiçado que obrigou Valentina a afastar o aparelho da orelha.

— Meeentira! Chocada! Passada! — A garota disparou, a risada escandalosa vazando pelo alto-falante. — Tia Ana Paula?! Menina, tio Carlos marcou um golaço nos acréscimos do segundo tempo, hein?

— Carol, fala baixo! — Valentina sibilou, o rosto inteiro esquentando subitamente, as bochechas queimando de vergonha mesmo estando sozinha no escuro.

— Falar baixo por quê? — A amiga não tinha o menor freio, a diversão transbordando a cada palavra. — E você aí achando que os coroas só rezavam e pagavam boleto. Dona Ana Paula e Seu Carlos só no rala e rola, amiga! Não brincam em serviço, hein! O colchão de mola deve ter até cantado o hino nacional!

— Credo, Carol! Que nojo! Pelo amor de Deus! — Valentina se jogou de costas no colchão, a mão livre cobrindo os próprios olhos, o rosto roxo de horror só de conceber a ideia. A imagem mental era tão repulsiva para o cérebro de uma adolescente que o trauma com a deputada até ficou em segundo plano por um milissegundo. — Eu vou vomitar. Juro, eu vou desligar na sua cara.

— Ah, para de ser sonsa! Como você acha que você e a Isa nasceram? Por sedex? — Carol gargalhava, impiedosa. — Mas sério agora... vocês vão botar o berço aonde? Na gaveta do guarda-roupa?

A pergunta prática fez o sorriso constrangido de Valentina murchar na mesma hora. A realidade bateu de volta, fria e dura.

— Meu pai disse que vai dar um jeito. — A voz da jovem perdeu a força, o peito voltando a apertar. Ela encarou o teto descascado do quarto. — Tá tudo uma merd*, Carol. Eu só queria sumir. Dormir e acordar num lugar onde nada disso tivesse acontecendo.

O tom da amiga do outro lado da linha mudou, a brincadeira dando lugar à lealdade imediata.

— Eita, falou palavrão, é que a coisa tá feia. Fica calma. Amanhã a gente mata a primeira aula e fica na arquibancada da quadra conversando, tá? Eu levo salgadinho. Vai dar tudo certo, amiga. Eu tô com você, lembra?

 

Valentina apenas murmurou uma concordância fraca e desligou. O quarto voltou a ficar em silêncio. A vergonha da piada ainda deixava seu rosto quente, mas a âncora invisível amarrada em sua consciência, pesava muito mais.

Fim do capítulo

Notas finais:

(??”?—???”)


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Comentários para 51 - Gravidez:
Thalita31
Thalita31

Em: 28/03/2026

Eu gosto da Sílvia. Se continuo lendo essa história, é por causa dela. Para mim, é a verdadeira protagonista, mas ela merece dividir a vida com uma pessoa melhor do que essa criminosa com quem se casou.  
 
 A corrupta não demonstra o mínimo respeito pela própria companheira. Traiu Sílvia em um momento delicado, enquanto o pai dela estava internado. Usa o mesmo carro, onde a esposa se senta, para encontrar-se com a pequena amante, sem falar nas mensagens trocadas. E, mesmo em um momento tão importante quanto a concepção de uma vida desejada, seus pensamentos ainda estão voltados para a adolescente.
 
Torço muito para que Silvia consiga se libertar dessa mulher, ainda que elas tenham um filho juntas. 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Eu tbm adoro a Silvia. Que mulher incrível, exemplar. Vontade de dar um abraço nela, proteger ela de tudo. Certamente ela merece muito, muito, muito mais do que a Verena "faz" por ela.


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sky
sky

Em: 27/03/2026

Que dramalhão na vida dessas pessoinhas

com 12 anos de diferença...?

Amo mais suspense e terror!

Os que mexem com o psicológico me atraem horrores.

É errado pela primeira vez na vida sentir que encontrou sua casa?

Joguem a primeira pedra então

O erro da malandra é justamente manter um casamento falido apenas por capricho e conveniência. Mas não muda o fato que nenhum ser humano consegue domar o próprio coração de sentir...

É impossível e doloroso tentar fugir do que sente 

Ambas estão nessa montanha russa tendo que forçar recuo para que o colete do qual blinda o coração não seja destruído junto com esse amor

 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Aii a vida delas não tá nada fácil e tenho a leve sensação de que vai piorar um pouquinho.

Ahh eu amo terror, mas só se for sobrenatural. Não consigo assistir terror de morte assim, psicopatas, essas coisas, passo mais tempo com os olhos fechados do que abertos rsrsrs. Os de terror sobrenatural tbm tenho medo, mas consigo assistir melhor.


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Sem cadastro
Sem cadastro

Em: 27/03/2026

A autora tá de parabéns pela história, gosto de cada capítulo e vejo muito julgamento em relação a Verena, acredito que na vida todos erramos e chega um momento que temos que reparar o erro, e ela vai ter que reparar esse grande erro tanto no relacionamento com a Sílvia como na política, espero sim que ela tome jeito e fique com a Sílvia. Mesmo com os erros somos humanos e esse negócio que aqui se faz e aqui se paga é algo muito vingativo que não ficaria bacana numa história tão legal de acompanhar, espero que a Família da Verena se construa e ela se torne uma pessoa melhor assim como quero que Valentina amadureça e vá viver sua vida em paz.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Aii obrigada pelo carinho viu? S2

Pois é, fato é que tem erros por todos os lados. A única que não errou ainda é a Silvia né, apesar que ela tbm deu uma passada de pano pra algumas atitudes da Verena, ela sabe que foi traída, não é possível, mas nem acho que isso pode ser considerado erro, vai de cada um. E acho que uma coisa é certa, acredito não ter ninguém que não torça pela Silvia. Que ser humano incrível.


