Sacrifícios
Rua Cisplatina – Audi, 18h45
O nome piscava na tela do console central, iluminando o interior do carro com uma luz branca e acusatória. O zumbido da vibração contra o plástico parecia ensurdecedor, rasgando o silêncio e estilhaçando a paz em milhares de pedaços.
O corpo de Verena enrijeceu sob as mãos de Valentina. A mulher que, há três segundos, estava derretida e confessando sua exaustão, transformou-se em pedra. O sorriso morreu. Os olhos verdes se arregalaram levemente, o pânico e a culpa tomando o lugar daquela devoção absoluta.
Valentina recolheu as mãos dos ombros de Verena como se o tecido da camisa de repente estivesse em chamas. A adolescente encolheu-se no banco do passageiro, os olhos grandes e aterrorizados cravados na tela do celular. O estômago despencou numa queda livre e vertiginosa, misturando-se com as borboletas de instantes atrás para formar um nó doloroso e nauseante.
O telefone continuou tocando. Três. Quatro vezes.
Verena fechou os olhos com força, puxando uma lufada de ar trêmula. Ela não podia ignorar. Depois do escândalo que havia protagonizado na Assembleia horas antes e que, a essa altura, já deveria estar em todos os jornais, não atender a própria esposa seria a confissão de um crime ainda maior.
Ela esticou o braço hesitante e apertou o botão verde no painel do carro, conectando a chamada ao sistema de som Bluetooth.
O bipe de conexão ecoou. Valentina parou de respirar. Literalmente. A garota apertou os lábios com tanta força até deixá-los brancos, aterrorizada com a ideia de que o som do seu próprio oxigênio pudesse ecoar nos alto-falantes e arruinar o casamento daquela mulher.
— Oi... — A voz de Verena saiu contida. Uma voz cautelosa, mansa e intimista de alguém pisando em ovos dentro da própria casa.
— Onde você está? — A voz de Silvia preencheu a cabine do carro. Era polida, elegante, mas carregava uma urgência afiada e um tremor de quem estava à beira de uma crise de nervos. — Verena, pelo amor de Deus, a Rafaela não atende, o telefone do seu gabinete só dá caixa postal. Seu telefone no escritório não para de tocar! O que foi aquilo na Assembleia?
A vergonha desabou sobre Valentina com a força de uma bigorna.
Ouvir a voz da esposa — a mulher que estava em casa, no apartamento perfeito das duas, desesperada pela mulher com quem dividia a vida — fez Valentina se sentir minúscula. Podre. Uma intrusa barata.
A adolescente abaixou a cabeça, os olhos enchendo de lágrimas de pura humilhação. Ela olhou para a própria calça, desbotada e amassada, para o tênis gasto, e depois para a aliança de ouro reluzindo no dedo da mulher ao seu lado. O contraste era grotesco.
Valentina tentou se encolher ainda mais contra a porta, cruzando os braços sobre a barriga num gesto de autodefesa, sentindo nojo do próprio corpo por ainda formigar com o toque da deputada.
— Eu estou no carro... — Verena respondeu, a voz falhando minimamente. Ela passou a mão livre pelos cabelos bagunçados, tentando reorganizar os pensamentos. O olhar verde, carregado de uma culpa devastadora, caiu sobre a figura encolhida e envergonhada de Valentina no banco do carona. — Houve um atrito com o partido. Foi tudo tirado de contexto, não assista a esses jornais.
— Não assista?! O presidente do partido acabou de soltar uma nota dizendo que não compactua com a sua atitude! — A voz de Silvia falhou, o som de um choro contido vazando pelo alto-falante. — Vem pra casa, Verena. Por favor. Eu estou assustada. Vem pra casa agora.
A respiração de Verena travou. O apelo da esposa era uma faca cravada no peito.
No banco ao lado, Valentina levou as duas mãos ao rosto, tapando a própria boca para garantir que nenhum soluço de desespero escapasse. A humilhação era tão palpável que sufocava. Ela só queria abrir a porta do carro e sumir no asfalto quente.
Verena viu o movimento desesperado da garota. Seu coração se partiu em duas frentes distintas. Num impulso angustiado para tentar oferecer algum conforto inútil, Verena esticou a mão direita e pousou os dedos sobre o joelho trêmulo da menina.
Mas o efeito foi o oposto.
Valentina se retraiu violentamente ao toque, como se tomasse um choque de mil volts, afastando a perna num solavanco brusco e colando as costas na porta do passageiro, os olhos transbordando lágrimas de pura rejeição.
A mão de Verena ficou pairando no vazio.
— Eu... eu já estou indo, Silvia. — Verena engoliu em seco, a voz embargada enquanto encarava o rosto aterrorizado da adolescente que a rejeitava. — Chego em quarenta minutos. Fica calma.
O bipe de encerramento da chamada ecoou pelos alto-falantes. O painel do carro voltou à tela inicial do GPS, mas o estrago já estava feito. O silêncio que se instalou na cabine não era mais o de um santuário. Era o silêncio denso, frio e asfixiante de uma cena de crime.
Verena soltou o ar pelos dentes, as duas mãos apertando o volante de couro com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O arrependimento bateu com a força de uma carreta desgovernada. Por que eu atendi? Por que eu não joguei essa merd* de celular pela janela? O instinto de preservação política a havia traído no pior momento possível.
Ela virou o rosto lentamente para o banco do carona e o que viu, trincou o que restava do seu coração em mil pedaços irrecuperáveis.
Valentina estava espremida contra o estofado da porta, o mais longe possível do console central. A adolescente esfregava as palmas das mãos no rosto com força, num movimento brusco e raivoso, tentando secar as lágrimas de humilhação que não paravam de cair. O nariz estava vermelho, os ombros tremiam levemente, e ela mantinha os olhos cravados no próprio colo, recusando-se a encarar a mulher ao seu lado.
A imagem da garota — destruída pela culpa de estar no meio do casamento perfeito da deputada — foi um soco no estômago de Verena. A couraça da mulher inabalável desmoronou.
— Pequena... — Verena sussurrou, a voz embargada, soando incrivelmente frágil. Ela esticou a mão novamente, hesitando no ar, com medo de ser rejeitada outra vez. — Me perdoa. Eu não devia ter atendido. Eu sinto muito.
Valentina balançou a cabeça de um lado para o outro de forma frenética, os olhos ainda fechados. Um muro de concreto armado subiu entre as duas. A adolescente havia se fechado por completo, o encanto, a paixão e a coragem de minutos atrás haviam sido pulverizados pela vergonha.
— Eu… quero ir embora... — A voz da garota saiu falha, espremida pelo choro entalado na garganta.
— Tudo bem. Tudo bem, eu vou te levar pra casa. — Verena apressou-se em dizer, o pânico tomando conta ao ver a menina naquele estado. Ela alcançou o botão de ignição para ligar o motor do carro.
Mas Valentina não queria ser levada para casa. Não queria passar mais um único segundo respirando o mesmo ar que aquela mulher. A claustrofobia bateu com força total. Num surto de adrenalina e pânico, a menina agarrou a maçaneta cromada da porta e puxou.
O clique seco ecoou. A pesada porta do Audi não se moveu. O sistema de segurança blindado mantinha as travas acionadas. O som do metal travado foi o estopim. O pânico de Valentina escalou para um desespero físico. Ela puxou a maçaneta de novo, mais forte, o corpo inteiro se jogando contra a porta.
