34 por Luciane Ribeiro
Essa é uma obra ficticia sem dados cientificos reais ou relevantes.
Quimera
HELENA
Apenas por um minuto, eu pensei. O que pode acontecer? Permiti que ela me envolvesse. Naquele constato percebi o quanto Estávamos próximas - não apenas fisicamente.Eu precisava ser forte ,ainda que sua respiração em meu pescoço estivesse me arrepiando ,ainda que a resistência a ela diminuísse a cada ausência de Eve.
_Já teve seu minuto.Me solte.
_Um dia ,um minuto será pouco para nós duas.
Ela se afastou e foi conversar com James. Era estranho, mas interessante o quanto eles encontravam assuntos pra conversar por horas.
_Algo está te preocupando ,Hel?
_Não é nada tia.
Depois da cachoeira, Tia Dalila nos convidou para jantar no restaurante de alguns amigos dela. O ambiente íntimo e acolhedor ajudou a mantê-la próxima em cada gesto atencioso, em cada sorriso e até mesmo em suas frases diretas... que me desconcertavam.
Quando voltamos para casa, eu me sentia inquieta demais para dormir. Peguei uma taça de vinho e fui para a praia. A noite estava quente e o mar, estranhamente sereno - as ondas quebravam silenciosas na areia.
Fechei os olhos e deixei que o som do mar acalmasse minha mente.
Não houve anúncio quando Amanda se aproximou. Ela apenas se sentou ao meu lado e ficou em silêncio.
Minutos depois, ao abrir os olhos, deparei com a cena dela se banhando no mar. Me levantei e caminhei até ela. Ver sua tranquilidade me fez perder o medo de entrar no mar à noite.
- Veio me convencer a sair, como da última vez?
- Não... dessa vez vou nadar com você.
Ela sorriu como se tivesse recebido a melhor notícia do mundo.
Tentei manter certa distância, mas ela se aproximou. Seu olhar agora era sério.
- Obrigada por não ter me afastado hoje à tarde. Significou muito pra mim.
Uma onda mais forte a atingiu e a derrubou. Me aproximei e a ajudei a levantar. Ela se agarrou à minha cintura, tentando se manter de pé.
- Vamos sair... o mar está se agitando.
- Está bem.
- Obediente?
- Às vezes sou.
Seus lábios estavam a um centímetro dos meus, e a vontade de me afastar ficava menor a cada respiração.
Por sorte, recobrei o controle a tempo.
Eu amava Eve... mas, não sabia por quanto tempo mais conseguiria negar e evitar a atração crescente que eu sentia por Amanda.
Quando Eve retornou, meu coração se acalmou. Enquanto ela me abraçava, senti todo o amor, o desejo e todas as coisas boas que só ela me causava. Nos braços dela, todas as dúvidas desapareciam.
Amanda desaparecia... ainda que continuasse sendo um fantasma a nos assombrar.
Decidimos voltar para casa e começar oficialmente nossa vida de casadas.
Entre abraços e reencontros, marquei um encontro com Karina.
Ela inicialmente marcou em seu escritório, mas depois pediu que eu fosse até sua casa, longe o bastante para me fazer sentir viajando para o interior. Sua casa ficava em um condomínio que mais parecia uma floresta - com casas extremamente protegidas.
Toquei a campainha e aguardei.
Fiquei completamente surpresa quando ela abriu a porta.
Usava roupas largas que já tinham passado muito do momento de ir para o lixo, os ridiculamente longos cabelos vermelhos presos de qualquer jeito e o rosto sujo do que parecia farinha.
- Bom dia, Helena.
- Bom dia... estou atrapalhando?
- De maneira nenhuma. Entre. Desculpe te fazer vir até aqui. Clarissa e eu esquecemos de olhar a agenda da escola da Cecília... quando fui levá-la, descobri que precisava mandar algo caseiro. E minha filha cismou que quer biscoitos.
Suspirei, sorrindo.
- Você poderia ter cancelado nossa reunião.
- Claro que não. Já deixei todo o material preparado. Podemos trabalhar enquanto eles assam.
A acompanhei até a cozinha. O computador e diversos papéis estavam isolados no único espaço livre de farinha na mesa.
Karina limpou as mãos no avental e me encarou com atenção.
- Meu avô... apesar de monstro, era brilhante. E sabia reconhecer pesquisas que valiam a pena. Quando comecei a estudar os projetos dele, encontrei coisas perturbadoras... como o Eros. Mas também algo promissor: o Projeto Kimera.
Me aproximei, cruzando os braços.
- Ele estudava pessoas com dois DNAs, não é?
- Por anos - respondeu ela. - Ele acreditava que poderia usar células de gêmeos absorvidos no útero para curar doenças como leucemia.
- Para isso, ele precisaria regenerar e mapear essas células...
- Exatamente. Mas ele nunca conseguiu estabilizar o processo.
Karina fez uma pausa. Seus olhos se fixaram nos meus.
- Ao contrário de você. Tia Aretta me contou sobre o 34.
