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34 por Luciane Ribeiro

Ver comentários: 4

Ver lista de capítulos

Palavras: 2293
Acessos: 107   |  Postado em: 22/03/2026

Notas iniciais:

Essa é uma obra ficticia sem dados cientificos reais ou relevantes.

Quimera

 

HELENA

Apenas por um minuto, eu pensei. O que pode acontecer? Permiti que ela me envolvesse. Naquele constato percebi o quanto Estávamos próximas - não apenas fisicamente.Eu precisava ser forte ,ainda que sua respiração em meu pescoço estivesse me arrepiando ,ainda que a resistência a ela diminuísse a cada ausência de Eve.

_Já teve seu minuto.Me solte.

_Um dia ,um minuto será pouco para nós duas.

Ela se afastou e foi conversar com James. Era estranho, mas interessante o quanto eles encontravam assuntos pra conversar por horas.

_Algo está te preocupando ,Hel?

_Não é nada tia.

Depois da cachoeira, Tia Dalila nos convidou para jantar no restaurante de alguns amigos dela. O ambiente íntimo e acolhedor ajudou a mantê-la próxima em cada gesto atencioso, em cada sorriso e até mesmo em suas frases diretas... que me desconcertavam.

Quando voltamos para casa, eu me sentia inquieta demais para dormir. Peguei uma taça de vinho e fui para a praia. A noite estava quente e o mar, estranhamente sereno - as ondas quebravam silenciosas na areia.

Fechei os olhos e deixei que o som do mar acalmasse minha mente.

Não houve anúncio quando Amanda se aproximou. Ela apenas se sentou ao meu lado e ficou em silêncio.

Minutos depois, ao abrir os olhos, deparei com a cena dela se banhando no mar. Me levantei e caminhei até ela. Ver sua tranquilidade me fez perder o medo de entrar no mar à noite.

- Veio me convencer a sair, como da última vez?

- Não... dessa vez vou nadar com você.

Ela sorriu como se tivesse recebido a melhor notícia do mundo.

Tentei manter certa distância, mas ela se aproximou. Seu olhar agora era sério.

- Obrigada por não ter me afastado hoje à tarde. Significou muito pra mim.

Uma onda mais forte a atingiu e a derrubou. Me aproximei e a ajudei a levantar. Ela se agarrou à minha cintura, tentando se manter de pé.

- Vamos sair... o mar está se agitando.

- Está bem.

- Obediente?

- Às vezes sou.

Seus lábios estavam a um centímetro dos meus, e a vontade de me afastar ficava menor a cada respiração.

Por sorte, recobrei o controle a tempo.

Eu amava Eve... mas, não sabia por quanto tempo mais conseguiria negar e evitar a atração crescente que eu sentia por Amanda.

Quando Eve retornou, meu coração se acalmou. Enquanto ela me abraçava, senti todo o amor, o desejo e todas as coisas boas que só ela me causava. Nos braços dela, todas as dúvidas desapareciam.

Amanda desaparecia... ainda que continuasse sendo um fantasma a nos assombrar.

Decidimos voltar para casa e começar oficialmente nossa vida de casadas.

Entre abraços e reencontros, marquei um encontro com Karina.

Ela inicialmente marcou em seu escritório, mas depois pediu que eu fosse até sua casa, longe o bastante para me fazer sentir viajando para o interior. Sua casa ficava em um condomínio que mais parecia uma floresta - com casas extremamente protegidas.

Toquei a campainha e aguardei.

Fiquei completamente surpresa quando ela abriu a porta.

Usava roupas largas que já tinham passado muito do momento de ir para o lixo, os ridiculamente longos cabelos vermelhos presos de qualquer jeito e o rosto sujo do que parecia farinha.

- Bom dia, Helena.

- Bom dia... estou atrapalhando?

- De maneira nenhuma. Entre. Desculpe te fazer vir até aqui. Clarissa e eu esquecemos de olhar a agenda da escola da Cecília... quando fui levá-la, descobri que precisava mandar algo caseiro. E minha filha cismou que quer biscoitos.