— Abre... — Um soluço desesperado finalmente escapou dos lábios da garota. Ela bateu a mão espalmada contra o vidro embaçado, puxando a trava com força repetidas vezes, a respiração saindo em arfadas curtas. — Abre a porta! Deixa eu sair!
O som daquele choro contido e o som da maçaneta sendo puxada em vão caíram sobre Verena como uma sentença de morte. Ela manteve as mãos congeladas no ar, a respiração estava pesada e difícil. Estava ali, impotente, assistindo à garota por quem havia perdido a sanidade agir como um animal apavorado, batendo contra as grades de uma jaula luxuosa, desesperada para fugir do seu toque.
Foi o nocaute absoluto.
Verena esticou o braço direito. Seus dedos tremiam de uma forma que ela nunca havia experimentado antes na vida. Ela apertou o botão no painel central. O clique metálico da trava de segurança se soltando soou alto na cabine. Foi como um tiro de misericórdia.
Valentina não hesitou por um único milissegundo. A garota empurrou a pesada porta com uma força que o seu corpo magro sequer parecia possuir. O choque do ar quente e poluído da rua invadiu, varrendo o cheiro de couro e de intimidade que havia ali.
A adolescente agarrou a alça da mochila no assoalho de qualquer jeito, tropeçando nos próprios pés ao descer para a calçada.
— Valen... — O sussurro escapou dos lábios de Verena, a voz embargada, a mão esticada no vazio tentando alcançar a barra da camisa que sumia pela porta.
Mas a garota não olhou para trás. Valentina bateu a porta do carro com tanta violência que o veículo inteiro balançou. Com o rosto banhado em lágrimas e os ombros encolhidos para esconder o próprio choro, ela começou a correr pela calçada irregular, fugindo como se o próprio diabo estivesse em seu encalço.
Dentro do carro, o peito de Verena rasgou ao meio.
A dor física de ver aquela menina — doce, ingênua e que minutos antes lhe olhava com devoção — correr pelas ruas de São Paulo chorando por sua culpa foi avassaladora. Uma lágrima quente e silenciosa escorreu por trás da lente. A vontade irracional era abrir a própria porta, correr atrás dela, abraçá-la no meio da rua e prometer que largaria tudo.
Mas então, o animal frio e calculista que a mantinha no poder despertou num sobressalto aterrorizante. A realidade, nua e crua, chicoteou a mente de Verena.
O olhar verde voou do vulto de Valentina correndo na calçada direto para o espelho retrovisor. O pânico injetou adrenalina em suas veias. Ela varreu a rua deserta com os olhos, a respiração presa, o coração espancando as costelas.
Alguém viu? Ela checou o retrovisor lateral. Olhou para as janelas do prédio comercial do outro lado da rua. Uma adolescente, saindo aos prantos de um carro blindado, no exato dia em que seu nome estava no epicentro de um escândalo estadual. Se houvesse uma única câmera de celular apontada para aquele carro, se houvesse um único paparazzo político de plantão... seria o fim da sua carreira. O fim do seu casamento. O fim da sua vida.
O estômago de Verena revirou de náusea. A mistura do coração partido pela fuga de Valentina e o terror absoluto de ser flagrada a fez dobrar o corpo sobre o volante.
Ela afundou o rosto no couro do aro, os dedos agarrando os próprios cabelos, tremendo da cabeça aos pés, completamente sozinha no silêncio ensurdecedor do carro que agora cheirava apenas a abandono e destruição.
Casa da Carol – 19h00
Valentina dobrou a esquina quase sem fôlego. O peito queimava, a garganta estava seca e as pernas tremiam tanto que ameaçavam ceder a qualquer instante. Ela se sentia suja. O gosto da mulher mais velha ainda em sua boca, o perfume amadeirado parecia impregnado no tecido das suas roupas. Era um lembrete físico e cruel do tamanho do erro que havia cometido. A garota parou a poucos metros do portão de ferro enferrujado da casa da amiga. As luzes da sala estavam acesas.
Valentina encostou as costas no muro de chapisco de um terreno baldio vizinho, o corpo escorregando até ela sentar de cócoras na calçada. O ar faltou. O pânico de encarar a própria mãe naquele estado a paralisou. Ela não tinha coragem de cruzar o portão da própria casa com o rosto inchado e o peso de um pecado daquele tamanho nas costas.
Com as mãos trêmulas, ela abriu a mochila, tateando no escuro até encontrar o celular. A tela trincada acendeu. Ela discou o número da melhor amiga.
Chamou duas vezes.
— Oi, sumida! — A voz de Carol soou animada do outro lado da linha, o barulho de uma televisão ligada ao fundo. — Ainda bem que ligou, preciso de um socorro seu. Não consegui de jeito nenhum fazer aquele trabalho de física.
Valentina abriu a boca, mas a voz não veio. Um soluço violento rasgou sua garganta, ecoando alto no microfone do aparelho.
O silêncio do outro lado da linha foi instantâneo. O barulho da televisão foi mutado.
— Valen? — O tom de Carol despencou, a animação dando lugar a um sobressalto genuíno de pavor. — Valen, o que foi? Você tá chorando? O que aconteceu?!
— Carol... — A voz de Valentina saiu estrangulada, um fiapo de som quebrado pelo choro desesperado. Ela apertou os joelhos contra o peito, encolhendo-se na calçada mal iluminada. — Abre o portão pra mim... por favor.
— Meu Deus, você tá onde?! — O som de passos apressados e chaves tilintando vazou pelo alto-falante. — Valen, fala comigo! Alguém te machucou? Você tá na rua?!
— Eu tô aqui fora... na sua calçada. Me deixa entrar, Carol. Eu não posso ir pra casa. A minha mãe não pode me ver assim.
O som do telefone caindo no chão dentro da casa foi seguido pelo barulho estridente do trinco de ferro sendo destravado à força.
O portão da casa foi escancarado com violência. A garota apareceu na calçada de meias, os olhos arregalados varrendo a rua escura até encontrar a figura miúda e encolhida da melhor amiga encostada no muro do terreno vizinho.
— Valentina do céu! — Carol correu até ela, caindo de joelhos no cimento áspero.
Quando as mãos da amiga tocaram seus ombros, a represa que Valentina tentava segurar desde que saiu correndo do carro finalmente estourou por completo. Ela se jogou nos braços de Carol, agarrando a camiseta da amiga com a mesma força desesperada de quem se agarra a uma boia no meio de um naufrágio.
O choro era tão compulsivo, tão carregado de uma humilhação profunda, que Carol sequer fez mais perguntas. O coração disparou de puro terror. Ela abraçou Valentina com força, passando a mão pelos cabelos bagunçados da garota, puxando-a para levantar.
— Vem. Levanta. Vem pra dentro, Valen, vai ficar tudo bem. Eu tô aqui.
Carol passou o braço de Valentina pelo próprio ombro, sustentando quase todo o peso da adolescente em prantos, e a guiou para dentro do quintal seguro de casa, trancando o portão de ferro e deixando o caos da noite do lado de fora.