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sky
sky

Em: 27/03/2026

ESTOU NUM DESESPERO AMOROSO E NISSO HÁ UMA VERGONHA QUASE DOCE, 

COMO QUEM SABE QUE ERRA E,AINDA ASSIM,NÃO RECUA.

PORQUE HÁ AMORES QUE NÃO CHEGAM PEDINDO LICENÇA.

ELES INVADEM.

 E QUANDO PERCEBEMOS,

JÁ ESTAMOS HABITADOS.

 

EU ESTOU SENDO IMPRUDENTE.

E HÀ UMA LUCIDEZ DOLOROSA NISSO:

EU SEI. EU VEJO.

EU COMPREENDO CADA LIMITE, CADA SILÊNCIO,

CADA AUSÊNCIA QUE DEVERIA ME BASTAR,E, AINDA ASSIM, PERMANEÇO.

PERDIDAMENTE APAIXONADA.

E RIDÍCULA. RIDICULAMENTE RENDIDA A ALGO QUE NÃO DEVERIA SEQUER EXISTIR COM ESSA FORÇA ABSURDA.

 

FAZ TANTO TEMPO QUE EU NÃO ME PERMITIA...

QUE AGORA ME SURPREENDO,

COM  A FACILIDADE COM QUE ME PERDI.

E O MAIS INQUIETANTE É QUE NADA EM VOCÊ GRITA.

VOCÊ NÃO ME CHAMA.

VOCÊ NÃO ME PROMETE.

VOCÊ NÃO ME PRENDE.

E, NO ENTANTO,EU FICO.

HÁ EM NÓS UMA ESPÉCIE DE ACORDO SILENCIOSO, 

FEITO DE ENTRELINHAS, DE OLHARES QUE DIZEM MAIS DO QUE DEVERIAM, DE PAUSAS LONGAS DEMAIS 

PARA SEREM APENAS DISTRAÇÃO.

É SIMPLES.

E JUSTAMENTE POR ISSO, PERIGOSO

PORQUE NÃO HÁ DRAMA, NÃO HÁ EXCESSO APARENTE,

SÓ ESSA PRESENÇA SUA QUE ME DESMONTA COM DELICADEZA.

SEUS OLHOS ME ENCONTRAM 

COMO SE JÁ SOUBESSEM. 

E DESVIAM, COMO SE NÃO PUDESSEM SABER DEMAIS.

E ESSE QUASE..ESSE ETERNO QUASE,

É O QUE ME CONSOME.

EU ME SINTO À BEIRA DE ALGO

QUE NÃO POSSO NOMEAR, SEM PERDER.

E ENTÃO, PERMANEÇO ASSIM:

SUSPENSA ENTRE O QUERER E O NÃO PODER,

ENTRE O IMPULSO E O RECUO, ENTRE A CORAGEM QUE ME FALTA

E O SENTIMENTO QUE SOBRA.

SE ISTO NÃO É AMOR, É ALGO AINDA MAIS CRUEL.

PORQUE NÃO SE CUMPRE, NÃO SE RESOLVE,

NÃO SE ENCERRA,

APENAS EXISTE,SILENCIOSO,

INTENSO, E ABSOLUTAMENTE IMPRUDENTE.

DENTRO DE MIM.

 

 

 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Ok, se você publicar um livro de poesias, poemas, declarações rsrs, eu sou a primeira a comprar. Eu acho muito lindo o que vc escreve. S2


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sky
sky

Em: 27/03/2026

Carol sendo um ícone até sua centésima geração. Agora às coisas irão ficar mais difíceis para as protagonistas mergulhadas em mentiras,farsas,um sentimento proibido com os dias contados..

 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
kkkkk sim, rir faz bem né.

Mas sim, vão ficar difíceis... nem te conto.



sky

sky Em: 28/03/2026
Pois me conte no off mocinha
Lilian é um peão num jogo muito bem articulado. Já a Jéssica é outra cobra letal e altamente perigosa...
Agora vai começar a luta de verdade...



anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Se eu te contar que lembrei de uma música com seu comentário rsrs. E que vou ter que ouvir, mesmo não sendo meu estilo favorito.



sky

sky Em: 28/03/2026
Pagode?
Interessante! Rsrsr



sky

sky Em: 28/03/2026
Pagode?
Interessante! Rsrsr



anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Pagode kkkkk, achei que ia ser mais difícil.


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Zanja45
Zanja45

Em: 27/03/2026

Rsrsrsr! Quer dizer que o colchão de molas deve até ter cantado o hino nacional? Essa parte foi a mais cômica de todas, pois foi a que mais ri. — Carol , se superou na veia cômica. — Ela estava cheia de gracinhas hoje. — Valentina até que estava precisando ouvir umas piadas desse tipo para descontrair e esquecer um pouco as mazelas da vida.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 28/03/2026 Autora da história
Rsrsrs, não vou mentir que eu ri bastante tbm. Carol sem filtros kkkk, bom que a Valentina conseguiu distrair um pouquinho dos problemas.


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