Suspirei, sorrindo.

- Você poderia ter cancelado nossa reunião.

- Claro que não. Já deixei todo o material preparado. Podemos trabalhar enquanto eles assam.

A acompanhei até a cozinha. O computador e diversos papéis estavam isolados no único espaço livre de farinha na mesa.

Karina limpou as mãos no avental e me encarou com atenção.

- Meu avô... apesar de monstro, era brilhante. E sabia reconhecer pesquisas que valiam a pena. Quando comecei a estudar os projetos dele, encontrei coisas perturbadoras... como o Eros. Mas também algo promissor: o Projeto Kimera.

Me aproximei, cruzando os braços.

- Ele estudava pessoas com dois DNAs, não é?

- Por anos - respondeu ela. - Ele acreditava que poderia usar células de gêmeos absorvidos no útero para curar doenças como leucemia.

- Para isso, ele precisaria regenerar e mapear essas células...

- Exatamente. Mas ele nunca conseguiu estabilizar o processo.

Karina fez uma pausa. Seus olhos se fixaram nos meus.

- Ao contrário de você. Tia Aretta me contou sobre o 34.

Senti meu corpo enrijecer.

- Então você já sabe.

- Sei o suficiente para saber que você fez algo que ele nunca conseguiu.

Respirei fundo antes de começar.

- O 34 não é apenas um composto regenerativo. Eu usei células de origem anfíbia... altamente regenerativas... e as combinei com uma cepa viral de replicação acelerada.

Karina franziu a testa, interessada.

- Você usou o vírus como vetor?

- Mais do que isso. Eu precisei forçar a fusão. As células rejeitavam o vírus no início... levei semanas até conseguir uma integração estável. A ideia era fazer com que o vírus reprogramasse as células para manter um estado constante de regeneração.

- E conseguiu.

- Parcialmente. O 34 força as células a se replicarem muito mais rápido... e a regenerarem qualquer dano antes que ele se estabilize.

Karina ficou em silêncio por alguns segundos, processando.

- Helena... você percebe o que isso significa?

- Eu tenho uma ideia.

Ela se levantou, começando a andar de um lado para o outro.

- Agora deixa eu te explicar o que você talvez ainda não tenha percebido.

Ela girou o notebook na minha direção, exibindo esquemas complexos.

- Se você realmente conseguiu integrar isso em alguém com dois DNAs distintos... você não está lidando só com regeneração.

Franzi a testa.

- Como assim?

- O corpo não vai simplesmente regenerar... ele vai tentar equilibrar os dois códigos genéticos. E isso é um problema.

- Por quê?

- Porque regeneração não é cópia perfeita... é reconstrução. E se existem dois "modelos" dentro do mesmo organismo... o corpo pode alternar entre eles.

Senti um frio percorrer minha espinha.

- Você está dizendo que...

- Que o corpo pode, em certos momentos, priorizar um DNA... e, em outros, o segundo. E isso não afeta só o físico, Helena.

Ela tocou levemente a própria têmpora.

- Afeta o cérebro.

Engoli em seco.

- Todas as conexões cerebrais foram regeneradas.

- E reorganizadas - completou ela. - Conexões neurais não são fixas nesse caso. Elas estão sendo recriadas o tempo todo.

- Isso explicaria mudanças de comportamento...

- Mais do que isso - o olhar dela ficou sério. - Pode explicar a existência de dois padrões mentais distintos.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

- Um... alter ego?

Karina não respondeu imediatamente. Apenas me encarou.

- Não exatamente como um transtorno clássico. Aqui não é psicológico... é estrutural. Você pode estar olhando para duas arquiteturas mentais coexistindo no mesmo cérebro.

Meu coração acelerou.

- Isso... é possível?

- Em condições normais, não. - ela fez uma pausa - Mas você não criou condições normais.