Casa da Carol – 19h06
A chave girou na fechadura com um clique apressado. Carol puxou Valentina para dentro da pequena sala de estar, trancando a porta de madeira logo em seguida. O som abafado da água caindo, vindo do banheiro no fim do corredor, foi a maior bênção que poderiam ter recebido.
— Vem, rápido — Carol sussurrou, agarrando o pulso da amiga.
Elas cruzaram a sala de piso de taco desgastado na ponta dos pés, desviando do sofá de veludo e da mesa de centro, até alcançarem a porta do quarto. Carol empurrou Valentina para dentro, fechou a porta num baque surdo e girou a chave, criando a trincheira que precisavam.
Valentina deixou a mochila escorregar do ombro. O peso bateu no chão.
Ela não aguentou dar mais nenhum passo. As pernas falharam e a garota cedeu, sentando-se na beirada da cama. A adolescente afundou o rosto nas mãos, os ombros magros subindo e descendo num choro silencioso, mas fisicamente doloroso.
A adrenalina da fuga estava passando, deixando para trás apenas as cinzas da vergonha.
O ar do quarto, que antes cheirava a amaciante barato e incenso, pareceu subitamente contaminado. Valentina esfregou o próprio pescoço com força, a pele ardendo sob o tecido da blusa de poliéster. Ela jurava que ainda podia sentir o hálito quente de Verena, jurava que o perfume daquela mulher havia grudado em sua pele como uma maldição.
Carol continuou parada perto da porta, os braços cruzados, o coração ainda disparado pelo susto. Ela observou o estado deplorável da melhor amiga. Valentina não era de chorar assim. A amiga era o tipo de pessoa que pedia desculpas se esbarrasse numa cadeira.
Sua mente, rápida e afiada como sempre, começou a conectar os pontos. A pressa, o medo de voltar para casa, o desespero e o cheiro destoante que não pertencia a nenhuma das duas e que agora preenchia o quarto pequeno.
A amiga arregalou os olhos. O sangue fugiu do seu rosto.
— Valen... — Carol descruzou os braços, a voz saindo num sussurro incrédulo e apavorado. Ela deu dois passos lentos até parar na frente da garota, abaixando-se para tentar olhar nos olhos castanhos inundados de lágrimas. — Me diz que você não fez o que eu tô pensando que você fez. Me diz que você não foi se encontrar com ela.
Valentina apertou os olhos, o choro rasgando a garganta num soluço que ela tentou abafar com as duas mãos. A confirmação silenciosa caiu como uma bomba no meio do quarto.
— Meu Deus do céu, Valentina! — Carol levou as duas mãos à cabeça, a voz subindo um tom, o choque se misturando a uma dose cavalar de indignação protetora. — Você tá louca?! O que aconteceu pra você tá nesse estado? Ela te machucou?!
— Ela atendeu... — A voz de Valentina saiu espremida e quebrada, os olhos vermelhos finalmente se erguendo. O pânico de reviver a cena fez seu estômago revirar. — A gente tava no carro dela. A esposa dela ligou... chorando... e ela atendeu do meu lado, Carol. Ela atendeu.
Valentina abraçou o próprio corpo, curvando-se para frente, a imagem do nome brilhando no painel cravada em sua retina.
— Eu me senti um lixo. Um lixo…
Casa da Carol, 19h25
Carol não disse uma única palavra nos primeiros dez minutos. Ela apenas puxou Valentina para deitar na cama de solteiro, encostou as costas na parede descascada e abraçou a amiga com força. Deixou que a adolescente molhasse sua camiseta com lágrimas de vergonha, fazendo um cafuné silencioso nos fios dourados até que os soluços violentos se transformassem apenas em respirações curtas e cansadas.
Quando percebeu que a tremedeira da amiga havia passado, Carol suspirou pesadamente, se afastando milimetricamente, segurando o rosto de Valentina com as duas mãos para obrigá-la a erguer os olhos vermelhos e inchados.
— Melhorou? — Sussurrou, a voz mansa, mas firme.
Valentina assentiu devagar, fungando e desviando o olhar para o próprio colo, a culpa ainda esmagando seu peito.
— Valen, olha pra mim. — A exigência foi um pouco mais dura dessa vez. Valentina obedeceu, engolindo em seco. O olhar da amiga não tinha julgamento moral, mas transbordava uma preocupação aterrorizante. — Você sabe que eu te amo, né? E você sabe muito bem que eu não dou a mínima se você tá a fim de beijar um garoto ou uma mulher. O problema não é ela ser uma mulher. O problema, Valentina, é quem ela é.
A adolescente fechou os olhos, uma lágrima solitária escorrendo pela bochecha. Ouvir a verdade em voz alta, longe da bolha do carro blindado, era como levar um tapa.
— Ela é uma figura pública, influente. — Carol continuou, abaixando ainda mais o tom de voz, mas pontuando cada sílaba como uma facada. — Ela tem idade para ser nossa mãe. E o pior de tudo: ela é casada, Valen. Casada! Ela tem uma esposa e mesmo assim ela te chamou pra dentro daquele carro. Você entende a frieza disso?
— Ela tava destruída, Carol... — Valentina tentou sussurrar em defesa da deputada, a lembrança do olhar verde e exausto de Verena ainda martelando em sua cabeça. — Você não viu como ela tava.
— E o que você tem a ver com isso?! — A indignação finalmente rasgou o tom contido de Carol, que apertou os ombros da amiga. — Deixa ela se destruir com o partido dela! Deixa ela se resolver com a esposa dela no apartamento de luxo delas! Você acha que ela tava sofrendo? Valen, ela atendeu a mulher do seu lado! Ela te colocou na posição de amante escondida sem nem piscar, correndo o risco de destruir a sua vida se alguém descobrisse. Pra ela, esse joguinho no escuro não custa nada. A reputação dela blinda tudo. Mas e pra você?
Valentina encolheu os ombros, o ar faltando nos pulmões. A imagem da sua própria mãe esfregando roupas no tanque horas antes cruzou sua mente.
— Você tá no terceiro ano do ensino médio, Valentina. A gente conta moeda pra pagar a passagem de ônibus — Carol finalizou, a voz embargada, os olhos também marejando ao ver a dor da melhor amiga. — Se essa corda estourar, adivinha qual lado vai arrebentar primeiro? Você não é o porto seguro dela, Valen. Você é a válvula de escape dela. E se você não parar com essa loucura agora, ela vai acabar com você.
As palavras duras, lógicas e irrefutáveis de Carol pairaram no ar abafado do quarto. A verdade tinha a precisão de um bisturi. Valentina sabia que era o dano colateral. Sabia que não pertencia ao mundo dos carros blindados, dos sobrenomes de peso e das notas oficiais. A cada argumento da amiga, o abismo sob os seus pés ficava mais nítido e intransponível.
A adolescente continuou de cabeça baixa, os dedos trêmulos apertando o tecido da própria calça jeans. O choro convulsivo havia dado lugar a uma exaustão silenciosa, uma dor oca que se espalhava pelo peito.
— Eu sei... — Valentina sussurrou, a voz não passando de um fio áspero e quebrado. Ela engoliu em seco, o gosto salgado das lágrimas ainda nos lábios. — Eu sei de tudo isso, Carol. Eu juro que eu sei.