Senti meu corpo enrijecer.
- Então você já sabe.
- Sei o suficiente para saber que você fez algo que ele nunca conseguiu.
Respirei fundo antes de começar.
- O 34 não é apenas um composto regenerativo. Eu usei células de origem anfíbia... altamente regenerativas... e as combinei com uma cepa viral de replicação acelerada.
Karina franziu a testa, interessada.
- Você usou o vírus como vetor?
- Mais do que isso. Eu precisei forçar a fusão. As células rejeitavam o vírus no início... levei semanas até conseguir uma integração estável. A ideia era fazer com que o vírus reprogramasse as células para manter um estado constante de regeneração.
- E conseguiu.
- Parcialmente. O 34 força as células a se replicarem muito mais rápido... e a regenerarem qualquer dano antes que ele se estabilize.
Karina ficou em silêncio por alguns segundos, processando.
- Helena... você percebe o que isso significa?
- Eu tenho uma ideia.
Ela se levantou, começando a andar de um lado para o outro.
- Agora deixa eu te explicar o que você talvez ainda não tenha percebido.
Ela girou o notebook na minha direção, exibindo esquemas complexos.
- Se você realmente conseguiu integrar isso em alguém com dois DNAs distintos... você não está lidando só com regeneração.
Franzi a testa.
- Como assim?
- O corpo não vai simplesmente regenerar... ele vai tentar equilibrar os dois códigos genéticos. E isso é um problema.
- Por quê?
- Porque regeneração não é cópia perfeita... é reconstrução. E se existem dois "modelos" dentro do mesmo organismo... o corpo pode alternar entre eles.
Senti um frio percorrer minha espinha.
- Você está dizendo que...
- Que o corpo pode, em certos momentos, priorizar um DNA... e, em outros, o segundo. E isso não afeta só o físico, Helena.
Ela tocou levemente a própria têmpora.
- Afeta o cérebro.
Engoli em seco.
- Todas as conexões cerebrais foram regeneradas.
- E reorganizadas - completou ela. - Conexões neurais não são fixas nesse caso. Elas estão sendo recriadas o tempo todo.
- Isso explicaria mudanças de comportamento...
- Mais do que isso - o olhar dela ficou sério. - Pode explicar a existência de dois padrões mentais distintos.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
- Um... alter ego?
Karina não respondeu imediatamente. Apenas me encarou.
- Não exatamente como um transtorno clássico. Aqui não é psicológico... é estrutural. Você pode estar olhando para duas arquiteturas mentais coexistindo no mesmo cérebro.
Meu coração acelerou.
- Isso... é possível?
- Em condições normais, não. - ela fez uma pausa - Mas você não criou condições normais.
Desviei o olhar, sentindo o peso daquilo.
- E o vírus?
- Provavelmente intensifica tudo. Ele não só acelera a regeneração... ele interfere na química do cérebro. Neurotransmissores, impulsos, respostas emocionais...
- Isso explicaria impulsividade... mudanças bruscas...
- E perda de controle - completou ela. - Ou pior... a criação de uma versão mais eficiente.
Levantei o olhar de volta para ela.
- Eficiente?
- Uma personalidade menos emocional, mais adaptada à sobrevivência do corpo... ou à propagação do próprio sistema que você criou.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
- Então não é só o corpo que está mudando... - murmurei.
Karina fechou o notebook devagar.
- Não, Helena. Você mexeu com a base da identidade.
Ela me encarou, firme.
- A pergunta agora não é se funciona.
Respirei fundo, já temendo a resposta.
- É até quando isso permanece humano.
Contei a Karina sobre o surgimento de Amanda e todas as mudanças que notei desde que Eve acordou. Ela ficou completamente chocada, mas, ao mesmo tempo, vi um brilho diferente surgir em seus olhos. Ela começou a andar de um lado para o outro, como se estivesse tendo mil ideias ao mesmo tempo.
- Helena, você merece ganhar o Nobel. O 34 praticamente é a receita da imortalidade e da juventude eterna.
- Não acho que ele vá tão longe.
Ela parou de andar e me encarou, inclinando levemente a cabeça.
- Você está em negação... ou é outra coisa? Por que está tentando diminuir o maior feito científico dos últimos tempos?
Respirei fundo antes de responder.
- Karina, apesar do sucesso em Eve, os resultados não são os mesmos nas cobaias. Não consigo descobrir qual é o fator determinante. E o mais preocupante... eu não sei como parar as mudanças.
Karina cruzou os braços, pensativa - mas o entusiasmo ainda estava lá, contido.
- Então o processo continua ativo.
- Sim... e fora do meu controle.
Ela assentiu lentamente, como se estivesse encaixando peças invisíveis.
- Isso confirma o que eu estava pensando.
- O quê?
Ela se aproximou da mesa, apoiando as mãos nos papéis.
- O 34 não é apenas regenerativo. Ele é adaptativo.
Franzi a testa.
- Adaptativo?