Desviei o olhar, sentindo o peso daquilo.

- E o vírus?

- Provavelmente intensifica tudo. Ele não só acelera a regeneração... ele interfere na química do cérebro. Neurotransmissores, impulsos, respostas emocionais...

- Isso explicaria impulsividade... mudanças bruscas...

- E perda de controle - completou ela. - Ou pior... a criação de uma versão mais eficiente.

Levantei o olhar de volta para ela.

- Eficiente?

- Uma personalidade menos emocional, mais adaptada à sobrevivência do corpo... ou à propagação do próprio sistema que você criou.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

- Então não é só o corpo que está mudando... - murmurei.

Karina fechou o notebook devagar.

- Não, Helena. Você mexeu com a base da identidade.

Ela me encarou, firme.

- A pergunta agora não é se funciona.

Respirei fundo, já temendo a resposta.

- É até quando isso permanece humano.

Contei a Karina sobre o surgimento de Amanda e todas as mudanças que notei desde que Eve acordou. Ela ficou completamente chocada, mas, ao mesmo tempo, vi um brilho diferente surgir em seus olhos. Ela começou a andar de um lado para o outro, como se estivesse tendo mil ideias ao mesmo tempo.

- Helena, você merece ganhar o Nobel. O 34 praticamente é a receita da imortalidade e da juventude eterna.

- Não acho que ele vá tão longe.

Ela parou de andar e me encarou, inclinando levemente a cabeça.

- Você está em negação... ou é outra coisa? Por que está tentando diminuir o maior feito científico dos últimos tempos?

Respirei fundo antes de responder.

- Karina, apesar do sucesso em Eve, os resultados não são os mesmos nas cobaias. Não consigo descobrir qual é o fator determinante. E o mais preocupante... eu não sei como parar as mudanças.

Karina cruzou os braços, pensativa - mas o entusiasmo ainda estava lá, contido.

- Então o processo continua ativo.

- Sim... e fora do meu controle.

Ela assentiu lentamente, como se estivesse encaixando peças invisíveis.

- Isso confirma o que eu estava pensando.

- O quê?

Ela se aproximou da mesa, apoiando as mãos nos papéis.

- O 34 não é apenas regenerativo. Ele é adaptativo.

Franzi a testa.

- Adaptativo?

- Ele não está só reparando o corpo... está respondendo a ele. Aprendendo com o ambiente biológico em que foi inserido.

Senti um desconforto crescer no peito.

- Isso não era o objetivo.

- Mas é a consequência. - ela ergueu o olhar para mim - E Eve... não é um organismo simples.

Fiquei em silêncio.

- Dois DNAs ativos, um sistema regenerativo constante e um vetor viral interferindo na expressão celular... - ela balançou a cabeça - Helena, isso é um sistema em evolução.

- Você está dizendo que... ele pode continuar mudando?

- Não "pode". - ela corrigiu - Ele já está.

O peso daquelas palavras caiu sobre mim.

- E eu não sei até onde isso vai.

Karina se aproximou mais, agora completamente séria.

- Então a pergunta não é mais "como parar".

Engoli em seco.

- É "o que isso vai se tornar".

Desviei o olhar por um instante.

- E se eu quiser reverter?

Ela hesitou - pela primeira vez.

- Você pode tentar... mas teria que interferir diretamente no processo de regeneração.

- Bloquear o 34?

- Ou reprogramar ele. - respondeu - Mas isso pode causar um colapso.

Meu coração disparou.

- Colapso?

- Se o organismo já depende da regeneração constante... tirar isso de forma abrupta pode ser fatal.

O silêncio tomou conta da cozinha.

- Então eu não posso parar... - murmurei.

- Não sem risco.

Fechei os olhos por um instante.

- E a mente?

Karina me observou.

- Está ficando mais frequente, não está?

Abri os olhos lentamente.

- Está.

Ela assentiu.

- Então as duas estruturas estão se estabilizando.