Ela finalmente ergueu o rosto. Os olhos castanhos, normalmente tão dóceis e cheios de uma luz infantil, estavam opacos, carregando um peso que não condizia com a sua idade.
— Mas eu… eu não consigo me afastar — Sua voz falhou na última sílaba. Valentina balançou a cabeça devagar, uma constatação amarga e letal escapando junto com um novo soluço que ela não teve forças para conter. — Porque... eu amo ela Carol.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Ouvir Valentina admitir uma paixão era uma coisa, ouvir aquela menina, dizer que amava uma mulher perigosa e inalcançável foi como ouvir uma sentença de morte.
Carol recuou, as costas batendo contra a parede. A mente girando. Aquilo não era um deslize. Não era uma curiosidade boba. A âncora já havia sido jogada no fundo do oceano, e Valentina estava amarrada nela, afundando junto com os destroços do casamento e da carreira de Verena Castilho.
— Valen... — Carol sussurrou, o tom de voz agora desprovido de qualquer dureza. Restava apenas um pavor genuíno e uma piedade dilacerante. Ela levou as mãos às costas de Valentina, os olhos marejados ao ver a amiga abraçar os próprios joelhos, encolhendo-se na cama como se esperasse o próximo golpe. — Oh, meu Deus, Valen. O que essa mulher fez com você?
Valentina não respondeu. Apenas escondeu o rosto entre os joelhos, o corpo inteiro tremendo enquanto a realidade a esmagava de vez. Ela amava Verena Castilho. E essa era a sua ruína.
— Valen... — A voz de Carol não passou de um sopro, rouca e derrotada. A constatação do abismo era palpável. — Você não tá amando, amiga. Isso não é amor — Murmurou, a voz mansa, tentando jogar uma âncora de bom senso na amiga. — É paixão. É deslumbre. Ela é mais velha, é absurdamente poderosa, bonita, te colocou num carro que custa mais que a nossa casa e te deu uma atenção que você nunca teve. É lógico que você ia confundir as coisas. Mas ela não é o amor da sua vida. Você só tá enfeitiçada por ela.
Valentina soluçou, um som abafado e rasgado que fez o próprio corpo tremer, mas não se defendeu.
Carol engoliu o nó que se formava em sua própria garganta. A vontade era chorar junto, deitar ali e lamentar a perda da inocência daquela menina que cresceu dividindo lanche com ela no recreio. Mas alguém precisava manter a âncora no chão. Alguém precisava garantir que o mundo real não as engolisse vivas nos próximos dez minutos.
— Olha pra mim — Carol pediu, a mão escorregando para o ombro da amiga, apertando de leve.
Lentamente, Valentina ergueu o rosto. Os olhos castanhos estavam inchados, as bochechas manchadas de vermelho e o olhar completamente perdido, mas com uma fúria que acendeu de repente.
A defensiva subiu como um muro de espinhos. Quem estava sentindo a pele formigar era ela. Quem tinha visto os olhos verdes de Verena Castilho transbordarem de devoção, abrindo mão do mundo inteiro por um segundo, foi ela.
— Não diminui o que eu sinto, Carol — Valentina rebateu. A voz, antes miúda e chorosa, ganhou um tom ríspido, áspero e completamente inédito.
Ela se afastou bruscamente, puxando as próprias pernas e fugindo do toque da melhor amiga.
— Você acha que eu sou burra? Que eu sou uma caipira deslumbrada com dinheiro? — Valentina disparou, as lágrimas de humilhação agora misturadas com raiva. — Você não tava lá! Você não viu o jeito que ela me olhou. Você não sabe o que acontece quando a gente tá junta! Você não sabe de nada!
Carol piscou, atônita.
A amiga recuou milimetricamente, os olhos arregalados. Aquela garota irritada, irracional e com uma lealdade feroz a uma mulher que minutos atrás a fizera chorar de vergonha... não era a sua Valentina. A garota dócil havia desaparecido. O veneno de Verena Castilho estava muito mais entranhado nas veias da amiga do que um simples beijo poderia explicar.
O barulho do registro do chuveiro no fim do corredor foi fechado com um rangido metálico estridente. A água parou de cair. O tempo de segurança delas havia acabado. Carol ergueu as duas mãos no ar num sinal de rendição absoluta, engolindo a vontade de gritar e discutir. Era inútil brigar com quem estava cega.
— Tudo bem. Tudo bem, Valentina. Eu não sei de nada. Você tem razão — Carol sussurrou, a praticidade urgente atropelando a discussão. Ela levantou da cama num pulo. — Mas a minha mãe sabe muito bem reconhecer uma cara de choro. Então guarda esse amor pra você agora, levanta dessa cama e vamos pro banheiro lavar esse rosto, antes que ela bata nessa porta.
Apartamento Verena e Silvia – 19h40
O elevador social parou silenciosamente no andar das Castilho. As portas espelhadas se abriram, revelando o hall amplo e impecavelmente iluminado que antecedia a entrada.
Verena caminhou a passos lentos até a imponente porta de madeira maciça. Antes de colocar a chave na fechadura, ela parou em frente ao espelho de cristal fixado na parede do corredor.
Ela ajeitou a gola da camisa amassada, alisou o tecido sobre os ombros e passou as mãos trêmulas pelos cabelos, tentando apagar qualquer vestígio físico do que havia acontecido dentro daquele Audi. Mas o olhar... o olhar de culpa crônica, de quem havia acabado de jogar uma granada no próprio teto, não tinha como esconder.
A fechadura destravou com um click discreto. Assim que Verena empurrou a porta e pisou no piso de taco de madeira nobre da sala de estar, a figura de Silvia apareceu no fim do corredor largo, vestindo um conjunto de tricot off-white confortável, os cabelos claros presos num coque frouxo, segurando o telefone sem fio com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O rosto, sempre tão sereno e polido, estava marcado por horas de pura aflição.
— Graças a Deus... — Silvia exalou, a voz falhando num suspiro de alívio absoluto. Ela jogou o telefone no sofá e caminhou rápido.
Não esperou Verena tirar os sapatos ou colocar a bolsa na poltrona. Silvia atirou os braços ao redor do pescoço da deputada, dando-lhe um abraço apertado, desesperado, de uma mulher que passou a tarde inteira assistindo a carreira e a imagem da esposa serem massacradas ao vivo pela imprensa opositora.
Verena congelou por um milésimo de segundo. O choque térmico emocional foi violento. O calor do abraço de Silvia era familiar, macio e carregado de uma devoção inabalável. E exatamente por isso, queimou sua pele como ácido.
A deputada fechou os olhos com força, erguendo os braços lentamente para retribuir o contato, o estômago revirando numa náusea de puro ódio de si mesma.
— Eu fiquei apavorada. — Silvia murmurou contra o ombro dela, a respiração ofegante e embargada. Em seguida, se afastou um pouco, mantendo as mãos apertadas nos braços de Verena, varrendo o rosto da esposa com olhos atentos e marejados. — Você sumiu. O telefone do seu escritório não para de tocar, a Rafaela não atende o celular... Os jornais estão reprisando aquele escândalo no plenário a cada meia hora.
Silvia ergueu uma das mãos e tocou o rosto de Verena. O toque suave da aliança de ouro encostou na exata bochecha onde os lábios quentes e trêmulos de Valentina repousavam minutos antes.