- Ele não está só reparando o corpo... está respondendo a ele. Aprendendo com o ambiente biológico em que foi inserido.
Senti um desconforto crescer no peito.
- Isso não era o objetivo.
- Mas é a consequência. - ela ergueu o olhar para mim - E Eve... não é um organismo simples.
Fiquei em silêncio.
- Dois DNAs ativos, um sistema regenerativo constante e um vetor viral interferindo na expressão celular... - ela balançou a cabeça - Helena, isso é um sistema em evolução.
- Você está dizendo que... ele pode continuar mudando?
- Não "pode". - ela corrigiu - Ele já está.
O peso daquelas palavras caiu sobre mim.
- E eu não sei até onde isso vai.
Karina se aproximou mais, agora completamente séria.
- Então a pergunta não é mais "como parar".
Engoli em seco.
- É "o que isso vai se tornar".
Desviei o olhar por um instante.
- E se eu quiser reverter?
Ela hesitou - pela primeira vez.
- Você pode tentar... mas teria que interferir diretamente no processo de regeneração.
- Bloquear o 34?
- Ou reprogramar ele. - respondeu - Mas isso pode causar um colapso.
Meu coração disparou.
- Colapso?
- Se o organismo já depende da regeneração constante... tirar isso de forma abrupta pode ser fatal.
O silêncio tomou conta da cozinha.
- Então eu não posso parar... - murmurei.
- Não sem risco.
Fechei os olhos por um instante.
- E a mente?
Karina me observou.
- Está ficando mais frequente, não está?
Abri os olhos lentamente.
- Está.
Ela assentiu.
- Então as duas estruturas estão se estabilizando.
- Isso é ruim?
- Depende. Se continuarem se desenvolvendo separadamente...
- Elas podem entrar em conflito.
- Ou uma pode suprimir a outra.
Meu estômago revirou.
- Eu não posso deixar isso acontecer.
Karina inclinou a cabeça.
- Você quer preservar a Eve... mas talvez precise considerar que Amanda não é apenas um erro.
Fiquei em silêncio.
- Ela pode ser parte do equilíbrio que está mantendo Eve estável ou a razão pela qual tudo ainda não colapsou,
Senti um frio percorrer minha espinha.
- Você está dizendo que tirar a Amanda...
- Pode destruir a Eve.
O ar pareceu desaparecer da sala.
- Então eu estou presa.
Karina respirou fundo.
- Não. Você está diante de uma escolha que ainda não entende completamente.
Ela fechou o notebook devagar.
- E qualquer decisão agora pode ser irreversível. Helena, você é neuro mais brilhantes que já conheci, se existe alguém capaz de lidar com isso é você.
_Meus sentimentos não me deixam ser objetiva. Se fosse a eu de antes, com certeza já teria encontrado uma forma de controlar todas as mudanças que o 34 está fazendo.
_A felicidade é um complemento Helena, não uma fraqueza. Você acabou de voltar de lua de mel, não se cobre tanto.
A tensão do momento foi rompida quando recebi a ligação de uma Talita bastante brava. Eve e Dandara estavam aprontando terrivelmente na Casa Verde.
- Preciso pensar no que farei... por enquanto tenho que voltar pra Casa Verde. Eve e Dandara explodiram algumas coisas.
Karina deixou escapar uma risada leve.
- Você deixou as duas sem supervisão?
- Achei que não teria problema.
- Eve e laboratório é sempre problema - respondeu ela, ainda sorrindo. - Porém... é bom ver que essa parte dela, apesar de tudo, ainda continua a mesma.
Sorri de leve, mas o peso dentro de mim não diminuía.
- Sim... Não posso perdê-la de novo, Karina.
Ela me olhou com mais seriedade dessa vez.
- Vamos achar um jeito de impedir isso.
Antes de sair, ela me entregou alguns biscoitos ainda quentes. Aquele gesto simples contrastava demais com tudo o que havíamos acabado de discutir.
A conversa não saía da minha mente.
Mas, quando cheguei, fui obrigada a focar na confusão que minha esposa tinha causado.
A Casa Verde parecia ter sido atingida por uma pequena explosão - e, tecnicamente... tinha mesmo.
Coloquei as duas de castigo. Cada uma do jeito que mais as afetaria.
Mais tarde, quando voltei para o nosso quarto, notei que Eve estava concentrada em algo no computador. Seus olhos fixos na tela, a expressão séria demais para alguém que, horas antes, estava causando caos em um laboratório.
Fiquei curiosa.
Mas segurei o impulso de perguntar ou olhar.
Mal sabia eu...
Que a resposta viria quinze dias depois.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 23/03/2026
Nossa tô muito curiosa para ver as consequências de tudo isso, que nem consigo imaginar qual será o desfecho de tudo isso....
Luciane Ribeiro
Em: 08/04/2026
Autora da história
Muitas emoções nessa reta final
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Luciane Ribeiro Em: 08/04/2026 Autora da história
Oi boa tarde .Fico muito feliz que esteja gostando.Grande abraço