- Isso é ruim?

- Depende. Se continuarem se desenvolvendo separadamente...

- Elas podem entrar em conflito.

- Ou uma pode suprimir a outra.

Meu estômago revirou.

- Eu não posso deixar isso acontecer.

Karina inclinou a cabeça.

- Você quer preservar a Eve... mas talvez precise considerar que Amanda não é apenas um erro.

Fiquei em silêncio.

- Ela pode ser parte do equilíbrio que está mantendo Eve estável  ou a razão pela qual tudo ainda não colapsou,

Senti um frio percorrer minha espinha.

- Você está dizendo que tirar a Amanda...

- Pode destruir a Eve.

O ar pareceu desaparecer da sala.

- Então eu estou presa.

Karina respirou fundo.

- Não. Você está diante de uma escolha que ainda não entende completamente.

Ela fechou o notebook devagar.

- E qualquer decisão agora pode ser irreversível. Helena, você é neuro mais brilhantes que já conheci, se existe alguém capaz de lidar com isso é você.

_Meus sentimentos não me deixam ser objetiva. Se fosse a eu de antes, com certeza já teria encontrado uma forma de controlar todas as mudanças que o 34 está fazendo.

_A felicidade é um complemento Helena, não uma fraqueza. Você acabou de voltar de lua de mel, não se cobre tanto.

A tensão do momento foi rompida quando recebi a ligação de uma Talita bastante brava. Eve e Dandara estavam aprontando terrivelmente na Casa Verde.

- Preciso pensar no que farei... por enquanto tenho que voltar pra Casa Verde. Eve e Dandara explodiram algumas coisas.

Karina deixou escapar uma risada leve.

- Você deixou as duas sem supervisão?

- Achei que não teria problema.

- Eve e laboratório é sempre problema - respondeu ela, ainda sorrindo. - Porém... é bom ver que essa parte dela, apesar de tudo, ainda continua a mesma.

Sorri de leve, mas o peso dentro de mim não diminuía.

- Sim... Não posso perdê-la de novo, Karina.

Ela me olhou com mais seriedade dessa vez.

- Vamos achar um jeito de impedir isso.

Antes de sair, ela me entregou alguns biscoitos ainda quentes. Aquele gesto simples contrastava demais com tudo o que havíamos acabado de discutir.

A conversa não saía da minha mente.

Mas, quando cheguei, fui obrigada a focar na confusão que minha esposa tinha causado.

A Casa Verde parecia ter sido atingida por uma pequena explosão - e, tecnicamente... tinha mesmo.

Coloquei as duas de castigo. Cada uma do jeito que mais as afetaria.

Mais tarde, quando voltei para o nosso quarto, notei que Eve estava concentrada em algo no computador. Seus olhos fixos na tela, a expressão séria demais para alguém que, horas antes, estava causando caos em um laboratório.

Fiquei curiosa.

Mas segurei o impulso de perguntar ou olhar.

Mal sabia eu...

Que a resposta viria quinze dias depois.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 36 - Quimera:
jake
jake

Em: 27/03/2026

Uau!!!

Cada  vez melhor 

Que história...

Parabéns autora....

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Luciane Ribeiro

Luciane Ribeiro Em: 08/04/2026 Autora da história
Oi boa tarde .Fico muito feliz que esteja gostando.Grande abraço


Responder

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jake
jake

Em: 27/03/2026

Uau!!!

Cada  vez melhor 

Que história...

Parabéns autora....

Volte  logo....

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HelOliveira
HelOliveira

Em: 23/03/2026

Nossa tô muito curiosa para ver as consequências de tudo isso, que nem consigo imaginar qual será o desfecho de tudo isso....


Luciane Ribeiro

Luciane Ribeiro Em: 08/04/2026 Autora da história
Muitas emoções nessa reta final


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Mmila
Mmila

Em: 23/03/2026

Nossa, qual a bomba que vem agora?!?!?!?!?

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