Verena teve que travar a mandíbula para não engasgar com a própria respiração.
— Meu amor, olha pra você... você tá exausta. Pálida. — O tom de Silvia não tinha um único pingo de cobrança, apenas um cuidado rasgado e protetor. Ela acariciou o rosto da esposa com o polegar. — Eles soltaram aquela nota covarde lavando as mãos. O que eles fizeram com você lá dentro hoje? Me conta.
Verena sentiu o ar de seus pulmões pesar como chumbo. A vontade irracional era cair de joelhos no piso de taco e vomitar toda a verdade, mas o instinto de preservação — o mesmo monstro frio que a mantinha no topo da cadeia alimentar da Assembleia — assumiu o controle com uma brutalidade assustadora.
Ela piscou, engolindo a seco. A postura curvada de exaustão endireitou-se milimetricamente. A muralha de gelo subiu.
— Não fizeram nada que eu já não esperasse meu bem. — Sua voz saiu firme, polida e assustadoramente controlada. O tom grave e protetor que usava para acalmar a esposa há anos assumiu o lugar do pânico. — Você sabe como aqueles caciques são. Tentaram me encurralar nos bastidores, e eu apenas reagi à altura. Eles latem muito, mas não mordem.
Silvia soltou um suspiro trêmulo, a tensão nos ombros diminuindo visivelmente ao ouvir a segurança na voz da esposa. A confiança que tinha naquela mulher era cega e absoluta.
— E a nota do presidente? — A esposa insistiu, a voz mais mansa agora, os olhos claros buscando os verdes de Verena em busca daquele porto seguro.
— Jogo de cena para a imprensa. Amanhã cedo eu resolvo isso com duas ligações. — Verena forçou os cantos da boca a se erguerem num sorriso brando e cansado.
Mentir para milhões de eleitores numa câmera de televisão era fácil, era o seu ofício. Mas mentir olhando no fundo dos olhos aliviados da mulher com quem dividia a cama... aquilo exigia uma frieza que Verena não sabia possuir. O estômago revirou com a própria podridão.
Para selar a mentira e cortar o assunto, Verena levou as mãos até a cintura de Silvia, puxando-a para um abraço rápido. Ela inclinou o rosto e deixou um beijo estéril e demorado na testa da esposa. Era um beijo de Judas, e as duas sabiam, mas apenas uma tinha consciência disso.
— Eu só preciso de um banho... — Verena murmurou contra a pele de Silvia, recuando um passo antes que a esposa pudesse sentir o cheiro do seu pescoço ou olhar de perto para os seus lábios ainda levemente inchados. — Minha cabeça está estourando. Aquele plenário suga a minha alma.
— Claro, meu amor. Claro. — Silvia assentiu rápido, o instinto de cuidado falando mais alto. Ela pegou a bolsa das mãos da esposa. — Vai pro chuveiro. Eu vou pedir o seu jantar naquele restaurante italiano que você gosta e levo uma taça de vinho na suíte para você.
— Obrigada. Você é o meu anjo... — A frase saiu no automático, o roteiro perfeito de um casamento perfeito.
Verena virou as costas e caminhou pelo corredor largo em direção à suíte master. A cada passo que dava para longe de Silvia, a armadura rachava um pouco mais. Quando finalmente entrou no banheiro de mármore branco e trancou a porta dupla atrás de si, o ar acabou.
A deputada apoiou as duas mãos na bancada da pia, abaixando a cabeça enquanto os ombros começavam a tremer num ataque de pânico silencioso e devastador. Ela estava no controle de tudo. E ao mesmo tempo, não controlava absolutamente nada.
Assembleia Legislativa de São Paulo – 09h15
O som dos saltos agulha de Verena Castilho ecoando pelo mármore do corredor principal foi o suficiente para abaixar o volume das conversas em cinquenta por cento.
O saguão da ALESP era um zoológico em chamas. Jornalistas se acotovelavam nas grades de contenção, microfones eram empurrados na direção de qualquer parlamentar que passasse, e o nome de Verena ecoava em cada roda de sussurros. A oposição, claro, já estava nos microfones do plenário, espumando moralismo e exigindo a abertura imediata de um processo no Conselho de Ética.
Mas Verena caminhava como se o prédio estivesse vazio.
A armadura estava impecável. O terno de alfaiataria azul-marinho cortado sob medida, o cabelo milimetricamente alinhado, os óculos de armação grossa e a postura inabalável. Quem a olhasse naquela manhã jamais imaginaria que, doze horas antes, ela chorava sentada no chão de um banheiro de luxo, com os lábios ainda formigando pelo beijo de uma estudante de escola pública.
Verena bateu a pesada porta de carvalho do gabinete com o calcanhar e girou a chave na fechadura duas vezes. O barulho dos repórteres no corredor foi abafado instantaneamente.
A pose ruiu junto dos burburinhos. Verena arrancou o blazer dos ombros e o jogou de qualquer jeito em cima da poltrona de couro. Afrouxou o primeiro botão da camisa, suspirou pesadamente e marchou até a garrafa térmica de café.
Rafaela, que já estava na sala revisando a tela do tablet com uma ruga de tensão no meio da testa, ergueu os olhos. Sabia que o clima entre elas ainda era de um campo minado, mas naquele momento, um conflito interno seria o pior cenário. Teria que engolir o orgulho, mais uma vez.
— O Henrique soltou a nota oficial do partido às oito da manhã — Rafaela disparou, o tom baixo e urgente, sem enrolação. — Disse que "não compactua com excessos" e que o conselho de ética do partido vai avaliar a sua conduta. O de sempre.
Verena soltou uma risada nasalada e arrastada enquanto enchia a xícara de café até a borda. Ela deu um gole, a expressão puramente debochada.
— "Não compactua com excessos"... Hipócrita do caralh* — Murmurou, a voz rouca e ácida, virando-se para encarar a chefe de gabinete. — Deixa ele latir pra imprensa, Rafaela. O Henrique não é o problema. Aquele velho sabe que se a minha cabeça rolar na guilhotina, eu puxo ele pelo tornozelo e a gente cai abraçado. A nota foi só pra inglês ver. O Centrão não vai dar quórum pra me cassar por causa de um barraco.
Rafaela jogou o tablet na mesa. O clima no gabinete não era de desespero moral, era puramente estratégico e denso. O tipo de tensão de quem pisa num campo minado diariamente.
— Eu sei que o Henrique tá na sua coleira. O problema é o Barros, Verena — A mulher rebateu, cruzando os braços, a voz carregada de um alerta real. — A oposição protocolou o pedido na Comissão de Ética. E o Barros já tá articulando nos corredores pra pedir a relatoria. Você sabe o que isso significa.
O deboche sumiu do rosto da deputada. O maxilar de Verena travou. Ela largou a xícara na mesa com um baque seco e apoiou as duas mãos no vidro, a cabeça trabalhando a mil por hora. Ela sabia exatamente o que significava.
— Se o Barros pegar a relatoria, ele não vai focar na porr* do vídeo da briga — Disse, a voz caindo para um registro frio e calculista, a ficha da vulnerabilidade caindo. — Ele vai usar a investigação como cavalo de Troia. Ele vai pedir quebra de sigilo dos meus gabinetes, vai pedir auditoria do Tribunal de Contas...
— E vai chegar nos contratos da Secretaria de Obras — Rafaela completou, engolindo em seco. — Se ele puxar o fio daquela licitação das empreiteiras, Verena... a gente não perde o mandato. A gente vai direto pro camburão da Federal.
O silêncio reinou por três segundos. O fantasma do esquema de desvio pairou sobre as duas, muito mais assustador e letal do que qualquer crise de imagem. Verena olhou para a própria unha perfeitamente feita, a ironia do destino não passando despercebida. Estava arriscando o esquema de corrupção mais bem amarrado do estado porque havia perdido a cabeça, por desejo por uma adolescente e brigado no plenário. Patético.
Verena ergueu a cabeça. O olhar verde estava afiado, predatório. O instinto de sobrevivência engoliu qualquer traço de culpa que ela tivesse sentido em casa.
— Operação limpeza. Agora. — Ela começou a ditar, apontando o dedo na direção da assessora com uma frieza de dar calafrios. — Quero que você ligue pro escritório do contador. Fala pra ele maquiar cada vírgula dos repasses daquele loteamento. Tudo tem que bater com as ONGs de fachada. Sem ponta solta.
— O Barros vai mandar os cães de caça dele fuçarem os laranjas... — Rafaela pontuou, já puxando um bloco de notas.
— Então manda os laranjas sumirem! Paga o dobro do cala-boca esse mês. Envia todo mundo pra praia, pra puta que pariu, eu não me importo, Rafaela. Ninguém atende telefone de jornalista. E sobre o Barros... — Verena estreitou os olhos, um sorriso perverso e letal despontando nos cantos da boca. — O filho dele não tava metido naquela confusão com a licença ambiental da boate?
Rafaela arregalou os olhos levemente, pegando no ar a malícia da chefe.
— Sim. A licença que a prefeitura misteriosamente liberou mês passado.
— Ótimo. Pega a pasta disso. Se o Barros quiser brincar de abrir gaveta na Comissão de Ética, eu vou garantir que ele encontre um belo de um esqueleto do próprio filho dentro dela. Ele vai recuar antes mesmo de sentar aquela bunda gorda na cadeira de relator.
Pátio da Escola Estadual – 10h15
O sinal do intervalo havia acabado de soar, transformando o pátio num mar caótico de uniformes desbotados, gritos agudos e o som de bolas de futsal espancando as grades da quadra. O cheiro de merenda escolar pairava no ar quente da manhã.
Valentina estava sentada num banco de concreto descascado, o mais longe possível do refeitório.
Mal havia piscado desde que o sol nasceu. As olheiras fundas marcavam o rosto pálido, e o estômago estava embrulhado demais para aceitar qualquer comida. O celular com a tela trincada descansava no seu colo, a tela acendendo a cada cinco segundos apenas para mostrar o papel de parede padrão.
Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem de um número desconhecido. Nenhum sinal de fumaça.
O silêncio de Verena era um buraco negro que engolia qualquer resquício de esperança que Valentina ainda guardasse. O gosto da mulher mais velha havia sumido de sua boca, substituído por um amargor metálico de abandono. Ela tem problemas maiores do que uma adolescente carente, a voz implacável da própria consciência sussurrava. Ela voltou para a esposa. Você foi só um erro de percurso.
Mas a razão nunca foi páreo para a abstinência.
Com os dedos trêmulos, Valentina desbloqueou a tela. Ignorou as mensagens do grupo da sala e abriu o navegador. O cursor piscou na barra do Google. Era uma tortura autoinfligida, mas ela precisava ver o rosto daquela mulher. Precisava saber se a Verena que estava no mundo real ainda era a mesma a quem havia se entregado.
Digitou: Verena Castilho.
A página carregou instantaneamente, despejando uma avalanche de links e fotos recentes.
“Tensão na ALESP: Oposição cobra postura de Verena Castilho após atrito nos corredores.” “Base do governo tenta abafar crise envolvendo a deputada Castilho.”
Valentina clicou na aba de imagens. O coração deu um salto doloroso contra as costelas ao ver as fotos tiradas naquela mesma manhã, na porta da Assembleia.
Lá estava ela. Impecável num terno azul-marinho, o cabelo alinhado e uma expressão de frieza tão absoluta que chegava a ser desumana. Verena estava cercada por assessores e microfones, o queixo erguido, os olhos verdes blindados contra qualquer tipo de invasão. Aquela mulher inalcançável, no entanto, não pertencia a Valentina.
— Valentina, chega.
Uma mão pegou o aparelho de forma brusca. Carol sentou ao lado no banco de concreto, segurando dois copos de plástico com suco de caixinha. A expressão da amiga era de pura exaustão.
— Me devolve, Carol — Valentina murmurou, a voz frágil, tentando puxar o celular.
— Não. Você tá se torturando de propósito — A garota rebateu, desligando a tela e colocando o aparelho no próprio bolso da calça, entregando um dos copos para a amiga, o tom de voz suavizando diante da carinha destruída da adolescente. — Valen, olha pra foto que você tava vendo. Olha pra vida que ela tem. Ela tá lá, no meio de um furacão com a imprensa e o governador. Você acha mesmo que ela vai ter tempo pra te mandar mensagem perguntando se você dormiu bem?
A pergunta foi um soco no estômago, exatamente porque era verdade.
Valentina abaixou a cabeça, os ombros magros encolhendo sob o tecido da camiseta da escola. As lágrimas que ela jurou que não choraria mais começaram a pinicar nos cantos dos olhos.
— Mas ela me beijou, Carol... — Valentina sussurrou, a voz quebrando, a humilhação misturada a uma dor aguda de saudade. — Ela disse que precisava de mim... E agora ela simplesmente sumiu.
Carol suspirou ruidosamente, passando um braço ao redor dos ombros da amiga e puxando Valentina para perto, ignorando o barulho ensurdecedor do pátio ao redor delas.
— Pessoas como ela não precisam de ninguém, Valen. Elas só usam quem tá perto pra aliviar a tensão. E quando a crise passa... elas voltam pro castelo delas.
ALESP – Gabinete de Verena, 11h30
O clique metálico da fechadura selou o gabinete em um silêncio absoluto. Com a saída de Rafaela, o zumbido do ar-condicionado central tornou-se o único som em um ambiente subitamente vasto e estéril.
Verena recostou-se na cadeira de couro, num movimento lento de uma estrutura que suportara pressão demais. A armadura política — a postura implacável e a retórica afiada que acossara o Centrão minutos antes — esvaiu-se no instante em que ela se viu sozinha. A letargia que se apossou de seu corpo era a cobrança física de uma noite em claro.
A deputada soltou o ar pelos dentes, a postura inabalável derretendo assim que teve certeza de que ninguém a observava. Tirou os óculos e jogou-os sobre a mesa, massageando as têmporas com os dedos frios.
O xadrez que estava jogando era de altíssimo risco. Se Barros conseguisse a relatoria e puxasse o fio das ONGs de fachada, seu destino não seria a cassação e o ostracismo político. Seria viaturas da Polícia Federal na porta do seu prédio. Seria a ruína da família Castilho, o congelamento de bens, e a cadeia para ela e mais meia dúzia de aliados.
O instinto de sobrevivência exigia frieza absoluta. Foco total. Nenhuma margem para erro. E, no entanto, tudo o que o corpo de Verena registrava naquele momento era a ausência daquela menina.
A abstinência era quase física. Uma coceira na base do pescoço, uma arritmia idiota sempre que a memória do hálito quente da garota invadia o ar-condicionado estéril do gabinete. Ela conseguia sentir o peso exato de Valentina em seus braços, a respiração ofegante contra a sua pele, a devoção cega naqueles olhos castanhos que a olhavam como se ela fosse a única coisa real no mundo.
Lentamente, como se estivesse desarmando uma bomba, Verena abriu a gaveta da mesa e tirou seu celular pessoal, que tentava manter longe, evitando distrações e erros, que a essa altura, não seriam tolerados.
A tela acendeu. Ela desbloqueou o visor e abriu o aplicativo de mensagens, rolando a tela até encontrar o número de Valentina.
O cursor verde piscava lentamente.
Seus dedos pairaram sobre o teclado virtual. O impulso irracional de digitar um simples "Você chegou bem?" ou um "Me perdoa" queimou na ponta de seus dedos. Ela queria saber se a garota estava na escola. Queria saber se ela ainda estava chorando. Queria o controle da situação de volta.
Mas a mente criminosa e paranoica de Verena Castilho entrou em ação com a mesma brutalidade que usava no plenário.
Um rastro digital. Era tudo o que seus inimigos precisavam. Uma mensagem interceptada. Um print na tela de um celular barato de uma estudante de escola pública. Uma única ponta solta conectando-a a uma adolescente. Se a imprensa cheirasse aquilo, não haveria chantagem no mundo que a salvasse da prisão e do escrutínio público. Ela, a mulher mais poderosa daquele andar, capaz de dobrar o Centrão com duas frases, estava completamente paralisada pelo próprio instinto de preservação.
Verena travou o maxilar. O ódio de si mesma borbulhou em seu estômago. Com um movimento ríspido e frustrado, ela bloqueou a tela do celular, jogando o aparelho de cara para baixo sobre a madeira da mesa com um estrondo seco.
Fechou os olhos, encostando a cabeça no couro da cadeira. Não mandaria mensagem. Não deixaria rastros. A sobrevivência exigia sacrifícios, e Valentina seria o primeiro deles. Mas a dor que irradiava em seu peito ao tomar essa decisão provava que naquela batalha, não haveria vencedores.
Fim do capítulo
Oie! Bom dia pessoal!
Espero que todos estejam bem!
E feliz 50 capítulos pra nós rsrs!
Quero agradecer a todos que continuam firmes e fortes aqui (apesar do nervoso e das demoras da autora) ou os que cairam de paraquedas aqui só por curiosidade rsrs. Confesso que pensei muito antes de publicar aqui, pq sabia dos temas sensíveis e dos problemas que isso poderia gerar. Mas minha intenção sempre foi mostrar as coisas como elas são. A complexidade das relações humanas. Então, decidi arriscar.
E um obrigada especial tbm a todos que deram suas opiniões, isso enriquece ainda mais a narrativa, saber o ponto de vista de vocês. Não sei se conseguirei deixar todo mundo 100% satisfeito rsrs, mas darei meu melhor pra fazer valer o tempo de vocês aqui.
Abraço apertado! E muitos beijinhos rsrs. ??
Comentar este capítulo:
N@ty
Em: 08/04/2026
A Silvia realmente ama a Verena.
E Verena está fazendo um papel tão covarde
Está prestes a entrar em surto
Talvez assim ela consiga se libertar daquilo que tanto a sufoca, a mata por dentro
O que realmente Valentina significa pra ela?
Um breve momento de luxúria com desejo do proibido?
Vejo uma mulher acostumada a esconder o que senti, sem conseguir encarar sua real face nesse momento.
Enquanto ela continuar mentindo pra Silvia sentirei um certo asno dela.
E Valentina, dá dó vendo ela perdida nessa paixão
Tão nova sufocada também por toda essa situação, não conseguindo mais pensar em outra coisa senão essa mulher bandida.
E mesmo assim, eu espero que tudo fique bem entre elas
E que se faça valer a verdade
A verdade dos fatos
E a verdade de quem somos
E o que queremos
O resto é só questão de opinião
HelOliveira
Em: 27/03/2026
Foram 50 capítulos maravilhosos, claro uma hora da vontade de puxar as orelhas da Verena outra da Valentina, ou abrir os olhos da Silvia, mas tudo só mostra o quanto a história está envolvente...
Obrigada autora que mesmo nas correrias da vida consegue nos proporcionar esses momentos
anonimo2405
Em: 27/03/2026
Autora da história
Aii, obrigada! Me deixa feliz saber que está gostando, apesar do nervoso rsrs ?
Realmente, dá vontade de entrar e dar uma sacudida em todo mundo.
Obrigada pelo carinho! S2
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Boa noite!
Uhuuu, parabéns, autora, por ter nos proporcionado leituras enriquecedoras, com essa escrita de primeira.
Abraços!
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Boa noite Zanja!
Obrigada pelo carinho! :)
Feliz que esteja gostando!
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Zanja45
Em: 24/03/2026
"Mas a razão nunca foi paréo para a abstinência". Quando o gosto do beijo sumiu, aí que está o problema, só sobrando o gosto metalico de ser esquecida. — Ai ela vai em busca de consiguir novas sensações para reavivar o desejo.— Só que Verena não está nem ai pra ninguém.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Pois é. Verena machucando muita gente nessa confusão que ela sente.
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Política é coisa de dar em doido. Verena x Barros quem sairá ileso desse processo? É cobra engolindo cobra.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Se é que alguém vai sair ileso né
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Quero saber até quando Silvia vai se deixar maquiar por Verena. — E quero ver até quando a deputada vai sustentar essa postura de mulher forte e inabalável. — Sendo que ela leva uma vida dupla. E com tudo desmoronando a volta dela. — Essa armadura dela esta se rachando mesmo — Não sei como ela vai fazer para restaura - la. Por que depois que algo se fragmenta, torna - se dificil juntar os pedações novamente, pois é como reaver a confiança de alguém depois que se perde.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Tbm não sei como ela consegue. E o pior é que se a Silvia engravidar, vai ficar mais difícil ainda, pq com criança a situação fica mais difícil. Pq os anjinhos são os que mais sofrem pelos erros dos adultos
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Valentina tentando justificar Verena " Ela estava destruida, Carol[...] E o que é que você tem a ver com isso?!" Deixa ela se ferrar com a vida dela, praticamente, disse a amiga. KKKK! Só a Carol para revelar, elucidar verdades que parecem camufladas aos olhos de Valentina.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Carol sensata, sem papas na lingua rsrs. E falando nisso, lembrei de uma música aqui rsrsrs. "Eu sei", acho que o cantor é papas da lingua tbm, algo assim rsrsrs
Zanja45
Em: 08/04/2026
Música com letra muito linda, nem sabia que era de Papas da língua. rsrsrsrs!
P.S Eu não esqueci de pesquisar não. Essa aí pago o débito até com juros e correção. Realmente são tipos de músicas que gosto.
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Olha para onde Valentina foi depois de ferida? Foi chorar nos braços da melhor amiga, pois com ela, pode contar sempre. — Porque, apesar de chamar Valentina de volta a realidade, não é porque ela não queira o bem dela, mas, pois ela gosta demais dela. — Porque muitas das vezes, ela tem que aceitar os surtos romanticos da amiga. — Pois ela não consegue enxergar a verdade sobre Verena. — só vê o que ela quer, para justificar o que ela sente. No entanto, pelo menos ela conseguir enxergar que a deputada não a respeitou quando atendeu Silvia na frente dela. — E aquela sensação aterradora de ser apenas um programa rodando em segundo plano — ninguém o vê, mas ele está ali. — Ele não é um lixo, no entanto pelo fato de parecer algo insignificante, sem importância, as pessoas não dão a importância que ele merece.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Ainda bem que a Carol acolhe colocou carinho, mesmo dando umas puxadas de orelhas.
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Verena não é tamanduá bandeira, mas deu bandeira, ao atender Sílvia na frente de Valentina. Ela só pensou em mascarar, livrar a cara dela de uma possível desavença com a esposa. - Todavia acredito que o estrago já tinha sido feito a partir do momento que Valentina visualizou a palavra "AMOR" sendo mostrada na tela do celular. A partir desse intervalo de tempo, creio eu que mesmo que Verena carregasse água no cesto, não seria mais possível voltar ao clima que estava se desenrolando naquele console.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Kkkkkkkkkkkkkk, tamanduá bandeira foi ótimo kkkkkkk
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Zanja45
Em: 24/03/2026
Tadinha da Valentina, estar passando por um situação dessa em tão tenra idade. Meu coração se partiu ao ao meio ao presenciar tão grande desalento . - E ao ver ela fugindo como uma Corca assustada, que de repente se viu presa numa armadilha. No entanto, o instinto de sobrevivência fala mais alto, ela luta, tenta se soltar como se sua vida dependesse disso. E quando consegue, sai em desbandeirada, trupicando, o objetivo é se ver o mais distante possível daquilo que a aprisionou - A incredulidade, a culpa, a vergonha, o desprezo, remoendo por se deixar cair por algo que parecia tão mínimo, mas ao seus olhos era genuíno e puro. Porque ela ainda não é capaz de mensurar racionalmente o que está sentindo.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Fiquei com pena tbm. Apesar dela tbm ter sua parte de culpa nisso, mas ela é muito jovem e apaixonada ainda. É bem complicado.
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sky
Em: 24/03/2026
Autora,autora...
Sempre com surpresas de tirar o fôlego sua espertinha
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Rsrsrrsrs, dando um tempinho pra vc recuperar o ar.
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sky
Em: 24/03/2026
O corretor não quer ser meu amigão hoje..
Verena não irá conseguir ficar longe da adolescente por muito tempo.
Ela gosta de controlar tudo e todos
No caso delas acredito que não é por mal...
Alguém que sempre enxergou o controle como base jamais se permite a gestos românticos tão fortes assim
Por isso ela se sente presa no que a faz emergir das profundezas (Valentina).
E no que acredita ser o cume da montanha (Silvia). Tem muita água pra rolar...
Quando o esquema fraudulento ser posto a luz
o peso maior para a deputada não será a raiva,decepção,mágoa de sua esposa
E sim,a dor e amargor estampados nos olhos dos quais traziam calmaria depois do caso
Na doçura de quem ainda está descobrindo a podridão das pessoas
Esse será seu fim...
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Faz muito sentido. E concordo, esse sacrifício da Verena não deve durar muito não. E realmente, ver a decepção nos olhos das pessoas que amamos é sem dúvida a pior punição.
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sky
Em: 24/03/2026
Na minha humilde opinião de quem já esteve num cenário parecido é de que;
Verena já está apaixonada nessa menina
Porém,ela começou tudo errado ao continuar neste mar de mentiras,manipulação emocional,um casamento que terminou a tempos e o pior...brincar de "soberana"
Quanto claramente perdeu-se no próprio jogo.
Pusando uma adolescente que também errou ao embarcar nisso
Mas convenhamos, ela nunca tinha experimentado uma sensação semelhante na vida
Mesmo quando tinha grandes indícios de sua opção sexual anos atrás
Como seus pais deixaram implícito
Não estou justificando ser amante da esposa de sua prima nem nada do tipo
Só que entendo-a ao dizer não apenas deslumbrar a deputada e sim,amar como algo que ultrapassa a compreensão humana
Para quem acredita pesquisem sobre almas gêmeas ou chama gêmeas e tudo dará um pouco de sentido no que quero dizer
Essas relações geralmente são marcadas por dor,triângulos amorosos,muito sofrimento para todos os envolvidos
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Bom, eu me identifico bem mais com a Valentina, principalmente no que diz respeito a aceitação e a parte religiosa, mas acho que é uma situação complicada pras duas. Verena, por.ser mais velha, teria que ter mais discernimento, e escolher qual vida quer viver. Pq as duas vai ser muito difícil. Só fico imaginando o tamanho do sofrimento que vai ser quando tudo vier a tona, pq uma hora vai acontecer, viver essa vida dupla que ela quer é muito difícil.
sky
Em: 27/03/2026
Uma vez eu li um texto onde uma parte dizia +- assim:
" Quando não podemos usar nossa roupagem real estamos abdicando daquilo que nos dar um Norte do que somos em essência
Por crescer ouvindo que nem tudo é aceitável aos olhos do criador".
Você tem uma energia tão presa menina
Ao mesmo tempo que vibrante
Só não pode usar todo esse poder.
As vezes ficas tão pensativa ao mesmo tempo que não consegue ser quem és
anonimo2405
Em: 27/03/2026
Autora da história
Concordo. São ensinamentos muito profundos e por viver cercada da mesma confirmação, quando você tenta se questionar, é como se desse de cara num muro, que dá choque ainda rsrrs. Aí vc acaba voltando e só aceitando e pronto.
E olha, não sei se essa última parte foi pra Valentina ou se foi pra autora rsrsr. Pq acho que temos uma vidente aqui rsrsr.
sky
Em: 27/03/2026
Não quero te expõr pequena gigante rsrsr
Sinto-a numa jaula onde por mais que a porta esteja escancarada e as chaves na sua mão gritando: " Pq ainda estás aí"?
É como se o medo,o julgamento de quem tem peso em sua vida,o temer ser literalmente chamada de erro,aberração e o pior...sentir-se uma completa estranha na própria casca
anonimo2405
Em: 27/03/2026
Autora da história
Não pode fazer isso com a autora e simplesmente ir embora! Vou reforçar que sou manteiga derretida rsrsrs! S2
sky
Em: 27/03/2026
Só respira!
Vou está aberta a te ouvir,viu
Jamais diminua a sua luz para que os outros se sintam confortáveis na tua presença.
No mais,estou dando uma trégua para esse coração triste
CULPADA! KKKK
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Thalita31
Em: 24/03/2026
A amiga da amante é uma boa amiga.
Madura para pouca idade que tem.
anonimo2405
Em: 26/03/2026
Autora da história
Aii eu sei que a Valentina tbm é toda errada, mas me dá uma pena dela. Mas de fato, Carol é a voz da razão dela. E a Silvia, sinto muita pena dela tbm. Pq o que ela vai sofrer quando descobrir. Dá muita raiva da Verena por fazer isso com ela
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